Publicidade

MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Ortografia

Preposição e artigo antes das horas

Por Orlando Nunes em Ortografia

10 de novembro de 2014

“A prova ocorre de 12h às 17h”

A pergunta é esta: posso empregar a preposição não acompanhada de artigo na designação das horas? Em outras palavras, o “de” antes do numeral 12, na frase acima, está correto?

Marluce D. (Barbalha-CE)

Resposta:

Antes do numeral 17, temos uma preposição (a) e um artigo feminino plural (as). O encontro dos dois aa (a da preposição + a(s) do artigo) ocasionou a crase (às). Antes do numeral da esquerda também deve haver, além da preposição (de), um artigo (as); logo, de +as = das).

“A prova ocorre das 12h às 17h30”

Essa estrutura marca o horário do início e do término do referido evento.

Duração

Diferente, contudo, seria uma estrutura como esta:

“A prova será de 12 a 17 horas”.

Nessa estrutura, não estaríamos mais indicando o horário de início e término do evento, mas informando o tempo provável de sua duração, ou seja, uma prova que duraria entre 12 e 17 horas; uma longa prova, portanto. Assim, sem artigo, não se marca o início ou fim do evento.

Veja esta questão:

“Teremos uma reunião de três a quatro horas”.

Sobre o período acima, é CORRETO afirmar que
(a) a reunião será iniciadas às três horas.
(b) a reunião terminará às quatro horas.
(c) a reunião durará até as quatro horas.
(d) a reunião pode durar até quatro horas.
(e) há mais de uma alternativa correta.

Resposta: letra (d). A estrutura do período indica que a reunião pode durar entre três e quatro horas, ou seja, até quatro horas de duração.

A reunião duraria uma hora, porém, numa estrutura com a determinação dos numerais, a marcar o horário de seu início e de seu fim: “Teremos uma reunião das três às quatro horas”.

Até!

Publicidade

Saiba por que Cristiano Ronaldo não marcará gol na Copa

Por Orlando Nunes em Ortografia

12 de junho de 2014

Por que Cristiano Ronaldo não marcará gol no Brasil?

Será por causa da tendinite no joelho esquerdo?

Nada disso.

O problema é no tendão de Aquiles esquerdo do idioma, o do lado brasileiro: não existe na língua portuguesa qualquer palavra terminada com as letras OL em que a vogal seja fechada.

Temos sol, mas não a pronúncia /sôl/; temos futebol, mas não a pronúncia /futebôl/.

A única palavra portuguesa terminada em OL com a vogal fechada é brasileira: GOL.

As palavras terminadas em OL (sempre com vogal aberta) fazem plural em ÓIS:

– lençol: lençóis; futebol: futebóis (plural existente, mas quem precisa dele?).

Entretanto, o gol do Brasil não deu em góis (Deus é brasileiro!).

Portugal, dono da bola, não transformou o goal inglês num gol à brasileira.

Na terra de Cristiano Ronaldo, ouvimos um grito comum à língua portuguesa: GOLO.

E golo só poderia dar em golos, no plural.

Cristiano Ronaldo poderá então fazer golo na Copa, mas certamente gol não fará.

Gol é uma arte genuinamente brasileira, mesmo quando seu autor assina Hulk.

leia tudo sobre

Publicidade

Isso já é de mais. Ou demais?

Por Orlando Nunes em Ortografia

30 de Março de 2014

“Comeu demais (ou de mais?), e já não se põe de pé o pobre diabo” (perdoe-me a intromissão dos parênteses, mas gostaria de alertar: aqui “o pobre diabo” não é o tal do objeto direto).

 

Uma das invenções mais saborosas do mundo diz respeito certamente ao espaço em branco entre as palavras. Quem o criou senão um gourmet? Uma palavra, um espaço, outra palavra… isso aumenta formidavelmente o apetite da leitura. Comer demais ou de mais? Eis a questão.

 

Quando a relação se der com substantivo ou pronome, separe os ingredientes.

“Saúde de mais; educação de menos.”

“Isso não é nada de mais, só exagero seu.”

 

Escreva numa só palavra na relação com um verbo, adjetivo ou advérbio.

“Ele comeu demais.”

“Ela é linda demais.”

“Cozinha bem demais.”

 

Vem cá.

Mas, se a relação com substantivo me leva à escrita “de mais”, com dois vocábulos”, onde ficam nessa história as “Três espiãs demais”, por exemplo?

 

Vamos lá.

Veja bem, as três espiãs são mesmo demais, é que a relação não se dá com o substantivo plural “espiãs”, expresso na frase, mas sim com um adjetivo implícito, elíptico, latente:

As três espiãs inteligentes demais.

As três espiãs bonitas demais.

As três espiãs gostosas demais.

 

Chega! Isso já é de mais, intimidade de mais.

Até!

leia tudo sobre

Publicidade

Dia a dia ou dia-a-dia?

Por Orlando Nunes em Ortografia

22 de Fevereiro de 2014

“De saltimbancos ao dia-a-dia de luxo em 100 anos” ou

“De saltimbancos ao dia a dia de luxo em 100 anos”

 

Há bem pouco tempo, nosso cotidiano era farto de hifens.

Mas, hoje em dia, os substantivos compostos formados a partir de três vocábulos perderam o traço de união, o hífen. Na verdade não houve perda, propriamente, e sim um rapa, um furto.

O novo Acordo Ortográfico é o principal suspeito. Não, minto, ele é réu confesso.

 

CASA DA MÃE JOANA

Se o que nos resta é o “dia a dia” livre dos hifens, por que não aproveitar a folga do “fim de semana” para comer “pão de ló” e “pé de moleque” na “casa da mãe joana”?

Sem hífen esses compostos ficam menos calóricos, garante a nova embalagem ortográfica.

Noutros tempos, de fato, os comensais abusavam dos pés-de-moleque e dos pães-de-ló recheados de hifens. Ignorávamos completamente o risco de vida. Atentos a isso, os imortais da academia bolaram um plano para salvar o planeta luso do pecado da gula, afinal a meta era a de um mundo mais magro, com menos palitos de dente. Então, lançaram mão do jeitinho brasileiro: aqui e agora só comeremos pães de ló e pés de moleque desifenizados. Pois, pois.

 

PRESERVANDO A NATUREZA

Mantém-se o hífen, no entanto, quando o composto designa espécie botânica ou zoológica:

copo-de-leite, fava-de-santo-inácio; andorinha-do-mar, bem-te-vi, mico-leão-dourado, etc.

 

ROLEZINHO

Se você formar um grupinho de três ou mais elementos e não se tratar de um vegetal ou de um animal, saiba que sua integridade estará ameaçada. Vão passar a mão nos seus hifens.

Ou seja: tu tens três ou mais vocábulos formando uma unidade semântica e este conjunto não indica espécie vegetal ou animal? Pois também não empregues mais o hífen. Sempre? Quase!

 

No Brasil (graças ao Volp) temos somente seis exceções à nova regra:

água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia,

à queima-roupa. Essas mantiveram o hífen, mesmo morando fora do reino vegetal ou animal.

 

Assim sendo, vamos à reescrita: “De saltimbancos ao dia a dia de luxo em 100 anos.”

 

O VOLP É LEI

Obs. Quem é esse tal de Volp, é brasileiro? É sim, e tem nome completo e tudo: Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (da Academia Brasileira de Letras). O Volp não é legal?

Estou no marjangadeiro@gmail.com

Até!

Publicidade

Comer cachorro quente dá cadeia

Por Orlando Nunes em Ortografia

15 de Fevereiro de 2014

Sabemos (ou devemos saber) que uma mesa redonda não se confunde com uma mesa-redonda.

Do mesmo modo, um cachorro quente é bicho diferente de um cachorro-quente.

Em mesa redonda e cachorro quente, temos duas palavras independentes, uma locução. A palavra da direita (redonda ou quente) é um adjetivo que modifica, qualifica o substantivo à esquerda (mesa ou cachorro).

Nas locuções, as palavras mantêm a integridade semântica, cada uma conserva seu sentido real, denotativo.

Assim, uma mesa redonda é uma mesa em forma de um círculo; um cachorro quente é um cão com febre, por exemplo (um vira-lata, ao meio-dia, perambulando pelas ruas pra lá de ensolaradas de Fortaleza também é um cachorro quente (mesmo sem febre).

Mas eis que entra em ação a incomparável capacidade humana de criar e recriar.

E o homem diz: Quero um cachorro-quente!

E, nessa junção, os vocábulos perdem (poeticamente) o sentido literal e individual.

Não tenho mais uma locução (duas ou mais palavras independentes), mas um composto, uma palavra composta (o hífen, na escrita, comprova a união).

Cachorro-quente é um sanduíche; mesa-redonda, uma reunião, um debate.

 

Enem pra que te quero

Agora o leitor já adquiriu informação suficiente para responder adequadamente à questão proposta (de legislação ortográfica).

 

Quem come cachorro quente comete um crime

(a)   contra o código de defesa do consumidor

(b)   contra o código de proteção aos animais

(c)    contra a ortografia da língua portuguesa

(d)   crime de atentado ao pudor

(e)   todas as alternativas são verdadeiras

 

GABARITO OFICIAL DA BANCA: E, de “Eita, MAR!”

leia tudo sobre

Publicidade

De volta ao latim

Por Orlando Nunes em Ortografia

18 de dezembro de 2013

“Há uma preocupação dos conselheiros com o déficit deste ano de 75 milhões de reais.”

O Acordo Ortográfico de 1990 promoveu um reparo bem-vindo: antes, aportuguesávamos as palavras latinas deficit e superavit, obtendo as formas déficit e superávit (acentuadas graficamente). A questão é que não é próprio do português vocábulo terminado em “t”.

Poderíamos ter chegado à forma superávite, mas o mesmo fato não seria possível com *déficite, porque a sílaba tônica das palavras portuguesas ocorre na última (oxítona), penúltima (paroxítona) ou antepenúltima sílaba (proparoxítona) do vocábulo. Mudar a sílaba tônica formando “decite” não desceria bem goela abaixo dos falantes do idioma, penso.

A solução foi simples e inteligente (simplicidade e inteligência, aliás, é quase pleonasmo): o melhor a fazer é não fazer, ou seja, essas formas serão escritas como são no latim, sem acento. Dessa maneira, quando escrevermos palavras como deficit, superavit e, também, habitat, as registramos em itálico (estrangeirismos) e sem acento gráfico (sem o acento agudo, no caso).

Para fechar: trata-se de substantivos comuns de dois números, portanto não ponha um “-s” após o “t” quando quiser formar o plural. Veja: os deficit, os superavit, os habitat.

A frase que motivou o post agora fica assim:

“Há uma preocupação dos conselheiros com o deficit deste ano de 75 milhões de reais.”

Até!

leia tudo sobre

Publicidade

Ortografia: jota jamais vira gê

Por Orlando Nunes em Ortografia

15 de novembro de 2013

Um G “vira” J antes de A, O e U, na boa: monge e monja; proteger e protejo; jonge e lonjura. Agora, aqui entre nós, o J é uma jiboia, não se torna G nem com o “jeitinho brasileiro”.

Toda loja tem lojista, nunca logista; o derivado de granja é granjeiro, e não grangeiro; onde há sujo tem sujeira, jamais sugeira; um anjo pequeno ou “joiado” é um anjinho, nada de anginho.

Mas o diabo é esta dúvida infernal: o que é angélico, com G, vem do quê?

“Parece que o angélico desviou-se do bom caminho.” Grande engano! Jota não vira G, angélico não vem do nosso anjo da guarda. Angélico, meu amigo Aulete me contou, veio lá do latim.

[F.: Do lat. angelicus, a, um.] Dicionário Caldas Aulete.

Até!

leia tudo sobre

Publicidade

Os que leem, creem

Por Orlando Nunes em Ortografia

09 de novembro de 2013

Tomé Afonso Gonçalves, de Castanhal-PA, envia e-mail para o marjangadeiro@gmail.com, dizendo-se “pê da vida” com a degola impiedosa do circunflexo em plurais como “leem” e “veem”.

Pergunta-me, impaciente: “Esses caras não têm mais o que fazer, não?”.

Tomé – sabedor de que não morro de amores pelo novo Acordo Ortográfico – pede, por fim, que eu ateie fogo, ou seja, ele joga gasolina e me passa a caixa de fósforo.

Estimado Tomé, “os caras” acertaram desta vez, e devemos jogar água na fornalha.

Por que as formas verbais creem, leem, deem e veem perderam o acento circunflexo? Trata-se, neste novo Acordo Ortográfico (1990), de um acerto de contas, de um reparo feito ao muito bom sistema ortográfico de 1943 (todos os que o leem, creem, Tomé).

O registro dos dois ee (creem, leem) já indica o plural, sendo, portanto, desnecessário (redundante?!) o acento gráfico adotado desde 1943 – crêem, lêem, dêem e vêem.

Diferente é o caso do plural das formas verbais “tem” e “vem”.

Aqui a marca de plural vem representada pelo acento gráfico, e não pela vogal dobrada: eles/elas têm; eles/elas vêm. Uma boa economia de palitos de fósforos!

Sou, sim, um admirador do sistema ortográfico de 1943 (melhorado ainda mais com os pequenos ajustes de 1971). Mas o texto ortográfico de 1990 tem seus méritos.

Para o Pará, um abraço. Estou no marjangadeiro@gmail.com

leia tudo sobre

Publicidade

O hífen, a água-de-colônia e o periquito-da-madame

Por Orlando Nunes em Ortografia

14 de Janeiro de 2013

Luís Eduardo P., Fortaleza (CE) manda mensagem para o marjangadeiro@gmail.com. Ele quer saber por que os dicionários atualizados pela nova reforma ortográfica registram água de cheiro, sem hífen, mas água-de-colônia, com o tracinho de união.

“Algo a ver com odor?”, ironiza, com um sorriso exagerado de linha inteira de “rs”.

Caro Luís, esta reforma é um verdadeiro deus nos acuda, que também perdeu o hífen, e não cheira bem, apesar da água-de-colônia (a água de cheiro, agora sem os hifens, que o diga).

A resposta (como se ela fosse possível):

Em princípio, todos os compostos formados com mais de dois vocábulos perderam os hifens (onde eles estarão metidos agora, meu Deus?): o pé de moleque, o pôr do sol, o dia a dia, etc.

Escaparam da caça, da pesca e da poda, todavia, compostos formados por mais de dois vocábulos que designam espécies zoológicas ou botânicas: mico-leão-dourado, peixe-do-mato, cana-de-açúcar, copo-de-leite (a planta) e até o periquito-da-madame (uma ave migratória comedora de milho que abundava nos antigos pré-carnavais cearenses, hoje extinta, creio).

Mas os reformistas se basearam numa pretensa tradição de uso para não mexer num grupo de palavras que mantiveram firme e forte (ainda se usa essa expressão?!) o tracinho de união:

arco-da-velha, pé-de-meia, mais-que-perfeito, cor-de-rosa, à queima-roupa, ao deus-dará.

Como os reformistas suspeitaram que isso não ia cheirar bem, decidiram manter no rol das imexíveis a tradicional água-de-colônia (contudo, os hifens de água de cheiro foram pro ralo).

Agora no réveillon 2012 a presidente Dilma, senhora sensata, deu à comissão responsável pela reforma mais três anos para lamber a cria – quem sabe, dar uma nova feição ao Frankenstein.

Todos as tardes os reformistas reúnem-se para, num bate-papo ao pôr do sol, tomar água de coco e comer pão de ló – todos sem hifens e sem-vergonhas. Enquanto isso, vamos todos tomar chá de cadeira até 2016 na esperança de alguma coisa mudar. Que saudade de 1943!

Em todo caso, sorria, afinal a reforma foi a melhor piada de português de todos os tempos.

Abraço.

Publicidade

Se não ou senão

Por Orlando Nunes em Ortografia

11 de Janeiro de 2013

Dúvida da leitora Dielle S. Assu (RN): junto ou separado?

Resposta: Depende.

  1. Se não, dois vocábulos, equivale a “caso não”, “ou”.

Exemplos:

Se não chover este ano no Nordeste, o bicho vai pegar. – Caso não chova no Nordeste…

Batista é um dos homens mais ricos do Brasil, se não do mundo inteiro. – … do Brasil, ou do mundo…

  1. Senão, um vocábulo, nos demais casos – normalmente equivalente a “do contrário”.

Exemplos:

Venha logo, senão vou embora. – … do contrário, vou embora.

Tenhamos no Nordeste um bom inverno, senão o bicho pega. –… do contrário, o bicho…

Não queria preocupá-la, senão abrir seus olhos. – Não queria preocupá-la, mas sim abrir seus olhos.

Não faz outra coisa na vida senão trabalhar – Não faz outra coisa na vida a não ser trabalhar.

Não lhe pediu outra coisa, senão apoio moral. – Não lhe pediu outra coisa, exceto apoio moral.

É isso. Envie sua dúvida para o marjangadeiro@gmail.com

Grande abraço.

Publicidade

Se não ou senão

Por Orlando Nunes em Ortografia

11 de Janeiro de 2013

Dúvida da leitora Dielle S. Assu (RN): junto ou separado?

Resposta: Depende.

  1. Se não, dois vocábulos, equivale a “caso não”, “ou”.

Exemplos:

Se não chover este ano no Nordeste, o bicho vai pegar. – Caso não chova no Nordeste…

Batista é um dos homens mais ricos do Brasil, se não do mundo inteiro. – … do Brasil, ou do mundo…

  1. Senão, um vocábulo, nos demais casos – normalmente equivalente a “do contrário”.

Exemplos:

Venha logo, senão vou embora. – … do contrário, vou embora.

Tenhamos no Nordeste um bom inverno, senão o bicho pega. –… do contrário, o bicho…

Não queria preocupá-la, senão abrir seus olhos. – Não queria preocupá-la, mas sim abrir seus olhos.

Não faz outra coisa na vida senão trabalhar – Não faz outra coisa na vida a não ser trabalhar.

Não lhe pediu outra coisa, senão apoio moral. – Não lhe pediu outra coisa, exceto apoio moral.

É isso. Envie sua dúvida para o marjangadeiro@gmail.com

Grande abraço.