Crítica: "Ad Astra" é uma belíssima ficção sobre autodescoberta 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Ad Astra” é uma belíssima ficção sobre autodescoberta

Por Thiago Sampaio em Crítica

04 de outubro de 2019

Foto: Divulgação

É louvável o trabalho do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, fundador da RT Features. Cavando um espaço de respeito tanto no cenário nacional como internacional, tem colecionado ótimos títulos nos últimos anos, como “A Bruxa” (The Witch, 2015), “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name, 2017) e “A Vida Invisível” (idem, 2019), longa brasileiro escolhido para tentar uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O seu “xodó” do momento é “Ad Astra – Rumo Às Estrelas” (Ad Astra, 2019), produção com ares de blockbuster, conta com o astro Brad Pitt para alavancar a bilheteria, mas convence como uma ficção existencialista.

Na trama, Roy McBride (Brad Pitt) é um engenheiro espacial que decide empreender a maior jornada de sua vida: viajar para o espaço, cruzar a galáxia e tentar descobrir o que aconteceu com seu pai (Tommy Lee Jones), um astronauta que se perdeu há vinte anos no caminho para Netuno.

O fato de James Gray (“Z – A Cidade Perdida”, 2016; “Amantes”, 2018) ter assumido a direção já é um indício para os conhecedores de suas obras que teremos um projeto autoral sem maiores preocupações em agradar o grande público. Apesar do orçamento de cerca de U$ 87 milhões, a condução é semelhante a seus projetos independentes anteriores. Fazendo paralelos, tem um pouco de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), de “Solaris” (2002), de “Interestelar” (2014) e até “Perdido em Marte” (2015). Aqui, a jornada de autodescoberta do protagonista fica bem explícita.

Tecnicamente, o trabalho é impecável. Desde a primeira visão do espaço, quando nos deparamos com o astronauta saindo de uma estação num plano fechado, que vai se abrindo e apresentando a grandiosidade de tudo aquilo, é deslumbrante! A direção de fotografia do ótimo Hoyte Van Hoytema (“Ela”, 2013; “Dunkirk”, 2017) sabe construir aquele universo inóspito conferindo identidade visual a cada ambiente, como o vermelho incômodo de Marte, o roxo de Saturno e os tons dessaturados de Netuno. Quando os planos são bem abertos, tratam de mostrar que os humanos ali são pingos insignificantes.

Se por um lado tudo é visualmente impecável, o roteiro do próprio Gray ao lado de Ethan Gross (do independente “Klepto”, 2003), trata de inserir muitos conceitos que podem soar desnecessários para a proposta principal (a procura pelo pai), como um contexto de uma Lua já povoada em um regime capitalista estabelecido. Há induções de embates corporais, porém, pouco duram.

Estaria o texto descartando tais fatores ao não darem continuidade a eles? No caso, não creio. Visto que a (falta de) empatia é a força motriz da trama, a ideia era apresentar um contexto em que o mercantilismo prevalece e os homens sempre irão buscar tirar vantagens sobre seus semelhantes usando a força. São ideias que são lançadas e de fácil compreensão, sendo entendível o não aprofundamento para focar no trajeto de salvação espiritual do protagonista.

Assim, a narrativa de James Gray é propositalmente lenta, estimulando a autoreflexão e sensação de desespero diante de tanta solidão e perturbação pelas próprias ações. Assim, somos “obrigados” a embarcar nessa viagem com Roy McBride, um homem praticamente robótico, sempre com o autocontrole para não despertar os naturais gatilhos humanos.

O roteiro trata de apresentar bem esse perfil através dos muitos testes em que Roy “conversa” com a câmera e demonstra a sua absurda frieza, tudo para seguir o legado do pai, tido como herói. Para isso, a narração em off de Pitt aparece para contextualizar o que acontece como muleta de narrativa. Funciona em partes para não tornar a produção silenciosa ao extremo, mas algumas colocações soam redundantes, como “eu estou sendo usado” e “estou num beco sendo puxado para o desconhecido”, como se o que está em cena já não fosse suficiente.

E o ator/produtor (que pegou o projeto após ser rejeitado por Michael Fassbender, Daniel Craig e Joaquin Phoenix) capta tal apatia de maneira admirável, sem soar inexpressivo. Tanto que à medida que ele vai mostrando o “amadurecimento”, os movimentos faciais aparecem de maneira singela. Um ator com pleno domínio do personagem, capaz de transmitir o montante de emoções sem emitir nenhuma fala. A aparição de um certo ser primitivo numa cena traz um susto, mas faz ele refletir a raiva contida naquele inconsciente e suas falas com um mero computador puxam tal inquietação.

Sem entrar no aspecto dos spoilers, o pai vivido por Tommy Lee Jones (fabuloso, apesar do pouco tempo em cena, assumindo aqui o envelhecimento natural) representa aquela referência do pai idealizado por uma sociedade, porém, uma incógnita para o próprio filho e que eventuais descobertas podem despertar comportamentos imprevisíveis, vertente que move Roy. Ainda assim, o clímax é “bonito” na medida do possível, com reflexões daquelas que muitos coachings oportunistas tentam empurrar sem embasamento.

O elenco de apoio funciona bem como as “passagens de fase” de Pitt, como o veterano Donald Sutherland e a talentosa Ruth Negga, que tem função importante na trama justamente por existir alguma empatia, vertente tão alvo desta produção como retrato da sociedade atual. Liv Tyler, como a ex-esposa de Roy, aparece pouco e surge muitas vezes, literalmente, desfocada ou como holograma, distante do homem que vive “no mundo da lua”.

“Ad Astra” é aquele filme que chega no circuito popular, porém, o público acostumado a superproduções cheias de ação, vão rotular esse projeto de “parado” e “cansativo”. O que passa longe de ser um defeito. Afinal, não deixa de ser audacioso uma obra que estimula valorizar o perdão e o que há de mais belo diante dos nossos olhos.

Nota: 8,5

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Crítica: “Ad Astra” é uma belíssima ficção sobre autodescoberta

Por Thiago Sampaio em Crítica

04 de outubro de 2019

Foto: Divulgação

É louvável o trabalho do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, fundador da RT Features. Cavando um espaço de respeito tanto no cenário nacional como internacional, tem colecionado ótimos títulos nos últimos anos, como “A Bruxa” (The Witch, 2015), “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name, 2017) e “A Vida Invisível” (idem, 2019), longa brasileiro escolhido para tentar uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O seu “xodó” do momento é “Ad Astra – Rumo Às Estrelas” (Ad Astra, 2019), produção com ares de blockbuster, conta com o astro Brad Pitt para alavancar a bilheteria, mas convence como uma ficção existencialista.

Na trama, Roy McBride (Brad Pitt) é um engenheiro espacial que decide empreender a maior jornada de sua vida: viajar para o espaço, cruzar a galáxia e tentar descobrir o que aconteceu com seu pai (Tommy Lee Jones), um astronauta que se perdeu há vinte anos no caminho para Netuno.

O fato de James Gray (“Z – A Cidade Perdida”, 2016; “Amantes”, 2018) ter assumido a direção já é um indício para os conhecedores de suas obras que teremos um projeto autoral sem maiores preocupações em agradar o grande público. Apesar do orçamento de cerca de U$ 87 milhões, a condução é semelhante a seus projetos independentes anteriores. Fazendo paralelos, tem um pouco de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), de “Solaris” (2002), de “Interestelar” (2014) e até “Perdido em Marte” (2015). Aqui, a jornada de autodescoberta do protagonista fica bem explícita.

Tecnicamente, o trabalho é impecável. Desde a primeira visão do espaço, quando nos deparamos com o astronauta saindo de uma estação num plano fechado, que vai se abrindo e apresentando a grandiosidade de tudo aquilo, é deslumbrante! A direção de fotografia do ótimo Hoyte Van Hoytema (“Ela”, 2013; “Dunkirk”, 2017) sabe construir aquele universo inóspito conferindo identidade visual a cada ambiente, como o vermelho incômodo de Marte, o roxo de Saturno e os tons dessaturados de Netuno. Quando os planos são bem abertos, tratam de mostrar que os humanos ali são pingos insignificantes.

Se por um lado tudo é visualmente impecável, o roteiro do próprio Gray ao lado de Ethan Gross (do independente “Klepto”, 2003), trata de inserir muitos conceitos que podem soar desnecessários para a proposta principal (a procura pelo pai), como um contexto de uma Lua já povoada em um regime capitalista estabelecido. Há induções de embates corporais, porém, pouco duram.

Estaria o texto descartando tais fatores ao não darem continuidade a eles? No caso, não creio. Visto que a (falta de) empatia é a força motriz da trama, a ideia era apresentar um contexto em que o mercantilismo prevalece e os homens sempre irão buscar tirar vantagens sobre seus semelhantes usando a força. São ideias que são lançadas e de fácil compreensão, sendo entendível o não aprofundamento para focar no trajeto de salvação espiritual do protagonista.

Assim, a narrativa de James Gray é propositalmente lenta, estimulando a autoreflexão e sensação de desespero diante de tanta solidão e perturbação pelas próprias ações. Assim, somos “obrigados” a embarcar nessa viagem com Roy McBride, um homem praticamente robótico, sempre com o autocontrole para não despertar os naturais gatilhos humanos.

O roteiro trata de apresentar bem esse perfil através dos muitos testes em que Roy “conversa” com a câmera e demonstra a sua absurda frieza, tudo para seguir o legado do pai, tido como herói. Para isso, a narração em off de Pitt aparece para contextualizar o que acontece como muleta de narrativa. Funciona em partes para não tornar a produção silenciosa ao extremo, mas algumas colocações soam redundantes, como “eu estou sendo usado” e “estou num beco sendo puxado para o desconhecido”, como se o que está em cena já não fosse suficiente.

E o ator/produtor (que pegou o projeto após ser rejeitado por Michael Fassbender, Daniel Craig e Joaquin Phoenix) capta tal apatia de maneira admirável, sem soar inexpressivo. Tanto que à medida que ele vai mostrando o “amadurecimento”, os movimentos faciais aparecem de maneira singela. Um ator com pleno domínio do personagem, capaz de transmitir o montante de emoções sem emitir nenhuma fala. A aparição de um certo ser primitivo numa cena traz um susto, mas faz ele refletir a raiva contida naquele inconsciente e suas falas com um mero computador puxam tal inquietação.

Sem entrar no aspecto dos spoilers, o pai vivido por Tommy Lee Jones (fabuloso, apesar do pouco tempo em cena, assumindo aqui o envelhecimento natural) representa aquela referência do pai idealizado por uma sociedade, porém, uma incógnita para o próprio filho e que eventuais descobertas podem despertar comportamentos imprevisíveis, vertente que move Roy. Ainda assim, o clímax é “bonito” na medida do possível, com reflexões daquelas que muitos coachings oportunistas tentam empurrar sem embasamento.

O elenco de apoio funciona bem como as “passagens de fase” de Pitt, como o veterano Donald Sutherland e a talentosa Ruth Negga, que tem função importante na trama justamente por existir alguma empatia, vertente tão alvo desta produção como retrato da sociedade atual. Liv Tyler, como a ex-esposa de Roy, aparece pouco e surge muitas vezes, literalmente, desfocada ou como holograma, distante do homem que vive “no mundo da lua”.

“Ad Astra” é aquele filme que chega no circuito popular, porém, o público acostumado a superproduções cheias de ação, vão rotular esse projeto de “parado” e “cansativo”. O que passa longe de ser um defeito. Afinal, não deixa de ser audacioso uma obra que estimula valorizar o perdão e o que há de mais belo diante dos nossos olhos.

Nota: 8,5