Breve biografia da lágrima - Ouvi Dizer 
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Ouvi Dizer

por Michele Boroh

Breve biografia da lágrima

Por Michele Boroh em Crônica

11 de julho de 2016

Por dever e admiração tenho profundo respeito pelo saber científico, mas sem nunca permitir, como tão comum a tantos racionalistas-puristas, que isso feche a minha janela para o saber poético e místico. Pelo contrário! Quantas vezes deixo a verdade técnica de lado para admitir a verdade da poesia!

Como a que brota das crianças, por exemplo, especialmente das ainda bem pequenas, com o vocabulário em formação, mas de afirmações desconcertantemente bonitas e profundas e que vêm não-sabemos-de-onde!

E assim fez o Noah ontem, meu sobrinho-afilhado de apenas 3 anos, ao surgir do corredor onde guardamos alguns artigos de despensa. Sem qualquer contexto prévio, ele interrompeu nossa conversa na sala para dizer – com toda a segurança de quem realmente sabe – que:

Os cocos são feitos de lágrimas!

Silêncio-para-digerir. Logo depois, claro, tentei arrancar mais algumas informações e entender completamente como as lágrimas vão parar dentro do coco. Nada. A cada pergunta ele só balançava a cabeça em negativa e repetia que os-cocos-são-feitos-de-lágrimas. Um perfeito poeta e provocador filosófico que só diz e deixa o trabalho de remoer e compreender para quem ouve. Se vira! E foi o que fiz.

Seriam mesmo as nossas lágrimas magicamente transportadas para dentro dos cocos? Mas então não haveria poucos coqueiros no mundo?! Neste em que vivemos a proporção de lágrimas derramadas e coqueiros existentes é absurdamente incompatível! E, como todos nós já saboreamos, até mesmo as lágrimas de felicidade são salgadas. Hipótese descartada.

Seriam então as lágrimas que derramamos sem que ninguém saiba ou veja? Teria o nosso travesseiro alguma conexão insuspeita com os coqueiros?! Pouco provável! E, como também bem sabemos, as lágrimas choradas em segredo são ainda mais salgadas que as primeiras. Hipótese descartada.

Seriam então as lágrimas que guardamos? Aquelas que seguramos enquanto o queixo treme e a garganta trava?! Não, definitivamente! Essas são demasiadamente amargas. Hipótese descartada.

Qual seria então a explicação?! Eu sei que o Noah está certo! Recuso a resposta do livro de ciências! Não posso e não vou desistir de compreender essa revelação que ele trouxe de um lugar (ainda) secreto! Mas qual é a opção que ainda resta?!

E então um clarão! É isso! É isso! Tão óbvio! Os cocos são feitos mesmo de lágrimas!

Aquelas que evitamos! Aquelas da dor e da tristeza que não causamos! É isso: a água do coco são as lágrimas que não provocamos no outro.

Por isso é doce.

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Breve biografia da lágrima

Por Michele Boroh em Crônica

11 de julho de 2016

Por dever e admiração tenho profundo respeito pelo saber científico, mas sem nunca permitir, como tão comum a tantos racionalistas-puristas, que isso feche a minha janela para o saber poético e místico. Pelo contrário! Quantas vezes deixo a verdade técnica de lado para admitir a verdade da poesia!

Como a que brota das crianças, por exemplo, especialmente das ainda bem pequenas, com o vocabulário em formação, mas de afirmações desconcertantemente bonitas e profundas e que vêm não-sabemos-de-onde!

E assim fez o Noah ontem, meu sobrinho-afilhado de apenas 3 anos, ao surgir do corredor onde guardamos alguns artigos de despensa. Sem qualquer contexto prévio, ele interrompeu nossa conversa na sala para dizer – com toda a segurança de quem realmente sabe – que:

Os cocos são feitos de lágrimas!

Silêncio-para-digerir. Logo depois, claro, tentei arrancar mais algumas informações e entender completamente como as lágrimas vão parar dentro do coco. Nada. A cada pergunta ele só balançava a cabeça em negativa e repetia que os-cocos-são-feitos-de-lágrimas. Um perfeito poeta e provocador filosófico que só diz e deixa o trabalho de remoer e compreender para quem ouve. Se vira! E foi o que fiz.

Seriam mesmo as nossas lágrimas magicamente transportadas para dentro dos cocos? Mas então não haveria poucos coqueiros no mundo?! Neste em que vivemos a proporção de lágrimas derramadas e coqueiros existentes é absurdamente incompatível! E, como todos nós já saboreamos, até mesmo as lágrimas de felicidade são salgadas. Hipótese descartada.

Seriam então as lágrimas que derramamos sem que ninguém saiba ou veja? Teria o nosso travesseiro alguma conexão insuspeita com os coqueiros?! Pouco provável! E, como também bem sabemos, as lágrimas choradas em segredo são ainda mais salgadas que as primeiras. Hipótese descartada.

Seriam então as lágrimas que guardamos? Aquelas que seguramos enquanto o queixo treme e a garganta trava?! Não, definitivamente! Essas são demasiadamente amargas. Hipótese descartada.

Qual seria então a explicação?! Eu sei que o Noah está certo! Recuso a resposta do livro de ciências! Não posso e não vou desistir de compreender essa revelação que ele trouxe de um lugar (ainda) secreto! Mas qual é a opção que ainda resta?!

E então um clarão! É isso! É isso! Tão óbvio! Os cocos são feitos mesmo de lágrimas!

Aquelas que evitamos! Aquelas da dor e da tristeza que não causamos! É isso: a água do coco são as lágrimas que não provocamos no outro.

Por isso é doce.