Crítica: "Doutor Sono" encontra o difícil meio termo entre as obras de Stephen King e Stanley Kubrick 
Publicidade

Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Doutor Sono” encontra o difícil meio termo entre as obras de Stephen King e Stanley Kubrick

Por Thiago Sampaio em Crítica

21 de novembro de 2019

Foto: Divulgação

Fazer uma continuação do clássico “O Iluminado” (The Shinning, 1980) era uma missão pra lá de ingrata. Afinal, Stephen King, autor da obra original, não fez questão alguma de esconder a sua insatisfação com a adaptação nada fiel de Stanley Kubrick. Coube ao eficiente diretor Mike Flanagan encontrar o equilíbrio de modo que agradasse o escritor e sua legião de fãs, ao mesmo tempo que mantivesse viva a memória do longa do início dos anos 80. E ainda que por vezes se mostre indeciso quanto a sua própria proposta, “Doutor Sono” (Doctor Sleep, 2019) é uma nova visita bem honesta com todos que já tiveram alguma participação naquele universo.

Na trama, ainda marcado pelo trauma que sofreu quando criança, Danny Torrance (Ewan McGregor) luta para encontrar o mínimo de paz. Vivendo em constante fuga, ele encontra Abra (Kyliegh Curran), uma adolescente com o mesmo dom extrassensorial que ele. Despertando os fantasmas do passado, o agora adulto se une a garota para combater um grupo que almeja a imortalidade se alimentando do “Brilho” que eles possuem.

Desta vez, o roteiro de Flanagan deixa de lado o terror psicológico adotado por Kubrick que mostrava o processo gradual de loucura do personagem Jack Torrance (numa performance emblemática de Jack Nicholson) para assumir um tom mais tradicional de suspense moderno, algo numa pegada semelhante às adaptações recentes de obras de King, como os dois “It – A Coisa” (2017, 2019). De uma forma bem mais direta, o cineasta expande (e até explica muita coisa que antes estava apenas na indução) a questão dos poderes psíquicos de Danny Torrance e de outros com as mesmas habilidades.

Através da constante busca da gangue de “iluminados” (chamada de “O Verdadeiro Nó”) pelo poder de seus semelhantes (algo que é representado de maneira simples: uma fumaça), a narrativa se assume como uma aventura sobrenatural, sem apelar para os sustos, ainda que aqui e acolá apareça um jump-scare. O que não é problema, já que a história flui de maneira fácil de ser apreciada. Apesar do visual estereotipado dos vilões, com figurinos que parecem uma mistura de ciganos e bruxos, o diretor entrega algumas sequências realmente violentas, como o ataque ao menino vivido pelo simpático Jacob Tremblay (de “O Quarto de Jack”, 2016).

Mas existe um cuidado para que o drama que rodeia o protagonista Danny não fique jogado para escanteio. Boa parte do primeiro ato é dedicado ao trauma em decorrência dos fatos do primeiro filme, tornando ele um alcoólatra (assim como era o pai) que procura brigas gratuitamente. Interessantes simbolismos são inseridos, como o da caixa em que ele esconde os medos mais profundos e rimas visuais, como quando personagens se trancam por conta própria em uma ambiente com uma assombração nada bonita. Abordagens singelas, porém criativas para se adaptar ao gênero, em referência à luta contra a depressão.

Mike Flanagan (que tem no currículo boas obras como “Jogo Perigoso”, 2017; e a série “A Maldição da Residência Hill”, 2018) não tenta imitar o longa de 1980, mas distribui muitas referências, desde as cores do chão do Hotel Overlook nos créditos iniciais, a palavra “Redrum” no espelho e também alusões em cenas bem parecidas, como o enquadramento e as cores da sala da entrevista de emprego. Alguns planos são claramente homenagens a Stanley Kubrick, sendo o mais nítido o da tomada aérea do carro em direção ao hotel amaldiçoado, semelhante à cena de abertura do clássico.

O retorno de personagens como o pequeno Danny (antes Danny Lloyd, agora vivido por Roger Dale Floyd) e sua mãe Wendy (antes Shelley Duvall, agora vivida por Alex Essoe), inclusive refilmando algumas cenas icônicas, deixam claro que os acontecimentos não foram ignorados, ao mesmo tempo que o fato de não utilizarem CGI para reviverem os atores trouxe personalidade própria. Soluções “antigas” como a simples substituição de seus intérpretes ainda possuem valor, por mais que cause uma estranheza inicial (algo inevitável, principalmente com o surgimento do ator Henry Thomas, o garotinho de “E.T. – O Extraterrestre”, 1982).

Eis que o retorno ao Hotel Overlook, por mais que o roteiro entregue uma desculpa para isso, deixa a impressão de que o terceiro ato inteiro serve como fan-service, com a aparição de muitos elementos familiares do anterior. A recriação do ambiente é de encher os olhos e a direção faz questão de passear por diferentes espaços, como o bar do salão de festas, a enorme sala onde Jack escrevia o seu interminável livro e o corredor onde fica o quarto 237, fazendo a nostalgia despertar em quem assiste juntamente com o incômodo de Danny. Temos algumas cenas de ação que voltam a trazer mais explicações até o desfecho. Apesar de todo esse efeito, ainda pareceu uma medida apelativa para agradar a gregos e troianos.

Ewan McGregor entrega mais uma performance convincente, captando a introspecção e insegurança de quem cresceu cheio de perturbações. Com o decorrer da história, vai trazendo segurança e desenvolve uma boa química com a jovem Kyliegh Curran. Aos 13 anos, a intérprete de Abra Stone é uma grata surpresa, demonstrando a confiança necessária para ser a estrela de uma possível (ainda que improvável) continuação. Completando o elenco, Cliff Curtis traz a bondade e mistério cabíveis no papel do novo melhor amigo de Danny. Já a bela Rebecca Ferguson parece abraçar a proposta caricata de Rose Cartola, se divertindo como uma vilã cheia de frases de efeito.

Com um desfecho poético e assertivo, “Doutor Sono” até se estica mais do que deveria, com duas horas e meia de duração, para incluir o máximo de elementos que poderia. Mas no pesar da balança, atinge o equilíbrio e entrega uma obra com personagens bem desenvolvidos e que honra todo o contexto imaginado originalmente pelo autor, respeitando o que já fora feito até então. Caminha com os próprios pés, ainda que recorra a uma muleta nos passos finais.

Nota: 8,0

Publicidade aqui

Crítica: “Doutor Sono” encontra o difícil meio termo entre as obras de Stephen King e Stanley Kubrick

Por Thiago Sampaio em Crítica

21 de novembro de 2019

Foto: Divulgação

Fazer uma continuação do clássico “O Iluminado” (The Shinning, 1980) era uma missão pra lá de ingrata. Afinal, Stephen King, autor da obra original, não fez questão alguma de esconder a sua insatisfação com a adaptação nada fiel de Stanley Kubrick. Coube ao eficiente diretor Mike Flanagan encontrar o equilíbrio de modo que agradasse o escritor e sua legião de fãs, ao mesmo tempo que mantivesse viva a memória do longa do início dos anos 80. E ainda que por vezes se mostre indeciso quanto a sua própria proposta, “Doutor Sono” (Doctor Sleep, 2019) é uma nova visita bem honesta com todos que já tiveram alguma participação naquele universo.

Na trama, ainda marcado pelo trauma que sofreu quando criança, Danny Torrance (Ewan McGregor) luta para encontrar o mínimo de paz. Vivendo em constante fuga, ele encontra Abra (Kyliegh Curran), uma adolescente com o mesmo dom extrassensorial que ele. Despertando os fantasmas do passado, o agora adulto se une a garota para combater um grupo que almeja a imortalidade se alimentando do “Brilho” que eles possuem.

Desta vez, o roteiro de Flanagan deixa de lado o terror psicológico adotado por Kubrick que mostrava o processo gradual de loucura do personagem Jack Torrance (numa performance emblemática de Jack Nicholson) para assumir um tom mais tradicional de suspense moderno, algo numa pegada semelhante às adaptações recentes de obras de King, como os dois “It – A Coisa” (2017, 2019). De uma forma bem mais direta, o cineasta expande (e até explica muita coisa que antes estava apenas na indução) a questão dos poderes psíquicos de Danny Torrance e de outros com as mesmas habilidades.

Através da constante busca da gangue de “iluminados” (chamada de “O Verdadeiro Nó”) pelo poder de seus semelhantes (algo que é representado de maneira simples: uma fumaça), a narrativa se assume como uma aventura sobrenatural, sem apelar para os sustos, ainda que aqui e acolá apareça um jump-scare. O que não é problema, já que a história flui de maneira fácil de ser apreciada. Apesar do visual estereotipado dos vilões, com figurinos que parecem uma mistura de ciganos e bruxos, o diretor entrega algumas sequências realmente violentas, como o ataque ao menino vivido pelo simpático Jacob Tremblay (de “O Quarto de Jack”, 2016).

Mas existe um cuidado para que o drama que rodeia o protagonista Danny não fique jogado para escanteio. Boa parte do primeiro ato é dedicado ao trauma em decorrência dos fatos do primeiro filme, tornando ele um alcoólatra (assim como era o pai) que procura brigas gratuitamente. Interessantes simbolismos são inseridos, como o da caixa em que ele esconde os medos mais profundos e rimas visuais, como quando personagens se trancam por conta própria em uma ambiente com uma assombração nada bonita. Abordagens singelas, porém criativas para se adaptar ao gênero, em referência à luta contra a depressão.

Mike Flanagan (que tem no currículo boas obras como “Jogo Perigoso”, 2017; e a série “A Maldição da Residência Hill”, 2018) não tenta imitar o longa de 1980, mas distribui muitas referências, desde as cores do chão do Hotel Overlook nos créditos iniciais, a palavra “Redrum” no espelho e também alusões em cenas bem parecidas, como o enquadramento e as cores da sala da entrevista de emprego. Alguns planos são claramente homenagens a Stanley Kubrick, sendo o mais nítido o da tomada aérea do carro em direção ao hotel amaldiçoado, semelhante à cena de abertura do clássico.

O retorno de personagens como o pequeno Danny (antes Danny Lloyd, agora vivido por Roger Dale Floyd) e sua mãe Wendy (antes Shelley Duvall, agora vivida por Alex Essoe), inclusive refilmando algumas cenas icônicas, deixam claro que os acontecimentos não foram ignorados, ao mesmo tempo que o fato de não utilizarem CGI para reviverem os atores trouxe personalidade própria. Soluções “antigas” como a simples substituição de seus intérpretes ainda possuem valor, por mais que cause uma estranheza inicial (algo inevitável, principalmente com o surgimento do ator Henry Thomas, o garotinho de “E.T. – O Extraterrestre”, 1982).

Eis que o retorno ao Hotel Overlook, por mais que o roteiro entregue uma desculpa para isso, deixa a impressão de que o terceiro ato inteiro serve como fan-service, com a aparição de muitos elementos familiares do anterior. A recriação do ambiente é de encher os olhos e a direção faz questão de passear por diferentes espaços, como o bar do salão de festas, a enorme sala onde Jack escrevia o seu interminável livro e o corredor onde fica o quarto 237, fazendo a nostalgia despertar em quem assiste juntamente com o incômodo de Danny. Temos algumas cenas de ação que voltam a trazer mais explicações até o desfecho. Apesar de todo esse efeito, ainda pareceu uma medida apelativa para agradar a gregos e troianos.

Ewan McGregor entrega mais uma performance convincente, captando a introspecção e insegurança de quem cresceu cheio de perturbações. Com o decorrer da história, vai trazendo segurança e desenvolve uma boa química com a jovem Kyliegh Curran. Aos 13 anos, a intérprete de Abra Stone é uma grata surpresa, demonstrando a confiança necessária para ser a estrela de uma possível (ainda que improvável) continuação. Completando o elenco, Cliff Curtis traz a bondade e mistério cabíveis no papel do novo melhor amigo de Danny. Já a bela Rebecca Ferguson parece abraçar a proposta caricata de Rose Cartola, se divertindo como uma vilã cheia de frases de efeito.

Com um desfecho poético e assertivo, “Doutor Sono” até se estica mais do que deveria, com duas horas e meia de duração, para incluir o máximo de elementos que poderia. Mas no pesar da balança, atinge o equilíbrio e entrega uma obra com personagens bem desenvolvidos e que honra todo o contexto imaginado originalmente pelo autor, respeitando o que já fora feito até então. Caminha com os próprios pés, ainda que recorra a uma muleta nos passos finais.

Nota: 8,0