Crítica: Apesar de irregular, "Interestelar" mantém o alto nível da carreira de Christopher Nolan - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Apesar de irregular, “Interestelar” mantém o alto nível da carreira de Christopher Nolan

Por Thiago Sampaio em Crítica

20 de novembro de 2014

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Com um currículo mais do que admirável, o cineasta Christopher Nolan já se tornou uma garantia de visibilidade ao ter o seu nome vinculado a algum projeto. Desde o pouco visto “Following” (1998), passando pelos aclamados “Amnésia” (2000), “Insônia” (2002), “O Grande Truque” (2006) e “A Origem” (2010), além de reinventar o modo de adaptar super heróis para o cinema com a mais recente e sombria trilogia Batman (2005, 2008, 2012), o jovem diretor de 44 anos conquistou autonomia para trazer o seu estilo particular às suas obras. Com esse novo “Interestelar” (Interstellar, 2014), pela primeira vez ele demonstra derrapar nas próprias pretensões, ainda que o produto final seja firme, cheio de tensão e aberto à reflexão.

Sinopse

A trama apresenta o fazendeiro Cooper (Matthew McConaughey), um ex-astronauta viúvo, que vive ao lado dos filhos em um planeta Terra devastado, com reservas naturais escassas, humanos sofrendo com a seca e a fome. Ele é chamado para liderar uma missão, ao lado de Brand (Anne Hathaway), Jenkins (Marlon Sanders) e Doyle (Wes Bentley), de verificar possíveis planetas para receberem a população mundial, possibilitando a continuação da espécie, mesmo sabendo que pode nunca mais ver os filhos. Com o passar dos anos, sua filha Murph (Jessica Chastain, na fase adulta) tenta superar a partida do pai enquanto tenta os próprios meios para salvar a humanidade.

Clima de altos e baixos

Roteirizado pelo próprio Christopher Nolan em sua parceria habitual com o irmão Jonathan, o realizador parte de uma premissa não muito inovadora – a extinção da Terra e a continuação da espécie em um planeta desconhecido – para trabalhar o drama da família Cooper e questionamentos sobre vida em outros planetas, buracos negros, teorias da relatividade, com influências nítidas de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968, de Stanley Kubrick) e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1978, de Steven Spielberg). Porém, o clima é de instabilidade ao longo dos 169 minutos de projeção, alternando muitas vezes entre pitadas de sono e de emoção à flor da pele.

A introdução é interessante, quando somos apresentados à família do protagonista e à situação da Terra, num contexto que foge os padrões dos futuros pós-apocalípticos dos filmes de ficção habituais. Na ocasião, o caos está na vegetação queimada, nas tempestades de areia, ou através das falas, como a que o diretor da escola induz que nesses dias é mais vantajoso ser um fazendeiro do que um engenheiro. Ainda assim, diálogos sobre tal “praga” que assombra as matérias primas soam explicativos em demasia. No início do segundo ato, quando a equipe finalmente se encontra no espaço, nos deparamos com inúmeras conversas prolongadas que chegam a ser tediosas e, muitas vezes, não levam a lugar algum. Logo de cara, é possível entender que os robôs TARS e CASE têm bom humor, mas a insistência para que todos percebam isso chega a ser cansativa.

É entendível a ideia de transmitir a passagem de tempo irregular, o vazio misturado ao temor por se encontrar no espaço sideral lidando com o desconhecido, mas nem de perto Nolan consegue o efeito conseguido por Alfonso Cuarón nos 90 minutos de “Gravidade” (2013) e, principalmente, nas quase irretocáveis 2 horas e meia de “Contato” (1997, de Robert Zemeckis). O que se percebe é uma certa dificuldade do diretor em decupar o próprio material, prejudicando a edição. Por exemplo: qual a necessidade de mostrar a personagem de Jessica Chastain gravando uma mensagem para a tripulação, se a mesma será reproduzida na íntegra minutos depois?

Tensão e drama funcionam

Porém, há de reconhecer que quando a tripulação comandada por Matthew McConaughey já está em curso, Nolan entrega cenas de prender a respiração. Contando com efeitos especiais impressionantes e cenários grandiosos criados por computação gráfica (certamente o longa emplacará indicações nas categorias técnicas no Oscar 2015), temos ação em planetas com avalanches aquáticas, “robôs paredões” que se modificam para se esquivar dos perigos, naves sendo arremessadas sem rumo em buracos negros e por aí vai. Intercalado com o drama vivido pelos familiares na Terra – emocionante a passagem em que o protagonista confere o envelhecimento do filho e o desenrolar da família através de vídeo – a tensão pela sobrevivência se torna a força motriz do longa-metragem.

E quando o desespero dos personagens já tomou conta da projeção, eis que o melhor ainda está por surgir: a aparição do Dr.Mann, um astronauta que liderou uma expedição anterior, vivido por um ator-surpresa que sequer consta nos créditos. A partir daí, Nolan entrega os momentos de maior apreensão, que se prolongam até o terceiro ato, quando os humanos lutam contra os próprios princípios para definir o que é mais importante: salvar a pele dos humanos já existentes ou priorizar a continuidade da espécie humana.

A Física e o final controverso

Durante toda a projeção, a Física está presente, com muitas vertentes que certamente vão dar o que falar e estudiosos trarão depoimentos após o filme. Levando em conta que a grande maioria do expectador não tem embasamento científico para avaliar a veridicidade dos fatos apresentados, não deixa de ficar a curiosidade. Mas a mesma vai além através do final um tanto polêmico.

[CUIDADO COM SPOILERS NESSE PARÁGRAFO] Se até o ato final tudo parecia baseado nas ciências exatas, a “realidade” parece ir para o ar (aqui, em sentido figurado mesmo) ao envolver “fantasmas” e movimentação de objetos físicos (um relógio) no passado através de código morse, quando Cooper está preso em um buraco negro e em contato com o robô TARS. Visivelmente, Christopher Nolan optou por um desfecho mais confuso e que não deve agradar a todos.

McConaughey segue em alta

Em alta em Hollywood após o Oscar de Melhor Ator por “Clube de Compras Dallas” (2013), Matthew McConaughey entrega mais uma grande atuação, captando o drama de um pai que precisa abandonar os filhos que ama, ao mesmo tempo que tem a coragem para enfrentar autoridades. Porém, o seu personagem é o único cabível de desenvolvimento pelo roteiro. Por isso, é lamentável ver que ótimos atores como Anne Hathaway, John Lithgow, Casey Affleck e Topher Grace atuem no modo automático, enquanto Jessica Chastain soa um tanto forçada. Os veteranos Michael Caine e Ellen Burstyn conquistam o público com seus ares de sabiedade no pouco tempo em cena, mas, o ator que mais surpreende dramaticamente pela complexidade é, justamente, o misterioso intérprete do Dr.Mann.

Nolan ainda não decepcionou

Apesar de algumas irregularidades, “Interestelar” consegue se sobressair dos defeitos e se mostra uma obra de ficção científica com potencial para se tornar referência daqui alguns anos. Uma pena que o próprio Christopher Nolan, às vezes, insista em saídas complexas apenas para tentar deixar o seu projeto mais cerebral, assim como já havia feito em “O Grande Truque” e “A Origem”, causando a discórdia de parte do público. Mas independente disso, não foi dessa vez que ele entregou um longa-metragem ineficiente.

Nota: 8,5

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Crítica: Apesar de irregular, “Interestelar” mantém o alto nível da carreira de Christopher Nolan

Por Thiago Sampaio em Crítica

20 de novembro de 2014

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Com um currículo mais do que admirável, o cineasta Christopher Nolan já se tornou uma garantia de visibilidade ao ter o seu nome vinculado a algum projeto. Desde o pouco visto “Following” (1998), passando pelos aclamados “Amnésia” (2000), “Insônia” (2002), “O Grande Truque” (2006) e “A Origem” (2010), além de reinventar o modo de adaptar super heróis para o cinema com a mais recente e sombria trilogia Batman (2005, 2008, 2012), o jovem diretor de 44 anos conquistou autonomia para trazer o seu estilo particular às suas obras. Com esse novo “Interestelar” (Interstellar, 2014), pela primeira vez ele demonstra derrapar nas próprias pretensões, ainda que o produto final seja firme, cheio de tensão e aberto à reflexão.

Sinopse

A trama apresenta o fazendeiro Cooper (Matthew McConaughey), um ex-astronauta viúvo, que vive ao lado dos filhos em um planeta Terra devastado, com reservas naturais escassas, humanos sofrendo com a seca e a fome. Ele é chamado para liderar uma missão, ao lado de Brand (Anne Hathaway), Jenkins (Marlon Sanders) e Doyle (Wes Bentley), de verificar possíveis planetas para receberem a população mundial, possibilitando a continuação da espécie, mesmo sabendo que pode nunca mais ver os filhos. Com o passar dos anos, sua filha Murph (Jessica Chastain, na fase adulta) tenta superar a partida do pai enquanto tenta os próprios meios para salvar a humanidade.

Clima de altos e baixos

Roteirizado pelo próprio Christopher Nolan em sua parceria habitual com o irmão Jonathan, o realizador parte de uma premissa não muito inovadora – a extinção da Terra e a continuação da espécie em um planeta desconhecido – para trabalhar o drama da família Cooper e questionamentos sobre vida em outros planetas, buracos negros, teorias da relatividade, com influências nítidas de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968, de Stanley Kubrick) e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1978, de Steven Spielberg). Porém, o clima é de instabilidade ao longo dos 169 minutos de projeção, alternando muitas vezes entre pitadas de sono e de emoção à flor da pele.

A introdução é interessante, quando somos apresentados à família do protagonista e à situação da Terra, num contexto que foge os padrões dos futuros pós-apocalípticos dos filmes de ficção habituais. Na ocasião, o caos está na vegetação queimada, nas tempestades de areia, ou através das falas, como a que o diretor da escola induz que nesses dias é mais vantajoso ser um fazendeiro do que um engenheiro. Ainda assim, diálogos sobre tal “praga” que assombra as matérias primas soam explicativos em demasia. No início do segundo ato, quando a equipe finalmente se encontra no espaço, nos deparamos com inúmeras conversas prolongadas que chegam a ser tediosas e, muitas vezes, não levam a lugar algum. Logo de cara, é possível entender que os robôs TARS e CASE têm bom humor, mas a insistência para que todos percebam isso chega a ser cansativa.

É entendível a ideia de transmitir a passagem de tempo irregular, o vazio misturado ao temor por se encontrar no espaço sideral lidando com o desconhecido, mas nem de perto Nolan consegue o efeito conseguido por Alfonso Cuarón nos 90 minutos de “Gravidade” (2013) e, principalmente, nas quase irretocáveis 2 horas e meia de “Contato” (1997, de Robert Zemeckis). O que se percebe é uma certa dificuldade do diretor em decupar o próprio material, prejudicando a edição. Por exemplo: qual a necessidade de mostrar a personagem de Jessica Chastain gravando uma mensagem para a tripulação, se a mesma será reproduzida na íntegra minutos depois?

Tensão e drama funcionam

Porém, há de reconhecer que quando a tripulação comandada por Matthew McConaughey já está em curso, Nolan entrega cenas de prender a respiração. Contando com efeitos especiais impressionantes e cenários grandiosos criados por computação gráfica (certamente o longa emplacará indicações nas categorias técnicas no Oscar 2015), temos ação em planetas com avalanches aquáticas, “robôs paredões” que se modificam para se esquivar dos perigos, naves sendo arremessadas sem rumo em buracos negros e por aí vai. Intercalado com o drama vivido pelos familiares na Terra – emocionante a passagem em que o protagonista confere o envelhecimento do filho e o desenrolar da família através de vídeo – a tensão pela sobrevivência se torna a força motriz do longa-metragem.

E quando o desespero dos personagens já tomou conta da projeção, eis que o melhor ainda está por surgir: a aparição do Dr.Mann, um astronauta que liderou uma expedição anterior, vivido por um ator-surpresa que sequer consta nos créditos. A partir daí, Nolan entrega os momentos de maior apreensão, que se prolongam até o terceiro ato, quando os humanos lutam contra os próprios princípios para definir o que é mais importante: salvar a pele dos humanos já existentes ou priorizar a continuidade da espécie humana.

A Física e o final controverso

Durante toda a projeção, a Física está presente, com muitas vertentes que certamente vão dar o que falar e estudiosos trarão depoimentos após o filme. Levando em conta que a grande maioria do expectador não tem embasamento científico para avaliar a veridicidade dos fatos apresentados, não deixa de ficar a curiosidade. Mas a mesma vai além através do final um tanto polêmico.

[CUIDADO COM SPOILERS NESSE PARÁGRAFO] Se até o ato final tudo parecia baseado nas ciências exatas, a “realidade” parece ir para o ar (aqui, em sentido figurado mesmo) ao envolver “fantasmas” e movimentação de objetos físicos (um relógio) no passado através de código morse, quando Cooper está preso em um buraco negro e em contato com o robô TARS. Visivelmente, Christopher Nolan optou por um desfecho mais confuso e que não deve agradar a todos.

McConaughey segue em alta

Em alta em Hollywood após o Oscar de Melhor Ator por “Clube de Compras Dallas” (2013), Matthew McConaughey entrega mais uma grande atuação, captando o drama de um pai que precisa abandonar os filhos que ama, ao mesmo tempo que tem a coragem para enfrentar autoridades. Porém, o seu personagem é o único cabível de desenvolvimento pelo roteiro. Por isso, é lamentável ver que ótimos atores como Anne Hathaway, John Lithgow, Casey Affleck e Topher Grace atuem no modo automático, enquanto Jessica Chastain soa um tanto forçada. Os veteranos Michael Caine e Ellen Burstyn conquistam o público com seus ares de sabiedade no pouco tempo em cena, mas, o ator que mais surpreende dramaticamente pela complexidade é, justamente, o misterioso intérprete do Dr.Mann.

Nolan ainda não decepcionou

Apesar de algumas irregularidades, “Interestelar” consegue se sobressair dos defeitos e se mostra uma obra de ficção científica com potencial para se tornar referência daqui alguns anos. Uma pena que o próprio Christopher Nolan, às vezes, insista em saídas complexas apenas para tentar deixar o seu projeto mais cerebral, assim como já havia feito em “O Grande Truque” e “A Origem”, causando a discórdia de parte do público. Mas independente disso, não foi dessa vez que ele entregou um longa-metragem ineficiente.

Nota: 8,5