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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

dicionário

Quatro entradas para não deixar um ministério

Por Orlando Nunes em Crônica

21 de Março de 2015

Se alguém chamá-lo de achacador, você tem ao menos quatro motivos para não perder a calma e apenas dois para processar o mal-educado. Pois não é que, não se sabe bem por quais mistérios da ciência política, uns 300 senão 400 parlamentares foram se enredar justamente nos dois sentidos mais cabeludos do verbete achacar?

E outra: boato ou o Cid queria abandonar o bote?

Por que não se dirigiu aos parlamentares com mais molejo, algo assim:

Salve, salve, galera, blz? Pô, vossas excelências estão putos da vida por quê? Tempestade em copo d’água! Não consultam dicionários? Vejam a entrada 1 do verbete “achacar”, foi nesse sentido que me referi a vossas excelências num bate-papo esperto com a galerinha do Pará. Para com isso, gente boa, achacar é só “aborrecer”, todos nós achacamos alguém de vez em quando, ou não é assim?

ACHACAR

1 causar aborrecimento a; molestar, desagradar

Ex.: A insistência de 300 ou 400 parlamentares por mais diálogo entre Presidência da República e Câmara dos Deputados achacava a presidenta.

Camaradas, isso é motivo para pedirem minha cabeça? Chega a ser achacador.

Certo, certo, digamos que tenha alguém aqui na Casa ainda meio cabreiro, desconfiado de haver mais caroço nesse angu. E há. Mas igualmente insuficiente para tamanha revolta da parte de vossas excelências. Passem pela entrada dois:

2 apontar defeito em; censurar, tachar; acusar

Exs.: A maioria dos parlamentares achacava o trabalho da equipe econômica.

Alguém achacou o palavreado do ministro de suicida.

Então, excelências, há algo de podre aqui? Qualé, Cunha? Relaxa, bródi.

Ah, e tem mais: quem disse cobras e lagartos só porque não compareci à primeira  convocação desta acolhedora Casa certamente desconhece a entrada de número três:

3 ter achaques; adoecer

Ex.: O então ministro da Educação faltou à primeira convocação da Câmara porque se encontrava achacado em uma cama de hospital.

É por esta e por outras, excelências, que não vejo motivo algum para a disseminação do ódio interpartidário. Mas, se ainda assim querem mesmo que eu saia, o farei à moda antiga, e direi amanhã: “Fi-lo porque qui-lo”, não sem antes entrar de quatro:

4 dar como motivo; alegar, pretextar

Ex.: achacou inicialmente problemas de saúde para não comparecer à Câmara.

Eis que o chamaram de palhaço, e ele deixa o picadeiro sem uma palavra sequer para fechar de vez as duas últimas entradas disponíveis no excelentíssimo Houaiss:

5 roubar (alguém) com ameaças, com intimidação

6 Regionalismo: Brasil. Uso: informal.

extorquir dinheiro de (alguém) [para não prender, não multar etc.]

Inversão de valores:

Por que vedar as quatro primeiras entradas para achacadores? Como a política hoje anda meio de ponta-cabeça, suspeito que uns 300 ou 400 senhores deputados, achacados de achacadores, correram a galope alto ao pai dos burros.

Mas, estropiados, deram de cara com a porta dos fundos, a entrada seis. Ainda chegaram à entrada cinco, porém se enfezaram de vez com o ministro, cujas palavras sinceras não ultrapassaram a entrada quatro, afinal o homem é bem-educado.

Enfim, Cid não saiu pela porta dos fundos. Agora, se o ex-ministro resolver morar no exterior, isso pode definitivamente achacar seu incorrigível português.

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Quem manda é Teresa

Por Orlando Nunes em Dica

20 de dezembro de 2013

Chega dezembro, lá vem a pergunta: ano novo ou ano-novo?

Burro velho, vou ao nosso pai, o Dicionário. Não, vou aos dicionários (plural).

Pô! Um burro tem mais de um pai? Um burro é um filho duma égua! Elucubrações.

“Nossos pais’ têm várias entradas.

A primeira: ano-novo: ano entrante, ano que começa.

Então, se desejo a alguém “Feliz ano-novo, estou torcendo para que o ano que se inicia seja descomunal, coisa de jegue, um ano bem aloprado, de muita fartura e coisa e tal.

A segunda entrada: ano-novo: dia 1º de janeiro, ano-bom. Assim, ano-novo é também o dia da festa das Coleguinhas no Aterro da Praia de Iracema e do Chiclete no Marina.

Então, ano-novo é tudo! E ano novo não é nada?

Antes da missa do galo, vou dizer uma coisa. Gosto muito da explicação de uma professora chamada Teresa (ela tem um livro só de palavras compostas) que é taxativa: ano-novo é o réveillon; ano novo são os novos 12 meses no lombo.

Pois me decidi: neste e no próximo ano, quem manda é Teresa.

Até!

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Burrice ou parricídio

Por Orlando Nunes em Literatura

14 de Março de 2012

Os dicionários apenas registram palavras, não julgam o emprego dado a elas

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”
Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Desde a aldeia ficcional de Macondo à aldeia global de nossos dias, as coisas carecem de nome, e cada nome formado pode adquirir novos sentidos no decorrer do tempo.

Mas sempre vamos apontar com o dedo, mesmo quando desnecessário.

O patriarca José Arcadio Buendía não confiava na singularidade da palavra dos ciganos, muito embora o cigano Melquíades fosse um homem sábio e de palavra.

O procurador Cléber Eustáquio desconfia da pluralidade de sentidos das palavras de um lexicógrafo, muito embora o lexicógrafo Houaiss fosse um homem de muitas palavras.

Melquíades disse que a formidável lupa vendida ao patriarca dos Buendías não seria eficaz se usada como arma de guerra.

Mas José Arcadio desconfia de suas palavras

Houaiss disse que a formidável lupa de um lexicógrafo não seria eficaz, se ignorada fosse a diversidade de acepções de uma palavra.

E a limpeza de dicionários põe certas acepções sob o tapete.

Cem anos de solidão

O Ministério Público, em pleno século 21, não deveria se indispor contra o registro das diversas acepções de certos vocábulos presentes nos dicionários.

Dicionários não inventam nada, refletem apenas.

O que se pensa e se diz sobre ciganos (e sobre mais de duzentas mil palavras) não está no gibi. Que o diga o Houaiss, nosso maior e melhor dicionário, que não inventou nada.

E olhe que o maior de todos os dicionários não registra mais que um terço das palavras existentes, fabricadas pelo engenho contínuo dos falantes da língua portuguesa.

O polimento politicamente correto contra a “sujeira” dos dicionários é um lixo.

Um dicionário existe para registrar palavras e suas diversas acepções, colhidas não do gênio mais ou menos preconceituoso do dicionarista, mas de sua observação apurada dos variados empregos atribuídos pelos usuários do idioma ao longo do tempo.

Não se trata, portanto, da defesa deste ou daquele emprego, desta ou daquela acepção, mas apenas de seu registro, do registro do emprego observado em cem anos de solidão.

Censurar o dicionário Houaiss pelo registro de acepções politicamente incorretas

1 – é como censurar um compêndio da Medicina que registra a existência (apocalíptica?) de mil e uma bactérias imbatíveis (supervilões da espécie);

2 – é como censurar livros de História por registrar atrocidades praticadas pelos seres humanos (?) desde que o mundo é mundo;

3 – é como tapar o sol com uma peneira;

4 – é como proteger o leitor do conteúdo cortante dos livros, porque eles guardam os segredos e os pecados da terra (obscurantismo).

É pra ficar de quatro

Se um dicionário traz dez acepções de uma palavra, são dez usos observados, e não a defesa ou a prescrição de nenhum deles. Gritai isso, ó pai dos burros.

Cortar o Houaiss da prateleira: burrice ou parricídio?

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Burrice ou parricídio

Por Orlando Nunes em Literatura

14 de Março de 2012

Os dicionários apenas registram palavras, não julgam o emprego dado a elas

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”
Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Desde a aldeia ficcional de Macondo à aldeia global de nossos dias, as coisas carecem de nome, e cada nome formado pode adquirir novos sentidos no decorrer do tempo.

Mas sempre vamos apontar com o dedo, mesmo quando desnecessário.

O patriarca José Arcadio Buendía não confiava na singularidade da palavra dos ciganos, muito embora o cigano Melquíades fosse um homem sábio e de palavra.

O procurador Cléber Eustáquio desconfia da pluralidade de sentidos das palavras de um lexicógrafo, muito embora o lexicógrafo Houaiss fosse um homem de muitas palavras.

Melquíades disse que a formidável lupa vendida ao patriarca dos Buendías não seria eficaz se usada como arma de guerra.

Mas José Arcadio desconfia de suas palavras

Houaiss disse que a formidável lupa de um lexicógrafo não seria eficaz, se ignorada fosse a diversidade de acepções de uma palavra.

E a limpeza de dicionários põe certas acepções sob o tapete.

Cem anos de solidão

O Ministério Público, em pleno século 21, não deveria se indispor contra o registro das diversas acepções de certos vocábulos presentes nos dicionários.

Dicionários não inventam nada, refletem apenas.

O que se pensa e se diz sobre ciganos (e sobre mais de duzentas mil palavras) não está no gibi. Que o diga o Houaiss, nosso maior e melhor dicionário, que não inventou nada.

E olhe que o maior de todos os dicionários não registra mais que um terço das palavras existentes, fabricadas pelo engenho contínuo dos falantes da língua portuguesa.

O polimento politicamente correto contra a “sujeira” dos dicionários é um lixo.

Um dicionário existe para registrar palavras e suas diversas acepções, colhidas não do gênio mais ou menos preconceituoso do dicionarista, mas de sua observação apurada dos variados empregos atribuídos pelos usuários do idioma ao longo do tempo.

Não se trata, portanto, da defesa deste ou daquele emprego, desta ou daquela acepção, mas apenas de seu registro, do registro do emprego observado em cem anos de solidão.

Censurar o dicionário Houaiss pelo registro de acepções politicamente incorretas

1 – é como censurar um compêndio da Medicina que registra a existência (apocalíptica?) de mil e uma bactérias imbatíveis (supervilões da espécie);

2 – é como censurar livros de História por registrar atrocidades praticadas pelos seres humanos (?) desde que o mundo é mundo;

3 – é como tapar o sol com uma peneira;

4 – é como proteger o leitor do conteúdo cortante dos livros, porque eles guardam os segredos e os pecados da terra (obscurantismo).

É pra ficar de quatro

Se um dicionário traz dez acepções de uma palavra, são dez usos observados, e não a defesa ou a prescrição de nenhum deles. Gritai isso, ó pai dos burros.

Cortar o Houaiss da prateleira: burrice ou parricídio?