Crítica: Inferior ao primeiro, "It - Capítulo 2" compensa com muitos bons valores 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Inferior ao primeiro, “It – Capítulo 2” compensa com muitos bons valores

Por Thiago Sampaio em Crítica

11 de setembro de 2019

Foto: Divulgação

A nova versão de “It – A Coisa” (It, 2017) foi o longa de terror mais bem sucedido em bilheterias do cinema, faturando mais de U$ 700 milhões pelo mundo. Uma continuação era inevitável não apenas por causa dos resultados, mas pela necessidade de encerrar a história escrita por Stephen King (ainda que o primeiro tenha fechado de maneira satisfatória).

Os números parecem ter subido à cabeça dos realizadores, colocando em prática a ideia de que tudo pode ser ampliado. “It – Capítulo 2” (It Chapter Two, 2019) tem os seus excessos, mas ainda garante vários momentos convincentes e uma conclusão digna para aquela trama, ainda que o horror fique em partes de lado. O que não necessariamente é um problema.

A sinopse: 27 anos depois dos eventos do longa anterior, Mike (Isaiah Mustafa) percebe que o palhaço Pennywise (Bill Skarsgard) está de volta a cidade de Derry. Ele convoca os antigos amigos do “Clube dos Otários” para honrar a promessa de infância e acabar com o inimigo.

O longa anterior teve um orçamento de U$ 35 milhões e, perante o sucesso, esta continuação custou o dobro, cerca de U$ 70 milhões. A equipe de produção é a mesma, com o retorno do diretor Andy Muschietti e do roteirista Gary Dauberman. Junto a isso, trouxeram nomes de peso para o elenco como James McAvoy e Jessica Chastain. E com longos 2h50min de duração, a impressão é que tentaram jogar em cena o máximo de elementos da obra original que poderiam conseguir. Algumas peças soam deslocadas, necessitando do conhecimento prévio de quem já leu o livro para compreender suas finalidades.

Começando pela cena de abertura, com um brutal ato de violência contra um casal homossexual. Representa o perigo da cidade de Derry, que instiga o mal estar de quem retorna para lá, coincidindo com a volta do palhaço Pennywise. Não há “retribuição” para o espectador com a justiça sendo feita. A crueza daquele contexto soa atual para os dias de hoje, funcionando como uma forte introdução. Mas é entendível o risco de ser pouco compreendido pelos intolerantes e pseudo moralistas que estão por todo canto, já que tal passagem não tem impacto direto com os personagens principais.

Algo semelhante acontece com o retorno do personagem Henry Bowers (vivido na adolescência por Nicholas Hamilton e por Teach Grant na fase adulta), presente não só na obra de mais de 1200 páginas de King como na minissérie exibida em 1990. O fato tem um peso por trazer uma ameaça real quando os personagens estão lidando com o imaginário. Sem falar que rende resgates dos traumas do ex-gordinho Ben pelo bullying sofrido e provoca uma ótima e violenta cena num banheiro com direito a quebra de expectativas e até inclusão de elementos monstruosos de outras adaptações do autor, como zumbis.

E já que o elenco mirim que transborda carisma deu tanto certo no anterior, aqui tratam de mantê-los na tela. Como fazia parte do roteiro desta continuação o resgate de certos objetos, a inserção de flashbacks se torna necessária. E o diretor até tem o cuidado de fazer a volta ao passado de maneira singela com eficientes “raccords” (rimas visuais em transições de planos), como no momento em que um certo personagem cai num esconderijo secreto e, ao esperar pelo próximo a descer pela escada, quem aparecem são suas versões juvenis. Bonito e sutil.

Porém, há de reconhecer que Muschietti se empolga nos tais flashbacks e situações de sustos individuais com cada integrante. Há uma preocupação em relembrar fatos do longa anterior, inclusive repetindo várias cenas de maneira idêntica, ou buscando risos com o retorno de coadjuvantes irrelevantes, como o farmacêutico e sua estranha filha que curte mascar chiclete. E existem outras repetições, como se o outro filme tivesse sido lançado há décadas, não soando como nostalgia. No máximo, um risinho de canto de rosto. Então, parte do segundo ato poderia ser cortado sem prejuízo.

Mas existe um equilíbrio entre as fases dos personagens, de forma que as versões jovens contribuem para consolidar a ideia de amizade da turma no reencontro. Tanto que uma sequência simples, como a reunião deles num restaurante ainda no primeiro ato, é agradável de se ver, com a estranheza natural entre pessoas que não se encontram há décadas. Se Mike (agora vivido por Mustafah) era apenas um agregado, agora assume o protagonismo ao ser o responsável por reunir a equipe e coordenar o plano de “exorcismo” de Pennywise.

Então, entra na trama o misticismo, resgatando passagens dos livro como a ideia da “Coisa” vir do espaço, tirando um pouco do efeito do medo simbólico que ele representa. Algo que vai refletir no clímax, quando a forma utilizada pelos agora adultos para derrotar a ameaça soa simplória, com gritos e ofensas aleatórias. Eles, literalmente, diminuíram o medo em conjunto? Sim. Na literatura pode até ter transmitido tal intensidade, algo nem tão fácil de se fazer no audiovisual, soando fácil e conveniente.

Ao construir o medo, o longa traz novamente várias assombrações aleatórias com um excesso de computação gráfica que, por se mostrarem claramente artificiais, tiram o impacto do horror. Ali estão aracnídeos com cara de bebê saindo de biscoitos, uma senhora despida, uma estátua que ganha vida, que não oferecem medo real ao espectador. Para causar impacto, Muschietti usa em diversas ocasiões do recurso dos “jump-scares”, alguns que dão certo e muitos não, já colocando um silêncio para criar o alerta com antecedência.

Acontece que quando o cineasta argentino coloca os efeitos práticos em ação e cria climas de tensão é quando vemos o terror psicológico que deu tão certo e combina com o vilão. São os casos da aparição do palhaço para uma menina com uma mancha no rosto e na longa sequência de Beverly com a senhora em sua antiga casa. O suspense que antecede a tragédia é ainda mais impactante. E esta continuação é cheia de cenas visualmente deslumbrantes nesse sentido, com destaque para aquela com o Bill de James McAvoy tentando salvar um menino num parque.

Vale ressaltar o excelente trabalho de Bill Skarsgård, ainda mais à vontade no papel do demoníaco palhaço. Mesmo sob pesada maquiagem (ainda que aqui ele tenha uma cena com seu rosto natural para exibir o icônico sorriso), ele continua a fazer o truque de desviar o olhar de um único olho e transmite uma desconcertante paranoia, como no momento em que tenta quebrar um vidro batendo a cabeça. Agora ele parece ainda mais ameaçador, proporcionalmente ao crescimento do “Clube dos Otários”.

No elenco adulto, tiveram o cuidado de trazer atores bem parecidos com seus intérpretes mirins. McAvoy traz a inocência de Bill, com todas as inseguranças (incluindo a gagueira) quando retorna para Derry, servindo como representação do próprio Stephen King (que tem a sua participação no estilo Stan Lee), como um autor ouvindo constantes comentários de que não saber fazer finais decentes.

Jessica Chastain tem a frieza e desconfiança necessária para alguém que sofreu abusos pelo próprio pai enquanto jovem e viu a história se repetir com o marido. Por isso, as expressões fechadas são cabíveis. Ela protagoniza algumas das cenas mais impressionantes, como o já citado diálogo prolongado, e também um banho de sangue no banheiro que remete até a “Carrie: A Estranha” (1976) e um easter-egg de “O Iluminado” (1980).

Na contramão, completando o triângulo amoroso com Bill – que continua como elemento funcional do roteiro – Jay Ryan surge como o ator mais fraco desta produção. Fora a boa aparência, ele é o oposto do carisma do fofinho Jeremy Ray Taylor.

O maior destaque do elenco é o talentoso Bill Hader (da fabulosa série “Barry”!), como a versão adulta de Richie (personagem de Finn Wolfheard, da série “Stanger Things”). Ele utiliza da experiência como humorista para construir a aura de alguém ácido por natureza, mas que utiliza isso como ferramenta de defesa para esconder os segredos mais profundos. Por isso, ele funciona não só como alívio cômico, mas tem a devida profundidade. James Ransone faz um bom trabalho com a timidez e insegurança de Eddie, aquele menino hipocondríaco. As implicâncias entre os dois não são gratuitas.

Com tais elementos, Muschietti destila o humor para quebrar a densidade de sua obra. E não chega a prejudicar, visto que as intervenções são necessárias dentro da proposta de fazer um longa o mais comercial possível. No fim das contas, o terror é, de fato, secundário. Lidamos com uma saga sobre superar os traumas mais profundos, conferindo um forte peso na ideia da amizade, da união, sem esquecer os valores e traumas que ajudaram a construir os adultos que se formaram.

No fim das contas, mesmo com alguns atropelos entendíveis para manter a fidelidade com a obra de King, o “Capítulo 2” tem o seu terror pontual, a aura de produções dos anos 80 prevalece com o seu devido humor e o drama sobre curar as cicatrizes está lá. Até consegue emocionar a partir de um relato no final, apesar de não ser tão bem resolvido como o seu antecessor. A mistura de impressões, no pesar da balança, é bem sucedida.

Nota: 8,0

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Crítica: Inferior ao primeiro, “It – Capítulo 2” compensa com muitos bons valores

Por Thiago Sampaio em Crítica

11 de setembro de 2019

Foto: Divulgação

A nova versão de “It – A Coisa” (It, 2017) foi o longa de terror mais bem sucedido em bilheterias do cinema, faturando mais de U$ 700 milhões pelo mundo. Uma continuação era inevitável não apenas por causa dos resultados, mas pela necessidade de encerrar a história escrita por Stephen King (ainda que o primeiro tenha fechado de maneira satisfatória).

Os números parecem ter subido à cabeça dos realizadores, colocando em prática a ideia de que tudo pode ser ampliado. “It – Capítulo 2” (It Chapter Two, 2019) tem os seus excessos, mas ainda garante vários momentos convincentes e uma conclusão digna para aquela trama, ainda que o horror fique em partes de lado. O que não necessariamente é um problema.

A sinopse: 27 anos depois dos eventos do longa anterior, Mike (Isaiah Mustafa) percebe que o palhaço Pennywise (Bill Skarsgard) está de volta a cidade de Derry. Ele convoca os antigos amigos do “Clube dos Otários” para honrar a promessa de infância e acabar com o inimigo.

O longa anterior teve um orçamento de U$ 35 milhões e, perante o sucesso, esta continuação custou o dobro, cerca de U$ 70 milhões. A equipe de produção é a mesma, com o retorno do diretor Andy Muschietti e do roteirista Gary Dauberman. Junto a isso, trouxeram nomes de peso para o elenco como James McAvoy e Jessica Chastain. E com longos 2h50min de duração, a impressão é que tentaram jogar em cena o máximo de elementos da obra original que poderiam conseguir. Algumas peças soam deslocadas, necessitando do conhecimento prévio de quem já leu o livro para compreender suas finalidades.

Começando pela cena de abertura, com um brutal ato de violência contra um casal homossexual. Representa o perigo da cidade de Derry, que instiga o mal estar de quem retorna para lá, coincidindo com a volta do palhaço Pennywise. Não há “retribuição” para o espectador com a justiça sendo feita. A crueza daquele contexto soa atual para os dias de hoje, funcionando como uma forte introdução. Mas é entendível o risco de ser pouco compreendido pelos intolerantes e pseudo moralistas que estão por todo canto, já que tal passagem não tem impacto direto com os personagens principais.

Algo semelhante acontece com o retorno do personagem Henry Bowers (vivido na adolescência por Nicholas Hamilton e por Teach Grant na fase adulta), presente não só na obra de mais de 1200 páginas de King como na minissérie exibida em 1990. O fato tem um peso por trazer uma ameaça real quando os personagens estão lidando com o imaginário. Sem falar que rende resgates dos traumas do ex-gordinho Ben pelo bullying sofrido e provoca uma ótima e violenta cena num banheiro com direito a quebra de expectativas e até inclusão de elementos monstruosos de outras adaptações do autor, como zumbis.

E já que o elenco mirim que transborda carisma deu tanto certo no anterior, aqui tratam de mantê-los na tela. Como fazia parte do roteiro desta continuação o resgate de certos objetos, a inserção de flashbacks se torna necessária. E o diretor até tem o cuidado de fazer a volta ao passado de maneira singela com eficientes “raccords” (rimas visuais em transições de planos), como no momento em que um certo personagem cai num esconderijo secreto e, ao esperar pelo próximo a descer pela escada, quem aparecem são suas versões juvenis. Bonito e sutil.

Porém, há de reconhecer que Muschietti se empolga nos tais flashbacks e situações de sustos individuais com cada integrante. Há uma preocupação em relembrar fatos do longa anterior, inclusive repetindo várias cenas de maneira idêntica, ou buscando risos com o retorno de coadjuvantes irrelevantes, como o farmacêutico e sua estranha filha que curte mascar chiclete. E existem outras repetições, como se o outro filme tivesse sido lançado há décadas, não soando como nostalgia. No máximo, um risinho de canto de rosto. Então, parte do segundo ato poderia ser cortado sem prejuízo.

Mas existe um equilíbrio entre as fases dos personagens, de forma que as versões jovens contribuem para consolidar a ideia de amizade da turma no reencontro. Tanto que uma sequência simples, como a reunião deles num restaurante ainda no primeiro ato, é agradável de se ver, com a estranheza natural entre pessoas que não se encontram há décadas. Se Mike (agora vivido por Mustafah) era apenas um agregado, agora assume o protagonismo ao ser o responsável por reunir a equipe e coordenar o plano de “exorcismo” de Pennywise.

Então, entra na trama o misticismo, resgatando passagens dos livro como a ideia da “Coisa” vir do espaço, tirando um pouco do efeito do medo simbólico que ele representa. Algo que vai refletir no clímax, quando a forma utilizada pelos agora adultos para derrotar a ameaça soa simplória, com gritos e ofensas aleatórias. Eles, literalmente, diminuíram o medo em conjunto? Sim. Na literatura pode até ter transmitido tal intensidade, algo nem tão fácil de se fazer no audiovisual, soando fácil e conveniente.

Ao construir o medo, o longa traz novamente várias assombrações aleatórias com um excesso de computação gráfica que, por se mostrarem claramente artificiais, tiram o impacto do horror. Ali estão aracnídeos com cara de bebê saindo de biscoitos, uma senhora despida, uma estátua que ganha vida, que não oferecem medo real ao espectador. Para causar impacto, Muschietti usa em diversas ocasiões do recurso dos “jump-scares”, alguns que dão certo e muitos não, já colocando um silêncio para criar o alerta com antecedência.

Acontece que quando o cineasta argentino coloca os efeitos práticos em ação e cria climas de tensão é quando vemos o terror psicológico que deu tão certo e combina com o vilão. São os casos da aparição do palhaço para uma menina com uma mancha no rosto e na longa sequência de Beverly com a senhora em sua antiga casa. O suspense que antecede a tragédia é ainda mais impactante. E esta continuação é cheia de cenas visualmente deslumbrantes nesse sentido, com destaque para aquela com o Bill de James McAvoy tentando salvar um menino num parque.

Vale ressaltar o excelente trabalho de Bill Skarsgård, ainda mais à vontade no papel do demoníaco palhaço. Mesmo sob pesada maquiagem (ainda que aqui ele tenha uma cena com seu rosto natural para exibir o icônico sorriso), ele continua a fazer o truque de desviar o olhar de um único olho e transmite uma desconcertante paranoia, como no momento em que tenta quebrar um vidro batendo a cabeça. Agora ele parece ainda mais ameaçador, proporcionalmente ao crescimento do “Clube dos Otários”.

No elenco adulto, tiveram o cuidado de trazer atores bem parecidos com seus intérpretes mirins. McAvoy traz a inocência de Bill, com todas as inseguranças (incluindo a gagueira) quando retorna para Derry, servindo como representação do próprio Stephen King (que tem a sua participação no estilo Stan Lee), como um autor ouvindo constantes comentários de que não saber fazer finais decentes.

Jessica Chastain tem a frieza e desconfiança necessária para alguém que sofreu abusos pelo próprio pai enquanto jovem e viu a história se repetir com o marido. Por isso, as expressões fechadas são cabíveis. Ela protagoniza algumas das cenas mais impressionantes, como o já citado diálogo prolongado, e também um banho de sangue no banheiro que remete até a “Carrie: A Estranha” (1976) e um easter-egg de “O Iluminado” (1980).

Na contramão, completando o triângulo amoroso com Bill – que continua como elemento funcional do roteiro – Jay Ryan surge como o ator mais fraco desta produção. Fora a boa aparência, ele é o oposto do carisma do fofinho Jeremy Ray Taylor.

O maior destaque do elenco é o talentoso Bill Hader (da fabulosa série “Barry”!), como a versão adulta de Richie (personagem de Finn Wolfheard, da série “Stanger Things”). Ele utiliza da experiência como humorista para construir a aura de alguém ácido por natureza, mas que utiliza isso como ferramenta de defesa para esconder os segredos mais profundos. Por isso, ele funciona não só como alívio cômico, mas tem a devida profundidade. James Ransone faz um bom trabalho com a timidez e insegurança de Eddie, aquele menino hipocondríaco. As implicâncias entre os dois não são gratuitas.

Com tais elementos, Muschietti destila o humor para quebrar a densidade de sua obra. E não chega a prejudicar, visto que as intervenções são necessárias dentro da proposta de fazer um longa o mais comercial possível. No fim das contas, o terror é, de fato, secundário. Lidamos com uma saga sobre superar os traumas mais profundos, conferindo um forte peso na ideia da amizade, da união, sem esquecer os valores e traumas que ajudaram a construir os adultos que se formaram.

No fim das contas, mesmo com alguns atropelos entendíveis para manter a fidelidade com a obra de King, o “Capítulo 2” tem o seu terror pontual, a aura de produções dos anos 80 prevalece com o seu devido humor e o drama sobre curar as cicatrizes está lá. Até consegue emocionar a partir de um relato no final, apesar de não ser tão bem resolvido como o seu antecessor. A mistura de impressões, no pesar da balança, é bem sucedida.

Nota: 8,0