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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Aquela crase

Por Orlando Nunes em Crase

22 de Fevereiro de 2012

Quarta-Feira de Cinzas é uma data pra lá de propícia para batermos um papo sobre o acento grave indicativo de crase, não conheço nada melhor para curar ressaca.

Aos fatos:

Em noventa por cento dos casos, digamos, a crase é resultado da fusão de um A preposição regida pelo verbo com um A artigo que antecede um substantivo feminino.

Em decorrência dessa estatística, não é raro ouvir aqui e ali que a crase é proibida antes de palavras masculinas. Na verdade não há proibição, mas uma situação óbvia.

Se não usamos o artigo A antes de palavras masculinas, consequentemente falta um dos ingredientes necessários para a concretização do fenômeno da crase (A+ A).

Vamos à frase (olhe a crase aí, gente, resultante da fusão da preposição A, pedida pelo verbo “voltar”, com o artigo A, que antecede a palavra “frase”) a ser analisada:

“Este ano não vai ser igual aquele que passou.”

Conforme observamos no início da coluna de hoje, faltou o acento grave, a marca gráfica da crase. Este ano não vai ser igual àquele que passou (A + A).

É bom lembrar que essa crase (àquele) não é uma exceção à “regra” da proibição de crase antes de palavras masculinas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Diferentemente da maioria dos casos de crase que, vamos repetir, ocorre da fusão da preposição A com o artigo A. agora estamos diante de distinta fusão de AA.

A crase também ocorre quando a preposição A (esta nunca pode faltar) se encontra com o A inicial do pronome demonstrativo aquele e suas flexões (aqueles, aquela(s), aquilo).

“Os documentos apreendidos serão encaminhados àquele país”, “Fez um comentário àquilo como se fosse algo mais séria”, “Dirigiu-se àquelas pessoas só para agradecer”.

Há um modo prático de averiguar a ocorrência ou não de crase com o pronome demonstrativo “aquele” e suas flexões. Vamos a ele, portanto.

Primeiro passo: troque “aquele” (ou flexões) por “esse” (ou flexões). Segundo passo, observe se há necessidade de empregar a preposição A antes do pronome “esse”.

Se houver um A antes de “esse” (ou “esses”, “essa(s)”, “isso”), saiba que este A é uma preposição e que com o pronome “aquele” (ou flexões) ocorrerá o fenômeno da crase.

Vamos testar a dica com dois exemplos.

1 – “No carnaval estive em Guaramiranga. Posso dizer que aqueles dias serão inesquecíveis.” Agora, o primeiro passo, trocar “aquele” por “esse”:

“No carnaval estive em Guaramiranga. Posso dizer que esses dias serão inesquecíveis.” Perceba que não houve necessidade da preposição A antes do pronome “esses”.

Isso quer dizer que, na frase original, com o pronome “aqueles”, não ocorre a crase.

2 – “Quero dizer aqueles que me indicaram a serra como opção de fuga do mela-mela do litoral que estou verdadeiramente agradecido.” Vamos novamente à troca:

“Quero dizer a esses que me indicaram a serra como opção de fuga do mela-mela do litoral que estou verdadeiramente agradecido.” Observe a necessária da preposição A.

Isso quer dizer que, na frase original, com o pronome “aqueles”, ocorre a crase:

“Quero dizer àqueles que me indicaram a serra como opção de fuga do mela-mela do litoral que estou verdadeiramente agradecido”.

Em tempo: Este ano não vai ser igual àquele que passou.

E o carnaval passou. Que venha a Quaresma.

Amém.

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Vou não, posso não

Por Orlando Nunes em Crônica

17 de Fevereiro de 2012

“Mela-mela” pode causar perda da visão, afirma especialista – Da Redação

Já estava tudo pronto para a viagem rumo ao meu mela-mela lá no Aracati – maisena (falsificada, bem se vê, a original vem com z, por isso dizem que a caixa é amarela, amarela de vergonha), mostarda, tinta guache –, quando bati a vista no alerta do presidente da sociedade cearense de oftalmologia veiculado aqui no Jangadeiro Online.

Em mela-mela medicinalmente saudável, do pescoço pra baixo vale tudo, mas nos olhos é golpe baixo, afinal pimenta no dos outros, no fundo, no fundo, não é nenhum refresco.

Este ano não vai ser igual aquele que passou.

Anos atrás (sem trocadilho), tive um princípio de úlcera de córnea. O doutor examinou meu olho vermelho-maconha, soltou um preocupante “Chiiiiiiiiiiiiii” na minha cara e prescreveu mil e uma noites de colírios fortes, alucinógenos.

Segui passo a passo o caminho determinado, mas… nada.

Voltei para o consultório: “Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, é mau-olhado, vamos mudar a medicação. Comprei a nova medicação.

Os remédios já custavam nessa época os olhos da cara.

Mas, para minha felicidade, o segundo tiro acertou bem na praga da mosca-branca, a infecção foi mortalmente atingida. Com os zoim novim em foia, voltei pro doutor.

Aliviado, ele me confessou que temeu pelo pior.

Tinha medo de tratar-se de uma certa bactéria Carniceirae motosserra dumafiga que penetra na córnea e sai fazendo estrago globo adentro.

Noutras palavras, numa linguagem mais popular, a atrevida entra pelo zói de riba e só se dá por satisfeita quando sai pelo de baixo, com os dedim em vê de vitória.

Alalaô, ôôô, ôôô.

Bactéria, nunca mais. Não vou mais pro mela-mela porcaria nenhuma. Adeus, Aracati. Desarruma a mala aí. Vou não, posso não, meu doutor não deixa não.

Troca tudo agora, neste carnaval vou pro festival de jazz & blues em Guaramiranga.

O Danilo Caymmi vai estar lá, talvez até cante aquela canção do saudoso pai dele, é paidégua: “É doce morrer no mar / Nas ondas verdes do mar…”. Olho vermelho jamá..

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Vou-me embora pra Bahia

Por Orlando Nunes em Redação

08 de Fevereiro de 2012

Hoje apresento uma velha dica de guerra: cuidado com as maiúsculas. Sim, as redações estão repletas de letras maiúsculas desnecessárias, e, se o leitor estiver pensando que é mania de grandeza, saiba que não é, trata-se de puxa-saquismo mesmo.

Quer um exemplo, ou dois? Vamos lá.

Comecemos pela polícia, que não está pra brincadeira – camarada, hoje a Bahia é déjà vu; amanhã, estão comentando, o Rio será déjà vu. E o Carnaval Sifu.

Aqui entre nós, leitor, e já correndo o risco de fugir do tema proposto, permita-me mais dois dedos de prosa e circunlóquio, e que a banca do Enem não nos ouça ou leia.

Eu nunca tinha vivido uma epidemia de greve tão devastadora. Claro, nos meus velhos tempos de UFC (a academia, não o ringue), passei por poucas e boas, paralisações aqui e ali – de estudantes, de professores, de servidores – mas, não sei se porque era mais jovem e, de certo modo, mais esperançoso, o fato é que não eram greves como as de hoje.

Hoje, quando leio no jornal que uma determinada categoria ameaça cruzar os braços, já experimento os estranhos calafrios do medo. Mas por quê? Não sou funcionário público, não sou fura-greve, não sou pelego, não tenho nenhum poder, não sou governador de nada, não sou sequer aspone, não sou o louro belo nem nada.

Seja como for, ultimamente ando com medo de greve.

Não ando de ônibus (só a pé), e tenho medo de greve de motorista de busão; não tenho carro (a banca examinadora de vista decreta que não sei ler) e tenho medo da greve da AMC; não tenho muito medo de ladrão (um vem, pergunta diplomaticamente se tenho cigarro, digo que não, pergunta se tenho grana, celular, algum livro do Jorge Luis Borges ou a camisa do Messi, me chama de perna de pau, sobe na bicicleta e se vai, em paz) e tenho medo de greve de polícia; a saúde, me parece, vai bem, obrigado (o último resfriado eu ainda era solteiro, passara a noite num colchão d’água com uma namorada e, em seguida, cinco dias de cama com febre alta e uma moleza avermelhada pelo corpo.

O doutor diagnosticou dengue, o Aedes aegypti tem terna tara por colchão d’água) e morro de medo de greve de médico.

Ora, mas que grande bobagem. Não pode haver medo maior que o medo de fugir do tema no Enem, isso vai lhe valer uma nota zero bem redonda no meio da cara pintada.

Então voltemos ao início. A tese a ser defendida é a do excesso de maiúsculas desnecessárias. Veja bem, se Polícia Militar, ou Polícia Civil, ou Polícia Federal são palavras escritas merecidamente com iniciais maiúsculas, quando a referência é genérica, contudo, devemos economizar as caixas-altas, sem medo ou puxa-saquismo.

Assim, escrevemos “Lugar de jornalista e de polícia é na rua”, e não “Lugar de jornalista e de Polícia é na rua”. O mesmo raciocínio vale para governo: “O Governo do Estado do Ceará divulgou nota à imprensa”, mas “O governo ameaçou cortar pontos”.

E, por falar em pontos, não teve jeito, misturei alhos com bugalhos, minha redação ficou sem pé nem cabeça, a banca examinadora do Enem não vai perdoar, minha única esperança é o Oscar, eu quero rever minha redação, vou à Justiça (caixa-alta).

Justiça Já. E nem quero saber, ou entro em greve por tempo indeterminado.

Vou-me embora pra Bahia,

Lá sou amigo do rei Jaques

Lá tenho a mulher que eu quero

No colchão d’água que escolherei.

– Então, doutor, não é possível tentar um acordo?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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Mais um parto em viatura do Ronda

Por Orlando Nunes em Crônica

01 de Fevereiro de 2012

Toda candidato a celebridade quando entrevistado costuma fazer referência ao berço, às origens. Um ator, por exemplo, diz que nasceu praticamente num palco, um jogador de futebol nasceu no gramado, um jornalista nasceu dentro da redação. Pois estou bem otimista com essa ordem de coisas, um sinal animador de melhor segurança no futuro. Ultimamente tem nascido muita gente nos carros do Ronda do Quarteirão.

– E aí, capitão, e a vitória da categoria?

– Nasci numa Hilux.

Só os poetas amam de verdade

Drummond amava o Atlético, não, Drummond amava o Cruzeiro, não, Drummond amava Itabira, amava a poesia, na verdade, ela me ama, ela não me ama, ela me ama…

Jackson de Carvalho amava o Fortaleza de verdade.

Mas a poesia no gramado hoje é outra

Geraldo amava o Ceará que amava Guto

que amava o Fortaleza que amava Angelin que amava o Flamengo

que não amava ninguém

Geraldo foi para o Fortaleza, Guto vai para o Ceará

Angelim que ama demais faz jogos beneficentes no interior

Em contrapartida o Flamengo assedia Wagner Love com capital

que não tinha entrado na história.

Redação Física

“O ministro defende que a lei seja observada.” No meu tempo os juízes não defendiam que, costumeiramente eles defendiam a observação da lei.

“O encontro ocorrerá de 8h às 10h no ginásio poliesportivo da cidade.” Fique atento à estrutura correlativa (?) da crase, escreva, portanto, das… às…, ou seja, o encontro ocorrerá das 8h às 10h no ginásio poliesportivo da cidade.

O encontro durará (eta nóis!) de duas a três horas no ginásio poliesportivo da cidade. Nesta segunda estrutura, só temos preposições, de–a, e a referência não é mais às horas do relógio (existe outra?), mas à duração do tempo (falou um quilo…),

Se o amigo não entendeu nada, a culpa é da tia do seu colégio. Mas vou lhe oferecer uma nova oportunidade assim mesmo. Se alguém lhe perguntar que horas algo ocorreu, não se esqueça de dar paralelismo à sua resposta – artigo e preposição à esquerda e artigo e preposição à direita. O evento ocorreu DAS (de+as) 11h AO (a+o) meio-dia.

Logo, não me venha mais com essa história de DE 11h AO meio-dia, DE 9h ÀS 10h, ou você me deve um artigo. Por falar nisso, o de hoje acaba aqui.

Chega de crase por hoje. Seja bem-vindo G-10, boa sorte, Guto.

Até a próxima.

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S.O.S. Oscar

Por Orlando Nunes em Redação

01 de Fevereiro de 2012

Os revisores de texto (não os eletrônicos, que são obviamente limitadíssimos, mas os de carne e osso, bem mais resistentes a vírus e vacilos) têm emprego para mais um século.

Quer saber por quê? Digo-lhe: alguém tem uma ideia, leva essa ideia para o papel (o papel vai acabar antes do revisor), faz um grande trabalho, e tal, e vira, e mexe, mas tem que haver também um sujeito para fazer o trabalho sujo. Esse cara é o copidesque.

O cara que não é o cara. O copidesque não pode aparecer na história, se isso acontece é porque algo deu em merda. Explico: quando o revisor de texto não aparece é sinal de que tudo funcionou a contento. Nenhum leitor deu de cara, por exemplo, com um “c” ou “sc” quando deveria ter encontrado um “s” (compreensível); nenhum internauta deparou-se com um “c” ou “ç” no lugar de “ss” (idiossincrasia). Todos os acentos deram conta do recado, o agudo, o circunflexo, o grave. Não houve discordância quanto à concordância de um verbo ser ou haver que seja. Não houve conspirações contra a regência, mesmo que toda regência, por mais vitalícia que seja, seja sempre provisória.

Nada, nenhum boletim de ocorrência contra sequer uma dessas bobagens ortográficas ou de sintaxe, nem contra algo mais sério, feito fuga do tema ou total desprezo aos modalizadores do texto. Quando, enfim, ninguém recorre ao procurador Oscar Costa Filho para que ele acione a Justiça, quando nenhum redator deseja rever a redação do Enem, justiça seja feita: viva o revisor, e que ninguém perceba sua existência.

Para que serve um revisor senão para deixar em paz um redator? Aqui jaz um revisor.

Todo professor de redação do ensino médio deve alertar sua turma. Começa de maneira terna, para não estourar a boiada. Deve dizer algo como “Galera (e professor tem coragem de usar termo tão tosco?), tenho uma boa e uma má notícia”. E o docente apresenta logo a má notícia: “Até a prova do vestibular, não basta ser redator, tem de ser revisor”. É isso, e a boa notícia: “Só até a prova do Enem, depois, quando cada um de vocês voltar a ser uma pessoa normal, se resolver a escrever um livro (depois, é claro, de plantar uma árvore e de ter um filho, ou filha, PT, PC, não necessariamente nessa ordem ou partido), de ficção ou de fricção, pode ou deve contratar um revisor.

Mas (no vestibular) redator bota banca (examinadora). Não vou assistir o/ao Oscar.

Fui.

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S.O.S. Oscar

Por Orlando Nunes em Redação

01 de Fevereiro de 2012

Os revisores de texto (não os eletrônicos, que são obviamente limitadíssimos, mas os de carne e osso, bem mais resistentes a vírus e vacilos) têm emprego para mais um século.

Quer saber por quê? Digo-lhe: alguém tem uma ideia, leva essa ideia para o papel (o papel vai acabar antes do revisor), faz um grande trabalho, e tal, e vira, e mexe, mas tem que haver também um sujeito para fazer o trabalho sujo. Esse cara é o copidesque.

O cara que não é o cara. O copidesque não pode aparecer na história, se isso acontece é porque algo deu em merda. Explico: quando o revisor de texto não aparece é sinal de que tudo funcionou a contento. Nenhum leitor deu de cara, por exemplo, com um “c” ou “sc” quando deveria ter encontrado um “s” (compreensível); nenhum internauta deparou-se com um “c” ou “ç” no lugar de “ss” (idiossincrasia). Todos os acentos deram conta do recado, o agudo, o circunflexo, o grave. Não houve discordância quanto à concordância de um verbo ser ou haver que seja. Não houve conspirações contra a regência, mesmo que toda regência, por mais vitalícia que seja, seja sempre provisória.

Nada, nenhum boletim de ocorrência contra sequer uma dessas bobagens ortográficas ou de sintaxe, nem contra algo mais sério, feito fuga do tema ou total desprezo aos modalizadores do texto. Quando, enfim, ninguém recorre ao procurador Oscar Costa Filho para que ele acione a Justiça, quando nenhum redator deseja rever a redação do Enem, justiça seja feita: viva o revisor, e que ninguém perceba sua existência.

Para que serve um revisor senão para deixar em paz um redator? Aqui jaz um revisor.

Todo professor de redação do ensino médio deve alertar sua turma. Começa de maneira terna, para não estourar a boiada. Deve dizer algo como “Galera (e professor tem coragem de usar termo tão tosco?), tenho uma boa e uma má notícia”. E o docente apresenta logo a má notícia: “Até a prova do vestibular, não basta ser redator, tem de ser revisor”. É isso, e a boa notícia: “Só até a prova do Enem, depois, quando cada um de vocês voltar a ser uma pessoa normal, se resolver a escrever um livro (depois, é claro, de plantar uma árvore e de ter um filho, ou filha, PT, PC, não necessariamente nessa ordem ou partido), de ficção ou de fricção, pode ou deve contratar um revisor.

Mas (no vestibular) redator bota banca (examinadora). Não vou assistir o/ao Oscar.

Fui.