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Ouvi Dizer

por Michele Boroh

entrevista

Eu não valho nada

Por Michele Boroh em Crônica

18 de junho de 2015

Eu queria saber se ele aceitava ser um dos personagens de uma série de matérias com grandes figuras da nossa cidade. Seria uma conversa informal sobre como sua trajetória e empreendimentos foram incorporados ao patrimônio cultural, social e afetivo da região. Agradeceu, lisonjeado, mas condicionou sua resposta a uma única questão: ‘Quanto eu vou ter que pagar por isso?

Sorri, habituada – mas nunca conformada – com a pergunta. “Se a matéria é ‘elogiosa’, certamente me trará benefícios e, se trará benefícios, certamente tem um custo” é a conclusão comum entre diversos convidados. A minha resposta também é sempre a mesma: obviamente haverá um custo! O tempo que você vai reservar para a nossa equipe. Solamente.

Para uma jornalista por vocação é triste ter que conviver com essa interpretação da profissão, mas é compreensível. É só mais uma face do monstro monetizador da vida. Anda valendo para (quase) tudo.

Ninguém consegue me convencer, por exemplo – e nunca conseguirá, aviso! – de que existe muita dignidade em promover uma infinidade (crescente) de chás em causa própria. Chá de casa nova, chá de fralda, chá de lingerie. Chá de lin-ge-rie! Cadê os promotores do Chá de Semancol?! Acode!

Socorre também os principais convidados de uma casamento, aqueles que têm maior ligação com o casal e que – misericórdia máxima! – por isso mesmo, serão os responsáveis pelos mais caros presentes. Pobres padrinhos! Quem tentará defender essa indefensável precificação do afeto?!

Mais: quem ousará justificar a injustificável monetização do sofrimento?! Tristeza com cifras, haja piedade! Como alguém escolhe, por exemplo, manter-se infeliz por anos num emprego apenas pela expectativa de uma rescisão?!

Os exemplos, infelizmente, são diversos. Escolhi somente três – além daquele que faz parte da rotina da minha função – para ser sucinta, mas levando em conta também a força com que estão entranhados na rotina de todos. Tão entranhados que são tidos como naturais.

A mesma naturalidade com que alguns já questionaram o quanto eu recebo por escrever aqui no Tribuna e por manter o meu blog de literatura. Respondo, naturalmente, que obviamente há ganhos. Compartilhamentos, elogios carinhosos e críticas construtivas no Tribuna. Interações, troca de experiências literárias e o incentivo à leitura no Melhor de Duas. Solamente.

Mantenho os dois por vocação e paixão. Pura realização pessoal! Não recebo nada, nunca ganhei qualquer centavo! Quando o assunto é a minha felicidade e tudo o que pode me fazer bem, eu não valho nada.

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Clichê de bônus

Por Michele Boroh em Conto

29 de Maio de 2015

O apresentador, relendo as perguntas previamente combinadas, preparava o ego e o estômago para mais uma sessão de ignorância fingida e intencional – o ônus necessário da função – a fim de antecipar e apoiar a ignorância da audiência sobre a pauta do dia.

Começou com o clichê – tão fundamental para o saber quanto a simulação de desconhecimento de um entrevistador, tão injustamente diminuído e desqualificado na sua importância, tão usado como sinônimo de demérito, como se um ‘mas isso é tão clichê!’ anulasse o seu verdadeiro valor quando, na verdade, deveria provocar exatamente o sentimento oposto pois, se virou clichê é porque é, definitivamente, e-le-men-tar, caros e caras!

Pensava nisso pela milésima vez, enquanto empurrava a pergunta clichezada boca afora:

– Qual foi a sua inspiração?

Orgulhosa desde o convite e com a vaidade renovada pela caprichada apresentação de abertura – Ela é jovem, bonita, herdeira de uma das famílias mais ricas da região e ainda encontra tempo para desenvolver um projeto social em Fortaleza! E é para falar sobre esse lindo trabalho que ela está aqui! Com vocês… – a Magnânima não titubeou na resposta:

A pobreza da Índia me tocou profundamente!

O apresentador precisou segurar o queixo, a gargalhada e todas as possíveis reações do corpo e do espírito em mais uma demonstração de domínio exemplar deste também outro ônus da profissão. Em contraste, a Magnânima sentiu-se autorizada a jorrar o verbo e contou tudo, tudinho, sobre aquela sua aventura exótica oriental.

– Eu fui a procura de uma experiência transcendental, reveladora – e dá-lhe verbo… – a energia daquele lugar é inexplicável, enebriante, de uma potência estratosférica – e corre o verbo… – acabei comprando uma propriedade na Indonésia, que é logo ali ao lado, aprendi um dialeto local suuuper difícil, acabei convidando também o meu marido, que tem negócios na Ásia, a passar uns dias comigo por lá, acho importante essa convivência – e haja verbo!… – e no meio disso tudo eu fiquei muito chocada com a miséria daquele povo, as crianças pedintes nos abordando na saída do hotel, você acredita?! Um absurdo! A pobreza da Índia foi a minha inspiração!

Salvo pelo bip do cronômetro acusando que o tempo da entrevista fora totalmente consumido pela verborragia da mais recente Mahatma, ele evitou a própria demissão – mas também uma possível glória pessoal – ao ter que relegar para a própria consciência uma das perguntas reformuladas durante o monólogo da convidada.

– Vossa Santíssima já ouviu falar, por um acasinho, em Rosalina, Pau Finim, Papouco?

Só poderia torcer agora – balbuciando até um mantra! – que a audiência também formulasse aquela mesma pergunta que ele tão sofregamente foi obrigado a abandonar no cosmos.

Seria um bônus!

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Clichê de bônus

Por Michele Boroh em Conto

29 de Maio de 2015

O apresentador, relendo as perguntas previamente combinadas, preparava o ego e o estômago para mais uma sessão de ignorância fingida e intencional – o ônus necessário da função – a fim de antecipar e apoiar a ignorância da audiência sobre a pauta do dia.

Começou com o clichê – tão fundamental para o saber quanto a simulação de desconhecimento de um entrevistador, tão injustamente diminuído e desqualificado na sua importância, tão usado como sinônimo de demérito, como se um ‘mas isso é tão clichê!’ anulasse o seu verdadeiro valor quando, na verdade, deveria provocar exatamente o sentimento oposto pois, se virou clichê é porque é, definitivamente, e-le-men-tar, caros e caras!

Pensava nisso pela milésima vez, enquanto empurrava a pergunta clichezada boca afora:

– Qual foi a sua inspiração?

Orgulhosa desde o convite e com a vaidade renovada pela caprichada apresentação de abertura – Ela é jovem, bonita, herdeira de uma das famílias mais ricas da região e ainda encontra tempo para desenvolver um projeto social em Fortaleza! E é para falar sobre esse lindo trabalho que ela está aqui! Com vocês… – a Magnânima não titubeou na resposta:

A pobreza da Índia me tocou profundamente!

O apresentador precisou segurar o queixo, a gargalhada e todas as possíveis reações do corpo e do espírito em mais uma demonstração de domínio exemplar deste também outro ônus da profissão. Em contraste, a Magnânima sentiu-se autorizada a jorrar o verbo e contou tudo, tudinho, sobre aquela sua aventura exótica oriental.

– Eu fui a procura de uma experiência transcendental, reveladora – e dá-lhe verbo… – a energia daquele lugar é inexplicável, enebriante, de uma potência estratosférica – e corre o verbo… – acabei comprando uma propriedade na Indonésia, que é logo ali ao lado, aprendi um dialeto local suuuper difícil, acabei convidando também o meu marido, que tem negócios na Ásia, a passar uns dias comigo por lá, acho importante essa convivência – e haja verbo!… – e no meio disso tudo eu fiquei muito chocada com a miséria daquele povo, as crianças pedintes nos abordando na saída do hotel, você acredita?! Um absurdo! A pobreza da Índia foi a minha inspiração!

Salvo pelo bip do cronômetro acusando que o tempo da entrevista fora totalmente consumido pela verborragia da mais recente Mahatma, ele evitou a própria demissão – mas também uma possível glória pessoal – ao ter que relegar para a própria consciência uma das perguntas reformuladas durante o monólogo da convidada.

– Vossa Santíssima já ouviu falar, por um acasinho, em Rosalina, Pau Finim, Papouco?

Só poderia torcer agora – balbuciando até um mantra! – que a audiência também formulasse aquela mesma pergunta que ele tão sofregamente foi obrigado a abandonar no cosmos.

Seria um bônus!