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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Maio 2012

Gênero gramatical dos países

Por Orlando Nunes em Gramática

27 de Maio de 2012

O Brasil faz três na Dinamarca.

Eta paisinho macho

Quem define o gênero dos países, regiões, estados? Por que temos, por exemplo, “o” Brasil, mas “a” Dinamarca? Não é certamente o presidente ou a presidente (nem mesmo a presidenta) quem decide estas questões. Aqui parece haver decisões fonológicas.

O país, a região ou o estado que terminam com um “A” átono são normalmente femininos; se possuem outra terminação, no entanto, serão substantivos masculinos.

A Espanha, a Itália, a Inglaterra, mas o Canadá, o Panamá, o Irã (a tônico).

O Brasil, o Chile, o Uruguai (não terminam em “a”)

A Bahia, mas o Ceará (a tônico).

Parece política

Mas a vida não teria a menor graça se não houvesse oposicionistas. O caro leitor sabe a semelhança entre a Assembleia Legislativa do Ceará e este caso particular de gênero dos substantivos? É que aqui também só há um ou dois gatos-pingados na oposição.

O Quênia e o Camboja têm um “a” átono no final, mas são substantivos masculinos. Se o leitor conhece outro oposicionista no planeta, informe pra mim. marjangadeiro@gmail.com

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Eu não fiquei com a japonesa

Por Orlando Nunes em Gramática, Ortografia

23 de Maio de 2012

Feliz com a participação dos leitores, resposta do blogueiro

a Jorge dos Santos, Parangaba, Fortaleza-CE.

O Jorge diz ter tido uma atroz discussão em casa com uma de suas irmãs (“a poliglota da família”) por causa da grafia “treiler” usada por ele numa redação escolar. “Minha irmã falou que tava errado. O certo é trailer, que é inglês. Mas eu sou brasileiro.”

Concordo com você, Jorge, e vou mais além: arranje aí na sua casa mesmo um acento circunflexo pra colocar em cima do primeiro “e” (trêiler), porque em bom português toda palavra paroxítona (a sílaba tônica é a penúltima) terminada em “r” deve ser acentuada graficamente. Eu também escrevo assim, mas já fui xingado por isso, e num português bem rasteiro. Ligue não, vá em frente, puxe o trêiler, a língua é nossa pátria.

a Silvânia Rodrigues, Monte Castelo, Fortaleza-CE.

A Silvânia manda e-mail dizendo-se “injuriada” com o português por causa da “falta de acordo nas gramáticas”. Para provar essa desunião gramatical, ela envia uma frase e duas opiniões relacionadas à correta concordância verbal colhidas em dois livros.

A frase: 10% da turma fará/farão novas provas.

A Silvânia leu numa gramática que nesses casos o verbo tem que ficar no singular, concordando com o substantivo singular. Noutra gramática leu, no tópico “concordância com percentuais”, que o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural. E agora? Termina o e-mail afirmando que “o inglês é muito mais fácil”.

Olhe, Silvânia, não há idioma fácil, todas as línguas são complexas, o português, o inglês, o francês. Tudo depende de até onde queremos chegar. Quando eu era criança, por exemplo, no século passado, prometi a mim mesmo que não morreria sem aprender japonês (na escola tinha uma oriental que me olhava com uns olhinhos indecifráveis).

Nunca aprenderei japonês, voltemos ao português.

10% da turma farão novas provas. O verbo no plural concorda com o núcleo do sujeito (10%). Essa concordância com o núcleo do sujeito é a primitiva, a original.

É possível igualmente a concordância com o termo periférico “da turma”, que também faz parte do sujeito. Nesse caso o verbo, naturalmente, estará no singular: 10% da turma fará novas provas. A maioria dos jornais brasileiros, por sinal, dá (ou dão) preferência pela concordância com o substantivo que vem após a porcentagem.

Não fique “injuriada” com a língua portuguesa, Silvânia. Eu não fiquei com a japonesa.

Dúvidas: marjangadeiro@gmail.com

Abraços.

 

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Futuro x Infinitivo

Por Orlando Nunes em Gramática

20 de Maio de 2012

Diz a sabedoria popular que “quem vê cara não vê coração”. O mesmo acontece quando nos deparamos com uma forma verbal no futuro do subjuntivo e no infinitivo pessoal.

Veja, por exemplo, as formas do futuro do subjuntivo do verbo cantar (ou as de qualquer outro verbo regular) e compare-as com as do infinitivo pessoal.

Futuro do subjuntivo: cantar, cantares, cantar, cantarmos, cantardes, cantarem. Infinitivo pessoal: cantar, cantares, cantar, cantarmos, cantardes, cantarem.

Viu só? É Ctrl c, Ctrl v, tudo japonês, né?

Como diferenciar esses irmãos gêmeos? A diferença é que o futuro do subjuntivo vem regido por conjunção (normalmente “quando” ou “se”), advérbio ou pronome relativo.

Quando eu soltar a minha voz, por favor me entenda.”

Se você não cantar agora, o público não perdoará.”

“Farei como determinares.”

“A casa em que ela cantar sempre estará cheia de fãs.”

 

O infinitivo, por sua vez, pode ser regido por preposição:

Ao soltar a minha voz, você me entenderá.”

Para cantar agora, ela exige mil coisas absurdas.”

Sem lutares, a vitória é improvável.”

“Chegou a hora de essa gente mostrar seu valor.”

ou vir sem preposição:

Navegar é preciso.”

Viver não é preciso.”

“Convém chegares mais cedo.”

Se o amigo leitor é um redator preocupado apenas com a forma e o sentido das palavras, pode preventivamente parar por aqui, porque agora vamos começar a botar banca.

Banca examinadora.  

Na frase “Não encontrava palavras com que se expressar”, o verbo destacado está no futuro do subjuntivo ou no infinitivo pessoal? Sinuca de bico, caro vestibulando.

Todo mundo sabe que banca de vestibular adora uma casca de banana, e o aluno inseguro, preso à prova da regência, pode facilmente escorregar.

Identificando o pronome relativo na frase em análise, o candidato a uma vaga na academia pode pensar que o verbo “expressar” esteja no futuro do subjuntivo – vai dar com os burros n’água, e a vaca lamentavelmente pode ir para o brejo.

Dica de hoje: como distinguir dois japoneses gêmeos num piscar de olhos.

Sabemos que as formas do futuro do subjuntivo e do infinitivo pessoal dos verbos regulares são semelhantes. A melhor maneira, portanto, para distinguir os dois tempos numa frase qualquer apresentada no vestibular ou concurso público é por meio da substituição do verbo regular por um que aprese irregularidade no futuro do subjuntivo.

Apresento a seguir uma pequena lista de verbos-curinga para auxiliá-lo na distinção entre um gato e um tijolo. Não precisa memorizar todos, guarde consigo três ou quatro desses verbos e verá que infinitivo pessoal e futuro do subjuntivo são dois bichanos.

Verbos da primeira conjugação (os que apresentam terminação em –ar) como dar e estar, formam o futuro do subjuntivo irregularmente: der e estiver, respectivamente.

Verbos da segunda conjugação (terminação -er) como caber, dizer, fazer, haver, poder, pôr, querer, saber, ser, ter, trazer e ver, formam o futuro do subjuntivo irregularmente: couber, disser, fizer, houver, puder, puser, quiser, souber, for, tiver, trouxer e vir..

Verbos da terceira conjugação (terminação –ir) como ir e vir, formam o futuro do subjuntivo irregularmente: for e vier.

Se você não percebeu ainda que está com a faca e o queijo na mão, mantenha um olho no peixe e outro no gato. Chegou a hora da onça beber água, vamos matar a charada.

“Não encontrava palavras com que se expressar.

A banca queria saber se o verbo “expressar” na frase acima foi usado no futuro do subjuntivo ou no infinitivo pessoal. Não vou ser levado pela primeira impressão.

Para responder, pego um verbo qualquer da lista apresentada acima. Escolho, por exemplo, o verbo “dizer”. Sei que esse verbo, se estiver no futuro do subjuntivo, terá a forma irregular disser “Não encontrava palavras com que dizer” ou “Não encontrava palavras com que disser”? Claro que não cabe aqui a forma disser, mas sim dizer.

Com esse teste, posso afirmar que o verbo “expressar” na frase original está no infinitivo, assim como estaria “dizer”, a forma verbal usada para distinção.

Outro exemplo:

“Quem o encontrar será recompensado.”

Quero saber se o verbo “encontrar” está no infinitivo pessoal ou no futuro do subjuntivo. Faço a substituição por um verbo-curinga da lista apresentada.

“Quem o fizer (não cabe a forma fazer) será recompensado.”

Logo, “encontrar”, na frase original, encontra-se no futuro do subjuntivo, assim como “fizer”, forma esta não correspondente à do infinitivo. É isso. Vou ver o mar. Abraço.

Mande sua dúvida por e-mail: marjangadeiro@gmail.com

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Da crise à crase

Por Orlando Nunes em Gramática

16 de Maio de 2012

A segunda era branca, sem a menor graça para mim. Não, a segunda era negra.

Na verdade era um clássico dia alvinegro.

Mas a vida continua, toma-se banho, café, engole-se pênalti. Tem jogador que só toma chá com porradas, e toma amarelo, e toma vermelho. E tem juiz que não toma vergonha na cara.

O tempo passa rápido para quem está perdendo a hora, tenho que deixar minha filha no colégio. Vamos indo, em silêncio, caminhando e pensando.

Tinha uma pedra no meio do caminho.

De repente a pergunta, do nada:

“Quando aquilo tem crase?”

“Aquilo o quê?”

“Não é aquilo, mas a palavra.”

Ah, claro, quando há crase com pronomes demonstrativos como “aquilo”, “aquele”, “aquela”. Existe uma técnica que quebra o maior galho pra não pisar na bola.

Quando aquilo é substituível por a isso, temos àquilo. Nessa mesma linha de raciocínio, se aquele(s) for permutável por a esse(s), temos àquele(s); do mesmo modo, caso aquela(s) equivalha a a essa(s), não tenha dúvida, devemos ter àquela(s).

“Dá pra ser mais enrolado?”

“Na prática, a regra é clara.”

 

1) Disse aquele (ou àquele?) jogador que não reclamasse do árbitro da partida.

Troca: Disse “a esse” jogador que não reclamasse do árbitro da partida.

Portanto, há crase: Disse àquele jogador que não reclamasse do árbitro da partida.

 

2) Considerei aquele (ou àquele?) primeiro amarelo como aviso para tirá-lo de campo.

Troca: Considerei “esse” primeiro amarelo como aviso para tirá-lo de campo.

Portanto, não há crase: Considerei aquele primeiro amarelo como aviso para tirá-lo de campo.

 

3) Era preciso ter calma aquela (ou àquela?) hora do jogo.

Troca: Era preciso ter calma “a essa” hora do jogo.

Portanto, há crase: Era preciso ter calma àquela hora do jogo.

 

4) Poderia ter evitado aquela (ou àquela?) segunda falta.

Troca: Poderia ter evitado “essa” segunda falta.

Portanto, não há crase: Poderia ter evitado aquela segunda falta.

 

5) Referia-se aquilo (ou àquilo?) como se fosse a coisa mais normal num jogo de futebol.

Troca: Referia-se “a isso” como se fosse a coisa mais normal num jogo de futebol.

Portanto, há crase: Referia-se àquilo como se fosse a coisa mais normal num jogo de futebol.

 

6) Pergunto se aquilo (ou àquilo?) não lhe servirá como lição para o futuro.

Pergunto se “isso” não lhe servirá como lição para o futuro.

Portanto, não há crase: Pergunto se aquilo não lhe servirá como lição para o futuro.

Segundo o tricolor, o vermelho faz parte, o resto é azul e branco.

 

“Ficou claro, agora?”

“Médio.”

“Sei, preto e branco.”

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A gerente não endoidou.

Por Orlando Nunes em Gramática

12 de Maio de 2012

O texto Demais, Dona Dilma, neste blog, recebeu muitas visitas, obrigado. Houve também alguns comentários de leitores – não muitos, mas houve, obrigado também.

O gerente ou a gerente endoidou?

Hoje, pequenas notas sobre comentários dos leitores.

1 – Não defendo, nunca o fiz – Deus e Dona Dilma testemunham – formas como *dentistO, *jornalistO, *motoristO e assemelhados. Se o fizesse, estaria criando as condições necessária para merecer uma camisa de força – aproveitando a ocasião, um grande abraço a todos os meus amigos leitores do Myra y Lopez, aqui em Fortaleza.

Só lembrando:

Dentista, jornalista, motorista são substantivos cujo gênero é marcado sintaticamente, isto é, por meio de determinantes (o/a dentista, o/a jornalista, o/a motorista).

O diploma de jornalista, evidentemente, fica como está. Maria da Silva, jornalista; e José da Silva, jornalista. Jornalista, dentista, motorista são comuns de dois gêneros.

2 – A lei 12.605, portanto, vale para substantivos que têm (sem criação artificial) uma forma para o masculino e outra para o feminino, nada que gere polêmica.

No diploma de João da Silva, por exemplo, estará escrito psicólogo; no diploma de Joana da Silva, psicóloga, em vez de psicólogo. Isso não significa que devamos ter ou defender igualmente um *dentisto e uma dentista, um *jornalisto e uma jornalista.

3 – Presidente e presidenta são formas boas e velhas, nada de invenção de última hora. Além delas, o gramático Evanildo Bechara cita como exemplos de substantivos que admitem flexão de gênero: infante/infanta, parente/parenta, governante/governanta.

Mas essas formas não são criadas da vontade presidencial ou gramatical (não existe um deus da gramática), elas são colhidas da observação do uso lexical, ao longo do tempo.

Podemos dizer também a presidente, corretamente. Mas quem opta pela flexão (presidenta) não vai ter que, por isso, escrever *presidento (não tem nada a ver o cós com as calças). O masculino se caracteriza pela ausência da desinência de gênero –a, e não pela marca –o (no caso uma vogal temática).

Veja que existe até substantivos femininos com terminação –o: tribo, por exemplo, embora terminado com –o, é tão feminino quanto o substantivo aldeia, oca, flecha.

As formas do léxico de qualquer língua não são contidas regularmente em fôrmas.

Os usuários da língua são os seus artífices.

4 – Os militares, os jornalistas, os antropólogos, etc. podem estabelecer normas de padronização de escrita. Exemplo: “Aqui não usaremos o feminino para os postos militares, nada de capitã (no esporte pode), sargenta e coisa e tal”, “Aqui no jornal adotamos a forma ‘a presidente’”, “Aqui não usaremos a desinência de número na designação dos povos indígenas, diremos os tapeba, e não os tapebas”.

Isso se chama normas internas de padronização. Elas podem não ter vitalidade nas ruas.

No século 19 era corrente a forma capitoa (depois evoluída para capitã), nesse tempo não era uma grafia tida como horrorosa ou linda. Existia. O dicionário Morais registrou.

Isso se chama registro de usos. Eles, os diversos usos, ganham vitalidade nas ruas.

Resumindo, para não “enrolar” demais:

A lei 12.605 não criou, nem poderia, formas novas ou esdrúxulas, apenas determina que, havendo a forma feminina marcada pela desinência, ela deve constar no papel, com todas as letras. Só isso. A 12.605 pode ser considerada desnecessária, de tão óbvia, mas é legal, bacana, e de polêmica não tem absolutamente nada. A gerente não endoidou.

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Filho da mãe, não; neto (ambiguidade com pronomes)

Por Orlando Nunes em Gramática

09 de Maio de 2012

Aviso aos navegantes – que expressãozinha antiquada; não, dependendo do ponto de vista, “que começo contemporâneo”, internauta, navegante, MAR Jangadeiro: fiquem atentos com os pronomes de terceira pessoa (ele e ela; seu e sua, dentre outros da classe) porque podem ser más companhias). Nada como um olho no gato e outro no peixe.

A dica é para ligar o sinal de alerta e observar com atenção se o termo a que o pronome se refere está realmente claro para o leitor, afinal de contas, é o leitor que interessa.

Em outras palavras, veja se não há ambiguidade na estrutura de frase, se não existe dupla possibilidade de interpretação. Mas vamos clarear esse mar com exemplos.

“O parlamentar disse ao colega que ele não poderia assinar o requerimento.” O leitor percebeu o tamanho da encrenca? O pronome “ele” na estrutura apresentada tanto pode fazer referência ao termo “parlamentar” como ao termo “colega”, ou seja, ambiguidade.

Apresentamos agora duas soluções, dentre outras possíveis, em nome da clareza.

Primeira possibilidade, repetindo o antecedente: “O parlamentar disse ao colega que ele, parlamentar, não poderia assinar o requerimento”. Mas o caríssimo leitor destas maltraçadas poderia se ofender com a simplicidade da “solucionática” para a “problemática” e, compreensivelmente, exigir algo menos… comezinho, digamos.

– A frase continua ambígua, já que “o colega” também deve ser parlamentar.

Segunda possibilidade, apertando a tecla delete: “O parlamentar disse ao colega que não poderia assinar o requerimento”. Ora, ora, mas era o pronome pessoal da terceira pessoa conhecido por ele que estava promovendo toda a desordem! Muito bem, como diria o genial Tchecov, “se a espingarda não vai entrar na história, tire a espingarda da sala”.

Dia das Mães e/ou das Noivas

Mais um caso confuso: “A filha vai presentear a mãe com um vestido branco, sua cor predileta”. Bem, podemos até apostar, neste mês de maio, que branca é a cor preferida da mãe em apreço, mas, e se for mesmo da filha, você põe a mão no fogo por esse “sua”? Pois ao terminar a leitura da piada, descobri que o presente da mãe era um neto.

Assim. a ambiguidade também pode ser propositada, um recurso estilístico.

Até.

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Um subsídio, por obséquio

Por Orlando Nunes em Ortografia

05 de Maio de 2012

“Proposta fixa subsídio de delegado de polícia civil”

Som /s/ ou /z/?

Subsídio – separação silábica: sub-sí-dio. Quem pergunta quer saber: de que maneira o amigo leitor pronuncia a segunda sílaba desse vocábulo, /ci/ ou /zi/, ou seja, /subcídio/ ou /subzídio/? Seja qual for sua resposta, não tenho a menor dúvida de que a segunda pronúncia vem ganhando adeptos a olhos vistos. Mas a norma culta prescrita nas gramáticas tradicionais ainda torce o nariz para ela, recomendando /subcídio/.

Como princípio geral de nosso sistema ortográfico, podemos dizer que o S mantém o som /s/ após uma consoante: absoluto, subsolo observação, imprensa, mensurar, etc.

Há, contudo, no denso (ouviu o som /s/ depois do “n”?) reino das palavras, desacato à autoridade policial. Saiba você, navegador deste MAR azul, que o vocábulo obséquio e seus derivados não estão nem aí para a ordem ortográfica, ou o caro leitor já escutou da boca de alguém outra pronúncia senão /obzéquio/, com o som /z/ após a consoante b?

E digo mais, o pula-cerca também é praticado em larga escala pela grande maioria dos vocábulos com trans- na cabeça, quando o som /z/ deita e rola mal se depara com uma vogal: transar, transatlântico, transamazônica, transição, transeunte, trânsito, etc. Dessa turma, a bem da verdade, só mantêm a fidelidade sonora palavras iniciadas pela letra “s”: transaariano (Saara), transecção (secção), transecular (século), transerrano (serra), transexual (sexo). Não podemos dizer, porém, que isso seja o fim da picada.

Voltando à palavra subsídio, sempre fui fiel à pronúncia padrão /subcídio/, com o som /s/ me parecendo o fato mais natural do mundo, mas, pra terminar a discussão, quer saber de uma norma para a qual não vejo outra solução a não ser a desobediência civil?

Teje preso:

Agradaria muito à gramática normativa da língua portuguesa que nós, usuários do idioma, abríssemos nossa inculta e bela boca para pronunciar as palavras subsistir e subsistência mantendo o som /s/ para o segundo “s” do vocábulo, isto é: /subcistir/, /subcistência/. Aqui não respeito a polícia, levarei para a velhice a pronúncia que carrego desde criancinha: /subzistir/, /subzistência/. Não estou sozinho, longe disso.

Um abraço, que domingo é dia de clássico.

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O nocaute da Cesgranrio

Por Orlando Nunes em Gramática

01 de Maio de 2012

Briguinhas ou brigazinhas

O plural dos diminutivos é briga de cachorro grande.

A briga começa antes da formação do plural, ela nasce com a escolha do sufixo do diminutivo. Devo usar –inho ou –zinho, ou tanto faz?

Tanto faz coisinha nenhuma.

Palavras terminadas por vogal átona ou por consoante (exceto “S” e “Z”) formam o diminutivo (quase) indiferentemente com os sufixos –inho ou –zinho.

Briga – briguinha ou brigazinha

Colher – colherinha ou colherzinha.

Papel – papelinho ou papelzinho

Detalhe: após vogal átona, o sufixo –inho é campeoníssimo na preferência dos usuários da língua. Já o sufixo –zinho é majoritário após consoante. E mais: não se esqueça do (quase) indiferentemente escrito acima. Nem sempre temos duas opções de sufixo: Casinha, por exemplo, cai bem, mas “casazinha” não lhe parece forçado, vale-tudo?

Palavras terminadas por “S” ou “Z” formam o diminutivo com o sufixo –inho.

Pires-inho

Cruz-inha.

Tênis-inho

Palavras terminadas por vogal tônica, nasal ou ditongo: diminutivo com –zinho.

Café – cafezinho.

Irmã – irmãzinha

Boia – boiazinha

Agora sim podemos ir à luta principal programada, o plural dos diminutivos. De cara, uma voadora: para o plural de diminutivos com sufixo –inho é só acrescentar um “s”.

Docinhos, cuscuzinhos, piresinhos, onibusinhos.

 O plural de diminutivos com sufixo –zinho, no entanto, é mais radical. Ponha primeiro a palavra primitiva no plural, acrescente o sufixo, e o “s” final do substantivo sai da posição intermediária. Mas nada como exemplos para tornar clara a regra bruta.

Diminutivo de alemã: alemãzinha. E o plural de alemãzinha? Se temos –zinho na parada, vamos por parte. Primeiro o plural da palavra primitiva: alemãs. Agora acrescento o sufixo do diminutivo: alemã(s)zinha. Por fim, a desinência de plural no seu devido lugar: alemãzinhas. Moleza? Pois encare agora o peso-pesado alemão.

Diminutivo de alemão: alemãozinho. Plural de alemãozinho? Se há –zinho, vamos por parte. Primeiro o plural da palavra primitiva – alemães. Agora acrescentar o sufixo do diminutivo: alemãe(s)zinho. Por fim, o “s” do plural depois do sufixo: alemãezinhos.

Se você ainda está de pé, cuidado para não ser nocauteado com as últimas duas pancadas do combate: plural do diminutivo das palavras paz e país. Bem no queixo.

O sufixo diminutivo de ambas as palavras, conforme regras acima, é –inho, pois temos vocábulos terminados por “Z” e “S”, respectivamente. Assim o plural vai ser uma moleza: acrescentamos um “s” depois do sufixo: pazinhas e paisinhos, certo?

Certo, mas… acabo de lembrar, o diminutivo de também é… pazinha. Plural de pazinha = pá(s)zinha(s), pazinhas. Balançou na base?

A pá de cal: o eminente imortal Evanildo Bechara propõe para a formação do plural do diminutivo de paz o mesmo que se faz para formar o plural dos diminutivos em –zinho:

Plural da primitiva, paze(s) + zinha(s) > pazezinhas. Ficou de queixo caído? Tem mais.

O diminutivo de pai é paizinho; o de país é paisinho. Ambos têm a mesma pronúncia.

Aí apareceu um minotauro e sapecou: países > paise(s)zinho(s) > paisezinhos. E a Cesgranrio nocauteou muita gente boa que lutava no ringue por um lugarzinho ao sol.

P.S. Não beije a lona com a pegada forte de concursos públicos.

A regra do plural dos diminutivos formados com o sufixo –zinho (vista acima) pode ser aplicada ao plural de diminutivos de palavras terminadas por “S” ou “Z”, -inho, principalmente para distinguir pares de mesma escrita ou pronúncia.

Gostou das luzezinhas? Adeusinho.

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O nocaute da Cesgranrio

Por Orlando Nunes em Gramática

01 de Maio de 2012

Briguinhas ou brigazinhas

O plural dos diminutivos é briga de cachorro grande.

A briga começa antes da formação do plural, ela nasce com a escolha do sufixo do diminutivo. Devo usar –inho ou –zinho, ou tanto faz?

Tanto faz coisinha nenhuma.

Palavras terminadas por vogal átona ou por consoante (exceto “S” e “Z”) formam o diminutivo (quase) indiferentemente com os sufixos –inho ou –zinho.

Briga – briguinha ou brigazinha

Colher – colherinha ou colherzinha.

Papel – papelinho ou papelzinho

Detalhe: após vogal átona, o sufixo –inho é campeoníssimo na preferência dos usuários da língua. Já o sufixo –zinho é majoritário após consoante. E mais: não se esqueça do (quase) indiferentemente escrito acima. Nem sempre temos duas opções de sufixo: Casinha, por exemplo, cai bem, mas “casazinha” não lhe parece forçado, vale-tudo?

Palavras terminadas por “S” ou “Z” formam o diminutivo com o sufixo –inho.

Pires-inho

Cruz-inha.

Tênis-inho

Palavras terminadas por vogal tônica, nasal ou ditongo: diminutivo com –zinho.

Café – cafezinho.

Irmã – irmãzinha

Boia – boiazinha

Agora sim podemos ir à luta principal programada, o plural dos diminutivos. De cara, uma voadora: para o plural de diminutivos com sufixo –inho é só acrescentar um “s”.

Docinhos, cuscuzinhos, piresinhos, onibusinhos.

 O plural de diminutivos com sufixo –zinho, no entanto, é mais radical. Ponha primeiro a palavra primitiva no plural, acrescente o sufixo, e o “s” final do substantivo sai da posição intermediária. Mas nada como exemplos para tornar clara a regra bruta.

Diminutivo de alemã: alemãzinha. E o plural de alemãzinha? Se temos –zinho na parada, vamos por parte. Primeiro o plural da palavra primitiva: alemãs. Agora acrescento o sufixo do diminutivo: alemã(s)zinha. Por fim, a desinência de plural no seu devido lugar: alemãzinhas. Moleza? Pois encare agora o peso-pesado alemão.

Diminutivo de alemão: alemãozinho. Plural de alemãozinho? Se há –zinho, vamos por parte. Primeiro o plural da palavra primitiva – alemães. Agora acrescentar o sufixo do diminutivo: alemãe(s)zinho. Por fim, o “s” do plural depois do sufixo: alemãezinhos.

Se você ainda está de pé, cuidado para não ser nocauteado com as últimas duas pancadas do combate: plural do diminutivo das palavras paz e país. Bem no queixo.

O sufixo diminutivo de ambas as palavras, conforme regras acima, é –inho, pois temos vocábulos terminados por “Z” e “S”, respectivamente. Assim o plural vai ser uma moleza: acrescentamos um “s” depois do sufixo: pazinhas e paisinhos, certo?

Certo, mas… acabo de lembrar, o diminutivo de também é… pazinha. Plural de pazinha = pá(s)zinha(s), pazinhas. Balançou na base?

A pá de cal: o eminente imortal Evanildo Bechara propõe para a formação do plural do diminutivo de paz o mesmo que se faz para formar o plural dos diminutivos em –zinho:

Plural da primitiva, paze(s) + zinha(s) > pazezinhas. Ficou de queixo caído? Tem mais.

O diminutivo de pai é paizinho; o de país é paisinho. Ambos têm a mesma pronúncia.

Aí apareceu um minotauro e sapecou: países > paise(s)zinho(s) > paisezinhos. E a Cesgranrio nocauteou muita gente boa que lutava no ringue por um lugarzinho ao sol.

P.S. Não beije a lona com a pegada forte de concursos públicos.

A regra do plural dos diminutivos formados com o sufixo –zinho (vista acima) pode ser aplicada ao plural de diminutivos de palavras terminadas por “S” ou “Z”, -inho, principalmente para distinguir pares de mesma escrita ou pronúncia.

Gostou das luzezinhas? Adeusinho.