Crítica: "Mad Max: Estrada da Fúria" abre uma nova era para o gênero ação - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Mad Max: Estrada da Fúria” abre uma nova era para o gênero ação

Por Thiago Sampaio em Crítica

05 de junho de 2015

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Nada menos que 30 anos separam “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão” (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985), terceiro e irregular filme da franquia pós-apocalíptica estrelada por Mel Gibson, deste novo “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, 2015). A missão do cineasta australiano George Miller não era das mais fáceis, afinal, reapresentar um personagem (agora com Tom Hardy no lugar de Gibson) não tão famoso para a nova geração, com um orçamento inflado de U$ 150 milhões, o risco de fracasso era iminente. Mas bastam cinco minutos para a desconfiança ir para o espaço. Com a nova produção, o septuagenário Miller não só dá uma aula para diretores mais jovens, como cria um novo patamar no gênero ação.

Sinopse

Após ser capturado por Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), o solitário guerreiro das estradas Max Rockatansky (Tom Hardy) se vê no meio de uma guerra mortal, iniciada pela Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) na tentativa se salvar um grupo de garotas. Também tentando fugir, Max aceita ajudar Furiosa em sua luta contra Joe e se vê dividido entre mais uma vez seguir sozinho seu caminho ou ficar com o grupo.

Futuro devastado

Se o primeiro “Mad Max” (idem, 1979) se tratava de uma trama de vingança, com indícios de um futuro ameaçado pela violência, o segundo, “Mad Max 2: A Caçada Continua” (Mad Max 2, 1981), consolidou a realidade devastada, com os seres humanos lutando entre si por recursos naturais. Neste quarto o quadro é, de longe, o mais contundente. Nesse quesito, o diretor não poupa críticas sociais: sociedade em estado de guerra dominada por um imperador, água é algo raro e longe dos cidadãos desfavorecidos, mulheres têm como função serem objetos para reprodução (além das obesas que “trabalham” tirando leite dos seios). Enquanto isso, muitos jovens já nascem nesse contexto, treinados desde criança para crescerem guerreiros, iludidos com a utopia de “servir a própria nação e o seu mandatário”.

Ação frenética

Mas engana-se quem pensa que o quarto filme é voltado para fãs. Há referências, como a aparição do carro Interceptor V8 do original, uma caxinha de música semelhante à do segundo, mas nada demais. “Estrada da Fúria” caminha com os próprios pés. Melhor ainda: ele corre em ritmo frenético! A ação segue desde o segundo inicial até o fim, com todo o contexto social enxertado em meio a perseguições, explosões e milhares de informações em um mesmo plano diante dos nossos olhos. E eis onde mora a genialidade do diretor australiano: em nenhum momento ele soa confuso ou repetitivo. A comparação chega a ser uma heresia, mas o novo “Mad Max” é tudo o que Michael Bay sempre sonhou em fazer: algo megalomaníaco, mas sem criar sintomas de enxaqueca ou labirintite no espectador com cortes supersônicos em frações de segundo. Os malabarismos feitos por Miller com a câmera soam como pintura, num longo choque artístico.

Se o orçamento de U$ 150 milhões foi considerado arriscado, ao fim dos 120 minutos de projeção percebe-se cada centavo investido, desde os cenários, a construção de máquinas de guerra estilosas, figurino e, claro, efeitos especiais. A ideia de transmitir a loucura que possui o ser humano por viver em constante busca pela sobrevivência através da ação é algo, no mínimo, inovador, potencializada ainda mais se vista em salas IMAX 3D ou 4DX. Assim, são inúmeros momentos de deslumbre visual, com direito a perseguição em tempestade de areia, luta com dois personagens algemados, bandidos saltando de um veículo para outro com bastões e…o melhor de tudo…um excêntrico homem cego, pendurado por elásticos, que embala a guerrilha tocando uma fervorosa guitarra que solta fogo! É impossível não abrir o sorriso sempre que tal ser está em cena ou ficar com o som do instrumento no juízo ao entrar os créditos finais.

Personagens complexos

E mesmo com o ritmo furioso sempre em alta, o diretor consegue trabalhar o desenvolvimento dos personagens. E sem medo de quebrar paradigmas, visto que o protagonista passa a primeira hora de projeção preso, servindo como “bolsa de sangue” para um nativo kamikaze! Tom Hardy faz um trabalho correto como Max Rockatansky, mantendo o estilo “herói misterioso e de poucas palavras” dos filmes anteriores, e até copiando alguns trejeitos de Mel Gibson, como o olhar perdido. Curiosidade no elenco é a presença de Hugh Keays-Byrne, que viveu o vilão Toecutter no primeiro longa-metragem, de 1979, e agora encarna um novo antagonista, Immortan Joe, que esconde o rosto desfigurado com uma máscara que utiliza para respiração.

Mas o grande destaque do longa-metragem é Charlize Theron, careca e sem o braço esquerdo. Quebrando qualquer tipo de estereótipos de como mulheres são utilizadas no cinema, a imperatriz Furiosa não é a mocinha bonita que é salva pelo herói e termina na cama com ele. Com muita personalidade, ela é a protagonista, que bate de frente contra o sistema para salvar as mulheres da repressão e luta ao lado de Max, e não por ele.

Igualmente em destaque está Nicholas Hoult. O “kamicrazy” Nux é a representação de um jovem já nascido naquele futuro pós-apocalíptico, alienado pela falta de contato com um mundo externo, fazendo questão de ir a combate mesmo debilitado para mostrar o seu valor ao seu imperador. Hoult confere o perfeito tom de inocência ao personagem, ao ponto de vibrar por ser visto por Immortan Joe, mas não esconde a decepção por ser facilmente descartado após fracassar numa missão. O fato de dar nomes a seus dois tumores mostra o seu ar infantil, não permitindo que o espectador antipatize com ele, mesmo quando está do lado dos vilões.

Pior para os outros

O fato de George Miller comandar apenas projetos que ele próprio acredita (seu último filme foi “Happy Feet 2”, de 2011, e antes, o primeiro “Happy Feet”, de 2006, e “Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade”, de 1998) reforça o carinho especial que teve com “Mad Max: Estrada da Fúria”. Como poucos conseguem, ele causa no público uma sensação de êxtase totalmente saudável, livre de entorpecentes, que pode ser resumida em uma palavra: insano! Não é exagero que, agora, ele deixou a situação um pouco mais complicada para as produções de ação daqui em diante. Agradecemos!

Nota: 9,5

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Crítica: “Mad Max: Estrada da Fúria” abre uma nova era para o gênero ação

Por Thiago Sampaio em Crítica

05 de junho de 2015

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Nada menos que 30 anos separam “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão” (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985), terceiro e irregular filme da franquia pós-apocalíptica estrelada por Mel Gibson, deste novo “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, 2015). A missão do cineasta australiano George Miller não era das mais fáceis, afinal, reapresentar um personagem (agora com Tom Hardy no lugar de Gibson) não tão famoso para a nova geração, com um orçamento inflado de U$ 150 milhões, o risco de fracasso era iminente. Mas bastam cinco minutos para a desconfiança ir para o espaço. Com a nova produção, o septuagenário Miller não só dá uma aula para diretores mais jovens, como cria um novo patamar no gênero ação.

Sinopse

Após ser capturado por Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), o solitário guerreiro das estradas Max Rockatansky (Tom Hardy) se vê no meio de uma guerra mortal, iniciada pela Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) na tentativa se salvar um grupo de garotas. Também tentando fugir, Max aceita ajudar Furiosa em sua luta contra Joe e se vê dividido entre mais uma vez seguir sozinho seu caminho ou ficar com o grupo.

Futuro devastado

Se o primeiro “Mad Max” (idem, 1979) se tratava de uma trama de vingança, com indícios de um futuro ameaçado pela violência, o segundo, “Mad Max 2: A Caçada Continua” (Mad Max 2, 1981), consolidou a realidade devastada, com os seres humanos lutando entre si por recursos naturais. Neste quarto o quadro é, de longe, o mais contundente. Nesse quesito, o diretor não poupa críticas sociais: sociedade em estado de guerra dominada por um imperador, água é algo raro e longe dos cidadãos desfavorecidos, mulheres têm como função serem objetos para reprodução (além das obesas que “trabalham” tirando leite dos seios). Enquanto isso, muitos jovens já nascem nesse contexto, treinados desde criança para crescerem guerreiros, iludidos com a utopia de “servir a própria nação e o seu mandatário”.

Ação frenética

Mas engana-se quem pensa que o quarto filme é voltado para fãs. Há referências, como a aparição do carro Interceptor V8 do original, uma caxinha de música semelhante à do segundo, mas nada demais. “Estrada da Fúria” caminha com os próprios pés. Melhor ainda: ele corre em ritmo frenético! A ação segue desde o segundo inicial até o fim, com todo o contexto social enxertado em meio a perseguições, explosões e milhares de informações em um mesmo plano diante dos nossos olhos. E eis onde mora a genialidade do diretor australiano: em nenhum momento ele soa confuso ou repetitivo. A comparação chega a ser uma heresia, mas o novo “Mad Max” é tudo o que Michael Bay sempre sonhou em fazer: algo megalomaníaco, mas sem criar sintomas de enxaqueca ou labirintite no espectador com cortes supersônicos em frações de segundo. Os malabarismos feitos por Miller com a câmera soam como pintura, num longo choque artístico.

Se o orçamento de U$ 150 milhões foi considerado arriscado, ao fim dos 120 minutos de projeção percebe-se cada centavo investido, desde os cenários, a construção de máquinas de guerra estilosas, figurino e, claro, efeitos especiais. A ideia de transmitir a loucura que possui o ser humano por viver em constante busca pela sobrevivência através da ação é algo, no mínimo, inovador, potencializada ainda mais se vista em salas IMAX 3D ou 4DX. Assim, são inúmeros momentos de deslumbre visual, com direito a perseguição em tempestade de areia, luta com dois personagens algemados, bandidos saltando de um veículo para outro com bastões e…o melhor de tudo…um excêntrico homem cego, pendurado por elásticos, que embala a guerrilha tocando uma fervorosa guitarra que solta fogo! É impossível não abrir o sorriso sempre que tal ser está em cena ou ficar com o som do instrumento no juízo ao entrar os créditos finais.

Personagens complexos

E mesmo com o ritmo furioso sempre em alta, o diretor consegue trabalhar o desenvolvimento dos personagens. E sem medo de quebrar paradigmas, visto que o protagonista passa a primeira hora de projeção preso, servindo como “bolsa de sangue” para um nativo kamikaze! Tom Hardy faz um trabalho correto como Max Rockatansky, mantendo o estilo “herói misterioso e de poucas palavras” dos filmes anteriores, e até copiando alguns trejeitos de Mel Gibson, como o olhar perdido. Curiosidade no elenco é a presença de Hugh Keays-Byrne, que viveu o vilão Toecutter no primeiro longa-metragem, de 1979, e agora encarna um novo antagonista, Immortan Joe, que esconde o rosto desfigurado com uma máscara que utiliza para respiração.

Mas o grande destaque do longa-metragem é Charlize Theron, careca e sem o braço esquerdo. Quebrando qualquer tipo de estereótipos de como mulheres são utilizadas no cinema, a imperatriz Furiosa não é a mocinha bonita que é salva pelo herói e termina na cama com ele. Com muita personalidade, ela é a protagonista, que bate de frente contra o sistema para salvar as mulheres da repressão e luta ao lado de Max, e não por ele.

Igualmente em destaque está Nicholas Hoult. O “kamicrazy” Nux é a representação de um jovem já nascido naquele futuro pós-apocalíptico, alienado pela falta de contato com um mundo externo, fazendo questão de ir a combate mesmo debilitado para mostrar o seu valor ao seu imperador. Hoult confere o perfeito tom de inocência ao personagem, ao ponto de vibrar por ser visto por Immortan Joe, mas não esconde a decepção por ser facilmente descartado após fracassar numa missão. O fato de dar nomes a seus dois tumores mostra o seu ar infantil, não permitindo que o espectador antipatize com ele, mesmo quando está do lado dos vilões.

Pior para os outros

O fato de George Miller comandar apenas projetos que ele próprio acredita (seu último filme foi “Happy Feet 2”, de 2011, e antes, o primeiro “Happy Feet”, de 2006, e “Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade”, de 1998) reforça o carinho especial que teve com “Mad Max: Estrada da Fúria”. Como poucos conseguem, ele causa no público uma sensação de êxtase totalmente saudável, livre de entorpecentes, que pode ser resumida em uma palavra: insano! Não é exagero que, agora, ele deixou a situação um pouco mais complicada para as produções de ação daqui em diante. Agradecemos!

Nota: 9,5