Crítica: "Corra!" é mais do que um suspense eficiente...é essencial! - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Corra!” é mais do que um suspense eficiente…é essencial!

Por Thiago Sampaio em Crítica

19 de Maio de 2017

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Em meio a tantos filmes de suspense que são lançados no mercado, é louvável quando uma produção tenta transmitir algo mais do que apenas dar sustos. No caso de “Corra!” (Get Out, 2017), os ingredientes básicos do gênero são trabalhados de maneira admirável, servindo também como uma forte crítica social, com uma roupagem rara. E não à toa, é até aqui a sensação do ano, colecionando críticas positivas.

Na trama, Chris (Daniel Kaluuya) é um jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada caucasiana Rose (Allison Williams). A princípio, ele acredita que o comportamento excessivamente amoroso por parte da família dela é uma tentativa de lidar com o relacionamento de Rose com um rapaz negro, mas, com o tempo, Chris percebe que a família esconde algo muito mais perturbador.

O diretor e roteirista Jordan Peele (mais conhecido pelo seriado de comédia “Key and Peele”) pega um esboço de trama simples para distribuir os mistérios essenciais. Logo quando o personagem Chris chega na casa dos sogros, um típico retrato “tradicional”: casal branco, pai e filho médicos, funcionários negros que agem de maneira quase robótica. Óbvio, o espectador não é besta e sabe o tempo todo que tem algo de errado acontecendo. E propositalmente, as “assombrações” iniciais são justamente os serviçais!

Os clichês do gênero estão presentes: pessoas surgindo repentinamente na janela, ou correndo, ou falando de modo que parece que existe alguém aprisionado a fim de gritar, mas se esconde através de um sorriso nada natural. Enquanto isso, o protagonista se sente deslocado e louco para sair dali, por motivos óbvios, já que até o celular dele havia sido tirado do carregador.

Até então, nada de muito inovador para um longa do gênero. Mas há algo intrínseco, uma mensagem social em cada ato ou fala dos “anfitriões”. Por mais que a família de Rose soe receptiva à primeira vista, sempre há uma sensação de repulsa. A começar pela declaração do pai (Bradley Whitford, do seriado “The West Wing”, numa frieza condizente com o papel) de que fizeram um favor ao atropelar um cervo no meio da estrada por acidente, já que assim estão “fazendo um bem à humanidade”.

À medida que o longa decorre, as diferenças no tratamento vão ficando cada vez mais drásticas. A mãe (a veterana Catherine Kenner, numa aura de charme e mistério impecável), propõe ao genro “ajudá-lo” a se livrar do vício em cigarro através da hipnose. Detalhe para a eficiente visão do diretor quando o ato é executado, mostrando o “paciente” perdido numa espécie de limbo, enquanto alguém distante fala coisas que afetam as memórias mais profundas e dolorosas.

Os paralelos vão ganhando exemplos cada vez mais contundentes e que não estão nada longe da nossa realidade. Na tentativa de mostrar que são pessoas desprovidas de preconceito, a naturalidade vai sempre para ralo. “Eu não sou racista, eu votei no Obama“. No caso do cunhado inconveniente (vivido por Caleb Landry Jones de maneira irritante, o que é um elogio!), nem há tentativa de disfarce, ao questionar num jantar o motivo pelo qual Chris não se tornou um lutador de MMA, já que a “maquiagem genética” o favorece.

Situações de “política da boa vizinhança” se tornam corriqueiras na festa da família, frequentada em grande maioria por idosos. Alguém gosta de golfe, logo cita Tiger Woods. Comentário sobre o órgão genital, inevitável. Até de que “está na moda” essa afeição por negros. Ou seja: todo mundo tenta ser legal, mas é como se estivesse diante de alguém diferente, e não um ser humano como qualquer outro. Em um cenário global tão cercado de ódio, julgamentos, será que estamos tão distantes assim dessa realidade?

As comparações com a época da escravatura são fortes, ao mesmo tempo em que o sobrenatural permeia pela trama. “Apenas sorria!”. Ora, um negro mostrando a qualidade dos dentes para possíveis compradores! Na cena do leilão, o paralelo praticamente deixa de ser subjetivo e se torna explícito. Será que os humanos mudaram mesmo ao longo dos séculos? Trata-se de um suspense, porém, vai além de uma ficção de cunho único de entretenimento.

Quando o tal mistério finalmente é revelado, temos a confirmação das críticas que estavam óbvias. Porém, Jordan Peele parte para o estilo gore. A reta final tem sangue, perseguição, burrices (afinal, se trata de um filme de terror!) e conclusões nem tão criativas. Em meio a tudo isso, importante ressaltar a participação de Rod Williams, como o melhor amigo do protagonista, que funciona como alívio cômico, mas está presente do início ao fim.

Daniel Kaluuya (que já havia chamado atenção em um episódio da série “The Black Mirror”), faz um trabalho formidável. Olhos arregalados, a bondade sempre junta à sensação de constante desconforto. Certamente era o papel que ele precisava para ganhar projeção. Além dele, a bela Alisson Williams faz um trabalho eficiente como a namorada que convence o parceiro a se sentir à vontade e, ao mesmo tempo, defende a própria família.

Funcionando tanto no quesito suspense como crítica social, “Corra!” é uma obra que precisa ser vista e analisada. Pode até falhar ao não concluir a questão da suscetibilidade racial perante às famílias “padrões”. Mas só em jogar para a cabeça do espectador a ideia de algo que parece natural, mas na verdade se trata de um medo real e, infelizmente, invisível para a maioria, o recado foi dado.

Nota: 9,0

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Crítica: “Corra!” é mais do que um suspense eficiente…é essencial!

Por Thiago Sampaio em Crítica

19 de Maio de 2017

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Em meio a tantos filmes de suspense que são lançados no mercado, é louvável quando uma produção tenta transmitir algo mais do que apenas dar sustos. No caso de “Corra!” (Get Out, 2017), os ingredientes básicos do gênero são trabalhados de maneira admirável, servindo também como uma forte crítica social, com uma roupagem rara. E não à toa, é até aqui a sensação do ano, colecionando críticas positivas.

Na trama, Chris (Daniel Kaluuya) é um jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada caucasiana Rose (Allison Williams). A princípio, ele acredita que o comportamento excessivamente amoroso por parte da família dela é uma tentativa de lidar com o relacionamento de Rose com um rapaz negro, mas, com o tempo, Chris percebe que a família esconde algo muito mais perturbador.

O diretor e roteirista Jordan Peele (mais conhecido pelo seriado de comédia “Key and Peele”) pega um esboço de trama simples para distribuir os mistérios essenciais. Logo quando o personagem Chris chega na casa dos sogros, um típico retrato “tradicional”: casal branco, pai e filho médicos, funcionários negros que agem de maneira quase robótica. Óbvio, o espectador não é besta e sabe o tempo todo que tem algo de errado acontecendo. E propositalmente, as “assombrações” iniciais são justamente os serviçais!

Os clichês do gênero estão presentes: pessoas surgindo repentinamente na janela, ou correndo, ou falando de modo que parece que existe alguém aprisionado a fim de gritar, mas se esconde através de um sorriso nada natural. Enquanto isso, o protagonista se sente deslocado e louco para sair dali, por motivos óbvios, já que até o celular dele havia sido tirado do carregador.

Até então, nada de muito inovador para um longa do gênero. Mas há algo intrínseco, uma mensagem social em cada ato ou fala dos “anfitriões”. Por mais que a família de Rose soe receptiva à primeira vista, sempre há uma sensação de repulsa. A começar pela declaração do pai (Bradley Whitford, do seriado “The West Wing”, numa frieza condizente com o papel) de que fizeram um favor ao atropelar um cervo no meio da estrada por acidente, já que assim estão “fazendo um bem à humanidade”.

À medida que o longa decorre, as diferenças no tratamento vão ficando cada vez mais drásticas. A mãe (a veterana Catherine Kenner, numa aura de charme e mistério impecável), propõe ao genro “ajudá-lo” a se livrar do vício em cigarro através da hipnose. Detalhe para a eficiente visão do diretor quando o ato é executado, mostrando o “paciente” perdido numa espécie de limbo, enquanto alguém distante fala coisas que afetam as memórias mais profundas e dolorosas.

Os paralelos vão ganhando exemplos cada vez mais contundentes e que não estão nada longe da nossa realidade. Na tentativa de mostrar que são pessoas desprovidas de preconceito, a naturalidade vai sempre para ralo. “Eu não sou racista, eu votei no Obama“. No caso do cunhado inconveniente (vivido por Caleb Landry Jones de maneira irritante, o que é um elogio!), nem há tentativa de disfarce, ao questionar num jantar o motivo pelo qual Chris não se tornou um lutador de MMA, já que a “maquiagem genética” o favorece.

Situações de “política da boa vizinhança” se tornam corriqueiras na festa da família, frequentada em grande maioria por idosos. Alguém gosta de golfe, logo cita Tiger Woods. Comentário sobre o órgão genital, inevitável. Até de que “está na moda” essa afeição por negros. Ou seja: todo mundo tenta ser legal, mas é como se estivesse diante de alguém diferente, e não um ser humano como qualquer outro. Em um cenário global tão cercado de ódio, julgamentos, será que estamos tão distantes assim dessa realidade?

As comparações com a época da escravatura são fortes, ao mesmo tempo em que o sobrenatural permeia pela trama. “Apenas sorria!”. Ora, um negro mostrando a qualidade dos dentes para possíveis compradores! Na cena do leilão, o paralelo praticamente deixa de ser subjetivo e se torna explícito. Será que os humanos mudaram mesmo ao longo dos séculos? Trata-se de um suspense, porém, vai além de uma ficção de cunho único de entretenimento.

Quando o tal mistério finalmente é revelado, temos a confirmação das críticas que estavam óbvias. Porém, Jordan Peele parte para o estilo gore. A reta final tem sangue, perseguição, burrices (afinal, se trata de um filme de terror!) e conclusões nem tão criativas. Em meio a tudo isso, importante ressaltar a participação de Rod Williams, como o melhor amigo do protagonista, que funciona como alívio cômico, mas está presente do início ao fim.

Daniel Kaluuya (que já havia chamado atenção em um episódio da série “The Black Mirror”), faz um trabalho formidável. Olhos arregalados, a bondade sempre junta à sensação de constante desconforto. Certamente era o papel que ele precisava para ganhar projeção. Além dele, a bela Alisson Williams faz um trabalho eficiente como a namorada que convence o parceiro a se sentir à vontade e, ao mesmo tempo, defende a própria família.

Funcionando tanto no quesito suspense como crítica social, “Corra!” é uma obra que precisa ser vista e analisada. Pode até falhar ao não concluir a questão da suscetibilidade racial perante às famílias “padrões”. Mas só em jogar para a cabeça do espectador a ideia de algo que parece natural, mas na verdade se trata de um medo real e, infelizmente, invisível para a maioria, o recado foi dado.

Nota: 9,0