Crítica: "1917" é uma experiência imersiva deslumbrante! 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “1917” é uma experiência imersiva deslumbrante!

Por Thiago Sampaio em Crítica

29 de Janeiro de 2020

Foto: Divulgação

A temática guerra sempre teve espaço no cinema e o Oscar adora valorizar tais produções. Apesar da Segunda Guerra Mundial já ter sido bastante retratada, a primeira foi bem menos (um dos melhores exemplares é “Gallipoli”, 1981, de Peter Weir), até mesmo pela dificuldade de encontrar materiais históricos para pesquisa. Eis que “1917” (idem, 2019) venceu o Globo de Ouro quando sequer havia estreado nos Estados Unidos e desponta como favorito ao principal prêmio da Academia. Compreensível por apresentar um contexto de fácil apreciação, construído pelo diretor Sam Mendes (“Beleza Americana”, 1999; “007 – Operação Skyfall”, 2012) com técnica e estética deslumbrantes!

Na trama, os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial encarregados de uma missão urgente. Eles precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão.

O longa tem sido bastante propagado por ser rodado como um “longo plano sequência”, como se não houvessem cortes entre as cenas. Obviamente isso seria quase impossível de ser realizado, ainda que existam juras de que “Arca Russa” (Russian Ark, 2002) tenha sido filmado num take só, dentre outras obras menos conhecidas. Disfarçar tais cortes com o intuito de instigar o desenvolvimento não é um artifício novo, algo que Alfred Hitchcock fez lá em “Festim Diabólico” (Hope, 1948) e, recentemente, Alejandro G. Iñárritu testou em “O Regresso” (The Revenant, 2015). “1917” faz isso, mas com uma audácia maior. E bem sucedida.

Na real, a proposta do longa não é se vender desta maneira, apesar de se beneficiar de tal propaganda. Para quem gosta de prestar atenção nos detalhes técnicos, os cortes são até fáceis de serem percebidos (o que pode causar uma certa distração para quem repara nisso), utilizando detalhes mais discretos como pedras ou figurantes de passagem, até momentos mais explícitos, como o apagar de luz ao entrar num ambiente fechado e, num momento descarado, nem tenta maquiar nada quando a tela se apaga para simbolizar o que acontece com a visão do protagonista. Nada disso tiro o brilho do projeto, cuja premissa de a câmera acompanhar cada passo do personagem funciona ao imprimir ritmo à narrativa.

Logo de início quando a dupla principal caminha no próprio território, o clima já é trabalhado para o espectador, atenuando a imersão quando a ação se inicia de fato, colocando quem assiste no lugar daqueles que estão em situações de extremo perigo, quase “em tempo real”. E Sam Mendes conduz muitas sequências bastante eficientes, como a da ponte, o primeiro embate noturno, o mergulho na cachoeira e, finalmente, a correria do clímax. Tudo fora ensaiado aos mínimos detalhes e muitas tomadas foram, de fato, bem prolongadas, tornando a experiência admirável e, sim, tensa.

Mas se tem um nome que merece os créditos para aprofundar tal imersão é o diretor de fotografia Roger Deakins (que depois de 14 indicações, finalmente recebeu o Oscar, por “Blade Runner 2049″, 2017). Cada plano é de uma beleza ímpar. Enquanto os planos fechados nos personagens captam o medo neles existente, os planos abertos com imensos gramados verdes captam o gigante caminho pelo qual eles terão que percorrer (sempre preenchidos por cadáveres de humanos e animais já em decomposição, transmitindo agonia). Quando um certo território está em chamas, abusa da contraluz para mostrar o mocinho em busca da própria sobrevivência. E é admirável tamanha delicadeza ao utilizar a cor branca, da esperança, justamente a da cerejeira que Blake descreve lá no início, que vem a ressurgir num momento de quase perdição.

A trilha sonora de Thomas Newman (que trabalhou com o diretor em “Beleza America”, “Skyfall”, entre outros) é essencial para a construção de sensações, com melodias discretas de pianos durante diálogos de leveza, como aquele que Blake relata um caso embaraçoso com um amigo, enquanto sobe tons graves com violoncelos em momentos de perigo, seja ao se aproximar de uma zona inimiga, ou ao se meter num corredor suicida. Ainda que o uso da trilha como complemento para situações extremas seja algo comum, algumas vezes ela soa deslocada, antecipando algo ruim que estaria para acontecer. O silêncio causaria um incômodo mais preciso e, de repente, traria alguma possível surpresa. Destaque para o ótimo trabalho das equipes de som e efeitos sonoros, que conseguem o objetivo de fazer saltar da poltrona a cada explosão repentina e tiros que incomodam os ouvidos.

Ainda que nitidamente a prioridade seja a climatização, o roteiro do próprio Mendes e de Kristy Wilson-Cairns (de episódios da série “Penny Dreadful”, 2016) trata de apresentar através de curtos diálogos aquele contexto individualista em que os mais poderosos direcionam as missões perigosas para os “peixes pequenos”, jovens descartáveis, sob argumentos de apelo pessoal, e aprofunda seus protagonistas dentro daquele arco simples, seguindo a fórmula básica das peças que vão de um ponto A até B, passando pelos obstáculos já esperados.

George Mackay (“Capitão Fantástico”, 2016) segue essa premissa, como alguém perdido de início, que após certos acontecimentos se questiona a desistir, tem deslumbramento num intervalo para leveza na narrativa, feições de exaustão e ansiedade, até encarnar o heroísmo sem cair na bandeira do patriotismo acima de qualquer causa. Sua fala em que ele revela o destino da sua medalha destaca a sua personalidade e ponto de vista sobre a guerra. Os pequenos detalhes como sempre checar o estojo de alumínio que está em seu bolso ou o desespero em empurrar um caminhão quando está com o tempo contra si mostram o ótimo trabalho do jovem (que se não fosse um ano tão concorrido, teria cavado uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Ator).

O bom Dean Charles-Chapman (o Tommen Baraetheon, de “Game of Thrones”) tem o misto de inocência com coragem ali necessários, cabendo a ele importante momento dramático. Além deles, há participações especiais de nomes conhecidos como Benedict Cumberbatch, Mark Strong, Colin Firth e Richard Madden. Pontas que só servem para trazer algum charme e a direção se perde ao tentar fazer sem necessidade um “suspense” para a aparição de um ou outro, artimanha não muito comum para o que tenta ser um épico.

No fim das contas, a ideia de “gameficação” é a que prevalece e fica notório que essa é a intenção dos realizadores, faltando apenas guiar os “heróis” em cena com um controle remoto. Fica claro quando o “jogo” começa ao subir da câmara na escada para o caminho rumo ao trajeto a ser traçado. São “fases” sendo passadas, cada uma com sua respectiva identidade visual e algumas “aparições”. O que de certa forma torna o conteúdo vazio para quem busca aprofundamento, mas um prato cheio para quem quer embarcar numa brincadeira bela e louca de guerra.

Sam Mendes entrega uma experiência sensorial como há anos não se via (“Dunkirk”, 2017, de Christopher Nolan, fez algo do tipo muito bem, mas com conteúdo interior) e pode convencer como o melhor filme do ano por ser uma aposta segura, ainda que a consistência esteja apenas implícita. De uma maneira geral, não tem como não dizer que estamos diante de algo digno de palmas.

Nota: 8,5

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Crítica: “1917” é uma experiência imersiva deslumbrante!

Por Thiago Sampaio em Crítica

29 de Janeiro de 2020

Foto: Divulgação

A temática guerra sempre teve espaço no cinema e o Oscar adora valorizar tais produções. Apesar da Segunda Guerra Mundial já ter sido bastante retratada, a primeira foi bem menos (um dos melhores exemplares é “Gallipoli”, 1981, de Peter Weir), até mesmo pela dificuldade de encontrar materiais históricos para pesquisa. Eis que “1917” (idem, 2019) venceu o Globo de Ouro quando sequer havia estreado nos Estados Unidos e desponta como favorito ao principal prêmio da Academia. Compreensível por apresentar um contexto de fácil apreciação, construído pelo diretor Sam Mendes (“Beleza Americana”, 1999; “007 – Operação Skyfall”, 2012) com técnica e estética deslumbrantes!

Na trama, os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial encarregados de uma missão urgente. Eles precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão.

O longa tem sido bastante propagado por ser rodado como um “longo plano sequência”, como se não houvessem cortes entre as cenas. Obviamente isso seria quase impossível de ser realizado, ainda que existam juras de que “Arca Russa” (Russian Ark, 2002) tenha sido filmado num take só, dentre outras obras menos conhecidas. Disfarçar tais cortes com o intuito de instigar o desenvolvimento não é um artifício novo, algo que Alfred Hitchcock fez lá em “Festim Diabólico” (Hope, 1948) e, recentemente, Alejandro G. Iñárritu testou em “O Regresso” (The Revenant, 2015). “1917” faz isso, mas com uma audácia maior. E bem sucedida.

Na real, a proposta do longa não é se vender desta maneira, apesar de se beneficiar de tal propaganda. Para quem gosta de prestar atenção nos detalhes técnicos, os cortes são até fáceis de serem percebidos (o que pode causar uma certa distração para quem repara nisso), utilizando detalhes mais discretos como pedras ou figurantes de passagem, até momentos mais explícitos, como o apagar de luz ao entrar num ambiente fechado e, num momento descarado, nem tenta maquiar nada quando a tela se apaga para simbolizar o que acontece com a visão do protagonista. Nada disso tiro o brilho do projeto, cuja premissa de a câmera acompanhar cada passo do personagem funciona ao imprimir ritmo à narrativa.

Logo de início quando a dupla principal caminha no próprio território, o clima já é trabalhado para o espectador, atenuando a imersão quando a ação se inicia de fato, colocando quem assiste no lugar daqueles que estão em situações de extremo perigo, quase “em tempo real”. E Sam Mendes conduz muitas sequências bastante eficientes, como a da ponte, o primeiro embate noturno, o mergulho na cachoeira e, finalmente, a correria do clímax. Tudo fora ensaiado aos mínimos detalhes e muitas tomadas foram, de fato, bem prolongadas, tornando a experiência admirável e, sim, tensa.

Mas se tem um nome que merece os créditos para aprofundar tal imersão é o diretor de fotografia Roger Deakins (que depois de 14 indicações, finalmente recebeu o Oscar, por “Blade Runner 2049″, 2017). Cada plano é de uma beleza ímpar. Enquanto os planos fechados nos personagens captam o medo neles existente, os planos abertos com imensos gramados verdes captam o gigante caminho pelo qual eles terão que percorrer (sempre preenchidos por cadáveres de humanos e animais já em decomposição, transmitindo agonia). Quando um certo território está em chamas, abusa da contraluz para mostrar o mocinho em busca da própria sobrevivência. E é admirável tamanha delicadeza ao utilizar a cor branca, da esperança, justamente a da cerejeira que Blake descreve lá no início, que vem a ressurgir num momento de quase perdição.

A trilha sonora de Thomas Newman (que trabalhou com o diretor em “Beleza America”, “Skyfall”, entre outros) é essencial para a construção de sensações, com melodias discretas de pianos durante diálogos de leveza, como aquele que Blake relata um caso embaraçoso com um amigo, enquanto sobe tons graves com violoncelos em momentos de perigo, seja ao se aproximar de uma zona inimiga, ou ao se meter num corredor suicida. Ainda que o uso da trilha como complemento para situações extremas seja algo comum, algumas vezes ela soa deslocada, antecipando algo ruim que estaria para acontecer. O silêncio causaria um incômodo mais preciso e, de repente, traria alguma possível surpresa. Destaque para o ótimo trabalho das equipes de som e efeitos sonoros, que conseguem o objetivo de fazer saltar da poltrona a cada explosão repentina e tiros que incomodam os ouvidos.

Ainda que nitidamente a prioridade seja a climatização, o roteiro do próprio Mendes e de Kristy Wilson-Cairns (de episódios da série “Penny Dreadful”, 2016) trata de apresentar através de curtos diálogos aquele contexto individualista em que os mais poderosos direcionam as missões perigosas para os “peixes pequenos”, jovens descartáveis, sob argumentos de apelo pessoal, e aprofunda seus protagonistas dentro daquele arco simples, seguindo a fórmula básica das peças que vão de um ponto A até B, passando pelos obstáculos já esperados.

George Mackay (“Capitão Fantástico”, 2016) segue essa premissa, como alguém perdido de início, que após certos acontecimentos se questiona a desistir, tem deslumbramento num intervalo para leveza na narrativa, feições de exaustão e ansiedade, até encarnar o heroísmo sem cair na bandeira do patriotismo acima de qualquer causa. Sua fala em que ele revela o destino da sua medalha destaca a sua personalidade e ponto de vista sobre a guerra. Os pequenos detalhes como sempre checar o estojo de alumínio que está em seu bolso ou o desespero em empurrar um caminhão quando está com o tempo contra si mostram o ótimo trabalho do jovem (que se não fosse um ano tão concorrido, teria cavado uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Ator).

O bom Dean Charles-Chapman (o Tommen Baraetheon, de “Game of Thrones”) tem o misto de inocência com coragem ali necessários, cabendo a ele importante momento dramático. Além deles, há participações especiais de nomes conhecidos como Benedict Cumberbatch, Mark Strong, Colin Firth e Richard Madden. Pontas que só servem para trazer algum charme e a direção se perde ao tentar fazer sem necessidade um “suspense” para a aparição de um ou outro, artimanha não muito comum para o que tenta ser um épico.

No fim das contas, a ideia de “gameficação” é a que prevalece e fica notório que essa é a intenção dos realizadores, faltando apenas guiar os “heróis” em cena com um controle remoto. Fica claro quando o “jogo” começa ao subir da câmara na escada para o caminho rumo ao trajeto a ser traçado. São “fases” sendo passadas, cada uma com sua respectiva identidade visual e algumas “aparições”. O que de certa forma torna o conteúdo vazio para quem busca aprofundamento, mas um prato cheio para quem quer embarcar numa brincadeira bela e louca de guerra.

Sam Mendes entrega uma experiência sensorial como há anos não se via (“Dunkirk”, 2017, de Christopher Nolan, fez algo do tipo muito bem, mas com conteúdo interior) e pode convencer como o melhor filme do ano por ser uma aposta segura, ainda que a consistência esteja apenas implícita. De uma maneira geral, não tem como não dizer que estamos diante de algo digno de palmas.

Nota: 8,5