Crítica: "Creed - Nascido para Lutar" honra o espírito de Rocky Balboa - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Creed – Nascido para Lutar” honra o espírito de Rocky Balboa

Por Thiago Sampaio em Crítica

22 de Janeiro de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Rocky Balboa não só tem um lugar cativo no cinema como a sua história se confunde com a do seu intérprete, Sylvester Stallone. Afinal, ao criar o fictício pugilista e exigir interpretá-lo, indo contra a vontade do estúdio e dos produtores, em “Rocky: Um Lutador (1977)”, saiu do fundo do poço e emplacou uma das sagas mais emblemáticas da sétima arte. Após seis filmes, cujo último “Rocky Balboa” (2006) aparentemente trazia uma conclusão para a série, chega “Creed – Nascido para Lutar” (Creed, 2015) com o intuito de dar continuidade ao seu legado. E o trabalho não só é bem sucedido, dando início a uma nova franquia, como honra toda a trajetória do carismático personagem e apresenta um dos melhores trabalhos do seu criador.

Sinopse

A trama apresenta Adonis Johnson (Michael B. Jordan) filho bastardo de Apollo Creed, ex-rival e treinador de Rocky Balboa (Sylvester Stallone), que faleceu antes de seu nascimento. Ainda assim, a luta está em seu sangue e ele decide entrar no mundo das competições profissionais de boxe. Após muito insistir, Adonis consegue convencer Rocky  a ser seu treinador e, enquanto um luta pela glória, o outro luta pela vida.

Recomeço e nostalgia

Pela primeira vez, Stallone participa de um longa-metragem sobre Rocky apenas como ator, sem participação no roteiro ou direção. E essa é a ideia de “Creed – Nascido para Lutar”: não se trata de mais um filme sobre o personagem, mas com ele. Ao mesmo tempo em que introduz um novo protagonista, o espírito daquele filme de 1977 está presente. Não à toa, a saga de Adonis “Creed” Johnson se assemelha ao do seu mentor: busca o mérito através do próprio esforço (apesar de vir de família abastada), adquire uma relação de pai e filho com o treinador e repentinamente vê a chance do estrelato cair nos próprios pés ao enfrentar o atual campeão mundial por pura jogada de marketing.

E um dos principais méritos do projeto é justamente o jovem diretor e roteirista Ryan Coogler (“Fruitvale Station: A Última Parada”). Consciente de que está mexendo em um terreno perigoso, ele acerta a mão ao construir algo novo, se desprendendo aos poucos dos filmes anteriores, mas sem deixar de lado a nostalgia. Adonis é o novo protagonista. É com ele que a trama se inicia ainda criança, acompanhamos a sua paixão pelo esporte motivada pela memória do pai, o seu relacionamento com a aspirante a cantora Bianca, o seu treinamento, até o inevitável combate final. Ainda assim, estão lá a famosa escadaria da Filadélfia, a fachada da academia do falecido Mickey, flashbacks e fotos dos combates entre Rocky e Apollo Creed, mostrando que o universo ainda é o mesmo.

Emoção continua

O contraste entre o novo e velho que existe entre os protagonistas é bem aplicado por Coogler na direção. Em um momento crucial, ele instiga os velhos fãs com a introdução da música clássica “Gonna Fly Now”, de Bill Conti, mas ela logo é cortada para a continuidade do novo tema por Ludwig Göransson (que apesar de empolgante, ainda não tem identidade própria). Não tem como não admirar a beleza da cena em que Adonis corre, com um capuz igual ao de Rocky e, assim como acontecia com o seu mentor, é acompanhado por seguidores. A diferença é que eles correm em direção a Balboa, o ídolo do bem que todos fazem questão de lutar e torcer por ele. Até mesmo os clichês do gênero são utilizados de maneira pontual, como o treinamento rústico de Balboa pegando galinhas ou instigando o pupilo a correr atrás da sua van funcionam com bom humor.

Inserido numa nova realidade, Coogler utiliza de recursos interessantes como a paralisação da tela para o surgimento do cartel dos lutadores que surgem em cena. E assim como nos longas anteriores (com exceção do pavoroso quinto episódio), o diretor sabe fazer o espectador torcer, vibrar e se emocionar com os personagens. O combate final é uma boa mostra da condução do cineasta de 29 anos, utilizando de realismo, closes, cortes e câmera lenta utilizados de maneira precisa sem poupar a visceralidade nos golpes. Enquanto Rocky, mesmo debilitado, motiva o pupilo a treinar cada vez mais arduamente até no hospital, ao passo em que eles se ajudam mutuamente, é difícil não criar uma empatia pela dupla.

Show de Stallone

Assumindo a responsabilidade de herdar o título da nova franquia, Michael B. Jordan faz um trabalho consistente como Adonis Creed, repetindo a parceria com o diretor de “Fruitvale Station: A Última Parada”, transpondo a imagem de jovem determinado no que sonha, porém, atormentado pela sombra do pai que nunca conheceu. Apesar de soar arrogante de início (até como mecanismo de defesa), o personagem mostra humanidade para conquistar o público. Em sintonia com ele, Tessa Thompson (“Selma”) faz um bom trabalho como o seu interesse amoroso, uma mulher que por trás da postura confiante é cheia de dramas pessoais. Destaque também para Phylicia Rashad, a ex-mulher de Apollo Creed que traz uma forte carga dramática com o amor e uma preocupação pelo filho adotivo que só uma mãe tem.

Mas se Adonis é o cérebro da nova franquia, Rocky é o coração. E é nele onde mora a maior simbologia: o carinho de Sylvester Stallone pelo personagem é tanto que ele traz toda a emoção que ele carrega para o longa-metragem. Sly está longe de ser o ator mais expressivo. O rosto desfigurado pelo tempo e a boca torta continuam lá. Mas é difícil crer que não é Rocky Balboa, aquele sujeito meio ingênuo, de inteligência não muito elevada mas que transborda bondade, que está em cena. O ex-pugilista perdeu todos que amava, não tem contato com o filho e vê em Adonis uma chance de redenção, além da sensação de dívida para com o pai dele. E assim como o longa de 2006, ele tem a chance de um diálogos onde demonstra toda a sua angústia por se sentir deslocado no mundo. No fim das contas, é difícil não se emocionar com ele que, pega sempre a mesma cadeira para sentar e ler o jornal ao lado do túmulo da esposa, buscando motivação para lutar (algo que, no duplo sentido, fez a vida toda) pela própria vida.

A saga vive

“Creed – Nascido para Lutar” mostra que a franquia Rocky ainda é soberana quando o assunto são filmes de boxe no cinema (o recente “Nocaute”, estrelado por Jake Gyllenhaal, é prova disso por apenas copiar as suas tendências). E para quem já vibrou ao ver o querido personagem subindo as escadarias, treinando batendo em carnes no frigorífico e até hoje se instiga ao som da música-tema, o longa-metragem traz um agradável gosto de melancolia por trazer uma nova realidade. Para Sylvester Stallone, a coroação de um trabalho incorporado por ele há quase 40 anos.

Nota: 8,5

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Crítica: “Creed – Nascido para Lutar” honra o espírito de Rocky Balboa

Por Thiago Sampaio em Crítica

22 de Janeiro de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Rocky Balboa não só tem um lugar cativo no cinema como a sua história se confunde com a do seu intérprete, Sylvester Stallone. Afinal, ao criar o fictício pugilista e exigir interpretá-lo, indo contra a vontade do estúdio e dos produtores, em “Rocky: Um Lutador (1977)”, saiu do fundo do poço e emplacou uma das sagas mais emblemáticas da sétima arte. Após seis filmes, cujo último “Rocky Balboa” (2006) aparentemente trazia uma conclusão para a série, chega “Creed – Nascido para Lutar” (Creed, 2015) com o intuito de dar continuidade ao seu legado. E o trabalho não só é bem sucedido, dando início a uma nova franquia, como honra toda a trajetória do carismático personagem e apresenta um dos melhores trabalhos do seu criador.

Sinopse

A trama apresenta Adonis Johnson (Michael B. Jordan) filho bastardo de Apollo Creed, ex-rival e treinador de Rocky Balboa (Sylvester Stallone), que faleceu antes de seu nascimento. Ainda assim, a luta está em seu sangue e ele decide entrar no mundo das competições profissionais de boxe. Após muito insistir, Adonis consegue convencer Rocky  a ser seu treinador e, enquanto um luta pela glória, o outro luta pela vida.

Recomeço e nostalgia

Pela primeira vez, Stallone participa de um longa-metragem sobre Rocky apenas como ator, sem participação no roteiro ou direção. E essa é a ideia de “Creed – Nascido para Lutar”: não se trata de mais um filme sobre o personagem, mas com ele. Ao mesmo tempo em que introduz um novo protagonista, o espírito daquele filme de 1977 está presente. Não à toa, a saga de Adonis “Creed” Johnson se assemelha ao do seu mentor: busca o mérito através do próprio esforço (apesar de vir de família abastada), adquire uma relação de pai e filho com o treinador e repentinamente vê a chance do estrelato cair nos próprios pés ao enfrentar o atual campeão mundial por pura jogada de marketing.

E um dos principais méritos do projeto é justamente o jovem diretor e roteirista Ryan Coogler (“Fruitvale Station: A Última Parada”). Consciente de que está mexendo em um terreno perigoso, ele acerta a mão ao construir algo novo, se desprendendo aos poucos dos filmes anteriores, mas sem deixar de lado a nostalgia. Adonis é o novo protagonista. É com ele que a trama se inicia ainda criança, acompanhamos a sua paixão pelo esporte motivada pela memória do pai, o seu relacionamento com a aspirante a cantora Bianca, o seu treinamento, até o inevitável combate final. Ainda assim, estão lá a famosa escadaria da Filadélfia, a fachada da academia do falecido Mickey, flashbacks e fotos dos combates entre Rocky e Apollo Creed, mostrando que o universo ainda é o mesmo.

Emoção continua

O contraste entre o novo e velho que existe entre os protagonistas é bem aplicado por Coogler na direção. Em um momento crucial, ele instiga os velhos fãs com a introdução da música clássica “Gonna Fly Now”, de Bill Conti, mas ela logo é cortada para a continuidade do novo tema por Ludwig Göransson (que apesar de empolgante, ainda não tem identidade própria). Não tem como não admirar a beleza da cena em que Adonis corre, com um capuz igual ao de Rocky e, assim como acontecia com o seu mentor, é acompanhado por seguidores. A diferença é que eles correm em direção a Balboa, o ídolo do bem que todos fazem questão de lutar e torcer por ele. Até mesmo os clichês do gênero são utilizados de maneira pontual, como o treinamento rústico de Balboa pegando galinhas ou instigando o pupilo a correr atrás da sua van funcionam com bom humor.

Inserido numa nova realidade, Coogler utiliza de recursos interessantes como a paralisação da tela para o surgimento do cartel dos lutadores que surgem em cena. E assim como nos longas anteriores (com exceção do pavoroso quinto episódio), o diretor sabe fazer o espectador torcer, vibrar e se emocionar com os personagens. O combate final é uma boa mostra da condução do cineasta de 29 anos, utilizando de realismo, closes, cortes e câmera lenta utilizados de maneira precisa sem poupar a visceralidade nos golpes. Enquanto Rocky, mesmo debilitado, motiva o pupilo a treinar cada vez mais arduamente até no hospital, ao passo em que eles se ajudam mutuamente, é difícil não criar uma empatia pela dupla.

Show de Stallone

Assumindo a responsabilidade de herdar o título da nova franquia, Michael B. Jordan faz um trabalho consistente como Adonis Creed, repetindo a parceria com o diretor de “Fruitvale Station: A Última Parada”, transpondo a imagem de jovem determinado no que sonha, porém, atormentado pela sombra do pai que nunca conheceu. Apesar de soar arrogante de início (até como mecanismo de defesa), o personagem mostra humanidade para conquistar o público. Em sintonia com ele, Tessa Thompson (“Selma”) faz um bom trabalho como o seu interesse amoroso, uma mulher que por trás da postura confiante é cheia de dramas pessoais. Destaque também para Phylicia Rashad, a ex-mulher de Apollo Creed que traz uma forte carga dramática com o amor e uma preocupação pelo filho adotivo que só uma mãe tem.

Mas se Adonis é o cérebro da nova franquia, Rocky é o coração. E é nele onde mora a maior simbologia: o carinho de Sylvester Stallone pelo personagem é tanto que ele traz toda a emoção que ele carrega para o longa-metragem. Sly está longe de ser o ator mais expressivo. O rosto desfigurado pelo tempo e a boca torta continuam lá. Mas é difícil crer que não é Rocky Balboa, aquele sujeito meio ingênuo, de inteligência não muito elevada mas que transborda bondade, que está em cena. O ex-pugilista perdeu todos que amava, não tem contato com o filho e vê em Adonis uma chance de redenção, além da sensação de dívida para com o pai dele. E assim como o longa de 2006, ele tem a chance de um diálogos onde demonstra toda a sua angústia por se sentir deslocado no mundo. No fim das contas, é difícil não se emocionar com ele que, pega sempre a mesma cadeira para sentar e ler o jornal ao lado do túmulo da esposa, buscando motivação para lutar (algo que, no duplo sentido, fez a vida toda) pela própria vida.

A saga vive

“Creed – Nascido para Lutar” mostra que a franquia Rocky ainda é soberana quando o assunto são filmes de boxe no cinema (o recente “Nocaute”, estrelado por Jake Gyllenhaal, é prova disso por apenas copiar as suas tendências). E para quem já vibrou ao ver o querido personagem subindo as escadarias, treinando batendo em carnes no frigorífico e até hoje se instiga ao som da música-tema, o longa-metragem traz um agradável gosto de melancolia por trazer uma nova realidade. Para Sylvester Stallone, a coroação de um trabalho incorporado por ele há quase 40 anos.

Nota: 8,5