Crítica: "Como Eu Era Antes de Você" funciona só para o público-alvo - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Como Eu Era Antes de Você” funciona só para o público-alvo

Por Thiago Sampaio em Crítica

22 de junho de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Há alguns anos virou moda adaptar para o cinema obras literárias de romance “água com açúcar” para agradar, principalmente, o público feminino e adolescente. A culpa disso não é das estrelas (perdão pelo trocadilho infame!), mas de um cara chamado Nicolas Sparks. Com “Um Amor Para Recordar” (A Walk to Remember, 2002) e “Diário de Uma Paixão” (The Notebook, 2004), a fórmula estava criada, rendendo inúmeras tramas semelhantes, inclusive do próprio autor, como “Querido John” (Dear John, 2010), “Um Homem de Sorte” (The Lucky One, 2012), “A Escolha” (The Choice, 2016), entre muitos outros.

John Green é um dos seus seguidores, emplacando – agora sim – “A Culpa é das Estrelas” (The Fault In Our Stars, 2014) e “Cidades de Papel” (Paper Towns, 2015). Indo por esse caminho, “Como Eu Era Antes de Você” (Me Before You, 2016), adaptação do livro-sucesso de Jojo Moyes, chega para conquistar o mesmo público e impulsionar a autora inglesa nessa onda de transição de mídias.

A trama apresenta Will Traynor (Sam Claflin), jovem que leva uma vida repleta de conquistas, viagens e esportes radicais até ser atingido por uma moto, ao atravessar a rua em um dia chuvoso. O acidente o torna tetraplégico, obrigando-o a permanecer em uma cadeira de rodas. A situação o torna depressivo e extremamente cínico, para a preocupação de seus pais (Janet McTeer e Charles Dance). É neste contexto que Louisa Clark (Emilia Clarke) é contratada para cuidar de Will. De origem modesta, com dificuldades financeiras e sem grandes aspirações na vida, ela faz o possível para melhorar o estado de espírito de Will e, aos poucos, acaba se envolvendo com ele.

No fim das contas, todas essas produções têm algo em comum: abordar a vida em situações extremas, provocando no espectador a construção de empatia, de se imaginar na pele dos personagens fictícios para que, ao final, ele tire o lenço do bolso e caia aquele “cisco no olho”. “Como Eu Era Antes de Você” segue esse manual de instruções desde o início, cheio de ingredientes para atrair o grande público. Os protagonistas estão em alta (Emilia Clarke é uma das estrelas do seriado “Game of Thrones” e Sam Claflin é coadjuvante de luxo da franquia “Jogos Vorazes”), a trilha-sonora tem hits do momento (“Photograph”, de Ed Sheeran, é daquelas que tocam a cada hora nas rádios), e aquela velha história do casal improvável que, de uma incompatibilidade inicial, eles descobrem que se completam.

Se algo faz esse produto funcionar, pelo menos em partes, é o esforço dos protagonistas. Emilia Clarke, bem diferente da forte Daenerys Targaryen de “Game of Thrones“, tem carisma na dose certa ao encarnar uma personagem que não se encaixa nos padrões da sociedade. Claflin se aproveita do status de galã para fazer um contraste com a situação de Will Traynor que sempre depende do auxílio dos outros, entregando uma atuação de alguém sempre pessimista, desgostoso com a vida. Se por um lado ela diverte com as roupas extravagantes e o jeito espontâneo, ele desperta a repulsa por parte do público por se comportar como um típico riquinho que vê o seu mundo desabar por não poder desfrutar dos luxos de outrora. Mas o tempo todo existe a sensação de que eles saíram de um livro, não são reais.

O roteiro não foge da zona de conforto na adaptação, até porque, olha só, ele é escrito pela própria Jojo Moyes! Os pontos altos são justamente na construção da personagem Louise Clark, deslocada vivendo numa família que sempre a compara com a irmã melhor sucedida e com um namorado (Matthew Lewis, o Neville Longbottom da saga “Harry Potter”) que só fala asneiras e apenas “a encaixa” na vida dele. Ao conviver com Will Traynor, ela sai do piloto automático, descobre que gosta de filmes com conteúdo, tem a auto estima elevada ao ter alguém que a aceite como ela é e acredita no seu potencial. Todas as lições de vida sobre “amar a si próprio acima de tudo” são transpostas de maneira bem didática para o mais leigo ver, a ponto de ter uma cena em que Traynor pede para ela tirar um cachecol enorme que esconde o belo vestido vermelho que ela veste pela primeira vez.

A diretora estreante Thea Sharrock constrói a relação entre Louise e Will de maneira bem clichê: ele permite que ela faça a sua barba, ela a convida para “dançar” sentada no seu colo, ao mesmo tempo em que abrem os horizontes da vida um do outro. Tudo isso recheado de frases de efeito, como “Às vezes você é a única coisa que me dá vontade de levantar da cama”. Mas ao tentar fugir do lugar comum, o longa-metragem acaba por causar o impacto inesperado no espectador. A maioria dos filmes do gênero não possuem finais felizes, apesar de transmitirem uma mensagem positiva. Mas neste, o livre arbítrio do personagem principal tem total influência no seu destino, o que pode causar a indignação de muitos.

Não à toa, Francesco Clark, autor do livro “Walking Papers”, em que conta como aprendeu a conviver com o fato de ter se tornado tetraplégico, mostrou indignação ao ter seu nome mencionado na adaptação. A impressão é a de que toda a ideia de superação ou mesmo o batido ditado de que “o amor supera todos os obstáculos” vai por água abaixo. A mensagem não é de motivação. Por isso, o que seria mais um romance como muitos outros, o longa-metragem se transforma em uma espécie de “Mar Adentro” (The Sea Inside, 2004) versão teen. Pode até parecer mais maduro e corajoso do que a maioria das produções do gênero, mas a impressão de artificialidade está lá o tempo todo.

“Como Eu Era Antes de Você” passa bem longe de ser um filme rico como o excelente francês “Intocáveis” (The Intouchables, 2011). Mas esse nunca foi o seu objetivo, de uma forma ou de outra atingido por conquistar o seu público alvo, que certamente vai adorar o produto e derramar algumas lágrimas. Não é de se espantar que a continuação, “Depois de Você”, também seja levada às telas em um futuro não tão distante. Jojo Moyes certamente já está imaginando suas outras obras, como “A Garota Que Você Deixou para Trás”, “Um Mais Um”, entre outros, para o novo formato, garantindo um bom reforço na conta bancária.

Nota: 5,0

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Crítica: “Como Eu Era Antes de Você” funciona só para o público-alvo

Por Thiago Sampaio em Crítica

22 de junho de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Há alguns anos virou moda adaptar para o cinema obras literárias de romance “água com açúcar” para agradar, principalmente, o público feminino e adolescente. A culpa disso não é das estrelas (perdão pelo trocadilho infame!), mas de um cara chamado Nicolas Sparks. Com “Um Amor Para Recordar” (A Walk to Remember, 2002) e “Diário de Uma Paixão” (The Notebook, 2004), a fórmula estava criada, rendendo inúmeras tramas semelhantes, inclusive do próprio autor, como “Querido John” (Dear John, 2010), “Um Homem de Sorte” (The Lucky One, 2012), “A Escolha” (The Choice, 2016), entre muitos outros.

John Green é um dos seus seguidores, emplacando – agora sim – “A Culpa é das Estrelas” (The Fault In Our Stars, 2014) e “Cidades de Papel” (Paper Towns, 2015). Indo por esse caminho, “Como Eu Era Antes de Você” (Me Before You, 2016), adaptação do livro-sucesso de Jojo Moyes, chega para conquistar o mesmo público e impulsionar a autora inglesa nessa onda de transição de mídias.

A trama apresenta Will Traynor (Sam Claflin), jovem que leva uma vida repleta de conquistas, viagens e esportes radicais até ser atingido por uma moto, ao atravessar a rua em um dia chuvoso. O acidente o torna tetraplégico, obrigando-o a permanecer em uma cadeira de rodas. A situação o torna depressivo e extremamente cínico, para a preocupação de seus pais (Janet McTeer e Charles Dance). É neste contexto que Louisa Clark (Emilia Clarke) é contratada para cuidar de Will. De origem modesta, com dificuldades financeiras e sem grandes aspirações na vida, ela faz o possível para melhorar o estado de espírito de Will e, aos poucos, acaba se envolvendo com ele.

No fim das contas, todas essas produções têm algo em comum: abordar a vida em situações extremas, provocando no espectador a construção de empatia, de se imaginar na pele dos personagens fictícios para que, ao final, ele tire o lenço do bolso e caia aquele “cisco no olho”. “Como Eu Era Antes de Você” segue esse manual de instruções desde o início, cheio de ingredientes para atrair o grande público. Os protagonistas estão em alta (Emilia Clarke é uma das estrelas do seriado “Game of Thrones” e Sam Claflin é coadjuvante de luxo da franquia “Jogos Vorazes”), a trilha-sonora tem hits do momento (“Photograph”, de Ed Sheeran, é daquelas que tocam a cada hora nas rádios), e aquela velha história do casal improvável que, de uma incompatibilidade inicial, eles descobrem que se completam.

Se algo faz esse produto funcionar, pelo menos em partes, é o esforço dos protagonistas. Emilia Clarke, bem diferente da forte Daenerys Targaryen de “Game of Thrones“, tem carisma na dose certa ao encarnar uma personagem que não se encaixa nos padrões da sociedade. Claflin se aproveita do status de galã para fazer um contraste com a situação de Will Traynor que sempre depende do auxílio dos outros, entregando uma atuação de alguém sempre pessimista, desgostoso com a vida. Se por um lado ela diverte com as roupas extravagantes e o jeito espontâneo, ele desperta a repulsa por parte do público por se comportar como um típico riquinho que vê o seu mundo desabar por não poder desfrutar dos luxos de outrora. Mas o tempo todo existe a sensação de que eles saíram de um livro, não são reais.

O roteiro não foge da zona de conforto na adaptação, até porque, olha só, ele é escrito pela própria Jojo Moyes! Os pontos altos são justamente na construção da personagem Louise Clark, deslocada vivendo numa família que sempre a compara com a irmã melhor sucedida e com um namorado (Matthew Lewis, o Neville Longbottom da saga “Harry Potter”) que só fala asneiras e apenas “a encaixa” na vida dele. Ao conviver com Will Traynor, ela sai do piloto automático, descobre que gosta de filmes com conteúdo, tem a auto estima elevada ao ter alguém que a aceite como ela é e acredita no seu potencial. Todas as lições de vida sobre “amar a si próprio acima de tudo” são transpostas de maneira bem didática para o mais leigo ver, a ponto de ter uma cena em que Traynor pede para ela tirar um cachecol enorme que esconde o belo vestido vermelho que ela veste pela primeira vez.

A diretora estreante Thea Sharrock constrói a relação entre Louise e Will de maneira bem clichê: ele permite que ela faça a sua barba, ela a convida para “dançar” sentada no seu colo, ao mesmo tempo em que abrem os horizontes da vida um do outro. Tudo isso recheado de frases de efeito, como “Às vezes você é a única coisa que me dá vontade de levantar da cama”. Mas ao tentar fugir do lugar comum, o longa-metragem acaba por causar o impacto inesperado no espectador. A maioria dos filmes do gênero não possuem finais felizes, apesar de transmitirem uma mensagem positiva. Mas neste, o livre arbítrio do personagem principal tem total influência no seu destino, o que pode causar a indignação de muitos.

Não à toa, Francesco Clark, autor do livro “Walking Papers”, em que conta como aprendeu a conviver com o fato de ter se tornado tetraplégico, mostrou indignação ao ter seu nome mencionado na adaptação. A impressão é a de que toda a ideia de superação ou mesmo o batido ditado de que “o amor supera todos os obstáculos” vai por água abaixo. A mensagem não é de motivação. Por isso, o que seria mais um romance como muitos outros, o longa-metragem se transforma em uma espécie de “Mar Adentro” (The Sea Inside, 2004) versão teen. Pode até parecer mais maduro e corajoso do que a maioria das produções do gênero, mas a impressão de artificialidade está lá o tempo todo.

“Como Eu Era Antes de Você” passa bem longe de ser um filme rico como o excelente francês “Intocáveis” (The Intouchables, 2011). Mas esse nunca foi o seu objetivo, de uma forma ou de outra atingido por conquistar o seu público alvo, que certamente vai adorar o produto e derramar algumas lágrimas. Não é de se espantar que a continuação, “Depois de Você”, também seja levada às telas em um futuro não tão distante. Jojo Moyes certamente já está imaginando suas outras obras, como “A Garota Que Você Deixou para Trás”, “Um Mais Um”, entre outros, para o novo formato, garantindo um bom reforço na conta bancária.

Nota: 5,0