Crítica: "Homem-Aranha no Aranhaverso" é o melhor longa-metragem já feito sobre o personagem 
Publicidade

Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Homem-Aranha no Aranhaverso” é o melhor longa-metragem já feito sobre o personagem

Por Thiago Sampaio em Crítica

17 de Janeiro de 2019

Foto: Divulgação

Se tratando de Homem-Aranha nos cinemas, já foram dois reboots em menos de 20 anos. Atualmente, Tom Holland, o terceiro ator a encarnar o Cabeça de Teia, vive o mesmo no badalado universo compartilhado da Marvel Studios, num acordo de co-produção com a Sony, que por sua vez, desenvolve filmes individuais dos vilões, como “Venom” (idem, 2018), que apesar da qualidade questionável, foi sucesso de bilheteria. Um longa sobre o vampiro Morbius é o próximo da fila. Com toda essa bagunça, será que uma animação com o herói geraria interesse?

À primeira vista, a ideia de misturar vários Aranhas, enquanto a sua versão em live-action está na ativa, só viria a embaralhar ainda mais a lógica. Mas eis a surpresa: “Homem-Aranha no Aranhaverso” (Spiderman Into The Spider-Verse, 2018) não só é um deleite aos olhos como é a melhor produção para as telonas com o personagem já feita. Faz rir, emociona, garante cenas de ação incríveis e, de quebra, faz graça com a enorme quantidade de elementos inseridos e os desenvolve de maneira admirável.

Na trama, Miles Morales (voz de Shameik Moore) é um jovem do Brooklyn que se torna o Homem-Aranha após ser mordido por uma aranha alterada geneticamente, seguindo o legado de Peter Parker (voz de Chris Pine). Ao visitar o túmulo de seu ídolo, ele é surpreendido com a presença do próprio Peter, vestindo o traje do herói. A surpresa fica ainda maior quando Miles descobre que ele veio de uma dimensão paralela, assim como outras versões do Homem-Aranha que virão a surgir.

Começando pelos aspectos técnicos, fazia tempo que não surgia uma animação tão cheia de personalidade própria. Ao invés de imitar traços da Pixar/Disney ou Dreamworks, a Sony Pictures Animations, sob direção de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, opta por mesclar computação gráfica com artes manuais, às vezes até em stop-motion, de maneira muito precisa. Sim, misturar o 2D com 3D não é nada inédito, mas aqui tudo é feito de maneira meticulosa. Percebam as expressões dos personagens, desenhos claramente artificiais, mas com a preocupação de atribuir pequenos detalhes, como as sardas no rosto de Miles ou a barba a fazer de Peter B.Parker (voz de Jake Johnson). A mistura de cores gritantes, principalmente nos momentos de tensão, é algo bastante bonito.

Porém, essa mescla de técnica é utilizada como metalinguagem para a diversidade de personagens estranhos que aparecem. Peni Parker (voz de Kimiko Glenn), uma menina que tem um robô de estimação, e principalmente, o porco Peter Porker (voz de John Mulaney), estão lá para chutar de vez qualquer ideia de realismo, abraçando a autoparódia. Existe o cuidado para transformar os traços dela num anime/mangá japonês, enquanto o porquinho é uma típica animação 2D chapada, referenciando diretamente os personagens dos Looney Tunes que tiram objetos enormes do nada e mudam de forma sem precisar de qualquer lógica. Homenagem com direito até a “Por hoje é só, pessoal!”.

E principalmente, aqui a ideia é reproduzir, da maneira mais próxima possível, a sensação de imersão na arte que originou o personagem, os quadrinhos. Não só com exemplos explícitos, como a aparição de “Amazing Fantasy N° 15”, que serve como “manual” para Miles, ou a montagem fazendo as passagens de núcleo ou flashbacks como páginas passando e surgindo como revistas, de fato, narrando as histórias. O visual “quadrado” do Rei do Crime (voz de Liev Schreiber), remete ao traço de Bill Sienkiewicz. O tempo todo estão lá onomatopeias escritas na tela reproduzindo os efeitos sonoros, balões com pensamentos ou descrição de situação, como ferramenta narrativa à medida em que o protagonista é desenvolvido. É um experimento, muito bem sucedido.

Para além da estética de saltar os olhos, o roteiro de Phil Lord, que também assina como produtor ao lado do parceiro Chris Miller (dupla responsável pelo ótimo “Uma Aventura Lego”, 2014, e os “Anjos da Lei 1 e 2”, 2012, 2014) trata de armar uma trama de origem com os devidos conflitos e a confusão com a avalanche de personagens como um extra para as tiradas cômicas. Miles Morales, adolescente negro com instinto rebelde criado “recentemente” nas revistas em decorrência das campanhas de Donald Glover para interpretar o herói, é o protagonista de fato, agora apresentado para o público grande.

Ele cumpre a “jornada do herói” precisando lidar com o aprendizado dos novos poderes, a dificuldade na relação com o pai policial (voz de Brian Tyree Henry) que abomina heróis mascarados e tem no tio “descolado” (voz de Mahershala Ali) como referência, permitindo ele transgredir através da arte, pulando os muros da cansativa rotina de uma escola de conceito. Os Aranhas de outras dimensões surgem para exibir suas fraquezas, mostrando que ele é ainda muito imaturo para ser um herói. Ao mesmo tempo, aspectos dramáticos que não são inéditos para quem assiste, também se aplicam a ele. E neste caso, seus semelhantes ajudam a afastar o quase inevitável clichê do cinema, deixando claro que todos o entendem como ninguém.

Enquanto isso, o Peter Parker da outra dimensão é um coadjuvante que foge dos padrões de mentor justamente por ser uma versão alternativa daquela que conhecemos, com uma forte carga de perdas. Se um ponto forte do personagem é justamente ele ter uma vida social atribulada, com problemas financeiros e dificuldades sociais, aqui as frustrações são ainda mais graves. É alguém com planos amorosos frustrados, que perdeu aquela figura materna, a tia May (voz de Lily Tomlin), sofre com depressão e ganha uns quilos a mais. Justamente por isso ele também tem sua redenção desenvolvida através da relação com o jovem.

Se as outras versões de Homem-Aranha servem como complemento, o Homem-Aranha Noir, que combatia nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, rouba a cena sempre que aparece, muito por causa da voz de Nicolas Cage, que não só traz o seu folclore, como apresenta um ar taciturno e deslocado de sua época (incluindo divertidas gags com um cubo mágico). Enquanto isso, Hailee Steinfeld foi uma escolha certeira para a voz de Gwen Stacy, encarnando uma heroína com suas devidas inseguranças e num mundo diferente do dela, mas com a força ali necessária.

Toda a história respeita o que fora feito em outras produções, inclusive com ótimas referências aos longas dirigidos por Sam Raimi, como o beijo invertido em Mary Jane (voz de Zoë Kravitz), o tão zoado momento em que ele dança no péssimo “Homem-Aranha 3” (2007) e até do recente “De Volta Para Casa” (2017). Se ele fala que é o “único Homem-Aranha” que existe e depois surge alguém afirmando que é “o único Homem-Aranha deste mundo há dois dias”, existe ironia nisto. Nada é gratuito.

As cenas de ação estão presentes o tempo todo, com direito a um forte plot-point logo no início. Muitos vilões do aracnídeo (muitos mesmo!) dão as caras ao longo das duas horas de projeção, mas não soa forçado, diferente do que fora feito em outras adaptações. Tem cenas movimentadas que ganham com o fato de serem feitas por animação, como a divertida sequência em que Miles carrega o corpo de Peter após o primeiro encontro. Outros momentos primam pela delicadeza, como quando o mais velho ensina a se locomover soltando teias carregando um computador.

No fim das contas, a narrativa sem interrupções pode até soar cansativa para muitos e esse frenesi acaba por tirar parte do peso dos momentos dramáticos. A falta de “respiro” em meio a tantos fatores em cena pode prejudicar alguns, se tratando de uma experiência nada convencional. De um modo geral, o conteúdo é de se reverenciar, por fãs e até os não fãs. Os aplausos são merecidos. Stan Lee e Steve Ditko certamente ficariam orgulhosos.

Obs: há uma hilária cena pós-créditos.

Nota: 9,5

Publicidade aqui

Crítica: “Homem-Aranha no Aranhaverso” é o melhor longa-metragem já feito sobre o personagem

Por Thiago Sampaio em Crítica

17 de Janeiro de 2019

Foto: Divulgação

Se tratando de Homem-Aranha nos cinemas, já foram dois reboots em menos de 20 anos. Atualmente, Tom Holland, o terceiro ator a encarnar o Cabeça de Teia, vive o mesmo no badalado universo compartilhado da Marvel Studios, num acordo de co-produção com a Sony, que por sua vez, desenvolve filmes individuais dos vilões, como “Venom” (idem, 2018), que apesar da qualidade questionável, foi sucesso de bilheteria. Um longa sobre o vampiro Morbius é o próximo da fila. Com toda essa bagunça, será que uma animação com o herói geraria interesse?

À primeira vista, a ideia de misturar vários Aranhas, enquanto a sua versão em live-action está na ativa, só viria a embaralhar ainda mais a lógica. Mas eis a surpresa: “Homem-Aranha no Aranhaverso” (Spiderman Into The Spider-Verse, 2018) não só é um deleite aos olhos como é a melhor produção para as telonas com o personagem já feita. Faz rir, emociona, garante cenas de ação incríveis e, de quebra, faz graça com a enorme quantidade de elementos inseridos e os desenvolve de maneira admirável.

Na trama, Miles Morales (voz de Shameik Moore) é um jovem do Brooklyn que se torna o Homem-Aranha após ser mordido por uma aranha alterada geneticamente, seguindo o legado de Peter Parker (voz de Chris Pine). Ao visitar o túmulo de seu ídolo, ele é surpreendido com a presença do próprio Peter, vestindo o traje do herói. A surpresa fica ainda maior quando Miles descobre que ele veio de uma dimensão paralela, assim como outras versões do Homem-Aranha que virão a surgir.

Começando pelos aspectos técnicos, fazia tempo que não surgia uma animação tão cheia de personalidade própria. Ao invés de imitar traços da Pixar/Disney ou Dreamworks, a Sony Pictures Animations, sob direção de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, opta por mesclar computação gráfica com artes manuais, às vezes até em stop-motion, de maneira muito precisa. Sim, misturar o 2D com 3D não é nada inédito, mas aqui tudo é feito de maneira meticulosa. Percebam as expressões dos personagens, desenhos claramente artificiais, mas com a preocupação de atribuir pequenos detalhes, como as sardas no rosto de Miles ou a barba a fazer de Peter B.Parker (voz de Jake Johnson). A mistura de cores gritantes, principalmente nos momentos de tensão, é algo bastante bonito.

Porém, essa mescla de técnica é utilizada como metalinguagem para a diversidade de personagens estranhos que aparecem. Peni Parker (voz de Kimiko Glenn), uma menina que tem um robô de estimação, e principalmente, o porco Peter Porker (voz de John Mulaney), estão lá para chutar de vez qualquer ideia de realismo, abraçando a autoparódia. Existe o cuidado para transformar os traços dela num anime/mangá japonês, enquanto o porquinho é uma típica animação 2D chapada, referenciando diretamente os personagens dos Looney Tunes que tiram objetos enormes do nada e mudam de forma sem precisar de qualquer lógica. Homenagem com direito até a “Por hoje é só, pessoal!”.

E principalmente, aqui a ideia é reproduzir, da maneira mais próxima possível, a sensação de imersão na arte que originou o personagem, os quadrinhos. Não só com exemplos explícitos, como a aparição de “Amazing Fantasy N° 15”, que serve como “manual” para Miles, ou a montagem fazendo as passagens de núcleo ou flashbacks como páginas passando e surgindo como revistas, de fato, narrando as histórias. O visual “quadrado” do Rei do Crime (voz de Liev Schreiber), remete ao traço de Bill Sienkiewicz. O tempo todo estão lá onomatopeias escritas na tela reproduzindo os efeitos sonoros, balões com pensamentos ou descrição de situação, como ferramenta narrativa à medida em que o protagonista é desenvolvido. É um experimento, muito bem sucedido.

Para além da estética de saltar os olhos, o roteiro de Phil Lord, que também assina como produtor ao lado do parceiro Chris Miller (dupla responsável pelo ótimo “Uma Aventura Lego”, 2014, e os “Anjos da Lei 1 e 2”, 2012, 2014) trata de armar uma trama de origem com os devidos conflitos e a confusão com a avalanche de personagens como um extra para as tiradas cômicas. Miles Morales, adolescente negro com instinto rebelde criado “recentemente” nas revistas em decorrência das campanhas de Donald Glover para interpretar o herói, é o protagonista de fato, agora apresentado para o público grande.

Ele cumpre a “jornada do herói” precisando lidar com o aprendizado dos novos poderes, a dificuldade na relação com o pai policial (voz de Brian Tyree Henry) que abomina heróis mascarados e tem no tio “descolado” (voz de Mahershala Ali) como referência, permitindo ele transgredir através da arte, pulando os muros da cansativa rotina de uma escola de conceito. Os Aranhas de outras dimensões surgem para exibir suas fraquezas, mostrando que ele é ainda muito imaturo para ser um herói. Ao mesmo tempo, aspectos dramáticos que não são inéditos para quem assiste, também se aplicam a ele. E neste caso, seus semelhantes ajudam a afastar o quase inevitável clichê do cinema, deixando claro que todos o entendem como ninguém.

Enquanto isso, o Peter Parker da outra dimensão é um coadjuvante que foge dos padrões de mentor justamente por ser uma versão alternativa daquela que conhecemos, com uma forte carga de perdas. Se um ponto forte do personagem é justamente ele ter uma vida social atribulada, com problemas financeiros e dificuldades sociais, aqui as frustrações são ainda mais graves. É alguém com planos amorosos frustrados, que perdeu aquela figura materna, a tia May (voz de Lily Tomlin), sofre com depressão e ganha uns quilos a mais. Justamente por isso ele também tem sua redenção desenvolvida através da relação com o jovem.

Se as outras versões de Homem-Aranha servem como complemento, o Homem-Aranha Noir, que combatia nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, rouba a cena sempre que aparece, muito por causa da voz de Nicolas Cage, que não só traz o seu folclore, como apresenta um ar taciturno e deslocado de sua época (incluindo divertidas gags com um cubo mágico). Enquanto isso, Hailee Steinfeld foi uma escolha certeira para a voz de Gwen Stacy, encarnando uma heroína com suas devidas inseguranças e num mundo diferente do dela, mas com a força ali necessária.

Toda a história respeita o que fora feito em outras produções, inclusive com ótimas referências aos longas dirigidos por Sam Raimi, como o beijo invertido em Mary Jane (voz de Zoë Kravitz), o tão zoado momento em que ele dança no péssimo “Homem-Aranha 3” (2007) e até do recente “De Volta Para Casa” (2017). Se ele fala que é o “único Homem-Aranha” que existe e depois surge alguém afirmando que é “o único Homem-Aranha deste mundo há dois dias”, existe ironia nisto. Nada é gratuito.

As cenas de ação estão presentes o tempo todo, com direito a um forte plot-point logo no início. Muitos vilões do aracnídeo (muitos mesmo!) dão as caras ao longo das duas horas de projeção, mas não soa forçado, diferente do que fora feito em outras adaptações. Tem cenas movimentadas que ganham com o fato de serem feitas por animação, como a divertida sequência em que Miles carrega o corpo de Peter após o primeiro encontro. Outros momentos primam pela delicadeza, como quando o mais velho ensina a se locomover soltando teias carregando um computador.

No fim das contas, a narrativa sem interrupções pode até soar cansativa para muitos e esse frenesi acaba por tirar parte do peso dos momentos dramáticos. A falta de “respiro” em meio a tantos fatores em cena pode prejudicar alguns, se tratando de uma experiência nada convencional. De um modo geral, o conteúdo é de se reverenciar, por fãs e até os não fãs. Os aplausos são merecidos. Stan Lee e Steve Ditko certamente ficariam orgulhosos.

Obs: há uma hilária cena pós-créditos.

Nota: 9,5