Crítica: "Até o Último Homem" é o melhor Mel Gibson desde "Coração Valente" - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Até o Último Homem” é o melhor Mel Gibson desde “Coração Valente”

Por Thiago Sampaio em Crítica

14 de Fevereiro de 2017

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Mel Gibson é aquele cara cujo potencial tem sido confundido ao longo dos anos com a sua vida pessoal, de modo que nem ele próprio parecia saber ao certo o que queria para a carreira. Consagrado pelas franquias de ação “Mad Max” (1979, 1981, 1985) e “Máquina Mortífera” (1987, 1989, 1992, 1998), vencedor do Oscar de melhor Filme e Diretor por “Coração Valente” (Braveheart, 1995), se viu em meio a polêmicas envolvendo fanatismo religioso, alcoolismo e agressão à ex-esposa, Oksana Grigorieva.

Ele até voltou a atuar em algumas produções como “Os Mercenários 3” (The Expendables 3, 2014) e “Herança de Sangue” (Blood Father, 2016), mas bem longe do destaque de outrora. Em “Até o Último Homem” (Hacksaw Ridge, 2016), indicado a seis Oscars (Filme, Diretor, Ator, Montagem, Mixagem de Som e Edição de Som), Gibson volta a direção 10 anos depois do polêmico “Apocalypto” (idem, 2006), no que parece ser o seu renascimento como artista, unindo talento por trás das câmeras, religião e a característica dose de loucura.

Na trama, ele retrata a história real de Desmond T. Doss (Andrew Garfield) médico que, durante a Segunda Guerra Mundial, se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas. Durante a Batalha de Okinawa, ele ficou conhecido por salvar mais de 75 homens. A postura ganhou repercussão e ele recebeu uma Medalha de Honra do Congresso, tornando-se o primeiro Opositor Consciente da História norte-americana.

Não surpreende que a nova obra de Gibson, roteirizada por Robert Schenkkan (do telefilme “Até o Fim”, 2016) e Andrew Knight (“Promessas de Guerra, 2014), seja sobre redenção. Desmond T. Doss carrega a culpa por atitudes do passado e procura na religião um refúgio. A atitude de ajudar ao próximo e evitar qualquer coisa que vai contra o que acredita é o retrato de um homem notável, sem dúvida, mas acima de tudo, um espelho para o ator/diretor. O filme em si é uma resposta de Mel Gibson a todas as atribulações que tomaram conta da sua vida. Egocêntrico agir dessa maneira? Com certeza! Mas ele é assim.

O personagem Desmond é apresentado com cautela, mostrando a sua infância/adolescência sob a tutela da mãe religiosa, a relação tensa com o irmão mais velho e a criação dispersa do pai que, traumatizado com as experiências vividas na guerra e as perdas de pessoas próximas, se entregou ao álcool (Gibson, você está querendo dizer algo?). O motivo dele se recusar a pegar em uma arma é bem justificado, sendo compreensível o protagonista abrir mão do próprio lazer para partir para uma “missão divina”.

O treinamento do exército, que ocupa boa parte dos longos 139 minutos de projeção, serve para aprofundar a personalidade peculiar de Desmond. Inicialmente mostrando até uma certa inocência em meio aos colegas, passa a ser humilhado das piores maneiras por ser considerado um covarde, porém, ele nunca perde a essência. O diálogo com a noiva foi uma maneira prática para explicar que qualquer desobediência às ordens militares ou dor física ali sofrida é menor do que a dor que causaria à sua consciência.

Mas é quando o protagonista é finalmente jogado para a batalha que vemos o Mel Gibson sanguinário em ação. Se em “A Paixão de Cristo” (The Passion of the Christ, 2004) soava muitas vezes o sadismo, aqui ele transporta o espectador para a crueza de uma guerra, sem poupar cabeças estourando repentinamente e membros decepados. Ouso dizer que este é o filme mais brutal do gênero desde “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, 1998), perante a realidade da condução do diretor.

Quem assiste, sente cada impacto, o susto de um ataque surpresa, de um lança-chamas fritando quem vier pela frente, o desespero de uma granada sendo chutada para qualquer lado. Nesse caso, destaque para o excelente trabalho de edição e mixagem de som, por Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace, merecidamente indicados ao Oscar. No meio de tanta desgraça, o cineasta transmite toda a emoção necessária no ato final, quando Desmond busca salvar o máximo de pessoas que consegue, a ponto de entrar no esconderijo inimigo, sempre “guiado pela fé”.

Indicado ao Oscar pela primeira vez, Andrew Garfield se entrega por completo, fisicamente e emocionalmente para viver o jovem franzino e desengonçado que, mesmo em meio ao desespero, tem na racionalidade o seu ponto de equilíbrio. Se Sam Worthington e Vince Vaughn apenas cumprem o protocolo ao viverem os militares linha dura, mas no fundo têm bom coração, Hugo Weaving se destaca como o pai amargurado pelo passado e, mesmo temendo pelo pior dos filhos, os apoia nas decisões mais difíceis. Quem acaba subaproveitada é Teresa Palmer, que está lá para cumprir o papel feminino, além de servir de estímulo para o herói.

Não tem como negar que “Até o Último Homem” é o tipo de longa-metragem americano que a Academia adora: história real de um herói de guerra que se arriscou para salvar dezenas de vidas sozinho. E Mel Gibson também faz de tudo para reforçar essa tendência, mostrando-o como um homem quase sem defeitos, que salva o “inimigo”, com direito a um desnecessário plano no final quando ele está suspenso sob o céu branco ao fundo, quase abrindo os braços como o “Salvador”. Tem também um ar maniqueísta, visto que os japoneses estão lá apenas para matar, com direito a um ataque final mesmo após redenção.

Ainda assim, não tem como negar que se trata de uma história que merece ser conhecida por muita gente. E também, é ótimo ver Mel Gibson motivado e voltando a ser reconhecido pelo seu talento atrás das câmeras. Aos 61 anos, o Max Rockatansky/Martin Riggs/Bret Maverick/William Wallace prova que ainda tem muita lenha para queimar.

Nota: 9,0

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Crítica: “Até o Último Homem” é o melhor Mel Gibson desde “Coração Valente”

Por Thiago Sampaio em Crítica

14 de Fevereiro de 2017

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Mel Gibson é aquele cara cujo potencial tem sido confundido ao longo dos anos com a sua vida pessoal, de modo que nem ele próprio parecia saber ao certo o que queria para a carreira. Consagrado pelas franquias de ação “Mad Max” (1979, 1981, 1985) e “Máquina Mortífera” (1987, 1989, 1992, 1998), vencedor do Oscar de melhor Filme e Diretor por “Coração Valente” (Braveheart, 1995), se viu em meio a polêmicas envolvendo fanatismo religioso, alcoolismo e agressão à ex-esposa, Oksana Grigorieva.

Ele até voltou a atuar em algumas produções como “Os Mercenários 3” (The Expendables 3, 2014) e “Herança de Sangue” (Blood Father, 2016), mas bem longe do destaque de outrora. Em “Até o Último Homem” (Hacksaw Ridge, 2016), indicado a seis Oscars (Filme, Diretor, Ator, Montagem, Mixagem de Som e Edição de Som), Gibson volta a direção 10 anos depois do polêmico “Apocalypto” (idem, 2006), no que parece ser o seu renascimento como artista, unindo talento por trás das câmeras, religião e a característica dose de loucura.

Na trama, ele retrata a história real de Desmond T. Doss (Andrew Garfield) médico que, durante a Segunda Guerra Mundial, se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas. Durante a Batalha de Okinawa, ele ficou conhecido por salvar mais de 75 homens. A postura ganhou repercussão e ele recebeu uma Medalha de Honra do Congresso, tornando-se o primeiro Opositor Consciente da História norte-americana.

Não surpreende que a nova obra de Gibson, roteirizada por Robert Schenkkan (do telefilme “Até o Fim”, 2016) e Andrew Knight (“Promessas de Guerra, 2014), seja sobre redenção. Desmond T. Doss carrega a culpa por atitudes do passado e procura na religião um refúgio. A atitude de ajudar ao próximo e evitar qualquer coisa que vai contra o que acredita é o retrato de um homem notável, sem dúvida, mas acima de tudo, um espelho para o ator/diretor. O filme em si é uma resposta de Mel Gibson a todas as atribulações que tomaram conta da sua vida. Egocêntrico agir dessa maneira? Com certeza! Mas ele é assim.

O personagem Desmond é apresentado com cautela, mostrando a sua infância/adolescência sob a tutela da mãe religiosa, a relação tensa com o irmão mais velho e a criação dispersa do pai que, traumatizado com as experiências vividas na guerra e as perdas de pessoas próximas, se entregou ao álcool (Gibson, você está querendo dizer algo?). O motivo dele se recusar a pegar em uma arma é bem justificado, sendo compreensível o protagonista abrir mão do próprio lazer para partir para uma “missão divina”.

O treinamento do exército, que ocupa boa parte dos longos 139 minutos de projeção, serve para aprofundar a personalidade peculiar de Desmond. Inicialmente mostrando até uma certa inocência em meio aos colegas, passa a ser humilhado das piores maneiras por ser considerado um covarde, porém, ele nunca perde a essência. O diálogo com a noiva foi uma maneira prática para explicar que qualquer desobediência às ordens militares ou dor física ali sofrida é menor do que a dor que causaria à sua consciência.

Mas é quando o protagonista é finalmente jogado para a batalha que vemos o Mel Gibson sanguinário em ação. Se em “A Paixão de Cristo” (The Passion of the Christ, 2004) soava muitas vezes o sadismo, aqui ele transporta o espectador para a crueza de uma guerra, sem poupar cabeças estourando repentinamente e membros decepados. Ouso dizer que este é o filme mais brutal do gênero desde “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, 1998), perante a realidade da condução do diretor.

Quem assiste, sente cada impacto, o susto de um ataque surpresa, de um lança-chamas fritando quem vier pela frente, o desespero de uma granada sendo chutada para qualquer lado. Nesse caso, destaque para o excelente trabalho de edição e mixagem de som, por Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace, merecidamente indicados ao Oscar. No meio de tanta desgraça, o cineasta transmite toda a emoção necessária no ato final, quando Desmond busca salvar o máximo de pessoas que consegue, a ponto de entrar no esconderijo inimigo, sempre “guiado pela fé”.

Indicado ao Oscar pela primeira vez, Andrew Garfield se entrega por completo, fisicamente e emocionalmente para viver o jovem franzino e desengonçado que, mesmo em meio ao desespero, tem na racionalidade o seu ponto de equilíbrio. Se Sam Worthington e Vince Vaughn apenas cumprem o protocolo ao viverem os militares linha dura, mas no fundo têm bom coração, Hugo Weaving se destaca como o pai amargurado pelo passado e, mesmo temendo pelo pior dos filhos, os apoia nas decisões mais difíceis. Quem acaba subaproveitada é Teresa Palmer, que está lá para cumprir o papel feminino, além de servir de estímulo para o herói.

Não tem como negar que “Até o Último Homem” é o tipo de longa-metragem americano que a Academia adora: história real de um herói de guerra que se arriscou para salvar dezenas de vidas sozinho. E Mel Gibson também faz de tudo para reforçar essa tendência, mostrando-o como um homem quase sem defeitos, que salva o “inimigo”, com direito a um desnecessário plano no final quando ele está suspenso sob o céu branco ao fundo, quase abrindo os braços como o “Salvador”. Tem também um ar maniqueísta, visto que os japoneses estão lá apenas para matar, com direito a um ataque final mesmo após redenção.

Ainda assim, não tem como negar que se trata de uma história que merece ser conhecida por muita gente. E também, é ótimo ver Mel Gibson motivado e voltando a ser reconhecido pelo seu talento atrás das câmeras. Aos 61 anos, o Max Rockatansky/Martin Riggs/Bret Maverick/William Wallace prova que ainda tem muita lenha para queimar.

Nota: 9,0