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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Flexão verbal

Tinha ou tinham duas pedras no meio do caminho?

Por Orlando Nunes em Flexão verbal

29 de novembro de 2014

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

(No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade)

 

Na linguagem informal brasileira, o verbo impessoal HAVER (sinônimo de existir) é substituído pelo verbo TER. Dizemos, por exemplo, “Tem gente demais nesta sala”, em vez do culto “Há gente demais nesta sala”.

O verbo HAVER impessoal (sem sujeito) não é flexionado no plural:

Havia pessoas demais nesta sala”, e não “*Haviam pessoas demais nesta sala”.

Dessa forma, quando, coloquialmente, substituímos HAVER (= a existir) por TER. este verbo, igualmente, não será flexionado no plural. No poema de Drummond, se, em vez de uma, houvesse duas pedras no meio do caminho, teríamos os seguintes versos:

Tinha duas pedras
Tinha duas pedras no meio do caminho
No meio do caminho tinha duas pedras

Claro que essa grosseira alteração numérica nos versos do genial poeta mineiro é só para chamar a atenção do leitor para a “impessoalidade” do verbo TER (= a HAVER) neste contexto, porque uma pedra no meio do caminho já é o suficiente para simbolizar uma pedra no sapato de qualquer caminhante deste mundo de pedras.

Estou no marjangadeiro@gmail.com

Até!.

 

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Assembleia intermedeia

Por Orlando Nunes em Flexão verbal

04 de Janeiro de 2013

Era uma vez, nos tempos de Maria, um título de jornal:

“Assembleia intermedeia conflito”

Pronto! Ligaram pra mim às seis e pouco da matina, bem na hora em que eu aproveitava a moleza gostosa de uma bolacha Maria.

– Intermedeia, teacher?

Sempre que tenho a sublime oportunidade de conjugar o verbo intermediar no presente do indicativo, sinto na alma lavada do interlocutor um misto quente de pânico e piedade. “Tem certeza?”, desconfia; “Que coisa feia”, prejulga.

Saco um ditado da língua do povo:

– Não existe palavra feia, você é que bebeu pouco; leu pouco, digo.

Antigamente, se um governador e uma prefeita trocassem farpas e parlamentares tocassem harpas, os jornais cantavam a pedra: “Assembleia intermedeia conflito”. E poucos gatos pingados estranhariam.

Política é como cão e gato. Intermediar e odiar é só começar:

– Veja (ouça) bem como se escreve (ou se diz) em português padrão:

Eu intermedeio / eu odeio; tu intermedeias / tu odeias; ele/ela intermedeia; ele/ela odeia; nós intermediamos, nós odiamos (com “nós” e “vós” sem o “e” no radical); vós intermediais, vós odiais; eles/elas intermedeiam, eles/elas odeiam.

A mesma toada embala a conjugação — no presente do indicativo e seus derivados (presente do subjuntivo, imperativo afirmativo e imperativo negativo) — dos seguintes verbos: mediar, ansiar, remediar e incendiar. Tudo lindo?

– Não! Odeia, sim, mas não intermedeia.

– Então, intermediar é feio e odiar é bonito? Ora, bolachas. Venha cá, Maria.

Desliguei educadamente o telefone para terminar o fast food.

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Assembleia intermedeia

Por Orlando Nunes em Flexão verbal

04 de Janeiro de 2013

Era uma vez, nos tempos de Maria, um título de jornal:

“Assembleia intermedeia conflito”

Pronto! Ligaram pra mim às seis e pouco da matina, bem na hora em que eu aproveitava a moleza gostosa de uma bolacha Maria.

– Intermedeia, teacher?

Sempre que tenho a sublime oportunidade de conjugar o verbo intermediar no presente do indicativo, sinto na alma lavada do interlocutor um misto quente de pânico e piedade. “Tem certeza?”, desconfia; “Que coisa feia”, prejulga.

Saco um ditado da língua do povo:

– Não existe palavra feia, você é que bebeu pouco; leu pouco, digo.

Antigamente, se um governador e uma prefeita trocassem farpas e parlamentares tocassem harpas, os jornais cantavam a pedra: “Assembleia intermedeia conflito”. E poucos gatos pingados estranhariam.

Política é como cão e gato. Intermediar e odiar é só começar:

– Veja (ouça) bem como se escreve (ou se diz) em português padrão:

Eu intermedeio / eu odeio; tu intermedeias / tu odeias; ele/ela intermedeia; ele/ela odeia; nós intermediamos, nós odiamos (com “nós” e “vós” sem o “e” no radical); vós intermediais, vós odiais; eles/elas intermedeiam, eles/elas odeiam.

A mesma toada embala a conjugação — no presente do indicativo e seus derivados (presente do subjuntivo, imperativo afirmativo e imperativo negativo) — dos seguintes verbos: mediar, ansiar, remediar e incendiar. Tudo lindo?

– Não! Odeia, sim, mas não intermedeia.

– Então, intermediar é feio e odiar é bonito? Ora, bolachas. Venha cá, Maria.

Desliguei educadamente o telefone para terminar o fast food.