Crítica: "Bate Coração" foca em temas importantes numa abordagem leve e funcional 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Bate Coração” foca em temas importantes numa abordagem leve e funcional

Por Thiago Sampaio em Crítica

07 de novembro de 2019

Foto: Divulgação

É louvável a fase atual de realizadores cearenses de audiovisual. Só em 2019, “Pacarrete”, de Allan Deberton, levou nada menos que oito kikitos no 47° Festival de Cinema de Gramado. “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, foi o longa brasileiro selecionado para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. “O Clube dos Canibais”, de Guto Parente, reafirmou o potencial para o cinema de gênero. O delicado “Bate Coração”, dirigido por Glauber Filho, vem para somar a esses bons valores, abordando uma série de temas contemporâneos e relevantes, porém, com uma estrutura de fácil apreciação do grande público.

Na trama, Sandro (André Bankoff) é um homem conquistador e preconceituoso, acostumado a uma vida de luxo. Quando sofre um ataque cardíaco, precisa urgentemente de um coração novo e recebe o transplante da travesti Isadora (Aramis Trindade), recém-falecida devido a um acidente. Enquanto se recupera, ele passa a sentir uma mudança de comportamento e passa a refletir sobre muitos valores da vida.

A produção da Estação Luz Filmes, responsável por longas como “Chico Xavier” (2010), “Área Q” (2012) e o recente “Divaldo – O Mensageiro da Paz” (2019), em parceria com a Downtown Filmes, tem aqui um projeto que não tenta levantar a bandeira da doutrina espírita, diferente dos longas biográficos. O tema está lá, mas de maneira discreta, numa proposta que se assemelha ao famoso “Ghost – Do Outro Lado da Vida” (1990), que recebe a devida referência.

O diretor Glauber Filho (de “Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito”, 2008; “As Mães de Chico Xavier”, 2011) conduz a narrativa como uma comédia romântica tradicional, enquanto as “lições” do roteiro, escrito pelo cineasta, inspirado nas peças “Acredite, Um Espírito Baixou em Mim” e “O Coração Safado”, de Ronaldo Ciambroni, são inseridas de maneira natural, transitando entre o humor e o drama sem soar forçado. A condução de Glauber é segura, priorizando as interpretações através de muitos planos fechados, intercalando com algumas tomadas aéreas pelas ruas de Fortaleza durante transições.

Tal leveza é refletida pela direção de arte, utilizando cores bem vivas (afinal, a vida é o tema a ser celebrado aqui), não apenas no salão LaBelle de Hour ou a boate MonCherry, onde as travestis transbordam suas personalidades, mas também na empresa onde Sandro trabalha (até as pastas de arquivos que ficam na prateleira são coloridas), nos figurinos com tons fortes, incluindo a lingerie vermelha de uma personagem secundária.

Com a premissa de derrubar preconceitos, o longa corria o risco de provocar o efeito contrário através do humor homofóbico. Mas não é o que acontece. Ainda que algumas piadas soem deslocadas (principalmente com um trio que tem a clara função de servir de alívio cômico), é possível rir com aqueles (e não deles!) personagens homossexuais. Até num momento em que a graça consiste em constranger um homem (Paulo Verllings, bem divertido em cena), são as performistas quem estão no controle da situação.

Além de pregar a coexistência, o projeto ressalta a importância da doação de órgãos, batendo na tecla da segunda chance, da valorização dos bens que rodeiam os humanos. Poderia cair no tom de “panfletagem” e uma certa edição numa cena que envolve um vídeo no WhatsApp é, de fato, expositiva, mas o roteiro se resguarda pelo fato de o protagonista trabalhar numa agência de publicidade e utiliza disto como ponto de virada. Porém, o principal elemento neste sub-enredo é a pequena Luiza, vivida por Laura Milério, uma bela revelação. Transpondo a inocência de uma criança médium, ela é a chave da evolução do caráter de Sandro.

Se a chave é a menina Luiza, o coração é, literalmente, a travesti Isadora. Vivida pelo veterano Aramis Trindade, é a personagem mais complexa da narrativa, cheia de momentos de dores e glórias ao longo da vida e tem um filho com quem não teve convivência (vivido por Brenno Leone). Buscando sempre não cair no caricato, o ator é responsável pelo monólogo mais intenso do filme, roubando a cena.

André Bankoff faz um trabalho correto encarnando o tom canastrão inicial que lhe é proposto e, à medida em que vai se humanizando, consegue fluir o humor sem apenas se tornar afeminado pela influência de Isadora no seu campo energético. Como seu possível interesse romântico, Heloísa Jorge foge do clichê da mocinha que tem idas e vindas com o galã principal. Ela faz uma médica com personalidade forte e que defende os valores que acredita.

Simples e direto dentro de suas propostas, “Bate Coração” é um filme que garante alguns risos e traz reflexões interessantes como a superação dos seus fantasmas mais profundos, o autoperdão e as mudanças que você faria no seu passado para se tornar alguém melhor no presente. Pode não ser inovador, mas por conseguir misturar tantas vertentes sem tropeços, principalmente em tempos permeados por ódio e políticas polarizadoras, o longa é muito bem vindo.

Nota: 7,5

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Crítica: “Bate Coração” foca em temas importantes numa abordagem leve e funcional

Por Thiago Sampaio em Crítica

07 de novembro de 2019

Foto: Divulgação

É louvável a fase atual de realizadores cearenses de audiovisual. Só em 2019, “Pacarrete”, de Allan Deberton, levou nada menos que oito kikitos no 47° Festival de Cinema de Gramado. “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, foi o longa brasileiro selecionado para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. “O Clube dos Canibais”, de Guto Parente, reafirmou o potencial para o cinema de gênero. O delicado “Bate Coração”, dirigido por Glauber Filho, vem para somar a esses bons valores, abordando uma série de temas contemporâneos e relevantes, porém, com uma estrutura de fácil apreciação do grande público.

Na trama, Sandro (André Bankoff) é um homem conquistador e preconceituoso, acostumado a uma vida de luxo. Quando sofre um ataque cardíaco, precisa urgentemente de um coração novo e recebe o transplante da travesti Isadora (Aramis Trindade), recém-falecida devido a um acidente. Enquanto se recupera, ele passa a sentir uma mudança de comportamento e passa a refletir sobre muitos valores da vida.

A produção da Estação Luz Filmes, responsável por longas como “Chico Xavier” (2010), “Área Q” (2012) e o recente “Divaldo – O Mensageiro da Paz” (2019), em parceria com a Downtown Filmes, tem aqui um projeto que não tenta levantar a bandeira da doutrina espírita, diferente dos longas biográficos. O tema está lá, mas de maneira discreta, numa proposta que se assemelha ao famoso “Ghost – Do Outro Lado da Vida” (1990), que recebe a devida referência.

O diretor Glauber Filho (de “Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito”, 2008; “As Mães de Chico Xavier”, 2011) conduz a narrativa como uma comédia romântica tradicional, enquanto as “lições” do roteiro, escrito pelo cineasta, inspirado nas peças “Acredite, Um Espírito Baixou em Mim” e “O Coração Safado”, de Ronaldo Ciambroni, são inseridas de maneira natural, transitando entre o humor e o drama sem soar forçado. A condução de Glauber é segura, priorizando as interpretações através de muitos planos fechados, intercalando com algumas tomadas aéreas pelas ruas de Fortaleza durante transições.

Tal leveza é refletida pela direção de arte, utilizando cores bem vivas (afinal, a vida é o tema a ser celebrado aqui), não apenas no salão LaBelle de Hour ou a boate MonCherry, onde as travestis transbordam suas personalidades, mas também na empresa onde Sandro trabalha (até as pastas de arquivos que ficam na prateleira são coloridas), nos figurinos com tons fortes, incluindo a lingerie vermelha de uma personagem secundária.

Com a premissa de derrubar preconceitos, o longa corria o risco de provocar o efeito contrário através do humor homofóbico. Mas não é o que acontece. Ainda que algumas piadas soem deslocadas (principalmente com um trio que tem a clara função de servir de alívio cômico), é possível rir com aqueles (e não deles!) personagens homossexuais. Até num momento em que a graça consiste em constranger um homem (Paulo Verllings, bem divertido em cena), são as performistas quem estão no controle da situação.

Além de pregar a coexistência, o projeto ressalta a importância da doação de órgãos, batendo na tecla da segunda chance, da valorização dos bens que rodeiam os humanos. Poderia cair no tom de “panfletagem” e uma certa edição numa cena que envolve um vídeo no WhatsApp é, de fato, expositiva, mas o roteiro se resguarda pelo fato de o protagonista trabalhar numa agência de publicidade e utiliza disto como ponto de virada. Porém, o principal elemento neste sub-enredo é a pequena Luiza, vivida por Laura Milério, uma bela revelação. Transpondo a inocência de uma criança médium, ela é a chave da evolução do caráter de Sandro.

Se a chave é a menina Luiza, o coração é, literalmente, a travesti Isadora. Vivida pelo veterano Aramis Trindade, é a personagem mais complexa da narrativa, cheia de momentos de dores e glórias ao longo da vida e tem um filho com quem não teve convivência (vivido por Brenno Leone). Buscando sempre não cair no caricato, o ator é responsável pelo monólogo mais intenso do filme, roubando a cena.

André Bankoff faz um trabalho correto encarnando o tom canastrão inicial que lhe é proposto e, à medida em que vai se humanizando, consegue fluir o humor sem apenas se tornar afeminado pela influência de Isadora no seu campo energético. Como seu possível interesse romântico, Heloísa Jorge foge do clichê da mocinha que tem idas e vindas com o galã principal. Ela faz uma médica com personalidade forte e que defende os valores que acredita.

Simples e direto dentro de suas propostas, “Bate Coração” é um filme que garante alguns risos e traz reflexões interessantes como a superação dos seus fantasmas mais profundos, o autoperdão e as mudanças que você faria no seu passado para se tornar alguém melhor no presente. Pode não ser inovador, mas por conseguir misturar tantas vertentes sem tropeços, principalmente em tempos permeados por ódio e políticas polarizadoras, o longa é muito bem vindo.

Nota: 7,5