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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Abril 2012

Demais, Dona Dilma

Por Orlando Nunes em Crônica

27 de Abril de 2012

Há quem diga que é intriga da oposição, pegaram no pé da presidenta e agora já estão mostrando os dentes para uma desossada canjinha de galinha.

– É servido(a)? É uma besteirinha de nada, abre logo a boca, vai, língua pra fora:

LEI Nº 12.605, DE 3 DE ABRIL DE 2012.

Determina o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido. Art. 2º As pessoas já diplomadas poderão requerer das instituições referidas no art. 1º a reemissão gratuita dos diplomas, com a devida correção, segundo regulamento do respectivo sistema de ensino. Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília,  3  de  abril  de 2012; 191º da Independência e 124º da República. DILMA ROUSSEFF Aloizio Mercadante Eleonora Menicucci de Oliveira

Gostou? Eu gostei.

A lei não é carne nem é peixe, tem um gostinho de comida congelada, mas tenho que admitir, vem em muito boa hora, pois o cozimento já estava passando do ponto.

Difícil de engolir é o fato de algo tão caldo de bila (caldo de bola de gude, para os frutos de outros mares, que não os verdes e bravios da minha terra) exigir um tempero legal.

A sopa de letrinhas poderia ter sido servida nas próprias instituições de ensino, não o foi, paciência – parece falta de apetite. Vou repetir, gostei da 12.605, de 3.4.2012.

E não é que esteja querendo cair no gosto das profissionais brasileiras. A bem da verdade, tudo isso não passa de feijão com arroz na culinária do português brasileiro.

Umas pitadas do gênero gramatical como entrada:

1 – não há em português uma marca flexional para o masculino, isto é, uma desinência de gênero masculino. Noutras palavras, só o feminino é marcado (desinência “-a”).

Em “a alun-a” (o “-a” final é desinência de gênero); em “o alun-o” (o “o” final é vogal temática, e não desinência).

O masculino se caracteriza exatamente pela ausência da desinência de gênero.

2 – Há substantivos comuns de dois gêneros, por exemplo: o/a dentista; este/esta estudante, cujo gênero é identificado pelo determinante (um artigo, um pronome).

Isso inviabiliza (ao menos deveria) comentários ridículos como o de um cirurgião-dentista que teria afirmado, irônico: “Então vou querer no meu diploma ‘Dentisto’”.

Ora, ora, isso é que é uma piada de português.

Isso inviabiliza (ao menos deveria) comentários ridículos do tipo “Se temos presidenta, devemos ter igualmente estudanta”.

Ora, ora, isso é confundir alhos com bugalhos.

Presidente/Presidenta não é novidade nos dicionários e gramáticas, mas a forma flexionada ainda não foi bem “digerida” no estômago de muita gente delicada.

Trata-se somente de um fenômeno de adaptação alimentar. Presidenta entrou agora na boia diária brasileira, a barriga logo, logo acostuma. Hoje em dia ninguém mais engulha a palatável primeira-ministra ou a saborosa senadora (pois tais iguarias já foram causa de muita dor de barriga, você sabia?). Para alguns, língua mal cozida pode ser indigesto.

Mas e a lei? Ela traz no cardápio apenas pratos há muito bem aceitos por todos os comensais. Doutor/Doutora, Técnico/Técnica, Administrador/Administradora, etc. e tal.

Então me parece bastante razoável que no diploma da educadora Vera Leitão conste, com todas as letras, PROFESSORA; que no diploma da dermatologista Mônica Carneiro conste, com todas as letras, MÉDICA. É só isso, não vai doer, relaxe.

Parabéns, presidenta.

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Não saque a arma no salão

Por Orlando Nunes em Gramática

24 de Abril de 2012

Não se mova, adjunto!

Há certos ambientes sintáticos em que a vírgula não é convidada a entrar, mas frequentemente as páginas de jornais trazem notícias com a intrusa dentro da festa.

O ambiente: advérbio – verbo – sujeito.

Como costumamos sabiamente pôr vírgula para marcar o deslocamento do adjunto adverbial, cuja posição-chave é no fim da frase, não damos trégua a qualquer dinâmica.

O adjunto saiu de sua casa, sacamos a arma, fechamos os olhos e apertamos o gatilho.

Mas vamos devagar, que o santo é de barro. Às análises:

“A CGU publicará uma portaria nesta terça-feira”

Estrutura sintática sem vírgula, porque os termos da oração estão em sua ordem natural, direta: sujeito–verbo–complemento–adjunto adverbial (sujeito: A CGU; verbo: publicará; complemento verbal: uma portaria; adjunto adverbial: nesta terça-feira).

“Nesta terça-feira, a CGU publicará uma portaria.”

O adjunto adverbial foi deslocado para o início da frase, e essa modificação da ordem sintática tradicional apresenta-se adequadamente marcada por uma vírgula.

“Nesta terça-feira será publicada uma portaria pela CGU.” 

Aqui a porca torce o rabo (e esconde a vírgula). O adjunto foi deslocado para a primeira posição na frase e sacamos a automática. Mas, em vez do sujeito, salta a nossa frente o heroico verbo. Nesse caso, os experientes xerifes de plantão nos aconselham:

– Não abra fogo, não aperte o gatilho, guarde a vírgula no coldre.

Outros exemplos da estrutura sem vírgula advérbio + verbo + sujeito: 

– Domingo não se viu uma excelente arbitragem.
– Entre a boa torcida escondem-se os vândalos.
– Nos últimos minutos do jogo ocorreu um pênalti.

Pois, pois. Vírgula pra que te quero!?

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Sobre siglas

Por Orlando Nunes em Sem categoria

21 de Abril de 2012

Plural das siglas: um “s” minúsculo dá conta do recado. Livre-se, portanto, da tentação constrangedora de pôr um apóstrofo precedente à marca do plural.

– Os CEOs, e não Os CEO’s                                                                                     

– Os CVTs, e não Os CVT’s

– As CPIs, e não As CPI’s

A Secretaria de Governo é a Segov ou a SEGOV? Olhe, todo governo tem seu manual de normas técnicas, seu manual de redação. Isso quer dizer que, se o Excelentíssimo Senhor Governador determina que é SEGOV, é SEGOV; se quer de outro jeito, será de outro jeito. Mas a Redação jornalística não tem nada com isso, cada empresa tem seu caderno de comunicação, elaborado segundo a norma culta, sim, e, também, conforme decisões próprias. Por isso manual de redação de jornal não serve como material didático na preparação para provas de vestibulares ou de concursos públicos.

Dicas para redação jornalística:

Siglas até três letras, maiúsculas: UFC, CBF, CPI, CEO, etc.

Siglas com mais de três letras

– Se cada letra é pronunciada, use maiúscula em todas: INSS, FGTS.

– Se é lida como uma palavra, só a primeira letra maiúscula: Uece, Unicamp.

Há formas consagradas que fogem à pauta: CNPq, UnB, etc.

Isso é Prosa

Não é fácil entrar no CEO

Uma senhora de muitos janeiros e poucos dentes caminhou, pegou ônibus, caminhou, pegou filas, até conseguir um tratamento dentário no CEO, obrigado, meu Deus.

Aguardava uma prótese para mascar seu chiclete Dubom fazia bom tempo. Ontem, finalmente, bateu as botas, coisas do coração. Morreu banguelinha, mas feliz da vida.

Não conseguiu quase nada no CEO, foi tentar no Céu.

 

Pensar grande: mais fácil um camelo entrar no buraco de um dente, que um pobre entrar no reino do CEO.

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O velho MÁRIO

Por Orlando Nunes em Sem categoria

20 de Abril de 2012

“É mais fácil maquiar o problema do que resolvê-lo.”

Quem não assina CPI MAQUIA ou MAQUEIA o problema, hein, MÁRIO?

Apenas cinco verbos terminados em iar (eles são verdadeiros heróis) recebem um “e” antes do “i” nas formas da 1ª e 2ª pessoas do singular (Eu e TU) e da 3ª pessoa do singular e do plural (Ele e Eles): MÁRIO – mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar.

Nota da Redação:

Esse blá-blá-blá é válido no presente do indicativo, presente do subjuntivo e imperativo.

Teste São Tomé com o verbo INTERMEDIAR (MÁRIO disfarçado, inter + mediar):

Presente do indicativo – Eu intermedEio, tu intermedEias, ele intermedEia, eles intermedEiam (mas nós intermediamos e vós intermediais, sem “ei” no radical).

Assim, “Parlamento intermedeia (e não intermedia) discussão”.

Presente do subjuntivo – Que eu intermedEie, tu intermedEies, ele intermedEie, eles intermedEiem (mas que nós intermediemos e vós intermedieis, sem “ei” no radical).

Desse modo, “que o Parlamento intermedeie (e não intermedie) a discussão”.

Imperativo afirmativo: intermedEia tu, intermedEie você, intermedEiem vocês (mas intermediemos nós e intermediai vós, sem “ei” no radical).

As formas verbais do Imperativo Negativo são iguais às do Presente do Subjuntivo.

“Super-herói, não intermedEie a discussão”, etc. e tal.

Mas MAQUIAR, veja bem, não faz parte do seleto grupo do MÁRIO. Isso quer dizer, noutras palavras, que o I não será antecedido por um E nas formas do presente ou do imperativo. O presente do indicativo, aqui à nossa frente, não me deixa mentir: Eu maquio, tu maquias, ele maquia, nós maquiamos, vós maquiais, eles maquiam.

Na ponta da língua, quem não assina CPI MAQUIA o problema. Mas há controvérsia, pois “quem assina”, nas palavras do senador Demóstenes, pratica o “falso heroísmo”.

Chega de prosa, vou ver o documentário do Raul, que “eu não sou besta pra tirar onda de herói, sou vacinado, sou caubói, caubói fora da lei”.

P.S.: Na próxima semana o Parlamento põe as barbas de molho, e a CPI mista do Congresso incendEia. Haja cachoeira (verbo com h e sem vírgula, ó Inculto PC).

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No princípio era o verbo

Por Orlando Nunes em Crônica, Gramática

18 de Abril de 2012

“Obras sofrerão reajuste.”

Cá entre nós, os contribuintes sofrerão muito mais.

RESPONDA-ME:

As construtoras vão exigir um pouco mais para concluir as obras ou As construtoras vão exigir um pouco mais para concluírem as obras?

TANTO FAZ.

Contudo, quando o sujeito do infinitivo (no caso, as construtoras) é o mesmo da oração principal (as construtoras, yes), a flexão do infinitivo, embora possível, é desnecessária.

A opção de manter o verbo não flexionado confere mais sobriedade ao período: As construtoras vão exigir um pouco mais para concluir as obras.

Mais sobriedade ao texto, apenas. Já esse “um pouco mais”, por sua vez, é um eufemismo deslavado, uma pouca-vergonha. Na prática vão exigir uma dinheirama.

Em miúdos, o infinitivo pode não flexionar, mas o governo flexiona (quase) sempre.

$$$.

Pensar grande: No princípio era o verbo, com o tempo a inflação dobrou a língua.

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Mil, milhar, milhão

Por Orlando Nunes em Sem categoria

17 de Abril de 2012

NUMERAL MIL

O numeral que antecede a mil concorda em gênero com o substantivo a que se refere:

– Dois mil estudantes pagaram meia-entrada no estádio.

– Duas mil pessoas vão ser cadastradas no programa municipal.

Mas, se é verdade que o uso do cachimbo faz a boca torta, bote as barbas de molho, porque onde há fumaça… há fogo.

FIQUE ACESO:

Milhar, milhão, bilhão, trilhão são substantivos masculinos. Dessa forma, seus determinantes (artigos, pronomes, numerais) serão do mesmo gênero, independentemente do gênero dos termos especificadores.

Os milhares de pessoas que compareceram ao evento aprovaram o manifesto.

Dois milhões de mulheres no país apresentaram os sintomas.

Meus bilhões de tentativas foram em vão

– O número corresponde a 39% dos 25 milhões de declarações estimadas para este ano.

CENTENA

 Centena é substantivo feminino, logo terá determinantes do gênero feminino.

As centenas de homens foram à igreja para rezar(em) o terço.

Amém.

 

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Retro-

Por Orlando Nunes em Sem categoria

16 de Abril de 2012

Em destaque, o prefixo RETRO

O novo Acordo Ortográfico estabelece que os prefixos terminados em vogal somente recebam hífen diante de palavras iniciadas por h ou vogal idêntica.

Mão na massa:

“Ceará recebe 56 retroescavadeiras para recuperação de estradas.”

Mais:

retroagir v.

retroalimentação s.f.

retroalimentado adj.

retrofaringe s.f.

retronasal adj.2g.

Agora, exemplos COM HÍFEN (diante de palavras iniciadas por vogal idêntica) :

retro-oclusão s.f.; pl. retro-oclusões

retro-ocular adj.2g.; pl. retro-oculares

retro-operar v.

retro-ovárico adj.; pl. retro-ováricos

VOGAL + R OU S

Se a palavra seguinte ao prefixo terminado em vogal é iniciada pelas letras R ou S, tais consoantes são dobradas e não empregamos o hífen:

retrorreflexão (cs) s.f.

retrorreflexivo (cs) adj.

retrosseguir v.

retrosseroso (ô) adj.; f. (ó); pl. (ó)

retrossifoniano adj. s.m.

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Preço alto ou baixo

Por Orlando Nunes em Sem categoria

14 de Abril de 2012

100% gasolina

O PREÇO DA GASOLINA AINDA ESTÁ CARO.

Não escreva que o preço de um produto ou serviço está caro ou barato.

Também evite dizer que o preço custa x ou y. Na verdade, os preços estão altos (normalmente) ou baixos (raramente), e o produto está caro ou barato.

A GASOLINA AINDA ESTÁ CARA.

O PREÇO DA GASOLINA AINDA ESTÁ ALTO.

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Destrói e destroem

Por Orlando Nunes em Gramática

13 de Abril de 2012

Os ditongos /éi/, /ói/, /éu/ recebem acento gráfico, porque “abertos”: cordéis/anzóis/troféu(s). Quando “fechados”, sem acento: andeis/depois/adeus.

Com o novo acordo ortográfico, os ditongos abertos /éi/ e /ói/ perderam o acento gráfico em palavras paroxítonas (acento tônico na penúltima sílaba):

Heroica (mas herói, porque oxítona), plateia (mas pastéis, porque oxítona).

Cuidado com casca de banana: Méier e destróier, por exemplo, são palavras paroxítonas e nelas há o ditongo aberto /éi/ e /ói/, respectivamente, mas o acento não caiu, por quê?

Porque neste caso o acento gráfico atende à regra que determina acentuar todo vocábulo paroxítono terminado em R: açúcar, hambúrguer, etc. Uma regra não destrói outra vigente. Trata-se de duas regras independentes, distintas.

Em destrói, a regra de acentuação gráfica é a do ditongo aberto /ói/. Este ditongo não aparece, porém, na flexão destroem, e o acento gráfico também não, naturalmente.

“Vândalos destroem estátua de Madre Paulina em Barreiras.”

P.S.: As palavras com final EM são acentuadas graficamente quando oxítonas (a sílaba tônica é a última): desdém, além, também, ninguém. Destroem é paroxítona.

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Relembre o uso dos porquês

Por Orlando Nunes em Dica, Gramática

12 de Abril de 2012

O uso dos porquês, aqui e ali, é motivo de dúvida no corre-corre da Redação. Não custa relembrar o valor semântico de cada uma das formas desse vocábulo.

PORQUÊ (substantivo) = PRECEDIDO DE ARTIGO, PRONOME OU NUMERAL
Quis saber o porquê (o motivo) do crime.
Quantos porquês entre o céu e a terra!
Uma frase e quatro porquês.

PORQUE = POIS, A FIM DE QUE
Homem mata amigo porque (pois) ficou com sua ex-mulher.
Fiquem atentos, porque (a fim de que) não sejam surpreendidos (uso literário).

POR QUE = POR QUAL RAZÃO, PELO QUAL/PELA QUAL
Entenda por que (por qual razão) a malha viária apresenta problema.
Juiz explica por que não concede saída temporária para detentos.

POR QUÊ = POR QUAL RAZÃO/MOTIVO (em fim de frase)
Homem mata amigo. Saiba por quê.
Agiu assim mal sabia por quê.

P.S.: Abra o olho diante de possíveis ambiguidades em construções com o pronome possessivo seu/sua. Na dúvida, tranque o guarda-roupa ao sair de casa.

“Homem mata amigo porque ficou com sua ex-mulher.”

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Relembre o uso dos porquês

Por Orlando Nunes em Dica, Gramática

12 de Abril de 2012

O uso dos porquês, aqui e ali, é motivo de dúvida no corre-corre da Redação. Não custa relembrar o valor semântico de cada uma das formas desse vocábulo.

PORQUÊ (substantivo) = PRECEDIDO DE ARTIGO, PRONOME OU NUMERAL
Quis saber o porquê (o motivo) do crime.
Quantos porquês entre o céu e a terra!
Uma frase e quatro porquês.

PORQUE = POIS, A FIM DE QUE
Homem mata amigo porque (pois) ficou com sua ex-mulher.
Fiquem atentos, porque (a fim de que) não sejam surpreendidos (uso literário).

POR QUE = POR QUAL RAZÃO, PELO QUAL/PELA QUAL
Entenda por que (por qual razão) a malha viária apresenta problema.
Juiz explica por que não concede saída temporária para detentos.

POR QUÊ = POR QUAL RAZÃO/MOTIVO (em fim de frase)
Homem mata amigo. Saiba por quê.
Agiu assim mal sabia por quê.

P.S.: Abra o olho diante de possíveis ambiguidades em construções com o pronome possessivo seu/sua. Na dúvida, tranque o guarda-roupa ao sair de casa.

“Homem mata amigo porque ficou com sua ex-mulher.”