Crítica: "A Colina Escarlate" é uma homenagem de Del Toro ao terror gótico - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “A Colina Escarlate” é uma homenagem de Del Toro ao terror gótico

Por Thiago Sampaio em Crítica

03 de novembro de 2015

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Foto: Divulgação

Não tem como negar que o cineasta Guillermo Del Toro tem uma visão diferenciada quando o assunto é lidar com obras sombrias ou com seres sobrenaturais. Mesmo carregando consigo o fantástico “O Labirinto do Fauno” (El Laberinto Del Fauno, 2006) como referência maior, o cineasta mexicano prova a cada novo projeto o seu talento de exprimir suas principais influências de maneira estilosa e eficiente. Com “A Colina Escarlate” (Crimson Peak, 2015) não é diferente, cumprindo o dever de prender a atração do espectador do início ao fim, ao mesmo tempo em que exibe um show visual.

Sinopse

A trama apresenta a escritora Edith Cushing (Mia Wasikowska), que desde jovem tem tendências a ter contato com mortos. Crescida, ela se apaixona pelo misterioso Sir Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) e se muda para sua sombria mansão no alto de uma colina. Habitada também por sua fria cunhada Lucille Sharpe (Jessica Chastain), a casa tem uma história macabra e a forte presença de seres não demora a abalar a sanidade da jovem.

Nada gratuito

Um dos méritos do longa-metragem é não enrolar para chegar ao ponto. Enquanto centenas de filmes de terror e suspense caça-níqueis que chegam atualmente aos cinemas e ao mercado de home-vídeo apelam para efeitos sonoros dando sustos gratuitos e mantêm em segredo o “mistério” até o limite, “A Colina Escarlate” já começa com o cineasta brincando com a estética ao exibir a logo da Universal Pictures banhada de sangue. “Eu acredito em fantasmas” é a primeira frase a ser dita, não demorando para aparecer nos minutos iniciais uma figura sobrenatural alertando uma criança sobra a tal “colina” do título. Com Del Toro no comando, o medo é consequência da sua condução.

Influências destiladas

Conhecido por misturar violência com fantasia infantil, desta vez Del Toro destila toda a sua influência da literatura gótica (Bram Stoker, de Drácula, e Mary Shelley, de Frankenstein, são os mais visíveis) e longas-metragens de horror variados, remetendo a cineastas que vão de Ed Wood a Alfred Hitchcock. Dentre as referências declaradas do diretor estão “Rebecca” (idem, 1940), de Daphne du Murier, cuja trama todos devem preservar da atriz principal  um terrível segredo de uma casa (Hum…). “O Poço e o Pêndulo” (Pit and the Pendulum, 1961), dirigido por Roger Corman e baseado em conto de Edgar Allan Poe; “Os Inocentes” (The Innocents, 1961), de Jack Clayton; “Curse of the Crying Woman” (La Maldicion de la Llorona, 1963), de Rafael Baledón; também entram para o repertório.

E honrando o horror gótico clássico, a produção não se apoia nos fantasmas como centro da trama, eles apenas estão lá. Mesmo sem esconder o teor sobrenatural, o filme tem tempo para contextualizar todos os personagens, apresentar belas cenas de valsa ao som de piano, quando repentinamente um personagem importante tem o crânio rachado até a morte por um humano misterioso. Cada mínimo detalhe é importante para o roteiro do próprio diretor ao lado de Matthew Robbins (que havia trabalhado anteriormente com ele em “Mutação”, 1997) para manter o clima sombrio no ar, desde o anel de noivado pertencente a Sir Thomas Sharpe ao sangue jorrado na neve em frente à sua mansão.

Direção de arte primorosa

Destaque para a primorosa direção de arte e figurinos, destino da maior parte do modesto orçamento de U$ 55 milhões, que têm grande potencial para emplacar indicações nas premiações de 2016. Sempre optando por tons fortes, é notório o contraste do vestidos amarelo ou azul claro da deslocada Edith Cushing perante o vermelho e preto dominantes da mansão e dos demais personagens (o que inclui o exótico visual dos fantasmas). A própria casa tem extrema importância no papel de agente de mistério, com escadas intermináveis, quadros de mulheres da parede (seriam ex-esposas de Thomas Sharpe?), quartos secretos com banheiras de sangue, etc. Coincidência ou não, o mestre do terror Stephen King (autor de “O Iluminado”, levado às telas em 1980 por Stanley Kubrick, outra história sobre uma casa perturbadora) rasgou elogios à produção.

Trio protagonista em destaque

No fim das contas, a trama se trata de um triângulo amoroso em que desde o início sabemos que há algo de errado circulando. E o trio de protagonistas tem grande responsabilidade pelo mérito da produção. Mia Wasikowska, que tem acertado nas escolhas da carreira e se desprendido do papel de “Alice no País das Maravilhas” (2010), evita que Edith Cushing se torne uma vítima inocente, se mostrando uma mulher com personalidade que está sempre desconfiada com o que se passa ao seu redor, ao mesmo tempo em que não teme ao se entregar na cama para o homem que ama. O sempre ótimo Tom Hiddleston está perfeito como o misterioso Sir Thomas Sharpe, pois, por mais óbvio que ele esconda segredos obscuros, sempre transparece algum ar de bondade em sua alma.

Jessica Chastain, apesar de balançar às vezes no sotaque britânico, rouba a cena sempre que Lucille Sharpe aparece, de modo a transparecer ser sempre ela a verdadeira ameaça do filme e a figura manipuladora de Sir Thomas Sharpe. Completando o elenco, Charlie Hunnan (que havia trabalhado com Del Toro em “Círculo de Fogo”, 2013) tem bom desempenho fazendo do Dr.Alan McMichael um projeto de herói, mas com ar bobalhão que acaba ficando suscetível às situações em que presencia (alguém bem semelhante a Jonathan Harker, vivido por Keanu Reeves em “Drácula de Bram Stoker”, 1992).

Não surpreende…mas funciona

A falha de “A Colina Escarlate” está, ironicamente, na previsibilidade. Em meio a tanto mistério, não há nenhuma grande surpresa que não possa ser prevista com metade da projeção e as tentativas de sustos em nada influem no resultado final. O que prevalece mesmo é a ousadia estética e visual de Guillermo Del Toro que, em pleno 2015, apresenta uma visão vanguardista do terror. Enquanto “Hellboy 3” e “Círculo de Fogo 2” não passam de projetos indefinidos, ele continua a nos presentear de diferentes maneiras.

Nota: 8,0

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Crítica: “A Colina Escarlate” é uma homenagem de Del Toro ao terror gótico

Por Thiago Sampaio em Crítica

03 de novembro de 2015

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Foto: Divulgação

Não tem como negar que o cineasta Guillermo Del Toro tem uma visão diferenciada quando o assunto é lidar com obras sombrias ou com seres sobrenaturais. Mesmo carregando consigo o fantástico “O Labirinto do Fauno” (El Laberinto Del Fauno, 2006) como referência maior, o cineasta mexicano prova a cada novo projeto o seu talento de exprimir suas principais influências de maneira estilosa e eficiente. Com “A Colina Escarlate” (Crimson Peak, 2015) não é diferente, cumprindo o dever de prender a atração do espectador do início ao fim, ao mesmo tempo em que exibe um show visual.

Sinopse

A trama apresenta a escritora Edith Cushing (Mia Wasikowska), que desde jovem tem tendências a ter contato com mortos. Crescida, ela se apaixona pelo misterioso Sir Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) e se muda para sua sombria mansão no alto de uma colina. Habitada também por sua fria cunhada Lucille Sharpe (Jessica Chastain), a casa tem uma história macabra e a forte presença de seres não demora a abalar a sanidade da jovem.

Nada gratuito

Um dos méritos do longa-metragem é não enrolar para chegar ao ponto. Enquanto centenas de filmes de terror e suspense caça-níqueis que chegam atualmente aos cinemas e ao mercado de home-vídeo apelam para efeitos sonoros dando sustos gratuitos e mantêm em segredo o “mistério” até o limite, “A Colina Escarlate” já começa com o cineasta brincando com a estética ao exibir a logo da Universal Pictures banhada de sangue. “Eu acredito em fantasmas” é a primeira frase a ser dita, não demorando para aparecer nos minutos iniciais uma figura sobrenatural alertando uma criança sobra a tal “colina” do título. Com Del Toro no comando, o medo é consequência da sua condução.

Influências destiladas

Conhecido por misturar violência com fantasia infantil, desta vez Del Toro destila toda a sua influência da literatura gótica (Bram Stoker, de Drácula, e Mary Shelley, de Frankenstein, são os mais visíveis) e longas-metragens de horror variados, remetendo a cineastas que vão de Ed Wood a Alfred Hitchcock. Dentre as referências declaradas do diretor estão “Rebecca” (idem, 1940), de Daphne du Murier, cuja trama todos devem preservar da atriz principal  um terrível segredo de uma casa (Hum…). “O Poço e o Pêndulo” (Pit and the Pendulum, 1961), dirigido por Roger Corman e baseado em conto de Edgar Allan Poe; “Os Inocentes” (The Innocents, 1961), de Jack Clayton; “Curse of the Crying Woman” (La Maldicion de la Llorona, 1963), de Rafael Baledón; também entram para o repertório.

E honrando o horror gótico clássico, a produção não se apoia nos fantasmas como centro da trama, eles apenas estão lá. Mesmo sem esconder o teor sobrenatural, o filme tem tempo para contextualizar todos os personagens, apresentar belas cenas de valsa ao som de piano, quando repentinamente um personagem importante tem o crânio rachado até a morte por um humano misterioso. Cada mínimo detalhe é importante para o roteiro do próprio diretor ao lado de Matthew Robbins (que havia trabalhado anteriormente com ele em “Mutação”, 1997) para manter o clima sombrio no ar, desde o anel de noivado pertencente a Sir Thomas Sharpe ao sangue jorrado na neve em frente à sua mansão.

Direção de arte primorosa

Destaque para a primorosa direção de arte e figurinos, destino da maior parte do modesto orçamento de U$ 55 milhões, que têm grande potencial para emplacar indicações nas premiações de 2016. Sempre optando por tons fortes, é notório o contraste do vestidos amarelo ou azul claro da deslocada Edith Cushing perante o vermelho e preto dominantes da mansão e dos demais personagens (o que inclui o exótico visual dos fantasmas). A própria casa tem extrema importância no papel de agente de mistério, com escadas intermináveis, quadros de mulheres da parede (seriam ex-esposas de Thomas Sharpe?), quartos secretos com banheiras de sangue, etc. Coincidência ou não, o mestre do terror Stephen King (autor de “O Iluminado”, levado às telas em 1980 por Stanley Kubrick, outra história sobre uma casa perturbadora) rasgou elogios à produção.

Trio protagonista em destaque

No fim das contas, a trama se trata de um triângulo amoroso em que desde o início sabemos que há algo de errado circulando. E o trio de protagonistas tem grande responsabilidade pelo mérito da produção. Mia Wasikowska, que tem acertado nas escolhas da carreira e se desprendido do papel de “Alice no País das Maravilhas” (2010), evita que Edith Cushing se torne uma vítima inocente, se mostrando uma mulher com personalidade que está sempre desconfiada com o que se passa ao seu redor, ao mesmo tempo em que não teme ao se entregar na cama para o homem que ama. O sempre ótimo Tom Hiddleston está perfeito como o misterioso Sir Thomas Sharpe, pois, por mais óbvio que ele esconda segredos obscuros, sempre transparece algum ar de bondade em sua alma.

Jessica Chastain, apesar de balançar às vezes no sotaque britânico, rouba a cena sempre que Lucille Sharpe aparece, de modo a transparecer ser sempre ela a verdadeira ameaça do filme e a figura manipuladora de Sir Thomas Sharpe. Completando o elenco, Charlie Hunnan (que havia trabalhado com Del Toro em “Círculo de Fogo”, 2013) tem bom desempenho fazendo do Dr.Alan McMichael um projeto de herói, mas com ar bobalhão que acaba ficando suscetível às situações em que presencia (alguém bem semelhante a Jonathan Harker, vivido por Keanu Reeves em “Drácula de Bram Stoker”, 1992).

Não surpreende…mas funciona

A falha de “A Colina Escarlate” está, ironicamente, na previsibilidade. Em meio a tanto mistério, não há nenhuma grande surpresa que não possa ser prevista com metade da projeção e as tentativas de sustos em nada influem no resultado final. O que prevalece mesmo é a ousadia estética e visual de Guillermo Del Toro que, em pleno 2015, apresenta uma visão vanguardista do terror. Enquanto “Hellboy 3” e “Círculo de Fogo 2” não passam de projetos indefinidos, ele continua a nos presentear de diferentes maneiras.

Nota: 8,0