Crítica: "A Freira" cumpre, em partes, o potencial que tem 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “A Freira” cumpre, em partes, o potencial que tem

Por Thiago Sampaio em Crítica

13 de setembro de 2018

Foto: Divulgação

Os dois filmes da franquia “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013, 2016) ganharam um público tão cativo que era natural que os olhos dos produtores, incluindo do diretor James Wan, brilhassem para spin-offs caça-níquéis. Primeiro foi a boneca Annabelle, que ganhou dois longas com nível bem rasteiro, mas se saíram bem nas bilheterias. Agora foi a vez da freira de visual horripilante do segundo filme, que tanto deu o que falar, ganhar a sua produção solo. “A Freira” (The Nun, 2018) mostra um enorme potencial e não faz feio, por mais que caia nas armadilhas do gênero para agradar a maior audiência possível.

Na trama, presa em um convento na Romênia, uma freira comete suicídio. Para investigar o caso, o Vaticano envia um padre atormentado (Demián Bichir) e uma noviça (Taissa Farmiga) prestes a se tornar freira. Contando com a ajuda de um imigrante da região (Jonas Bloquet), eles arriscam suas vidas e a fé ao descobrir um segredo profano, confrontando com uma força do mal que toma a forma de uma freira demoníaca (Bonnie Aarons) e transforma o convento num campo de batalha.

Contando com o próprio James Wan como um dos autores do enredo, o roteiro de Gary Dauberman (dos dois “Annabelle”, 2014, 2017) se conecta bem com o universo já estabelecido. Flashbacks no início mostram a reconstituição do caso de Amityville, presente no segundo “Invocação”, quando a freira fez sua primeira aparição; surge um retrato já visto em “Annabelle 2: A Criação do Mal” (2017) e até uma reviravolta ao final que surpreende e funciona dentro do contexto. Porém, com exceção do tal desfecho, tudo isso não passa de fan-services que pouco influem no resultado em si.

Quem segura a onda é o diretor Corin Hardy (que antes havia feito apenas o razoável “A Maldição da Floresta”, 2015), que demonstra controle do mise en scène e sabe criar uma atmosfera sombria, sem a necessidade de apenas escurecer a fotografia (alô, “Slender Man”!). Na sequência de abertura, é coerente ao esconder a ameaça real sob as sombras e, no que seria um momento simples como os personagens caminhando pelo bosque, ele usufrui de todas as cores fortes ali presentes em travellings de câmera, terminando com abertura de plano para uma tomada aérea. Se trata apenas de uma cena para quebrar ritmo, mas já dá pra perceber que ele leva jeito.

Assim, ele entrega momentos bem estilosos quando a assombração está à todo vapor, ainda que a intenção não seja fazer medo. Por exemplo, um ataque físico nas costas de uma personagem, primeiramente forma uma letra V (de “Valak”, o nome do demônio da tal freira), que depois amplia para a formação de um pentagrama. A ideia de ser enterrado vivo rende uma boa sequência que transmite a claustrofobia. O uso de imagens religiosas rende pano na manga para a criatividade como botar um humano no meio de possíveis “fantasmas” flutuando com vestimentas de beatas e sem rosto definido, enquanto a câmera circula por essa situação “peculiar”.

Partindo para o terceiro ato, o ritmo ganha força e a ação para frear a trevosa lá garante o entretenimento, ganhando ares de filme gore, com direito até a cuspe de sangue. O visual da freira continua de amedrontar como anteriormente e sua intérprete, Bonnie Aarons, repete as caras e bocas debaixo da pesada maquiagem para provocar sustos. Hardy faz referência ao longa anterior, quando Wan construía o suspense pela espera enquanto o espírito caminhava até chegar ao quadro com seu rosto e dali sair, fazendo algo parecido aqui. Agora, sem o fator surpresa.

O problema é que, além de o visual não ser novidade, o longa depende em demasia dos jump scares, o uso de aparições surpresas e aumento brusco do som para causar sustos no espectador. A maioria deles são bem previsíveis, pois o contexto já vem com “avisos” para tal. A trilha sonora de Abel Korzeniowski, que utiliza muito de sinos, cantos gregorianos, até combina com o que é mostrado, mas ela está presente de maneira quase constante, usada como ferramenta para forçar uma tensão. O ótimo “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018) já mostrou que é possível instigar o medo com pouco ou nenhum apelo sonoro.

O roteiro de Dauberman costura bem a mítica da Valak, porém, tudo é expositivo ao extremo para não deixar dúvida nenhuma para qualquer espectador. Existe um mistério sobre tais “visões” da noviça Irene e do trauma do Padre Burke, as alucinações que surgem rendem teorias, mas perto da metade da projeção alguém explica tudo o que aconteceu no passado, com o flashback devidamente mastigado. Os diálogos também fazem questão de reafirmar o óbvio. “Esse lugar não é mais abençoado. Existe um mal entre nós”. Jura?! Ou quando encontram livros num lugar bem inesperado, ele solta: “Eles devem nos ajudar a descobrir o que está acontecendo”. Mas já não iria mostrar isso de qualquer forma?!

O elenco faz o que pode dentro das limitações do que é construído para cada um. Taissa Farmiga (que é irmã de Vera Farmiga, protagonista de “Invocação do Mal”) se destaca ao conferir a fragilidade que sua personagem exige num momento de transição, ganhando força no decorrer do longa. O bom Demián Bichir traz o drama que o Padre Burke exige, com uma inexpressividade proposital que faz sentido. Por outro lado, Jonas Bloquet tinha tudo para ser o coadjuvante carismático que rouba a cena, mas na tentativa de torná-lo um alívio cômico, destoa totalmente do geral. A inclusão moderada de humor num terror é até válida, mas toda vez que seu “Frenchie” abre a boca, ele precisa terminar a fala com alguma piadinha.

A impressão é que Corin Hardy sabia das inúmeras possibilidades que teria para fazer um terror gótico de qualidade, mas, por se tratar de uma marca com grande apelo, se viu algemado às necessidades do estúdio em cair nos clichês e sair com o saldo positivo por fazer um número maior de pessoas saltarem da cadeira. Ainda assim, conseguiu ser bem superior aos outros spin-offs da boneca macabra e de outras tantas produções genéricas.

Nota: 6,0

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Crítica: “A Freira” cumpre, em partes, o potencial que tem

Por Thiago Sampaio em Crítica

13 de setembro de 2018

Foto: Divulgação

Os dois filmes da franquia “Invocação do Mal” (The Conjuring, 2013, 2016) ganharam um público tão cativo que era natural que os olhos dos produtores, incluindo do diretor James Wan, brilhassem para spin-offs caça-níquéis. Primeiro foi a boneca Annabelle, que ganhou dois longas com nível bem rasteiro, mas se saíram bem nas bilheterias. Agora foi a vez da freira de visual horripilante do segundo filme, que tanto deu o que falar, ganhar a sua produção solo. “A Freira” (The Nun, 2018) mostra um enorme potencial e não faz feio, por mais que caia nas armadilhas do gênero para agradar a maior audiência possível.

Na trama, presa em um convento na Romênia, uma freira comete suicídio. Para investigar o caso, o Vaticano envia um padre atormentado (Demián Bichir) e uma noviça (Taissa Farmiga) prestes a se tornar freira. Contando com a ajuda de um imigrante da região (Jonas Bloquet), eles arriscam suas vidas e a fé ao descobrir um segredo profano, confrontando com uma força do mal que toma a forma de uma freira demoníaca (Bonnie Aarons) e transforma o convento num campo de batalha.

Contando com o próprio James Wan como um dos autores do enredo, o roteiro de Gary Dauberman (dos dois “Annabelle”, 2014, 2017) se conecta bem com o universo já estabelecido. Flashbacks no início mostram a reconstituição do caso de Amityville, presente no segundo “Invocação”, quando a freira fez sua primeira aparição; surge um retrato já visto em “Annabelle 2: A Criação do Mal” (2017) e até uma reviravolta ao final que surpreende e funciona dentro do contexto. Porém, com exceção do tal desfecho, tudo isso não passa de fan-services que pouco influem no resultado em si.

Quem segura a onda é o diretor Corin Hardy (que antes havia feito apenas o razoável “A Maldição da Floresta”, 2015), que demonstra controle do mise en scène e sabe criar uma atmosfera sombria, sem a necessidade de apenas escurecer a fotografia (alô, “Slender Man”!). Na sequência de abertura, é coerente ao esconder a ameaça real sob as sombras e, no que seria um momento simples como os personagens caminhando pelo bosque, ele usufrui de todas as cores fortes ali presentes em travellings de câmera, terminando com abertura de plano para uma tomada aérea. Se trata apenas de uma cena para quebrar ritmo, mas já dá pra perceber que ele leva jeito.

Assim, ele entrega momentos bem estilosos quando a assombração está à todo vapor, ainda que a intenção não seja fazer medo. Por exemplo, um ataque físico nas costas de uma personagem, primeiramente forma uma letra V (de “Valak”, o nome do demônio da tal freira), que depois amplia para a formação de um pentagrama. A ideia de ser enterrado vivo rende uma boa sequência que transmite a claustrofobia. O uso de imagens religiosas rende pano na manga para a criatividade como botar um humano no meio de possíveis “fantasmas” flutuando com vestimentas de beatas e sem rosto definido, enquanto a câmera circula por essa situação “peculiar”.

Partindo para o terceiro ato, o ritmo ganha força e a ação para frear a trevosa lá garante o entretenimento, ganhando ares de filme gore, com direito até a cuspe de sangue. O visual da freira continua de amedrontar como anteriormente e sua intérprete, Bonnie Aarons, repete as caras e bocas debaixo da pesada maquiagem para provocar sustos. Hardy faz referência ao longa anterior, quando Wan construía o suspense pela espera enquanto o espírito caminhava até chegar ao quadro com seu rosto e dali sair, fazendo algo parecido aqui. Agora, sem o fator surpresa.

O problema é que, além de o visual não ser novidade, o longa depende em demasia dos jump scares, o uso de aparições surpresas e aumento brusco do som para causar sustos no espectador. A maioria deles são bem previsíveis, pois o contexto já vem com “avisos” para tal. A trilha sonora de Abel Korzeniowski, que utiliza muito de sinos, cantos gregorianos, até combina com o que é mostrado, mas ela está presente de maneira quase constante, usada como ferramenta para forçar uma tensão. O ótimo “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018) já mostrou que é possível instigar o medo com pouco ou nenhum apelo sonoro.

O roteiro de Dauberman costura bem a mítica da Valak, porém, tudo é expositivo ao extremo para não deixar dúvida nenhuma para qualquer espectador. Existe um mistério sobre tais “visões” da noviça Irene e do trauma do Padre Burke, as alucinações que surgem rendem teorias, mas perto da metade da projeção alguém explica tudo o que aconteceu no passado, com o flashback devidamente mastigado. Os diálogos também fazem questão de reafirmar o óbvio. “Esse lugar não é mais abençoado. Existe um mal entre nós”. Jura?! Ou quando encontram livros num lugar bem inesperado, ele solta: “Eles devem nos ajudar a descobrir o que está acontecendo”. Mas já não iria mostrar isso de qualquer forma?!

O elenco faz o que pode dentro das limitações do que é construído para cada um. Taissa Farmiga (que é irmã de Vera Farmiga, protagonista de “Invocação do Mal”) se destaca ao conferir a fragilidade que sua personagem exige num momento de transição, ganhando força no decorrer do longa. O bom Demián Bichir traz o drama que o Padre Burke exige, com uma inexpressividade proposital que faz sentido. Por outro lado, Jonas Bloquet tinha tudo para ser o coadjuvante carismático que rouba a cena, mas na tentativa de torná-lo um alívio cômico, destoa totalmente do geral. A inclusão moderada de humor num terror é até válida, mas toda vez que seu “Frenchie” abre a boca, ele precisa terminar a fala com alguma piadinha.

A impressão é que Corin Hardy sabia das inúmeras possibilidades que teria para fazer um terror gótico de qualidade, mas, por se tratar de uma marca com grande apelo, se viu algemado às necessidades do estúdio em cair nos clichês e sair com o saldo positivo por fazer um número maior de pessoas saltarem da cadeira. Ainda assim, conseguiu ser bem superior aos outros spin-offs da boneca macabra e de outras tantas produções genéricas.

Nota: 6,0