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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Da crise à crase

Por Orlando Nunes em Gramática

16 de Maio de 2012

A segunda era branca, sem a menor graça para mim. Não, a segunda era negra.

Na verdade era um clássico dia alvinegro.

Mas a vida continua, toma-se banho, café, engole-se pênalti. Tem jogador que só toma chá com porradas, e toma amarelo, e toma vermelho. E tem juiz que não toma vergonha na cara.

O tempo passa rápido para quem está perdendo a hora, tenho que deixar minha filha no colégio. Vamos indo, em silêncio, caminhando e pensando.

Tinha uma pedra no meio do caminho.

De repente a pergunta, do nada:

“Quando aquilo tem crase?”

“Aquilo o quê?”

“Não é aquilo, mas a palavra.”

Ah, claro, quando há crase com pronomes demonstrativos como “aquilo”, “aquele”, “aquela”. Existe uma técnica que quebra o maior galho pra não pisar na bola.

Quando aquilo é substituível por a isso, temos àquilo. Nessa mesma linha de raciocínio, se aquele(s) for permutável por a esse(s), temos àquele(s); do mesmo modo, caso aquela(s) equivalha a a essa(s), não tenha dúvida, devemos ter àquela(s).

“Dá pra ser mais enrolado?”

“Na prática, a regra é clara.”

 

1) Disse aquele (ou àquele?) jogador que não reclamasse do árbitro da partida.

Troca: Disse “a esse” jogador que não reclamasse do árbitro da partida.

Portanto, há crase: Disse àquele jogador que não reclamasse do árbitro da partida.

 

2) Considerei aquele (ou àquele?) primeiro amarelo como aviso para tirá-lo de campo.

Troca: Considerei “esse” primeiro amarelo como aviso para tirá-lo de campo.

Portanto, não há crase: Considerei aquele primeiro amarelo como aviso para tirá-lo de campo.

 

3) Era preciso ter calma aquela (ou àquela?) hora do jogo.

Troca: Era preciso ter calma “a essa” hora do jogo.

Portanto, há crase: Era preciso ter calma àquela hora do jogo.

 

4) Poderia ter evitado aquela (ou àquela?) segunda falta.

Troca: Poderia ter evitado “essa” segunda falta.

Portanto, não há crase: Poderia ter evitado aquela segunda falta.

 

5) Referia-se aquilo (ou àquilo?) como se fosse a coisa mais normal num jogo de futebol.

Troca: Referia-se “a isso” como se fosse a coisa mais normal num jogo de futebol.

Portanto, há crase: Referia-se àquilo como se fosse a coisa mais normal num jogo de futebol.

 

6) Pergunto se aquilo (ou àquilo?) não lhe servirá como lição para o futuro.

Pergunto se “isso” não lhe servirá como lição para o futuro.

Portanto, não há crase: Pergunto se aquilo não lhe servirá como lição para o futuro.

Segundo o tricolor, o vermelho faz parte, o resto é azul e branco.

 

“Ficou claro, agora?”

“Médio.”

“Sei, preto e branco.”

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A gerente não endoidou.

Por Orlando Nunes em Gramática

12 de Maio de 2012

O texto Demais, Dona Dilma, neste blog, recebeu muitas visitas, obrigado. Houve também alguns comentários de leitores – não muitos, mas houve, obrigado também.

O gerente ou a gerente endoidou?

Hoje, pequenas notas sobre comentários dos leitores.

1 – Não defendo, nunca o fiz – Deus e Dona Dilma testemunham – formas como *dentistO, *jornalistO, *motoristO e assemelhados. Se o fizesse, estaria criando as condições necessária para merecer uma camisa de força – aproveitando a ocasião, um grande abraço a todos os meus amigos leitores do Myra y Lopez, aqui em Fortaleza.

Só lembrando:

Dentista, jornalista, motorista são substantivos cujo gênero é marcado sintaticamente, isto é, por meio de determinantes (o/a dentista, o/a jornalista, o/a motorista).

O diploma de jornalista, evidentemente, fica como está. Maria da Silva, jornalista; e José da Silva, jornalista. Jornalista, dentista, motorista são comuns de dois gêneros.

2 – A lei 12.605, portanto, vale para substantivos que têm (sem criação artificial) uma forma para o masculino e outra para o feminino, nada que gere polêmica.

No diploma de João da Silva, por exemplo, estará escrito psicólogo; no diploma de Joana da Silva, psicóloga, em vez de psicólogo. Isso não significa que devamos ter ou defender igualmente um *dentisto e uma dentista, um *jornalisto e uma jornalista.

3 – Presidente e presidenta são formas boas e velhas, nada de invenção de última hora. Além delas, o gramático Evanildo Bechara cita como exemplos de substantivos que admitem flexão de gênero: infante/infanta, parente/parenta, governante/governanta.

Mas essas formas não são criadas da vontade presidencial ou gramatical (não existe um deus da gramática), elas são colhidas da observação do uso lexical, ao longo do tempo.

Podemos dizer também a presidente, corretamente. Mas quem opta pela flexão (presidenta) não vai ter que, por isso, escrever *presidento (não tem nada a ver o cós com as calças). O masculino se caracteriza pela ausência da desinência de gênero –a, e não pela marca –o (no caso uma vogal temática).

Veja que existe até substantivos femininos com terminação –o: tribo, por exemplo, embora terminado com –o, é tão feminino quanto o substantivo aldeia, oca, flecha.

As formas do léxico de qualquer língua não são contidas regularmente em fôrmas.

Os usuários da língua são os seus artífices.

4 – Os militares, os jornalistas, os antropólogos, etc. podem estabelecer normas de padronização de escrita. Exemplo: “Aqui não usaremos o feminino para os postos militares, nada de capitã (no esporte pode), sargenta e coisa e tal”, “Aqui no jornal adotamos a forma ‘a presidente’”, “Aqui não usaremos a desinência de número na designação dos povos indígenas, diremos os tapeba, e não os tapebas”.

Isso se chama normas internas de padronização. Elas podem não ter vitalidade nas ruas.

No século 19 era corrente a forma capitoa (depois evoluída para capitã), nesse tempo não era uma grafia tida como horrorosa ou linda. Existia. O dicionário Morais registrou.

Isso se chama registro de usos. Eles, os diversos usos, ganham vitalidade nas ruas.

Resumindo, para não “enrolar” demais:

A lei 12.605 não criou, nem poderia, formas novas ou esdrúxulas, apenas determina que, havendo a forma feminina marcada pela desinência, ela deve constar no papel, com todas as letras. Só isso. A 12.605 pode ser considerada desnecessária, de tão óbvia, mas é legal, bacana, e de polêmica não tem absolutamente nada. A gerente não endoidou.

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Filho da mãe, não; neto (ambiguidade com pronomes)

Por Orlando Nunes em Gramática

09 de Maio de 2012

Aviso aos navegantes – que expressãozinha antiquada; não, dependendo do ponto de vista, “que começo contemporâneo”, internauta, navegante, MAR Jangadeiro: fiquem atentos com os pronomes de terceira pessoa (ele e ela; seu e sua, dentre outros da classe) porque podem ser más companhias). Nada como um olho no gato e outro no peixe.

A dica é para ligar o sinal de alerta e observar com atenção se o termo a que o pronome se refere está realmente claro para o leitor, afinal de contas, é o leitor que interessa.

Em outras palavras, veja se não há ambiguidade na estrutura de frase, se não existe dupla possibilidade de interpretação. Mas vamos clarear esse mar com exemplos.

“O parlamentar disse ao colega que ele não poderia assinar o requerimento.” O leitor percebeu o tamanho da encrenca? O pronome “ele” na estrutura apresentada tanto pode fazer referência ao termo “parlamentar” como ao termo “colega”, ou seja, ambiguidade.

Apresentamos agora duas soluções, dentre outras possíveis, em nome da clareza.

Primeira possibilidade, repetindo o antecedente: “O parlamentar disse ao colega que ele, parlamentar, não poderia assinar o requerimento”. Mas o caríssimo leitor destas maltraçadas poderia se ofender com a simplicidade da “solucionática” para a “problemática” e, compreensivelmente, exigir algo menos… comezinho, digamos.

– A frase continua ambígua, já que “o colega” também deve ser parlamentar.

Segunda possibilidade, apertando a tecla delete: “O parlamentar disse ao colega que não poderia assinar o requerimento”. Ora, ora, mas era o pronome pessoal da terceira pessoa conhecido por ele que estava promovendo toda a desordem! Muito bem, como diria o genial Tchecov, “se a espingarda não vai entrar na história, tire a espingarda da sala”.

Dia das Mães e/ou das Noivas

Mais um caso confuso: “A filha vai presentear a mãe com um vestido branco, sua cor predileta”. Bem, podemos até apostar, neste mês de maio, que branca é a cor preferida da mãe em apreço, mas, e se for mesmo da filha, você põe a mão no fogo por esse “sua”? Pois ao terminar a leitura da piada, descobri que o presente da mãe era um neto.

Assim. a ambiguidade também pode ser propositada, um recurso estilístico.

Até.

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Um subsídio, por obséquio

Por Orlando Nunes em Ortografia

05 de Maio de 2012

“Proposta fixa subsídio de delegado de polícia civil”

Som /s/ ou /z/?

Subsídio – separação silábica: sub-sí-dio. Quem pergunta quer saber: de que maneira o amigo leitor pronuncia a segunda sílaba desse vocábulo, /ci/ ou /zi/, ou seja, /subcídio/ ou /subzídio/? Seja qual for sua resposta, não tenho a menor dúvida de que a segunda pronúncia vem ganhando adeptos a olhos vistos. Mas a norma culta prescrita nas gramáticas tradicionais ainda torce o nariz para ela, recomendando /subcídio/.

Como princípio geral de nosso sistema ortográfico, podemos dizer que o S mantém o som /s/ após uma consoante: absoluto, subsolo observação, imprensa, mensurar, etc.

Há, contudo, no denso (ouviu o som /s/ depois do “n”?) reino das palavras, desacato à autoridade policial. Saiba você, navegador deste MAR azul, que o vocábulo obséquio e seus derivados não estão nem aí para a ordem ortográfica, ou o caro leitor já escutou da boca de alguém outra pronúncia senão /obzéquio/, com o som /z/ após a consoante b?

E digo mais, o pula-cerca também é praticado em larga escala pela grande maioria dos vocábulos com trans- na cabeça, quando o som /z/ deita e rola mal se depara com uma vogal: transar, transatlântico, transamazônica, transição, transeunte, trânsito, etc. Dessa turma, a bem da verdade, só mantêm a fidelidade sonora palavras iniciadas pela letra “s”: transaariano (Saara), transecção (secção), transecular (século), transerrano (serra), transexual (sexo). Não podemos dizer, porém, que isso seja o fim da picada.

Voltando à palavra subsídio, sempre fui fiel à pronúncia padrão /subcídio/, com o som /s/ me parecendo o fato mais natural do mundo, mas, pra terminar a discussão, quer saber de uma norma para a qual não vejo outra solução a não ser a desobediência civil?

Teje preso:

Agradaria muito à gramática normativa da língua portuguesa que nós, usuários do idioma, abríssemos nossa inculta e bela boca para pronunciar as palavras subsistir e subsistência mantendo o som /s/ para o segundo “s” do vocábulo, isto é: /subcistir/, /subcistência/. Aqui não respeito a polícia, levarei para a velhice a pronúncia que carrego desde criancinha: /subzistir/, /subzistência/. Não estou sozinho, longe disso.

Um abraço, que domingo é dia de clássico.

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O nocaute da Cesgranrio

Por Orlando Nunes em Gramática

01 de Maio de 2012

Briguinhas ou brigazinhas

O plural dos diminutivos é briga de cachorro grande.

A briga começa antes da formação do plural, ela nasce com a escolha do sufixo do diminutivo. Devo usar –inho ou –zinho, ou tanto faz?

Tanto faz coisinha nenhuma.

Palavras terminadas por vogal átona ou por consoante (exceto “S” e “Z”) formam o diminutivo (quase) indiferentemente com os sufixos –inho ou –zinho.

Briga – briguinha ou brigazinha

Colher – colherinha ou colherzinha.

Papel – papelinho ou papelzinho

Detalhe: após vogal átona, o sufixo –inho é campeoníssimo na preferência dos usuários da língua. Já o sufixo –zinho é majoritário após consoante. E mais: não se esqueça do (quase) indiferentemente escrito acima. Nem sempre temos duas opções de sufixo: Casinha, por exemplo, cai bem, mas “casazinha” não lhe parece forçado, vale-tudo?

Palavras terminadas por “S” ou “Z” formam o diminutivo com o sufixo –inho.

Pires-inho

Cruz-inha.

Tênis-inho

Palavras terminadas por vogal tônica, nasal ou ditongo: diminutivo com –zinho.

Café – cafezinho.

Irmã – irmãzinha

Boia – boiazinha

Agora sim podemos ir à luta principal programada, o plural dos diminutivos. De cara, uma voadora: para o plural de diminutivos com sufixo –inho é só acrescentar um “s”.

Docinhos, cuscuzinhos, piresinhos, onibusinhos.

 O plural de diminutivos com sufixo –zinho, no entanto, é mais radical. Ponha primeiro a palavra primitiva no plural, acrescente o sufixo, e o “s” final do substantivo sai da posição intermediária. Mas nada como exemplos para tornar clara a regra bruta.

Diminutivo de alemã: alemãzinha. E o plural de alemãzinha? Se temos –zinho na parada, vamos por parte. Primeiro o plural da palavra primitiva: alemãs. Agora acrescento o sufixo do diminutivo: alemã(s)zinha. Por fim, a desinência de plural no seu devido lugar: alemãzinhas. Moleza? Pois encare agora o peso-pesado alemão.

Diminutivo de alemão: alemãozinho. Plural de alemãozinho? Se há –zinho, vamos por parte. Primeiro o plural da palavra primitiva – alemães. Agora acrescentar o sufixo do diminutivo: alemãe(s)zinho. Por fim, o “s” do plural depois do sufixo: alemãezinhos.

Se você ainda está de pé, cuidado para não ser nocauteado com as últimas duas pancadas do combate: plural do diminutivo das palavras paz e país. Bem no queixo.

O sufixo diminutivo de ambas as palavras, conforme regras acima, é –inho, pois temos vocábulos terminados por “Z” e “S”, respectivamente. Assim o plural vai ser uma moleza: acrescentamos um “s” depois do sufixo: pazinhas e paisinhos, certo?

Certo, mas… acabo de lembrar, o diminutivo de também é… pazinha. Plural de pazinha = pá(s)zinha(s), pazinhas. Balançou na base?

A pá de cal: o eminente imortal Evanildo Bechara propõe para a formação do plural do diminutivo de paz o mesmo que se faz para formar o plural dos diminutivos em –zinho:

Plural da primitiva, paze(s) + zinha(s) > pazezinhas. Ficou de queixo caído? Tem mais.

O diminutivo de pai é paizinho; o de país é paisinho. Ambos têm a mesma pronúncia.

Aí apareceu um minotauro e sapecou: países > paise(s)zinho(s) > paisezinhos. E a Cesgranrio nocauteou muita gente boa que lutava no ringue por um lugarzinho ao sol.

P.S. Não beije a lona com a pegada forte de concursos públicos.

A regra do plural dos diminutivos formados com o sufixo –zinho (vista acima) pode ser aplicada ao plural de diminutivos de palavras terminadas por “S” ou “Z”, -inho, principalmente para distinguir pares de mesma escrita ou pronúncia.

Gostou das luzezinhas? Adeusinho.

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Demais, Dona Dilma

Por Orlando Nunes em Crônica

27 de Abril de 2012

Há quem diga que é intriga da oposição, pegaram no pé da presidenta e agora já estão mostrando os dentes para uma desossada canjinha de galinha.

– É servido(a)? É uma besteirinha de nada, abre logo a boca, vai, língua pra fora:

LEI Nº 12.605, DE 3 DE ABRIL DE 2012.

Determina o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido. Art. 2º As pessoas já diplomadas poderão requerer das instituições referidas no art. 1º a reemissão gratuita dos diplomas, com a devida correção, segundo regulamento do respectivo sistema de ensino. Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília,  3  de  abril  de 2012; 191º da Independência e 124º da República. DILMA ROUSSEFF Aloizio Mercadante Eleonora Menicucci de Oliveira

Gostou? Eu gostei.

A lei não é carne nem é peixe, tem um gostinho de comida congelada, mas tenho que admitir, vem em muito boa hora, pois o cozimento já estava passando do ponto.

Difícil de engolir é o fato de algo tão caldo de bila (caldo de bola de gude, para os frutos de outros mares, que não os verdes e bravios da minha terra) exigir um tempero legal.

A sopa de letrinhas poderia ter sido servida nas próprias instituições de ensino, não o foi, paciência – parece falta de apetite. Vou repetir, gostei da 12.605, de 3.4.2012.

E não é que esteja querendo cair no gosto das profissionais brasileiras. A bem da verdade, tudo isso não passa de feijão com arroz na culinária do português brasileiro.

Umas pitadas do gênero gramatical como entrada:

1 – não há em português uma marca flexional para o masculino, isto é, uma desinência de gênero masculino. Noutras palavras, só o feminino é marcado (desinência “-a”).

Em “a alun-a” (o “-a” final é desinência de gênero); em “o alun-o” (o “o” final é vogal temática, e não desinência).

O masculino se caracteriza exatamente pela ausência da desinência de gênero.

2 – Há substantivos comuns de dois gêneros, por exemplo: o/a dentista; este/esta estudante, cujo gênero é identificado pelo determinante (um artigo, um pronome).

Isso inviabiliza (ao menos deveria) comentários ridículos como o de um cirurgião-dentista que teria afirmado, irônico: “Então vou querer no meu diploma ‘Dentisto’”.

Ora, ora, isso é que é uma piada de português.

Isso inviabiliza (ao menos deveria) comentários ridículos do tipo “Se temos presidenta, devemos ter igualmente estudanta”.

Ora, ora, isso é confundir alhos com bugalhos.

Presidente/Presidenta não é novidade nos dicionários e gramáticas, mas a forma flexionada ainda não foi bem “digerida” no estômago de muita gente delicada.

Trata-se somente de um fenômeno de adaptação alimentar. Presidenta entrou agora na boia diária brasileira, a barriga logo, logo acostuma. Hoje em dia ninguém mais engulha a palatável primeira-ministra ou a saborosa senadora (pois tais iguarias já foram causa de muita dor de barriga, você sabia?). Para alguns, língua mal cozida pode ser indigesto.

Mas e a lei? Ela traz no cardápio apenas pratos há muito bem aceitos por todos os comensais. Doutor/Doutora, Técnico/Técnica, Administrador/Administradora, etc. e tal.

Então me parece bastante razoável que no diploma da educadora Vera Leitão conste, com todas as letras, PROFESSORA; que no diploma da dermatologista Mônica Carneiro conste, com todas as letras, MÉDICA. É só isso, não vai doer, relaxe.

Parabéns, presidenta.

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Não saque a arma no salão

Por Orlando Nunes em Gramática

24 de Abril de 2012

Não se mova, adjunto!

Há certos ambientes sintáticos em que a vírgula não é convidada a entrar, mas frequentemente as páginas de jornais trazem notícias com a intrusa dentro da festa.

O ambiente: advérbio – verbo – sujeito.

Como costumamos sabiamente pôr vírgula para marcar o deslocamento do adjunto adverbial, cuja posição-chave é no fim da frase, não damos trégua a qualquer dinâmica.

O adjunto saiu de sua casa, sacamos a arma, fechamos os olhos e apertamos o gatilho.

Mas vamos devagar, que o santo é de barro. Às análises:

“A CGU publicará uma portaria nesta terça-feira”

Estrutura sintática sem vírgula, porque os termos da oração estão em sua ordem natural, direta: sujeito–verbo–complemento–adjunto adverbial (sujeito: A CGU; verbo: publicará; complemento verbal: uma portaria; adjunto adverbial: nesta terça-feira).

“Nesta terça-feira, a CGU publicará uma portaria.”

O adjunto adverbial foi deslocado para o início da frase, e essa modificação da ordem sintática tradicional apresenta-se adequadamente marcada por uma vírgula.

“Nesta terça-feira será publicada uma portaria pela CGU.” 

Aqui a porca torce o rabo (e esconde a vírgula). O adjunto foi deslocado para a primeira posição na frase e sacamos a automática. Mas, em vez do sujeito, salta a nossa frente o heroico verbo. Nesse caso, os experientes xerifes de plantão nos aconselham:

– Não abra fogo, não aperte o gatilho, guarde a vírgula no coldre.

Outros exemplos da estrutura sem vírgula advérbio + verbo + sujeito: 

– Domingo não se viu uma excelente arbitragem.
– Entre a boa torcida escondem-se os vândalos.
– Nos últimos minutos do jogo ocorreu um pênalti.

Pois, pois. Vírgula pra que te quero!?

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Sobre siglas

Por Orlando Nunes em Sem categoria

21 de Abril de 2012

Plural das siglas: um “s” minúsculo dá conta do recado. Livre-se, portanto, da tentação constrangedora de pôr um apóstrofo precedente à marca do plural.

– Os CEOs, e não Os CEO’s                                                                                     

– Os CVTs, e não Os CVT’s

– As CPIs, e não As CPI’s

A Secretaria de Governo é a Segov ou a SEGOV? Olhe, todo governo tem seu manual de normas técnicas, seu manual de redação. Isso quer dizer que, se o Excelentíssimo Senhor Governador determina que é SEGOV, é SEGOV; se quer de outro jeito, será de outro jeito. Mas a Redação jornalística não tem nada com isso, cada empresa tem seu caderno de comunicação, elaborado segundo a norma culta, sim, e, também, conforme decisões próprias. Por isso manual de redação de jornal não serve como material didático na preparação para provas de vestibulares ou de concursos públicos.

Dicas para redação jornalística:

Siglas até três letras, maiúsculas: UFC, CBF, CPI, CEO, etc.

Siglas com mais de três letras

– Se cada letra é pronunciada, use maiúscula em todas: INSS, FGTS.

– Se é lida como uma palavra, só a primeira letra maiúscula: Uece, Unicamp.

Há formas consagradas que fogem à pauta: CNPq, UnB, etc.

Isso é Prosa

Não é fácil entrar no CEO

Uma senhora de muitos janeiros e poucos dentes caminhou, pegou ônibus, caminhou, pegou filas, até conseguir um tratamento dentário no CEO, obrigado, meu Deus.

Aguardava uma prótese para mascar seu chiclete Dubom fazia bom tempo. Ontem, finalmente, bateu as botas, coisas do coração. Morreu banguelinha, mas feliz da vida.

Não conseguiu quase nada no CEO, foi tentar no Céu.

 

Pensar grande: mais fácil um camelo entrar no buraco de um dente, que um pobre entrar no reino do CEO.

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O velho MÁRIO

Por Orlando Nunes em Sem categoria

20 de Abril de 2012

“É mais fácil maquiar o problema do que resolvê-lo.”

Quem não assina CPI MAQUIA ou MAQUEIA o problema, hein, MÁRIO?

Apenas cinco verbos terminados em iar (eles são verdadeiros heróis) recebem um “e” antes do “i” nas formas da 1ª e 2ª pessoas do singular (Eu e TU) e da 3ª pessoa do singular e do plural (Ele e Eles): MÁRIO – mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar.

Nota da Redação:

Esse blá-blá-blá é válido no presente do indicativo, presente do subjuntivo e imperativo.

Teste São Tomé com o verbo INTERMEDIAR (MÁRIO disfarçado, inter + mediar):

Presente do indicativo – Eu intermedEio, tu intermedEias, ele intermedEia, eles intermedEiam (mas nós intermediamos e vós intermediais, sem “ei” no radical).

Assim, “Parlamento intermedeia (e não intermedia) discussão”.

Presente do subjuntivo – Que eu intermedEie, tu intermedEies, ele intermedEie, eles intermedEiem (mas que nós intermediemos e vós intermedieis, sem “ei” no radical).

Desse modo, “que o Parlamento intermedeie (e não intermedie) a discussão”.

Imperativo afirmativo: intermedEia tu, intermedEie você, intermedEiem vocês (mas intermediemos nós e intermediai vós, sem “ei” no radical).

As formas verbais do Imperativo Negativo são iguais às do Presente do Subjuntivo.

“Super-herói, não intermedEie a discussão”, etc. e tal.

Mas MAQUIAR, veja bem, não faz parte do seleto grupo do MÁRIO. Isso quer dizer, noutras palavras, que o I não será antecedido por um E nas formas do presente ou do imperativo. O presente do indicativo, aqui à nossa frente, não me deixa mentir: Eu maquio, tu maquias, ele maquia, nós maquiamos, vós maquiais, eles maquiam.

Na ponta da língua, quem não assina CPI MAQUIA o problema. Mas há controvérsia, pois “quem assina”, nas palavras do senador Demóstenes, pratica o “falso heroísmo”.

Chega de prosa, vou ver o documentário do Raul, que “eu não sou besta pra tirar onda de herói, sou vacinado, sou caubói, caubói fora da lei”.

P.S.: Na próxima semana o Parlamento põe as barbas de molho, e a CPI mista do Congresso incendEia. Haja cachoeira (verbo com h e sem vírgula, ó Inculto PC).

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No princípio era o verbo

Por Orlando Nunes em Crônica, Gramática

18 de Abril de 2012

“Obras sofrerão reajuste.”

Cá entre nós, os contribuintes sofrerão muito mais.

RESPONDA-ME:

As construtoras vão exigir um pouco mais para concluir as obras ou As construtoras vão exigir um pouco mais para concluírem as obras?

TANTO FAZ.

Contudo, quando o sujeito do infinitivo (no caso, as construtoras) é o mesmo da oração principal (as construtoras, yes), a flexão do infinitivo, embora possível, é desnecessária.

A opção de manter o verbo não flexionado confere mais sobriedade ao período: As construtoras vão exigir um pouco mais para concluir as obras.

Mais sobriedade ao texto, apenas. Já esse “um pouco mais”, por sua vez, é um eufemismo deslavado, uma pouca-vergonha. Na prática vão exigir uma dinheirama.

Em miúdos, o infinitivo pode não flexionar, mas o governo flexiona (quase) sempre.

$$$.

Pensar grande: No princípio era o verbo, com o tempo a inflação dobrou a língua.

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No princípio era o verbo

Por Orlando Nunes em Crônica, Gramática

18 de Abril de 2012

“Obras sofrerão reajuste.”

Cá entre nós, os contribuintes sofrerão muito mais.

RESPONDA-ME:

As construtoras vão exigir um pouco mais para concluir as obras ou As construtoras vão exigir um pouco mais para concluírem as obras?

TANTO FAZ.

Contudo, quando o sujeito do infinitivo (no caso, as construtoras) é o mesmo da oração principal (as construtoras, yes), a flexão do infinitivo, embora possível, é desnecessária.

A opção de manter o verbo não flexionado confere mais sobriedade ao período: As construtoras vão exigir um pouco mais para concluir as obras.

Mais sobriedade ao texto, apenas. Já esse “um pouco mais”, por sua vez, é um eufemismo deslavado, uma pouca-vergonha. Na prática vão exigir uma dinheirama.

Em miúdos, o infinitivo pode não flexionar, mas o governo flexiona (quase) sempre.

$$$.

Pensar grande: No princípio era o verbo, com o tempo a inflação dobrou a língua.