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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Houaiss

“É uma situação delicada, inclusive perigosa”.

Por Orlando Nunes em Gramática

01 de Março de 2013

Houve um tempo em que era proibido o emprego do vocábulo “inclusive” fora de seu sentido pra lá de específico. Aquele que infringisse a “lei” seria punido com, no mínimo, uma semana sem lanche na escola – a pão e água somente, sem direito a manteiga ou margarina, naturalmente.

Rezava a lei: inclusive equivale a incluindo, e não a “até” ou “até mesmo”.

Traduzindo a norma em linguagem corrente, se o desafortunado redator estivesse esculpindo sua prosa em escrita culta e, de repente, mandasse para o papel um tentador “inclusive”, era chegada a hora de botar as barbas de molho, ou “de ficar esperto”, como diríamos hoje (mais viva é a língua).

O escriba deveria, portanto, fazer o seguinte teste: o “inclusive”, no contexto em que foi empregado, equivale a “incluindo”? Se sim, a merenda estava assegurada.

Vejamos:

“Declarou todo o seu patrimônio, inclusive os sete palmos de terra no Parque da Paz”.

Bem bacana. Veja o leitor que, no caso acima, o afortunado declarante utiliza um “inclusive” perfeitamente permutável por “incluindo”: “Declarou todo o seu patrimônio, incluindo os sete palmos de terra no Parque da Paz”.

Agora abra bem os olhos para esta nova estrutura:

“Ele não abriu a boca, inclusive abriu mão de um advogado”.

Percebeu que, aqui, meu caro, o “inclusive” não equivale a um “incluindo”? Tentemos, todavia: “Ele não abriu a boca, incluindo abriu mão de um advogado”. Não ficou legal.

É que esse “inclusive” vale por um “até”, um “até mesmo”. Veja: “Ele não abriu a boca, até mesmo abriu mão de um advogado”. Melhorou muito, não há como negar.

Pois, pois. Assim era no princípio: ou o “inclusive” tinha o valor semântico de “incluindo”, ou estaria vetado. Mas e agora, José, e hoje em dia, como vão as coisas?

As coisas mudaram um pouquinho, não muito.

Se boa parte das Gramáticas Normativas ainda toca a velha toada (concurso público adora essa pegadinha), há também muita gente boa que escuta encantada o canto popular e valioso das massas. A voz do povo é a voz de Deus, a voz de nossa língua.

É um fato linguístico: “inclusive” equivale (também) a “até”, “até mesmo”. Dois graúdos do idioma o comprovam: Domingos Paschoal Cegalla e Antônio Houaiss.

Um exemplo do segundo:

“É uma situação delicada, inclusive perigosa”.

Esse “inclusive” do Houaiss vale por um bom “até”.

Até, meus amigos! Estou no marjangadeiro@gmail.com

 

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Burrice ou parricídio

Por Orlando Nunes em Literatura

14 de Março de 2012

Os dicionários apenas registram palavras, não julgam o emprego dado a elas

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”
Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Desde a aldeia ficcional de Macondo à aldeia global de nossos dias, as coisas carecem de nome, e cada nome formado pode adquirir novos sentidos no decorrer do tempo.

Mas sempre vamos apontar com o dedo, mesmo quando desnecessário.

O patriarca José Arcadio Buendía não confiava na singularidade da palavra dos ciganos, muito embora o cigano Melquíades fosse um homem sábio e de palavra.

O procurador Cléber Eustáquio desconfia da pluralidade de sentidos das palavras de um lexicógrafo, muito embora o lexicógrafo Houaiss fosse um homem de muitas palavras.

Melquíades disse que a formidável lupa vendida ao patriarca dos Buendías não seria eficaz se usada como arma de guerra.

Mas José Arcadio desconfia de suas palavras

Houaiss disse que a formidável lupa de um lexicógrafo não seria eficaz, se ignorada fosse a diversidade de acepções de uma palavra.

E a limpeza de dicionários põe certas acepções sob o tapete.

Cem anos de solidão

O Ministério Público, em pleno século 21, não deveria se indispor contra o registro das diversas acepções de certos vocábulos presentes nos dicionários.

Dicionários não inventam nada, refletem apenas.

O que se pensa e se diz sobre ciganos (e sobre mais de duzentas mil palavras) não está no gibi. Que o diga o Houaiss, nosso maior e melhor dicionário, que não inventou nada.

E olhe que o maior de todos os dicionários não registra mais que um terço das palavras existentes, fabricadas pelo engenho contínuo dos falantes da língua portuguesa.

O polimento politicamente correto contra a “sujeira” dos dicionários é um lixo.

Um dicionário existe para registrar palavras e suas diversas acepções, colhidas não do gênio mais ou menos preconceituoso do dicionarista, mas de sua observação apurada dos variados empregos atribuídos pelos usuários do idioma ao longo do tempo.

Não se trata, portanto, da defesa deste ou daquele emprego, desta ou daquela acepção, mas apenas de seu registro, do registro do emprego observado em cem anos de solidão.

Censurar o dicionário Houaiss pelo registro de acepções politicamente incorretas

1 – é como censurar um compêndio da Medicina que registra a existência (apocalíptica?) de mil e uma bactérias imbatíveis (supervilões da espécie);

2 – é como censurar livros de História por registrar atrocidades praticadas pelos seres humanos (?) desde que o mundo é mundo;

3 – é como tapar o sol com uma peneira;

4 – é como proteger o leitor do conteúdo cortante dos livros, porque eles guardam os segredos e os pecados da terra (obscurantismo).

É pra ficar de quatro

Se um dicionário traz dez acepções de uma palavra, são dez usos observados, e não a defesa ou a prescrição de nenhum deles. Gritai isso, ó pai dos burros.

Cortar o Houaiss da prateleira: burrice ou parricídio?

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Burrice ou parricídio

Por Orlando Nunes em Literatura

14 de Março de 2012

Os dicionários apenas registram palavras, não julgam o emprego dado a elas

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”
Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Desde a aldeia ficcional de Macondo à aldeia global de nossos dias, as coisas carecem de nome, e cada nome formado pode adquirir novos sentidos no decorrer do tempo.

Mas sempre vamos apontar com o dedo, mesmo quando desnecessário.

O patriarca José Arcadio Buendía não confiava na singularidade da palavra dos ciganos, muito embora o cigano Melquíades fosse um homem sábio e de palavra.

O procurador Cléber Eustáquio desconfia da pluralidade de sentidos das palavras de um lexicógrafo, muito embora o lexicógrafo Houaiss fosse um homem de muitas palavras.

Melquíades disse que a formidável lupa vendida ao patriarca dos Buendías não seria eficaz se usada como arma de guerra.

Mas José Arcadio desconfia de suas palavras

Houaiss disse que a formidável lupa de um lexicógrafo não seria eficaz, se ignorada fosse a diversidade de acepções de uma palavra.

E a limpeza de dicionários põe certas acepções sob o tapete.

Cem anos de solidão

O Ministério Público, em pleno século 21, não deveria se indispor contra o registro das diversas acepções de certos vocábulos presentes nos dicionários.

Dicionários não inventam nada, refletem apenas.

O que se pensa e se diz sobre ciganos (e sobre mais de duzentas mil palavras) não está no gibi. Que o diga o Houaiss, nosso maior e melhor dicionário, que não inventou nada.

E olhe que o maior de todos os dicionários não registra mais que um terço das palavras existentes, fabricadas pelo engenho contínuo dos falantes da língua portuguesa.

O polimento politicamente correto contra a “sujeira” dos dicionários é um lixo.

Um dicionário existe para registrar palavras e suas diversas acepções, colhidas não do gênio mais ou menos preconceituoso do dicionarista, mas de sua observação apurada dos variados empregos atribuídos pelos usuários do idioma ao longo do tempo.

Não se trata, portanto, da defesa deste ou daquele emprego, desta ou daquela acepção, mas apenas de seu registro, do registro do emprego observado em cem anos de solidão.

Censurar o dicionário Houaiss pelo registro de acepções politicamente incorretas

1 – é como censurar um compêndio da Medicina que registra a existência (apocalíptica?) de mil e uma bactérias imbatíveis (supervilões da espécie);

2 – é como censurar livros de História por registrar atrocidades praticadas pelos seres humanos (?) desde que o mundo é mundo;

3 – é como tapar o sol com uma peneira;

4 – é como proteger o leitor do conteúdo cortante dos livros, porque eles guardam os segredos e os pecados da terra (obscurantismo).

É pra ficar de quatro

Se um dicionário traz dez acepções de uma palavra, são dez usos observados, e não a defesa ou a prescrição de nenhum deles. Gritai isso, ó pai dos burros.

Cortar o Houaiss da prateleira: burrice ou parricídio?