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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

concordância verbal

Um milhão atrai um verbo?

Por Orlando Nunes em Concordância verbal

24 de Fevereiro de 2016

(ILUSTRAÇÃO: Divulgação)

(ILUSTRAÇÃO: Divulgação)

Um milhão de mulheres participou OU participaram…”?

Quando a palavra “milhão” (núcleo do sujeito de uma frase) vem especificada por um termo no plural, ocorrem duas possibilidades de concordância verbal: verbo no singular, concordando com o núcleo singular, ou verbo no plural, concordando atrativamente com o especificador plural (termo mais próximo).

Passa a vista:

Mais de um milhão de mulheres participou da manifestação em todo o Brasil.”

Mais de um milhão de mulheres participaram da manifestação em todo o Brasil.”

Olho aberto:

E se, na frase acima, o verbo viesse antes do núcleo do sujeito (milhão), deveríamos empregar o singular ou o plural?

Veja só:

Participou (ou ‘Participaram’?) da manifestação, em todo o Brasil, mais de um milhão de mulheres.”

Recomenda-se aos redatores neste caso o emprego do verbo no singular. Por quê?

Primeiro: concordância lógica (gramatical): o verbo concorda com o núcleo do sujeito (‘milhão’, no caso).

Segundo: concordância atrativa (com o termo mais próximo): observe que, com a inversão dos termos da frase, o verbo (‘participar’, no caso) está mais próximo do núcleo do sujeito (milhão) que do termo especificador (‘de mulheres’).

Logo, “Participou da manifestação um milhão de mulheres…”.

marjangadeiro@gmail.com

Até!

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País pobre é país sem privada

Por Orlando Nunes em Concordância verbal

06 de Maio de 2014

A ira e o furor das arquibancadas vem matando o país do futebol.

Quando o sujeito composto é formado por núcleos sinônimos, ou quase sinônimos (sinônimos perfeitos, Pelé e Coutinho, são mitos), o verbo pode não se flexionar.

A ira e o furor vem matando
Tomamos os núcleos do sujeito composto (ira e furor) como sinônimos, e a locução verbal vem matando foi mantida em sua forma singular.

A estrutura de plural também seria possível:
A ira e o furor das arquibancadas vêm matando o país do futebol.
Note a marca plural no verbo auxiliar vêm (ele vem; eles vêm).

Qual a estrutura preferida nesse caso, verbo na forma singular ou plural? Várias gramáticas tradicionais (elas têm como referência textos de bons escritores) registram que a concordância preferencial é a que mantém o verbo sem flexão, no singular.

Mas país pobre é país sem privada

Tínhamos um futebol singular, como a concordância verbal de grandes escritores. Sobrou a fúria plural de micróbios torcedores.

A ira e o furor das arquibancadas vêm matando o país do futebol.

E “corre” pro mato, que o jogo é de campeonato. Uma merda!

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Concordância verbal contra sarampo

Por Orlando Nunes em Concordância verbal

08 de Fevereiro de 2014

Um milhão será ou serão investidos?

Milhão (assim como bilhão, trilhão) é um substantivo masculino singular. Desse modo, digo (ou escrevo) um milhão SERÁ investido.

 

Mas vamos “sofisticar” um pouco essa estrutura:

 

Um milhão de reais (SERÁ ou SERÃO) investido(s).

Nessa nova estrutura de frase, junto ao núcleo do sujeito (milhão), acrescentamos um termo especificador no plural (de reais). Assim, o verbo tanto pode concordar com o núcleo (no singular) como pode concordar com o especificador (no plural).

– Um milhão de reais será gasto na obra.

– Um milhão de reais serão gastos na obra.

 

Hora de aumentar o “nível de sofisticação” da estrutura sintática:

 

“Um milhão de crianças será vacinado”, certo? Tecnicamente (gramaticalmente), sim. Mas quem escreve é um redator ou um robô? Admitamos que seja um redator.

 

Um redator, sabendo que a concordância atrativa do verbo com o termo especificador também é correta nesse caso, pode (ou deve) optar por esta estrutura:

– Um milhão de crianças serão vacinadas.

 

Só dá robô

Observe esta nova estrutura: “Das crianças da cidade, um milhão será vacinado.

 

Percebeu o perigo de contágio? Colocaram o termo especificador plural no início da frase, depois o núcleo do sujeito (milhão) e, em seguida, o verbo. E agora, redator?

 

Possibilidade 1 – concordando com o núcleo (milhão):

“Das crianças da cidade, um milhão será vacinado.

 

Possibilidade 2 – concordância atrativa (com o termo mais próximo, portanto):

“Das crianças da cidade, um milhão será vacinado.

 

O núcleo do sujeito (milhão) também é o termo mais próximo do verbo. O termo especificador plural (de crianças) ficou distante do verbo. Logo, verbo no singular.

 

Moral da história: robô não pega sarampo, mas gente sim.

 

Dia D. O mais importante: crianças até cinco anos de idade devem ser vacinadas neste fim de semana contra o sarampo. Não há discordância verbal quanto a isso.

 

Estou no marjangadeiro@gmail.com

Até!

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Eu não fiquei com a japonesa

Por Orlando Nunes em Gramática, Ortografia

23 de Maio de 2012

Feliz com a participação dos leitores, resposta do blogueiro

a Jorge dos Santos, Parangaba, Fortaleza-CE.

O Jorge diz ter tido uma atroz discussão em casa com uma de suas irmãs (“a poliglota da família”) por causa da grafia “treiler” usada por ele numa redação escolar. “Minha irmã falou que tava errado. O certo é trailer, que é inglês. Mas eu sou brasileiro.”

Concordo com você, Jorge, e vou mais além: arranje aí na sua casa mesmo um acento circunflexo pra colocar em cima do primeiro “e” (trêiler), porque em bom português toda palavra paroxítona (a sílaba tônica é a penúltima) terminada em “r” deve ser acentuada graficamente. Eu também escrevo assim, mas já fui xingado por isso, e num português bem rasteiro. Ligue não, vá em frente, puxe o trêiler, a língua é nossa pátria.

a Silvânia Rodrigues, Monte Castelo, Fortaleza-CE.

A Silvânia manda e-mail dizendo-se “injuriada” com o português por causa da “falta de acordo nas gramáticas”. Para provar essa desunião gramatical, ela envia uma frase e duas opiniões relacionadas à correta concordância verbal colhidas em dois livros.

A frase: 10% da turma fará/farão novas provas.

A Silvânia leu numa gramática que nesses casos o verbo tem que ficar no singular, concordando com o substantivo singular. Noutra gramática leu, no tópico “concordância com percentuais”, que o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural. E agora? Termina o e-mail afirmando que “o inglês é muito mais fácil”.

Olhe, Silvânia, não há idioma fácil, todas as línguas são complexas, o português, o inglês, o francês. Tudo depende de até onde queremos chegar. Quando eu era criança, por exemplo, no século passado, prometi a mim mesmo que não morreria sem aprender japonês (na escola tinha uma oriental que me olhava com uns olhinhos indecifráveis).

Nunca aprenderei japonês, voltemos ao português.

10% da turma farão novas provas. O verbo no plural concorda com o núcleo do sujeito (10%). Essa concordância com o núcleo do sujeito é a primitiva, a original.

É possível igualmente a concordância com o termo periférico “da turma”, que também faz parte do sujeito. Nesse caso o verbo, naturalmente, estará no singular: 10% da turma fará novas provas. A maioria dos jornais brasileiros, por sinal, dá (ou dão) preferência pela concordância com o substantivo que vem após a porcentagem.

Não fique “injuriada” com a língua portuguesa, Silvânia. Eu não fiquei com a japonesa.

Dúvidas: marjangadeiro@gmail.com

Abraços.

 

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Eu não fiquei com a japonesa

Por Orlando Nunes em Gramática, Ortografia

23 de Maio de 2012

Feliz com a participação dos leitores, resposta do blogueiro

a Jorge dos Santos, Parangaba, Fortaleza-CE.

O Jorge diz ter tido uma atroz discussão em casa com uma de suas irmãs (“a poliglota da família”) por causa da grafia “treiler” usada por ele numa redação escolar. “Minha irmã falou que tava errado. O certo é trailer, que é inglês. Mas eu sou brasileiro.”

Concordo com você, Jorge, e vou mais além: arranje aí na sua casa mesmo um acento circunflexo pra colocar em cima do primeiro “e” (trêiler), porque em bom português toda palavra paroxítona (a sílaba tônica é a penúltima) terminada em “r” deve ser acentuada graficamente. Eu também escrevo assim, mas já fui xingado por isso, e num português bem rasteiro. Ligue não, vá em frente, puxe o trêiler, a língua é nossa pátria.

a Silvânia Rodrigues, Monte Castelo, Fortaleza-CE.

A Silvânia manda e-mail dizendo-se “injuriada” com o português por causa da “falta de acordo nas gramáticas”. Para provar essa desunião gramatical, ela envia uma frase e duas opiniões relacionadas à correta concordância verbal colhidas em dois livros.

A frase: 10% da turma fará/farão novas provas.

A Silvânia leu numa gramática que nesses casos o verbo tem que ficar no singular, concordando com o substantivo singular. Noutra gramática leu, no tópico “concordância com percentuais”, que o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural. E agora? Termina o e-mail afirmando que “o inglês é muito mais fácil”.

Olhe, Silvânia, não há idioma fácil, todas as línguas são complexas, o português, o inglês, o francês. Tudo depende de até onde queremos chegar. Quando eu era criança, por exemplo, no século passado, prometi a mim mesmo que não morreria sem aprender japonês (na escola tinha uma oriental que me olhava com uns olhinhos indecifráveis).

Nunca aprenderei japonês, voltemos ao português.

10% da turma farão novas provas. O verbo no plural concorda com o núcleo do sujeito (10%). Essa concordância com o núcleo do sujeito é a primitiva, a original.

É possível igualmente a concordância com o termo periférico “da turma”, que também faz parte do sujeito. Nesse caso o verbo, naturalmente, estará no singular: 10% da turma fará novas provas. A maioria dos jornais brasileiros, por sinal, dá (ou dão) preferência pela concordância com o substantivo que vem após a porcentagem.

Não fique “injuriada” com a língua portuguesa, Silvânia. Eu não fiquei com a japonesa.

Dúvidas: marjangadeiro@gmail.com

Abraços.