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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Vendeu pra burro, muito inteligente

Por Orlando Nunes em Gramática

08 de outubro de 2014

Aposto que você um dia já separou o aposto com um ponto.

Veja esta frase:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira. Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Então, camarada, já ouviu falar em frase fragmentada?

Se não, releia o enunciado acima, ele é um bom exemplo disso. Vamos lá, percebeu que há um ponto no meio do caminho de Lavras da Mangabeira? Nunca se esqueça disso.

Afinal, o que é uma frase não fragmentada?

É um enunciado que contém duas partes: um sujeito e um predicado.

Assim, não resta dúvida de que em “O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira” temos uma frase bem-comportada. Sujeito: O deputado reeleito; predicado: é natural de Lavras da Mangabeira. Agora, em “Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”, onde está o sujeito? Onde está o verbo?

Não há, não temos aí uma frase, mas um fragmento dela, no caso um aposto.

Um aposto se refere a um nome à sua esquerda e dele vem separado por vírgula, não por ponto. Essa pseudofrase é, aqui, um aposto explicativo – “explica” Lavras da Mangabeira.

Reescritura: se no meio do caminho tinha (havia, como dizem os gramáticos) um ponto, agora tem (como dizem os poetas) uma vírgula. Esta é a pontuação jornalística adequada:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira, uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Detalhe: no texto publicitário, é muito comum o emprego de “frases fragmentadas”: um ponto separando um aposto, um adjunto, etc. Utilizadas com criatividade, elas (frases fragmentadas) possibilitam valor expressivo inegável. Contudo, utilizadas desastradamente, vão vender gato por lebre; vão quebrar a unidade da frase, vão quebrar o pau da barraca.

Não dá pra lavar as mãos, é preciso saber onde pôr os pés, onde pôr os pontos.

Crianças, não façam isso em casa

Exemplo de boa (a meu ver) frase fragmentada na publicidade (anúncio adaptado).

Observo que há nela erro de estruturação (não deve ser imitada na redação do Enem, por exemplo). O desvio gramatical, contudo, foi calculado, consciente, “estudado”.

Anúncio de revista
Videoaulas Exatas.
Falamos sua língua: Matemática.
Fique ligado.
Nossos professores dão aula na sala.
Da sua casa.

Quantos engraçadinhos de plantão não devem ter comentado: “Ainda bem que não é curso de português”. Sim, porque o termo “Da sua casa” é adjunto de “sala” (núcleo do sintagma), e quem já viu separar o adjunto de seu núcleo por um ponto? Eu já vi. Às vezes cumpre uma missão, ou mais de uma.

Vejamos algumas do anúncio publicitário acima:

– nossa língua é a matemática, o português é o que você usa em casa mesmo.

– o termo “Da sua casa”, isolado e em um corpo maior que o do restante do texto, chamava atenção (destacava) para o “conforto” de o aluno “não precisar sair de casa para estudar (matemática)”.

– Entre “descrição” e “discrição”, o texto publicitário marca a primeira alternativa quase sempre (o desvio intencional do padrão gramatical pode ser útil, se apreciado com moderação).

– Veja em um dicionário os verbetes “eficácia” e “eficiência”.

– O curso de matemática anunciado vendeu pra burro (pra inteligente também, a maioria).

Até!

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Vendeu pra burro, muito inteligente

Por Orlando Nunes em Gramática

08 de outubro de 2014

Aposto que você um dia já separou o aposto com um ponto.

Veja esta frase:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira. Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Então, camarada, já ouviu falar em frase fragmentada?

Se não, releia o enunciado acima, ele é um bom exemplo disso. Vamos lá, percebeu que há um ponto no meio do caminho de Lavras da Mangabeira? Nunca se esqueça disso.

Afinal, o que é uma frase não fragmentada?

É um enunciado que contém duas partes: um sujeito e um predicado.

Assim, não resta dúvida de que em “O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira” temos uma frase bem-comportada. Sujeito: O deputado reeleito; predicado: é natural de Lavras da Mangabeira. Agora, em “Uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”, onde está o sujeito? Onde está o verbo?

Não há, não temos aí uma frase, mas um fragmento dela, no caso um aposto.

Um aposto se refere a um nome à sua esquerda e dele vem separado por vírgula, não por ponto. Essa pseudofrase é, aqui, um aposto explicativo – “explica” Lavras da Mangabeira.

Reescritura: se no meio do caminho tinha (havia, como dizem os gramáticos) um ponto, agora tem (como dizem os poetas) uma vírgula. Esta é a pontuação jornalística adequada:

“O deputado reeleito é natural de Lavras da Mangabeira, uma pequena e aprazível cidade do interior do Ceará”.

Detalhe: no texto publicitário, é muito comum o emprego de “frases fragmentadas”: um ponto separando um aposto, um adjunto, etc. Utilizadas com criatividade, elas (frases fragmentadas) possibilitam valor expressivo inegável. Contudo, utilizadas desastradamente, vão vender gato por lebre; vão quebrar a unidade da frase, vão quebrar o pau da barraca.

Não dá pra lavar as mãos, é preciso saber onde pôr os pés, onde pôr os pontos.

Crianças, não façam isso em casa

Exemplo de boa (a meu ver) frase fragmentada na publicidade (anúncio adaptado).

Observo que há nela erro de estruturação (não deve ser imitada na redação do Enem, por exemplo). O desvio gramatical, contudo, foi calculado, consciente, “estudado”.

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Videoaulas Exatas.
Falamos sua língua: Matemática.
Fique ligado.
Nossos professores dão aula na sala.
Da sua casa.

Quantos engraçadinhos de plantão não devem ter comentado: “Ainda bem que não é curso de português”. Sim, porque o termo “Da sua casa” é adjunto de “sala” (núcleo do sintagma), e quem já viu separar o adjunto de seu núcleo por um ponto? Eu já vi. Às vezes cumpre uma missão, ou mais de uma.

Vejamos algumas do anúncio publicitário acima:

– nossa língua é a matemática, o português é o que você usa em casa mesmo.

– o termo “Da sua casa”, isolado e em um corpo maior que o do restante do texto, chamava atenção (destacava) para o “conforto” de o aluno “não precisar sair de casa para estudar (matemática)”.

– Entre “descrição” e “discrição”, o texto publicitário marca a primeira alternativa quase sempre (o desvio intencional do padrão gramatical pode ser útil, se apreciado com moderação).

– Veja em um dicionário os verbetes “eficácia” e “eficiência”.

– O curso de matemática anunciado vendeu pra burro (pra inteligente também, a maioria).

Até!