Crítica: "El Camino" pouco acrescenta a "Breaking Bad", mas honra o espírito da série 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “El Camino” pouco acrescenta a “Breaking Bad”, mas honra o espírito da série

Por Thiago Sampaio em Crítica

19 de outubro de 2019

Foto: Divulgação

Obs: alerta de possíveis spoilers!

Não tem como negar que “Breaking Bad” foi uma das séries mais celebradas dos últimos anos. E por puro mérito! Criada por Vince Gilligan, conseguiu abordar um contexto de degradação humana com muito humor negro, personagens cativantes e uma direção cheia de personalidade. Durou cinco temporadas, contando a história que tinha para ser contada e fechou com um final quase irretocável em 2013.

Por mais que muitos fãs tenham se empolgado com o anúncio de um filme baseado naquele universo, alguns questionaram a sua real necessidade. De fato, “El Camino: A Breaking Bad Movie” (idem, 2019), lançado pela Netflix, é um epílogo que não precisava existir. Ainda assim, é bem realizado, honra o espírito do seriado e desperta a nostalgia nos saudosistas.

Na trama, após fugir do cativeiro onde foi mantido quando sequestrado, Jesse Pinkman (Aaron Paul) inicia uma jornada em busca da própria liberdade, mas antes precisa se reconciliar com o passado, escapar da polícia, para, só então, ter seu futuro garantido.

Primeiro surgiram os boatos (certeiros) de que tal filme misterioso abordaria os rumos de Jesse após o episódio final. Depois veio a notícia de que o longa já estava pronto e foi todo rodado em segredo (um baita feito nos dias de hoje!), sendo lançado na plataforma de streaming pouco tempo depois. Tal agonia é possível ser vista em tela: é um produto simples, como um episódio de TV prolongado (definitivamente, não é cinema). Assim, o efeito é quase como um brinde para os fãs da série e que deve fazer pouco sentido para os espectadores em geral.

Porém, há um carinho no projeto, cujo roteiro e direção não poderia ter ido para outro além do próprio Vince Gilligan. Se antes ele trabalhava o niilismo da sua maneira peculiar, aqui ele vai no caminho contrário, abordando a busca por redenção daquele carismático coadjuvante que, por mais que tivesse muitos defeitos, foi se humanizando com o decorrer da narrativa (o oposto do protagonista Walter White). Aquela cena do episódio “Felina”, em que ele ria quase em desespero após se livrar do aprisionamento dos neonazistas simboliza a proposta com louvor: a sensação de liberdade nervosa e com a incerteza do que virá pela frente. Agora, Jesse só quer paz.

Nessa pegada, alguns personagens retornam servindo como fan-service, porém, todos com sua devida relevância para a trama, caso dos desajeitados Skinny (Charles Baker) e Badger (Matt Jones), que aqui voltam a funcionar como alívio cômico, mas são reconhecidos pela amizade fiel. Até os pais de Jesse (vividos por Michael Bofshever e Tess Harper) dão as caras e são importantes para o embrulhado estado espiritual do jovem. Mas os muitos flashbacks surgem como artifício para inflar o produto, justificando como o enorme peso na consciência do rapaz desesperado.

Conferimos mais momentos em que ele foi mantido como prisioneiro, com cenas fortes em que ele é vítima de humilhações diversas, tratado, literalmente, como um animal, como se estar preso em uma jaula não fosse suficiente. Papel de destaque neste recorte é o de Jesse Plemons, ainda que sua aparência envelhecida e a forma física bem mais robusta do que a de seis anos atrás estejam evidentes, causando uma certa distração (o filme foi gravado em tempo recorde, com uma pré-produção mínima). Todd volta a se mostrar um maníaco sádico, porém, com um estranho ar de inocência e até, pasmem, bondade.

A direção de Gilligan é digna de aplausos, não só por resgatar bem a essência da série através do humor em momentos de delicadeza, como a aparição da polícia logo após o personagem achar que outro estaria blefando, mas conduz o tom em clima de faroeste (como a abertura com um emotivo flashback com nosso anti-herói de costas), como também aplica muitas técnicas que provaram que “Breaking Bad” estava bem à frente de sua época.

As artimanhas de Vince são bonitas de ver. Desde o resgate de Jesse fugindo ao volante do El Camino do título, utiliza raccords (leia-se a grosso modo como rimas visuais entre transições) cortando para um jogo de videogame. O giro da câmera que acompanha a descoberta do rapaz numa geladeira é simples e nos coloca no seu ponto de vista. Da mesma forma, o plano geral com um fast-forward em que mostra a limpeza geral feita pela polícia num certo cenário traz identidade própria, assim como reforça o tom cartunesco. Algo que fica nítido num certo “desafio”, bem condizente com aquela produção em que Walter White fazia bombas como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Aaron Paul mostra uma admirável maturidade ao encarnar uma versão de Jesse Pinkman bem diferente daquele adolescente desleixado que falava “bitch” a cada três palavras. Agora temos um homem traumatizado pelos acontecimentos, sempre em alerta com tudo ao seu redor, a ponto de tomar banho com o revólver na janela, apesar de repugnar matar alguém (e a direção de Gilligan faz questão de atenuar a sua paleta de cor amarela). Ele amadureceu a ponto de ir para o embate para conseguir os seus objetivos. E Aaron capta com perfeição essa evolução.

Outro ponto alto do elenco que reforça o espírito da série é o veterano Robert Forster (que infelizmente faleceu justamente no dia do lançamento de “El Camino”). Como um senhor responsável por um estabelecimento correto (uma loja de aspiradores de pó), ele encarna figuras ambíguas marcantes, com serenidade no rosto que disfarça os reais interesses, como era Gus Fringe (personagem de Giancarlo Esposito), e, até certo momento, o próprio Walter White!

Finalmente, ver o ótimo Bryan Cranston novamente encarnando Walter White (não o psicopata Heisenberg!), é de emocionar quem acompanhou toda a trajetória. Para alguém desprovido de amor paterno como Pinkman, a lembrança de quando eles ainda eram “amigos” e seu antigo professor reconhece o seu potencial como pessoa e profissional, é determinante para seus rumos. A memória dos tiros na porta do simbólico trailer é um discreto presente para os fãs. A ex-namorada do agora protagonista, vivida por Krysten Ritter (a “Jessica Jones” da cancelada série da Netflix) vem como um raio de luz em meio a escuridão. Tudo é inserido de maneira delicada.

Para muitos, a memória final ainda será aquela do episódio “Felina“. Este “El Camino” é um “extra” forçado que até poderia ser resumido nos tradicionais 50 minutos. Mas para quem é fã, o respeito está presente até o minuto final. Para quem viu os risos nervosos de Jesse Pinkman ao dirigir naquele desfecho, deve se convencer com a bonita referência visual em sua expressão serena aqui.

Nota: 7,0

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Crítica: “El Camino” pouco acrescenta a “Breaking Bad”, mas honra o espírito da série

Por Thiago Sampaio em Crítica

19 de outubro de 2019

Foto: Divulgação

Obs: alerta de possíveis spoilers!

Não tem como negar que “Breaking Bad” foi uma das séries mais celebradas dos últimos anos. E por puro mérito! Criada por Vince Gilligan, conseguiu abordar um contexto de degradação humana com muito humor negro, personagens cativantes e uma direção cheia de personalidade. Durou cinco temporadas, contando a história que tinha para ser contada e fechou com um final quase irretocável em 2013.

Por mais que muitos fãs tenham se empolgado com o anúncio de um filme baseado naquele universo, alguns questionaram a sua real necessidade. De fato, “El Camino: A Breaking Bad Movie” (idem, 2019), lançado pela Netflix, é um epílogo que não precisava existir. Ainda assim, é bem realizado, honra o espírito do seriado e desperta a nostalgia nos saudosistas.

Na trama, após fugir do cativeiro onde foi mantido quando sequestrado, Jesse Pinkman (Aaron Paul) inicia uma jornada em busca da própria liberdade, mas antes precisa se reconciliar com o passado, escapar da polícia, para, só então, ter seu futuro garantido.

Primeiro surgiram os boatos (certeiros) de que tal filme misterioso abordaria os rumos de Jesse após o episódio final. Depois veio a notícia de que o longa já estava pronto e foi todo rodado em segredo (um baita feito nos dias de hoje!), sendo lançado na plataforma de streaming pouco tempo depois. Tal agonia é possível ser vista em tela: é um produto simples, como um episódio de TV prolongado (definitivamente, não é cinema). Assim, o efeito é quase como um brinde para os fãs da série e que deve fazer pouco sentido para os espectadores em geral.

Porém, há um carinho no projeto, cujo roteiro e direção não poderia ter ido para outro além do próprio Vince Gilligan. Se antes ele trabalhava o niilismo da sua maneira peculiar, aqui ele vai no caminho contrário, abordando a busca por redenção daquele carismático coadjuvante que, por mais que tivesse muitos defeitos, foi se humanizando com o decorrer da narrativa (o oposto do protagonista Walter White). Aquela cena do episódio “Felina”, em que ele ria quase em desespero após se livrar do aprisionamento dos neonazistas simboliza a proposta com louvor: a sensação de liberdade nervosa e com a incerteza do que virá pela frente. Agora, Jesse só quer paz.

Nessa pegada, alguns personagens retornam servindo como fan-service, porém, todos com sua devida relevância para a trama, caso dos desajeitados Skinny (Charles Baker) e Badger (Matt Jones), que aqui voltam a funcionar como alívio cômico, mas são reconhecidos pela amizade fiel. Até os pais de Jesse (vividos por Michael Bofshever e Tess Harper) dão as caras e são importantes para o embrulhado estado espiritual do jovem. Mas os muitos flashbacks surgem como artifício para inflar o produto, justificando como o enorme peso na consciência do rapaz desesperado.

Conferimos mais momentos em que ele foi mantido como prisioneiro, com cenas fortes em que ele é vítima de humilhações diversas, tratado, literalmente, como um animal, como se estar preso em uma jaula não fosse suficiente. Papel de destaque neste recorte é o de Jesse Plemons, ainda que sua aparência envelhecida e a forma física bem mais robusta do que a de seis anos atrás estejam evidentes, causando uma certa distração (o filme foi gravado em tempo recorde, com uma pré-produção mínima). Todd volta a se mostrar um maníaco sádico, porém, com um estranho ar de inocência e até, pasmem, bondade.

A direção de Gilligan é digna de aplausos, não só por resgatar bem a essência da série através do humor em momentos de delicadeza, como a aparição da polícia logo após o personagem achar que outro estaria blefando, mas conduz o tom em clima de faroeste (como a abertura com um emotivo flashback com nosso anti-herói de costas), como também aplica muitas técnicas que provaram que “Breaking Bad” estava bem à frente de sua época.

As artimanhas de Vince são bonitas de ver. Desde o resgate de Jesse fugindo ao volante do El Camino do título, utiliza raccords (leia-se a grosso modo como rimas visuais entre transições) cortando para um jogo de videogame. O giro da câmera que acompanha a descoberta do rapaz numa geladeira é simples e nos coloca no seu ponto de vista. Da mesma forma, o plano geral com um fast-forward em que mostra a limpeza geral feita pela polícia num certo cenário traz identidade própria, assim como reforça o tom cartunesco. Algo que fica nítido num certo “desafio”, bem condizente com aquela produção em que Walter White fazia bombas como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Aaron Paul mostra uma admirável maturidade ao encarnar uma versão de Jesse Pinkman bem diferente daquele adolescente desleixado que falava “bitch” a cada três palavras. Agora temos um homem traumatizado pelos acontecimentos, sempre em alerta com tudo ao seu redor, a ponto de tomar banho com o revólver na janela, apesar de repugnar matar alguém (e a direção de Gilligan faz questão de atenuar a sua paleta de cor amarela). Ele amadureceu a ponto de ir para o embate para conseguir os seus objetivos. E Aaron capta com perfeição essa evolução.

Outro ponto alto do elenco que reforça o espírito da série é o veterano Robert Forster (que infelizmente faleceu justamente no dia do lançamento de “El Camino”). Como um senhor responsável por um estabelecimento correto (uma loja de aspiradores de pó), ele encarna figuras ambíguas marcantes, com serenidade no rosto que disfarça os reais interesses, como era Gus Fringe (personagem de Giancarlo Esposito), e, até certo momento, o próprio Walter White!

Finalmente, ver o ótimo Bryan Cranston novamente encarnando Walter White (não o psicopata Heisenberg!), é de emocionar quem acompanhou toda a trajetória. Para alguém desprovido de amor paterno como Pinkman, a lembrança de quando eles ainda eram “amigos” e seu antigo professor reconhece o seu potencial como pessoa e profissional, é determinante para seus rumos. A memória dos tiros na porta do simbólico trailer é um discreto presente para os fãs. A ex-namorada do agora protagonista, vivida por Krysten Ritter (a “Jessica Jones” da cancelada série da Netflix) vem como um raio de luz em meio a escuridão. Tudo é inserido de maneira delicada.

Para muitos, a memória final ainda será aquela do episódio “Felina“. Este “El Camino” é um “extra” forçado que até poderia ser resumido nos tradicionais 50 minutos. Mas para quem é fã, o respeito está presente até o minuto final. Para quem viu os risos nervosos de Jesse Pinkman ao dirigir naquele desfecho, deve se convencer com a bonita referência visual em sua expressão serena aqui.

Nota: 7,0