Crítica: Ari Aster mostra em "Midsommar" que é possível ser perturbador sem apelar para clichês 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Ari Aster mostra em “Midsommar” que é possível ser perturbador sem apelar para clichês

Por Thiago Sampaio em Crítica

19 de setembro de 2019

Foto: Divulgação

Após a boa repercussão de “Hereditário” (Hereditary, 2018), um dos melhores filmes do ano passado, era natural que fosse criada uma expectativa para o segundo longa do jovem diretor Ari Aster, de apenas 33 anos, lançado mais rápido do que muitos imaginavam. Em “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” (Midsommar, 2019), mais uma vez ele mostra o seu valor sem se render a recursos baratos para agradar o grande público. Apesar de bem diferente da sua produção anterior, este consegue ser novamente perturbador e excêntrico.

Na sinopse pouco reveladora, após vivenciar uma grande perda pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, os jovens vão se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.

Midsommar significa algo como solstício de verão, um feriado nacional idolatrado na Suécia e considerado uma das festas mais importantes do ano. Para eles, uma época para curtir como nunca, regada a muita dança, cantoria, comida e bebedeira. Serve para contextualizar o culto que move a narrativa desta produção, porém, sem tantos fins de diversão, e sim como manual de vida. Um pequeno pretexto para ir surpreendendo os espectadores de maneira simultânea com o grupo principal.

Se Ari Aster já tinha deixado a sua marca na cena inicial de “Hereditário” ao fazer um paralelo da casa da família principal com uma casa de bonecas, aqui ele repete o feito. Belas pinturas surgem na tela sob fundo branco acompanhadas de uma confortante música clássica logo são interrompidas com um toque de telefone (o que já causa incômodo). As sequências em seguida decorrem com fotografia bem escura e diálogos desconcertantes, condizente com a situação dos personagens, para pouco depois surgir uma tragédia gigante com a protagonista. Eis o prólogo!

O tempo todo é possível conferir toques criativos da condução de Aster, como o raccord em que mostra a transição de Dani entrando no banheiro de uma casa, pulando na transição para o toalete do avião, e o apagar gradativo de cada metade da tela, remetendo a um olho por vez que se fecha de certo personagem. Até uma alucinação decorrente do efeito de alucinógenos com efeitos especiais bem artificiais no início tem uma aplicação justificável lá na frente.

Mas com exceção da construção da tensão constante e a cautela em evitar jump-scares – os típicos sustos gratuitos – é preciso se abster da memória de “Hereditário”, pois são produções bem distintas. A existência do sobrenatural passa longe daqui. São pessoas comuns lidando com bizarrices e um desespero que vai se tornando agravante ao longo da projeção. Muitas vezes fica a impressão de que pouco ou nada acontece, quando na verdade Aster está imergindo quem assiste em todo aquele ambiente estranho, se assemelhando a produções dos anos 70, com influência clara de “O Homem de Palha” (The Wicker Man, 1973).

E diferente da maioria das produções do gênero, aqui ele tem a difícil missão de provocar o medo durante o dia, com um belíssimo cenário de grama verde, céu azul claro e vestimentas brancas de pessoas aparentemente felizes, cantando à toa e ajudando umas às outras nas atividades rotineiras. Como todos sabem que algo de errado está no ar, o suspense se torna algo natural e, muitas vezes, se transforma num humor proposital. E esse tom cômico prossegue quando as “revelações” passam a se tornar ainda mais fortes perante situações nada convencionais.

Nesse contexto, o roteiro do próprio Aster trata de abordar diferentes assuntos como relacionamentos desgastados e a submissão da mulher. Desde o início percebemos que a atenção de Christian para com a namorada Dani não é de quem ama de verdade, algo que ele vai construindo ao longo da narrativa. É uma relação já desenhada ao fracasso e as vivências naquele ambiente não devem ajudar em nada.

Visto que o próprio cineasta revelou que se inspirou no término de uma relação e tratou este como um projeto pessoal, ele destila situações de falta de empatia entre o casal, ocorrendo alguns agrados por pura conveniência (ou medo de ficar sozinho). Um acolhimento que surpreendentemente ela encontra no amigo dele, Pelle (o sueco Vilhelm Blomgren, captando a sutileza/falsidade ali necessária), alguém que também teve uma perda precoce. Se falta na vida alguém que chore junto a você, sinta prazer junto, entre em desespero com suas dores, a comunidade lá é o lugar certo. Mas obter empatia tem um preço alto!

Para isso, a trilha sonora de The Haxan Cloak (colaborador constante da Björk) trata de criar a ambientação ideal quando o silêncio não prevalece, com sintetizadores que evocam ruídos incômodos e até notas desafinadas de violinos. O mise-ene-scène (toda a produção de cena) construído pela direção de arte, cheia de simbolismos em pequenos detalhes, seja no figurino, nas cores ou no ambiente, é admirável. Ele sabe o que faz com uma precisão impressionante, visto que ali tem muitas coisa escondida.

A violência é explícita, beirando o gore, porém, nunca gratuita. Há sangue, mortes, cena de sexo que passa longe de ser sensual, porém, tudo devidamente condizente com aquela “ideologia”. Como bom terror psicológico, a agonia vai ficando cada vez maior diante da impotência de uns e a realização de outros. Aster certamente fez muitas pesquisas para fazer referências a rituais nórdicos que realmente eram praticados. Alguns detalhes são sugeridos através de pinturas, em códigos de narrativa muito bem calculados.

Mas há de reconhecer que na tentativa do diretor em colocar no seu produto tudo o que tinha em mente, deixou um certo excesso ao longo das quase 2h20min de duração, principalmente durante a ambientação no segundo ato, que pode soar monótona. Há momentos que poderiam facilmente ser cortados, principalmente o sonho em que a mocinha se vê sendo abandonada ao anoitecer, como se a situação em que ela se encontra já não fosse desesperadora por si só. No fim das contas, tal cena não acrescenta em nada.

Florence Pugh (de “Malevolent”, 2018, da Netflix) se mostra um talento a ser explorado, captando a essência da jovem inocente e traumatizada que passa a ganhar força com a vivência. A cena final é belíssima dentro da proposta do realizador. Do outro lado, Jack Reynor (do divertido “Sing Street”, 2016), tem a indiferença ideal proposta a ele, não soando como alguém mal-caráter, porém, com a apatia necessária para todos sentirem repulsa. Bom trabalho também dos bons Will Poulter (“Black Mirror: Bandersnatch”, 2018), que cumpre o papel do estrangeiro irritante que só quer curtir e pouco se importa com cultura, e de William Jackson Harper (da ótima série “The Good Place”), como o estudioso ingênuo.

Mais uma vez Ari Aster entrega algo que provoca diferentes impressões e certamente não será facilmente apreciado logo após o término da exibição. Carece de ser processado perante tantos signos ali presentes. Não é tão bem resolvido como o excelente “Hereditário”, se perde em partes no meio do caminho, mas tem grande valor.

Nota: 8,5

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Crítica: Ari Aster mostra em “Midsommar” que é possível ser perturbador sem apelar para clichês

Por Thiago Sampaio em Crítica

19 de setembro de 2019

Foto: Divulgação

Após a boa repercussão de “Hereditário” (Hereditary, 2018), um dos melhores filmes do ano passado, era natural que fosse criada uma expectativa para o segundo longa do jovem diretor Ari Aster, de apenas 33 anos, lançado mais rápido do que muitos imaginavam. Em “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” (Midsommar, 2019), mais uma vez ele mostra o seu valor sem se render a recursos baratos para agradar o grande público. Apesar de bem diferente da sua produção anterior, este consegue ser novamente perturbador e excêntrico.

Na sinopse pouco reveladora, após vivenciar uma grande perda pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, os jovens vão se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.

Midsommar significa algo como solstício de verão, um feriado nacional idolatrado na Suécia e considerado uma das festas mais importantes do ano. Para eles, uma época para curtir como nunca, regada a muita dança, cantoria, comida e bebedeira. Serve para contextualizar o culto que move a narrativa desta produção, porém, sem tantos fins de diversão, e sim como manual de vida. Um pequeno pretexto para ir surpreendendo os espectadores de maneira simultânea com o grupo principal.

Se Ari Aster já tinha deixado a sua marca na cena inicial de “Hereditário” ao fazer um paralelo da casa da família principal com uma casa de bonecas, aqui ele repete o feito. Belas pinturas surgem na tela sob fundo branco acompanhadas de uma confortante música clássica logo são interrompidas com um toque de telefone (o que já causa incômodo). As sequências em seguida decorrem com fotografia bem escura e diálogos desconcertantes, condizente com a situação dos personagens, para pouco depois surgir uma tragédia gigante com a protagonista. Eis o prólogo!

O tempo todo é possível conferir toques criativos da condução de Aster, como o raccord em que mostra a transição de Dani entrando no banheiro de uma casa, pulando na transição para o toalete do avião, e o apagar gradativo de cada metade da tela, remetendo a um olho por vez que se fecha de certo personagem. Até uma alucinação decorrente do efeito de alucinógenos com efeitos especiais bem artificiais no início tem uma aplicação justificável lá na frente.

Mas com exceção da construção da tensão constante e a cautela em evitar jump-scares – os típicos sustos gratuitos – é preciso se abster da memória de “Hereditário”, pois são produções bem distintas. A existência do sobrenatural passa longe daqui. São pessoas comuns lidando com bizarrices e um desespero que vai se tornando agravante ao longo da projeção. Muitas vezes fica a impressão de que pouco ou nada acontece, quando na verdade Aster está imergindo quem assiste em todo aquele ambiente estranho, se assemelhando a produções dos anos 70, com influência clara de “O Homem de Palha” (The Wicker Man, 1973).

E diferente da maioria das produções do gênero, aqui ele tem a difícil missão de provocar o medo durante o dia, com um belíssimo cenário de grama verde, céu azul claro e vestimentas brancas de pessoas aparentemente felizes, cantando à toa e ajudando umas às outras nas atividades rotineiras. Como todos sabem que algo de errado está no ar, o suspense se torna algo natural e, muitas vezes, se transforma num humor proposital. E esse tom cômico prossegue quando as “revelações” passam a se tornar ainda mais fortes perante situações nada convencionais.

Nesse contexto, o roteiro do próprio Aster trata de abordar diferentes assuntos como relacionamentos desgastados e a submissão da mulher. Desde o início percebemos que a atenção de Christian para com a namorada Dani não é de quem ama de verdade, algo que ele vai construindo ao longo da narrativa. É uma relação já desenhada ao fracasso e as vivências naquele ambiente não devem ajudar em nada.

Visto que o próprio cineasta revelou que se inspirou no término de uma relação e tratou este como um projeto pessoal, ele destila situações de falta de empatia entre o casal, ocorrendo alguns agrados por pura conveniência (ou medo de ficar sozinho). Um acolhimento que surpreendentemente ela encontra no amigo dele, Pelle (o sueco Vilhelm Blomgren, captando a sutileza/falsidade ali necessária), alguém que também teve uma perda precoce. Se falta na vida alguém que chore junto a você, sinta prazer junto, entre em desespero com suas dores, a comunidade lá é o lugar certo. Mas obter empatia tem um preço alto!

Para isso, a trilha sonora de The Haxan Cloak (colaborador constante da Björk) trata de criar a ambientação ideal quando o silêncio não prevalece, com sintetizadores que evocam ruídos incômodos e até notas desafinadas de violinos. O mise-ene-scène (toda a produção de cena) construído pela direção de arte, cheia de simbolismos em pequenos detalhes, seja no figurino, nas cores ou no ambiente, é admirável. Ele sabe o que faz com uma precisão impressionante, visto que ali tem muitas coisa escondida.

A violência é explícita, beirando o gore, porém, nunca gratuita. Há sangue, mortes, cena de sexo que passa longe de ser sensual, porém, tudo devidamente condizente com aquela “ideologia”. Como bom terror psicológico, a agonia vai ficando cada vez maior diante da impotência de uns e a realização de outros. Aster certamente fez muitas pesquisas para fazer referências a rituais nórdicos que realmente eram praticados. Alguns detalhes são sugeridos através de pinturas, em códigos de narrativa muito bem calculados.

Mas há de reconhecer que na tentativa do diretor em colocar no seu produto tudo o que tinha em mente, deixou um certo excesso ao longo das quase 2h20min de duração, principalmente durante a ambientação no segundo ato, que pode soar monótona. Há momentos que poderiam facilmente ser cortados, principalmente o sonho em que a mocinha se vê sendo abandonada ao anoitecer, como se a situação em que ela se encontra já não fosse desesperadora por si só. No fim das contas, tal cena não acrescenta em nada.

Florence Pugh (de “Malevolent”, 2018, da Netflix) se mostra um talento a ser explorado, captando a essência da jovem inocente e traumatizada que passa a ganhar força com a vivência. A cena final é belíssima dentro da proposta do realizador. Do outro lado, Jack Reynor (do divertido “Sing Street”, 2016), tem a indiferença ideal proposta a ele, não soando como alguém mal-caráter, porém, com a apatia necessária para todos sentirem repulsa. Bom trabalho também dos bons Will Poulter (“Black Mirror: Bandersnatch”, 2018), que cumpre o papel do estrangeiro irritante que só quer curtir e pouco se importa com cultura, e de William Jackson Harper (da ótima série “The Good Place”), como o estudioso ingênuo.

Mais uma vez Ari Aster entrega algo que provoca diferentes impressões e certamente não será facilmente apreciado logo após o término da exibição. Carece de ser processado perante tantos signos ali presentes. Não é tão bem resolvido como o excelente “Hereditário”, se perde em partes no meio do caminho, mas tem grande valor.

Nota: 8,5