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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

pé de moleque

O hífen, a água-de-colônia e o periquito-da-madame

Por Orlando Nunes em Ortografia

14 de Janeiro de 2013

Luís Eduardo P., Fortaleza (CE) manda mensagem para o marjangadeiro@gmail.com. Ele quer saber por que os dicionários atualizados pela nova reforma ortográfica registram água de cheiro, sem hífen, mas água-de-colônia, com o tracinho de união.

“Algo a ver com odor?”, ironiza, com um sorriso exagerado de linha inteira de “rs”.

Caro Luís, esta reforma é um verdadeiro deus nos acuda, que também perdeu o hífen, e não cheira bem, apesar da água-de-colônia (a água de cheiro, agora sem os hifens, que o diga).

A resposta (como se ela fosse possível):

Em princípio, todos os compostos formados com mais de dois vocábulos perderam os hifens (onde eles estarão metidos agora, meu Deus?): o pé de moleque, o pôr do sol, o dia a dia, etc.

Escaparam da caça, da pesca e da poda, todavia, compostos formados por mais de dois vocábulos que designam espécies zoológicas ou botânicas: mico-leão-dourado, peixe-do-mato, cana-de-açúcar, copo-de-leite (a planta) e até o periquito-da-madame (uma ave migratória comedora de milho que abundava nos antigos pré-carnavais cearenses, hoje extinta, creio).

Mas os reformistas se basearam numa pretensa tradição de uso para não mexer num grupo de palavras que mantiveram firme e forte (ainda se usa essa expressão?!) o tracinho de união:

arco-da-velha, pé-de-meia, mais-que-perfeito, cor-de-rosa, à queima-roupa, ao deus-dará.

Como os reformistas suspeitaram que isso não ia cheirar bem, decidiram manter no rol das imexíveis a tradicional água-de-colônia (contudo, os hifens de água de cheiro foram pro ralo).

Agora no réveillon 2012 a presidente Dilma, senhora sensata, deu à comissão responsável pela reforma mais três anos para lamber a cria – quem sabe, dar uma nova feição ao Frankenstein.

Todos as tardes os reformistas reúnem-se para, num bate-papo ao pôr do sol, tomar água de coco e comer pão de ló – todos sem hifens e sem-vergonhas. Enquanto isso, vamos todos tomar chá de cadeira até 2016 na esperança de alguma coisa mudar. Que saudade de 1943!

Em todo caso, sorria, afinal a reforma foi a melhor piada de português de todos os tempos.

Abraço.

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O hífen, a água-de-colônia e o periquito-da-madame

Por Orlando Nunes em Ortografia

14 de Janeiro de 2013

Luís Eduardo P., Fortaleza (CE) manda mensagem para o marjangadeiro@gmail.com. Ele quer saber por que os dicionários atualizados pela nova reforma ortográfica registram água de cheiro, sem hífen, mas água-de-colônia, com o tracinho de união.

“Algo a ver com odor?”, ironiza, com um sorriso exagerado de linha inteira de “rs”.

Caro Luís, esta reforma é um verdadeiro deus nos acuda, que também perdeu o hífen, e não cheira bem, apesar da água-de-colônia (a água de cheiro, agora sem os hifens, que o diga).

A resposta (como se ela fosse possível):

Em princípio, todos os compostos formados com mais de dois vocábulos perderam os hifens (onde eles estarão metidos agora, meu Deus?): o pé de moleque, o pôr do sol, o dia a dia, etc.

Escaparam da caça, da pesca e da poda, todavia, compostos formados por mais de dois vocábulos que designam espécies zoológicas ou botânicas: mico-leão-dourado, peixe-do-mato, cana-de-açúcar, copo-de-leite (a planta) e até o periquito-da-madame (uma ave migratória comedora de milho que abundava nos antigos pré-carnavais cearenses, hoje extinta, creio).

Mas os reformistas se basearam numa pretensa tradição de uso para não mexer num grupo de palavras que mantiveram firme e forte (ainda se usa essa expressão?!) o tracinho de união:

arco-da-velha, pé-de-meia, mais-que-perfeito, cor-de-rosa, à queima-roupa, ao deus-dará.

Como os reformistas suspeitaram que isso não ia cheirar bem, decidiram manter no rol das imexíveis a tradicional água-de-colônia (contudo, os hifens de água de cheiro foram pro ralo).

Agora no réveillon 2012 a presidente Dilma, senhora sensata, deu à comissão responsável pela reforma mais três anos para lamber a cria – quem sabe, dar uma nova feição ao Frankenstein.

Todos as tardes os reformistas reúnem-se para, num bate-papo ao pôr do sol, tomar água de coco e comer pão de ló – todos sem hifens e sem-vergonhas. Enquanto isso, vamos todos tomar chá de cadeira até 2016 na esperança de alguma coisa mudar. Que saudade de 1943!

Em todo caso, sorria, afinal a reforma foi a melhor piada de português de todos os tempos.

Abraço.