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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

outubro 2014

Tinha um dois-pontos no meio do caminho

Por Orlando Nunes em Pontuação

28 de outubro de 2014

“A Polícia Rodoviária fiscalizará: motoristas, motociclistas e até ciclistas.”

Um dois-pontos não deve separar o complemento de um verbo. Na frase acima, à direita do dois-pontos, temos o complemento verbal denominado de “objeto direto”. Assim como não separamos com pontuação o “sujeito” do “verbo”, também não devemos separar o complemento verbal (objeto direto, objeto indireto) do verbo.

Reescrita:

“A Polícia Rodoviária fiscalizará motoristas, motociclistas e até ciclistas.”

Observação: o dois-pontos estaria adequado se a estrutura tivesse um objeto antes do sinal de pontuação: “A Polícia Rodoviária fiscalizará todo condutor de veículo: motoristas, motociclistas e até ciclistas”. Agora, depois do dois-pontos, temos um aposto enumerativo (termo acessório), e não mais um complemento verbal (termo integrante da frase).

Até!

 

 

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O segundo deputado mais bem votado

Por Orlando Nunes em Gramática

19 de outubro de 2014

Diga-me cá uma coisa, caro internauta:

O correto é falar (ou escrever) “O segundo deputado mais bem votado para a Assembleia Legislativa do Ceará foi Aderlânia Noronha” OU “A segunda deputada mais bem votada para a Assembleia Legislativa do Ceará foi Aderlânia Noronha”?

Se você respondeu algo do tipo: “Claro que a correta é a segunda frase, afinal de contas, nos referimos a uma deputada, e não a um deputado”, devo-lhe dizer que não é bem assim que a regra range em português; vamos devagar na apuração.

Não resta hoje a menor dúvida ou polêmica quanto a formas femininas como “vereadora”, “prefeita”, “deputada”, “senadora”, “ministra” (há, sim, uma discussãozinha boba a respeito da corretíssima forma “presidenta”, mas isso são outros quinhentos). A questão em análise neste post, porém, traz consigo dois traços importantes a serem levados em consideração: o de “gênero” e o de “generalidade”.

Quem fala (ou escreve) “O segundo deputado mais bem votado para a Assembleia Legislativa do Ceará foi Aderlânia Noronha” declara algo distinto daquilo que declara quem fala (ou escreve) “A segunda deputada mais bem votada para a Assembleia Legislativa do Ceará foi Aderlânia Noronha”. Vixe Maria; e agora, José?

Aviso aos navegantes do MAR: as duas estruturas estão gramaticalmente CORRETAS.

Mas…

  • a primeira frase nos informa, ao pé da letra, que, dentre os deputados eleitos (homens e mulheres) para a Assembleia Legislativa, a deputada Aderlânia Noronha foi “o segundo candidato (repito, consideram-se aqui os homens e mulheres) mais bem votado”.
  • a segunda frase nos informa (e aqui teríamos uma informação incorreta (não no âmbito da gramática, mas no da matemática)) que a parlamentar foi “a segunda deputada mais bem votada” (neste caso, são consideradas apenas as mulheres eleitas para o cargo (além de Aderlânia, e pela ordem decrescente do número de votos recebidos, a deputada Fernanda Pessoa, a deputada Augusta Brito, a deputada Laís Nunes, a deputada Mirian Sobreira, a deputada Dra. Silvana e a deputada Bethrose)).

Nesse novo contexto, deveríamos declarar (para a correção numérica do enunciado e precisão da notícia): “A segunda deputada mais bem votada para a Assembleia Legislativa do Ceará foi Fernanda Pessoa”. Resumindo, a desinência de gênero manda.

Em outras palavras, a língua portuguesa nunca foi “machista”, pelo contrário. Quando queremos ser genéricos, empregamos formas neutras, as do masculino; quando queremos especificar o sexo, utilizamos formas marcadas, as do feminino.

Em razão da marca forte do gênero feminino é que ouvimos (ou lemos), por exemplo, frases assim: “Fulano tem dois filhos, um homem e uma mulher”. Se fossem duas mulheres, ouviríamos (ou leríamos) apenas: “Fulano tem duas filhas”. É o bastante.

Em bom português, a mulher é o gênero forte. Parabéns às deputadas eleitas.

Até!

P.S. Aqui entre nós, meu irmão camarada, me responda a última: quem emprega muitos parênteses num texto pode ser também acusado da prática de nepotismo?

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Candidatos, cuidado com as adjetivas

Por Orlando Nunes em Pontuação

12 de outubro de 2014

Candidatos e candidatas, ao abrirem a boca, muito cuidado com as chamadas “orações adjetivas”. Elas se acomodam em dois partidos bem parecidos, o PAE e o PAR – Partido das Adjetivas Explicativas e Partido das Adjetivas Restritivas, respectivamente.

Onde mora o perigo? Ele mora na escrita; mais precisamente, nas vírgulas.

Digamos que um candidato ou candidata, no clamor da campanha e tomado(a) pelo mal súbito da sinceridade, declare solenemente, com todas as letras:

“Os políticos do partido que são corruptos devem ser julgados pelo povo no dia da eleição”.

Admitamos, seria uma declaração não só sincera, mas também corajosa.

A sinceridade está no fundo d’alma do político (todo político mergulha de corpo e alma numa campanha; logo, todo político deve ter alma); a coragem está na escolha do modo indicativo (“são”, e não “sejam”). Veja que é confiar demais na habilidade de pontuação de um jornalista.

No dia seguinte à declaração, o político senta à mesa para o café da manhã e abre o jornal:

O candidato X disse ontem que “os políticos do partido, que são corruptos, devem ser julgados pelo povo no dia da eleição”. O candidato se engasgará com pão, pontuação e café com leite.

Admitamos também que não houve má-fé do jornalista ao pôr a oração adjetiva entre vírgulas, transformando a restritiva em explicativa. Foi tudo uma questão de pressa, “língua e pressa”.

O fato é que, com as vírgulas desastradas, todos os políticos do partido viraram farinha do mesmo saco, todos se tornaram corruptos – uma generalização perversa e, o pior, segundo o jornal, proveniente da boca de um membro do partido em questão. Só direito de resposta?!

Candidato(a), para não correr o risco, quando usar uma adjetiva restritiva em sua fala, por segurança, empregue o modo subjuntivo, pois não há adjetiva explicativa com esse modo.

Veja:

“Os políticos do partido que sejam corruptos devem ser julgados pelo povo no dia da eleição”.

Aqui não cabem vírgulas traiçoeiras, pode abrir o jornal ou a revista sem medo.

Até!

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Vendeu pra burro, muito inteligente

Por Orlando Nunes em Gramática

08 de outubro de 2014

Aposto que você um dia já separou o aposto com um ponto.

Veja esta frase:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira. Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Então, camarada, já ouviu falar em frase fragmentada?

Se não, releia o enunciado acima, ele é um bom exemplo disso. Vamos lá, percebeu que há um ponto no meio do caminho de Lavras da Mangabeira? Nunca se esqueça disso.

Afinal, o que é uma frase não fragmentada?

É um enunciado que contém duas partes: um sujeito e um predicado.

Assim, não resta dúvida de que em “O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira” temos uma frase bem-comportada. Sujeito: O deputado reeleito; predicado: é natural de Lavras da Mangabeira. Agora, em “Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”, onde está o sujeito? Onde está o verbo?

Não há, não temos aí uma frase, mas um fragmento dela, no caso um aposto.

Um aposto se refere a um nome à sua esquerda e dele vem separado por vírgula, não por ponto. Essa pseudofrase é, aqui, um aposto explicativo – “explica” Lavras da Mangabeira.

Reescritura: se no meio do caminho tinha (havia, como dizem os gramáticos) um ponto, agora tem (como dizem os poetas) uma vírgula. Esta é a pontuação jornalística adequada:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira, uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Detalhe: no texto publicitário, é muito comum o emprego de “frases fragmentadas”: um ponto separando um aposto, um adjunto, etc. Utilizadas com criatividade, elas (frases fragmentadas) possibilitam valor expressivo inegável. Contudo, utilizadas desastradamente, vão vender gato por lebre; vão quebrar a unidade da frase, vão quebrar o pau da barraca.

Não dá pra lavar as mãos, é preciso saber onde pôr os pés, onde pôr os pontos.

Crianças, não façam isso em casa

Exemplo de boa (a meu ver) frase fragmentada na publicidade (anúncio adaptado).

Observo que há nela erro de estruturação (não deve ser imitada na redação do Enem, por exemplo). O desvio gramatical, contudo, foi calculado, consciente, “estudado”.

Anúncio de revista
Videoaulas Exatas.
Falamos sua língua: Matemática.
Fique ligado.
Nossos professores dão aula na sala.
Da sua casa.

Quantos engraçadinhos de plantão não devem ter comentado: “Ainda bem que não é curso de português”. Sim, porque o termo “Da sua casa” é adjunto de “sala” (núcleo do sintagma), e quem já viu separar o adjunto de seu núcleo por um ponto? Eu já vi. Às vezes cumpre uma missão, ou mais de uma.

Vejamos algumas do anúncio publicitário acima:

– nossa língua é a matemática, o português é o que você usa em casa mesmo.

– o termo “Da sua casa”, isolado e em um corpo maior que o do restante do texto, chamava atenção (destacava) para o “conforto” de o aluno “não precisar sair de casa para estudar (matemática)”.

– Entre “descrição” e “discrição”, o texto publicitário marca a primeira alternativa quase sempre (o desvio intencional do padrão gramatical pode ser útil, se apreciado com moderação).

– Veja em um dicionário os verbetes “eficácia” e “eficiência”.

– O curso de matemática anunciado vendeu pra burro (pra inteligente também, a maioria).

Até!

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Vendeu pra burro, muito inteligente

Por Orlando Nunes em Gramática

08 de outubro de 2014

Aposto que você um dia já separou o aposto com um ponto.

Veja esta frase:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira. Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Então, camarada, já ouviu falar em frase fragmentada?

Se não, releia o enunciado acima, ele é um bom exemplo disso. Vamos lá, percebeu que há um ponto no meio do caminho de Lavras da Mangabeira? Nunca se esqueça disso.

Afinal, o que é uma frase não fragmentada?

É um enunciado que contém duas partes: um sujeito e um predicado.

Assim, não resta dúvida de que em “O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira” temos uma frase bem-comportada. Sujeito: O deputado reeleito; predicado: é natural de Lavras da Mangabeira. Agora, em “Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”, onde está o sujeito? Onde está o verbo?

Não há, não temos aí uma frase, mas um fragmento dela, no caso um aposto.

Um aposto se refere a um nome à sua esquerda e dele vem separado por vírgula, não por ponto. Essa pseudofrase é, aqui, um aposto explicativo – “explica” Lavras da Mangabeira.

Reescritura: se no meio do caminho tinha (havia, como dizem os gramáticos) um ponto, agora tem (como dizem os poetas) uma vírgula. Esta é a pontuação jornalística adequada:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira, uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Detalhe: no texto publicitário, é muito comum o emprego de “frases fragmentadas”: um ponto separando um aposto, um adjunto, etc. Utilizadas com criatividade, elas (frases fragmentadas) possibilitam valor expressivo inegável. Contudo, utilizadas desastradamente, vão vender gato por lebre; vão quebrar a unidade da frase, vão quebrar o pau da barraca.

Não dá pra lavar as mãos, é preciso saber onde pôr os pés, onde pôr os pontos.

Crianças, não façam isso em casa

Exemplo de boa (a meu ver) frase fragmentada na publicidade (anúncio adaptado).

Observo que há nela erro de estruturação (não deve ser imitada na redação do Enem, por exemplo). O desvio gramatical, contudo, foi calculado, consciente, “estudado”.

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Falamos sua língua: Matemática.
Fique ligado.
Nossos professores dão aula na sala.
Da sua casa.

Quantos engraçadinhos de plantão não devem ter comentado: “Ainda bem que não é curso de português”. Sim, porque o termo “Da sua casa” é adjunto de “sala” (núcleo do sintagma), e quem já viu separar o adjunto de seu núcleo por um ponto? Eu já vi. Às vezes cumpre uma missão, ou mais de uma.

Vejamos algumas do anúncio publicitário acima:

– nossa língua é a matemática, o português é o que você usa em casa mesmo.

– o termo “Da sua casa”, isolado e em um corpo maior que o do restante do texto, chamava atenção (destacava) para o “conforto” de o aluno “não precisar sair de casa para estudar (matemática)”.

– Entre “descrição” e “discrição”, o texto publicitário marca a primeira alternativa quase sempre (o desvio intencional do padrão gramatical pode ser útil, se apreciado com moderação).

– Veja em um dicionário os verbetes “eficácia” e “eficiência”.

– O curso de matemática anunciado vendeu pra burro (pra inteligente também, a maioria).

Até!