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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Janeiro 2013

Lá no Latim

Por Orlando Nunes em Etimologia

29 de Janeiro de 2013

Fabiano Gomes (Fortaleza (CE) ouviu o treinador do E. C. Bahia, Jorginho, numa entrevista concedida a emissora de rádio, dizer, referindo-se ao novo e moderno Castelão (local do jogo Ceará Sporting Club X Esporte Clube Bahia, pela Copa do Nordeste), que agora torcia para o torcedor não o “apedrejar”.

Gomes estranhou e arremessou uma garrafa com mensagem para o marjangadeiro@gmail.com

“Apedrejar?”

Francamente, Fabiano.

Se o Jorginho falou isso, deve ter tido a intenção de usar outro verbo: “depredar”.

Acho que não há, aqui, o temor de que algum maluco saia jogando pedra no estádio. O medo maior, certamente, é que vândalos resolvam (?) depredar o novíssimo Castelão.

Se apedrejar é arremessar pedras, depredar é causar a destruição de alguma coisa (seja com pedra, seja sem ela). Não é preciso pedra para depredar, basta espírito de porco.

Agora, tranquilizando Jorginho, penso que uma borracha na mão (da PM) e mais de duzentas câmeras (de TV) na cabeça vão fazer desta arena um castelo ultracivilizado.

Uma pedra puxa outra

Certa vez me perguntaram por que dizemos “depredar”, se não temos “preda”.

A resposta a esse tipo de pergunta normalmente é uma só: a explicação está na origem da palavra, na sua formação. Vamos a um dicionário e o pai dos inteligentes nos revela:

Depredar: [F.: Do v.lat. depraedare.]; Apedrejar: [F.: a – + pedra + –ejar.]

É isto. Dizemos depredar porque tinha um “r” no meio do caminho, lá no latim.

Abraço.

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A sinhá e o subjuntivo

Por Orlando Nunes em Gramática

26 de Janeiro de 2013

O jornalista Bruno Pontes envia mensagem para o marjangadeiro@gmail.com apresentando uma questão muito oportuna sobre o emprego do modo subjuntivo em duas frases do grande escritor Graciliano Ramos.

A elas, pois:

“(…) Sinhá Vitória andava para cima e para baixo, procurando em que desabafar. Como achasse tudo em ordem, queixara-se da vida (…)”

“(…) Tinha discutido, procurado cortar outras despesas. Como não se entendessem, sinhá Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça (…)”

Comentário de Pontes:

O sentido dessas construções, “como achasse tudo em ordem”, “como não se entendessem”, “como fizesse muito calor” etc., eu entendo (não é física quântica). É como se o cara estivesse dizendo “já que tinha achado tudo em ordem”, “já que não se entendiam”, “visto que fazia muito calor”, correto? (Ou não? Será que me iludi esse tempo todo?)

O que eu queria era a explicação disso aí.

Comentário do blogueiro:

Prezado Pontes

Nas orações subordinadas adverbiais (introduzidas por conjunções subordinativas adverbiais), o subjuntivo é um coadjuvante (a cachorra Baleia) na estrutura frasal.

O protagonista neste cenário sintático (o pavio psicológica), é a conjunção (que casa, batiza e tem mais de um milhão de seguidores no Facebook.

Noutras palavras: regulado pelas conjunções causais. o subjuntivo cai como uma luva.

Vejamos alguns exemplos.

  1. Negando a própria causa (“não porque”, “não que”):

“Não que não quisesse a deliciosa sopa de aspargos de dona Doca, mas já estava satisfeito com os bolinhos de gengibre da simpática senhora.”

“Não porque fosse torcedor do Fortaleza, mas as cores do Bahia têm o seu acarajé.”

  1. Expondo diretamente a causa:

“Como detestasse aspargos, foi almoçar no Rei da Panelada”

“Como fosse um tricolor, as cores do Bahia eram-lhe um prato cheio.”

Claro que as subordinadas causais, embora se sintam atraídas pelo modo subjuntivo, também estão abertas a estruturas outras, com o indicativo entrando na história.

“Como detestava (imperfeito do indicativo) aspargos…”;

“Como é (presente do indicativo) tricolor, não vai ao estádio com o Thomaz, empedernido alvinegro.”

Podemos observar que o indicativo – modo da convicção, da certeza – é uma forma mais “jornalística” de estruturar a frase, forma mais objetiva, preto no branco, alvinegra, Vovô, digamos.

Já o subjuntivo – modo da subjetividade, da dúvida, da possibilidade – é uma forma mais “literária” de estruturar a frase, mais subjetiva, tricolor, Leão, admitamos.

Isto posto…

As subordinadas causais de Graciliano Ramos, caro Pontes, são tão ricas de uma carga dramática, que o indicativo “jornalístico” não daria conta; é uma missão do subjuntivo.

“Como achasse tudo em ordem, queixara-se da vida (…)”.

Tradução do blogueiro:

“Como tudo estivesse (dramaticamente) no seu lugar, era preciso que houvesse (ou fosse criado) um senão, um drama, para possibilitar o barraco, o quebra-pau.

É como se não existisse o mundo sem as Sinhás Vitórias, nem o drama sem o subjuntivo.

Graciliano Ramos e as conjunções causais (“como”, “porque”) sacaram muito bem isso.

Grande abraço.

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Agradecer

Por Orlando Nunes em Gramática

23 de Janeiro de 2013

“O parlamentar agradeceu os eleitores pelo expressivo número de votos recebidos.”

Agradecer, verbo transitivo direto e indireto (VTDI). O objeto direto (complemento verbal não preposicionado) é representado por “coisa”, e o objeto indireto (complemento verbal regido de preposição), por “pessoa”. Essa orientação de regência verbal da norma culta da língua, no entanto, não foi seguida na estruturação da frase em destaque. A seguir, hora da reescrita.

“O parlamentar agradeceu aos eleitores (OI) o expressivo número de votos recebidos (OD).”

Análise:

Sujeito: O parlamentar

Verbo: agradeceu (pretérito perfeito do indicativo, 3ª pessoa do singular)

Objeto indireto: aos eleitores (com o verbo agradecer, sempre representado por “pessoa”)

Objeto direto: o expressivo número de votos recebidos (representado por “coisa”

É isso. Estou no marjangadeiro@gmail.com

Abraços.

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Diz que fui por aí

Por Orlando Nunes em Gramática

19 de Janeiro de 2013

Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos, eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, em meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí sempre pensando nela

O verso destacado da canção Diz que fui por aí, composição de Hortêncio Horta e Zé Keti, traz  engenhoso emprego dos pronomes oblíquos átonos. Refiro-me à função sintática do “me”.

“A saudade ME dói.”

Qual a função sintática do pronome oblíquo átono “me”? Creio que a melhor forma de análise é a da substituição. Substituo o pronome oblíquo por outra forma: “A saudade dói em minha alma”, “A saudade dói em meu corpo”, “A saudade dói no meu peito”.

Agora, minha pergunta é: dói onde? A resposta ( em minha alma, em meu corpo, em meu peito) é um adjunto adverbial de lugar. Elementar, meu caro navegante do MAR.

Em “A saudade me dói”, o pronome “me” é o adjunto adverbial da oração.

E em “[A saudade] no meu peito ME rói”, qual a função sintática do pronome oblíquo? Novamente vamos seguir pelo caminho da substituição:  “… no meu peito rói a minha alma”, “… no meu peito rói o meu corpo”. Aqui destaquei o complemento verbal não regido de preposição obrigatória chamado de objeto direto (quem rói, rói alguma coisa). Elementar!

Em “[A saudade] no meu peito me rói”, o pronome “me” é o objeto direto da oração.

PS – Saiba mais sobre “adjuntos adverbiais expressos por pronomes átonos” em Lições de Português pela Análise Sintática – Evanildo Bechara –Editora Lucerna.

Um abraço, e veja (e escute) como a Fernanda Takai Diz que fui por aí.

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O advérbio é um bom capoeira

Por Orlando Nunes em Dica

16 de Janeiro de 2013

“A equipe que estava reescrevendo o texto ontem concluiu o trabalho.”

Quantas orações há neste período? Resposta: duas.

  1.  A equipe concluiu o trabalho (principal)
  2. que estava reescrevendo o texto (adjetiva)

A segunda pergunta do dia: a qual das duas orações pertence o advérbio “ontem”?

  1. A equipe concluiu o trabalho ontem (principal) ou
  2. que estava reescrevendo o texto ontem (adjetiva)?

Ambiguidade, eis a questão. A posição do adjunto adverbial de tempo (ontem) na frase em destaque permite dupla interpretação. A dica de hoje é: tome cuidado com a ordem dos termos da frase. O adjunto adverbial, então, é um bom capoeira; bobeou, vem rasteira.

Duas defesas, entre outras, para desfazer a ambiguidade:

  1. “A equipe que estava reescrevendo o texto concluiu o trabalho ontem.”
  2. Ontem a equipe que estava reescrevendo o texto concluiu o trabalho.”

Nas duas estruturas acima, não há dúvida de que “ontem” se refere à data de conclusão do trabalho. Mas, se “ontem” se referisse à data de reescrita do texto, como deixar clara tal informação? Vamos encerrar com duas frases para traduzir essa ideia, sem ambiguidade.

  1. “A equipe que estava reescrevendo ontem o texto concluiu o trabalho.”
  2. “A equipe que estava ontem reescrevendo o texto concluiu o trabalho.”

É isso. O adjunto adverbial é um bom capoeira, ninguém pode negar.

Contato: marjangadeiro@gmail.com

Grande abraço.

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O hífen, a água-de-colônia e o periquito-da-madame

Por Orlando Nunes em Ortografia

14 de Janeiro de 2013

Luís Eduardo P., Fortaleza (CE) manda mensagem para o marjangadeiro@gmail.com. Ele quer saber por que os dicionários atualizados pela nova reforma ortográfica registram água de cheiro, sem hífen, mas água-de-colônia, com o tracinho de união.

“Algo a ver com odor?”, ironiza, com um sorriso exagerado de linha inteira de “rs”.

Caro Luís, esta reforma é um verdadeiro deus nos acuda, que também perdeu o hífen, e não cheira bem, apesar da água-de-colônia (a água de cheiro, agora sem os hifens, que o diga).

A resposta (como se ela fosse possível):

Em princípio, todos os compostos formados com mais de dois vocábulos perderam os hifens (onde eles estarão metidos agora, meu Deus?): o pé de moleque, o pôr do sol, o dia a dia, etc.

Escaparam da caça, da pesca e da poda, todavia, compostos formados por mais de dois vocábulos que designam espécies zoológicas ou botânicas: mico-leão-dourado, peixe-do-mato, cana-de-açúcar, copo-de-leite (a planta) e até o periquito-da-madame (uma ave migratória comedora de milho que abundava nos antigos pré-carnavais cearenses, hoje extinta, creio).

Mas os reformistas se basearam numa pretensa tradição de uso para não mexer num grupo de palavras que mantiveram firme e forte (ainda se usa essa expressão?!) o tracinho de união:

arco-da-velha, pé-de-meia, mais-que-perfeito, cor-de-rosa, à queima-roupa, ao deus-dará.

Como os reformistas suspeitaram que isso não ia cheirar bem, decidiram manter no rol das imexíveis a tradicional água-de-colônia (contudo, os hifens de água de cheiro foram pro ralo).

Agora no réveillon 2012 a presidente Dilma, senhora sensata, deu à comissão responsável pela reforma mais três anos para lamber a cria – quem sabe, dar uma nova feição ao Frankenstein.

Todos as tardes os reformistas reúnem-se para, num bate-papo ao pôr do sol, tomar água de coco e comer pão de ló – todos sem hifens e sem-vergonhas. Enquanto isso, vamos todos tomar chá de cadeira até 2016 na esperança de alguma coisa mudar. Que saudade de 1943!

Em todo caso, sorria, afinal a reforma foi a melhor piada de português de todos os tempos.

Abraço.

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Se não ou senão

Por Orlando Nunes em Ortografia

11 de Janeiro de 2013

Dúvida da leitora Dielle S. Assu (RN): junto ou separado?

Resposta: Depende.

  1. Se não, dois vocábulos, equivale a “caso não”, “ou”.

Exemplos:

Se não chover este ano no Nordeste, o bicho vai pegar. – Caso não chova no Nordeste…

Batista é um dos homens mais ricos do Brasil, se não do mundo inteiro. – … do Brasil, ou do mundo…

  1. Senão, um vocábulo, nos demais casos – normalmente equivalente a “do contrário”.

Exemplos:

Venha logo, senão vou embora. – … do contrário, vou embora.

Tenhamos no Nordeste um bom inverno, senão o bicho pega. –… do contrário, o bicho…

Não queria preocupá-la, senão abrir seus olhos. – Não queria preocupá-la, mas sim abrir seus olhos.

Não faz outra coisa na vida senão trabalhar – Não faz outra coisa na vida a não ser trabalhar.

Não lhe pediu outra coisa, senão apoio moral. – Não lhe pediu outra coisa, exceto apoio moral.

É isso. Envie sua dúvida para o marjangadeiro@gmail.com

Grande abraço.

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A pronúncia de subsídio

Por Orlando Nunes em Fonologia

08 de Janeiro de 2013

“Não se faz habitação popular no Brasil sem subsídio.”

A pronúncia da palavra subsídio vive de aluguel em terras brasileiras. Escutamos falantes pronunciando tanto /subcídio/, tida como pronúncia culta, quanto /subzídio/, pronúncia que parece ir ganhando, com o tempo, a preferência nacional. Minha preferência? Sou culto (tosse, tosse). Pronuncio sempre /subcídio/.

É isso!

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Assembleia intermedeia

Por Orlando Nunes em Flexão verbal

04 de Janeiro de 2013

Era uma vez, nos tempos de Maria, um título de jornal:

“Assembleia intermedeia conflito”

Pronto! Ligaram pra mim às seis e pouco da matina, bem na hora em que eu aproveitava a moleza gostosa de uma bolacha Maria.

– Intermedeia, teacher?

Sempre que tenho a sublime oportunidade de conjugar o verbo intermediar no presente do indicativo, sinto na alma lavada do interlocutor um misto quente de pânico e piedade. “Tem certeza?”, desconfia; “Que coisa feia”, prejulga.

Saco um ditado da língua do povo:

– Não existe palavra feia, você é que bebeu pouco; leu pouco, digo.

Antigamente, se um governador e uma prefeita trocassem farpas e parlamentares tocassem harpas, os jornais cantavam a pedra: “Assembleia intermedeia conflito”. E poucos gatos pingados estranhariam.

Política é como cão e gato. Intermediar e odiar é só começar:

– Veja (ouça) bem como se escreve (ou se diz) em português padrão:

Eu intermedeio / eu odeio; tu intermedeias / tu odeias; ele/ela intermedeia; ele/ela odeia; nós intermediamos, nós odiamos (com “nós” e “vós” sem o “e” no radical); vós intermediais, vós odiais; eles/elas intermedeiam, eles/elas odeiam.

A mesma toada embala a conjugação — no presente do indicativo e seus derivados (presente do subjuntivo, imperativo afirmativo e imperativo negativo) — dos seguintes verbos: mediar, ansiar, remediar e incendiar. Tudo lindo?

– Não! Odeia, sim, mas não intermedeia.

– Então, intermediar é feio e odiar é bonito? Ora, bolachas. Venha cá, Maria.

Desliguei educadamente o telefone para terminar o fast food.

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Plurais descolados

Por Orlando Nunes em Gramática

02 de Janeiro de 2013

Em italiano – raviolo (singular), ravioli (plural).

Mas nós, brasileiros, comemos mesmo é ravióli (singular) ou raviólis (plural).

Em latim – campus (singular), campi (plural).

Mas, no Brasil, os livros de chamada mais descolados já registram a presença dos acadêmicos no câmpus (singular) universitário ou nos câmpus (plural) universitários, sem o menor medo de reprovação.

Em alemão – blitz (singular), blitze (plural).

Mas hoje as autoridades verde-amarelas, armadas de boletins e bafômetros, já promovem blitz (singular) e blitzes (plural), no que estão corretíssimas.

Hoje é quarta, mas não temos football. Por falar nisso, qual o plural de futebol?

– Acertou: futebóis, mas ninguém aqui é besta pra escrever ou falar isso. O futebol brasileiro, pentacampeão do mundo, é singular mesmo!

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Plurais descolados

Por Orlando Nunes em Gramática

02 de Janeiro de 2013

Em italiano – raviolo (singular), ravioli (plural).

Mas nós, brasileiros, comemos mesmo é ravióli (singular) ou raviólis (plural).

Em latim – campus (singular), campi (plural).

Mas, no Brasil, os livros de chamada mais descolados já registram a presença dos acadêmicos no câmpus (singular) universitário ou nos câmpus (plural) universitários, sem o menor medo de reprovação.

Em alemão – blitz (singular), blitze (plural).

Mas hoje as autoridades verde-amarelas, armadas de boletins e bafômetros, já promovem blitz (singular) e blitzes (plural), no que estão corretíssimas.

Hoje é quarta, mas não temos football. Por falar nisso, qual o plural de futebol?

– Acertou: futebóis, mas ninguém aqui é besta pra escrever ou falar isso. O futebol brasileiro, pentacampeão do mundo, é singular mesmo!