Crítica: "Mulher-Maravilha" traz protagonismo feminino e uma eficiente aventura de época - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Mulher-Maravilha” traz protagonismo feminino e uma eficiente aventura de época

Por Thiago Sampaio em Crítica

01 de junho de 2017

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

A disputa entre as adaptações da Marvel e DC para os cinemas virou uma rivalidade por parte dos fãs que beira o clubismo. Mas é fato que a DC está tentando tirar o atraso, enquanto a concorrente já estabeleceu o seu próprio universo compartilhado de heróis. “O Homem de Aço” (2013) e “Batman Vs Superman” (2016) balançaram as críticas e “Esquadrão Suicida” (2016) foi uma unanimidade negativa.

“Mulher-Maravilha” (Wonder Woman, 2017) chega com a responsabilidade de introduzir o primeiro longa solo de uma personagem mulher dos dois mundos. E o resultado é uma superprodução honesta que agrada aos fãs e o público em geral, abordando temas como feminismo e inclusão, o que já a torna um diferencial. Para o universo da DC nas telonas, uma esperança para o que virá em seguida: “Liga da Justiça”.

Na trama, Diana Prince (Gal Gadot) é treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível. Nunca saiu da paradisíaca ilha em que é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do lugar, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo e decide deixar seu lar certa de que pode parar o conflito. Lutando para acabar com todas as lutas, Diana percebe o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra.

Trata-se de uma trama de origem que, pela necessidade de apresentar a personagem, leva um certo tempo para engrenar. Para isso, a diretora Patty Jenkins (do ótimo “Monster”, 2003) foi um grande acerto, pois desde o início encanta ao mostrar Themyscira, a ilha habitada pelas guerreiras, com um visual deslumbrante. A lenda da briga entre Zeus e Ares que originou tudo aquilo é narrada pela mãe da protagonista, ilustrada de maneira criativa, como pinturas renascentistas.

Desde criança, Diana convive com mulheres guerreiras. E não demora para Steve Trevor chegar e mudar todo o rumo da história, acontecendo também logo a primeira cena de ação, com as armas rústicas das amazonas contra o poder de fogo do exército alemão. E em meio a tudo isso, logo percebe-se que o alívio cômico é uma constante no longa, a partir da interação entre Diana e Steve, que é sem dúvidas o casal com melhor química dessa nova leva de filmes de heróis.

A heroína, mesmo com toda bravura, é alguém inocente perante um mundo desconhecido e Steve é o primeiro homem que ela viu, rendendo situações descontraídas. E por mais que a diretora adote a fotografia chapada e azulada, tradicional dos filmes da DC (mas que combina com a Londres na Primeira Guerra Mundial), o clima é de uma aventura de época leve, nem tanto como “Capitão América: O Primeiro Vingador” (2011), e mais para “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) e “Rocketeer” (1991).

O longa não se preocupa em encher de fan-services ou pontas para produções futuras, por mais que vejamos o nome “Indústrias Wayne”, a foto já mostrada no problemático “Batman Vs Superman”, nada demais. Trata-se de um produto redondo, com começo, meio e fim definidos, bastante fiel. Os conhecedores das HQs certamente vão reconhecer no roteiro escrito por Allan Heinberg (de séries como “Sex and the City” e “The O.C.”), em cima do argumento de Zack Snyder (sim, o próprio!), inúmeras passagens, diálogos, visual idêntico, direto das páginas, principalmente das obras de Grant Morrisson e Brian Azarello.

São vários momentos de empoderamento feminino, principalmente numa época peculiar como o início do século passado. Estranhezas sobre o vestido atrapalhar a mobilidade para lutar, a comparação do trabalho de secretária com a de um escravo, além do próprio livre arbítrio de a mulher não permitir que o homem decida por ela o que fazer. Em um diálogo em especial sobre a origem da vida, Diana fala para Steve que ele não irá gostar dos 12 livros que leu pois o autor cita que “os homens são essenciais para a reprodução mas desprezíveis para apenas o prazer”. Além de levantar a bandeira do feminismo, o longa é inclusivo, com a equipe dos mocinhos contando com um marroquino que sonha em ser ator mas tem “a cor errada” e um indígena que teve as terras atacada.

As cenas de ação conduzidas por Patty Jenkins são convincentes, desde a sequência do beco, e o primeiro ataque com o uniforme num vilarejo, quando entra a já famosa trilha-sonora de Rupert Gregson-Williams, com boas coreografias, mesclando golpes com o chicote, a espada e as defesas com os braceletes. Tudo é bem fácil de ser entendido, mas para isso, a diretora exagera nos slow-motions, soando um tanto repetitivo, além de em certos momentos o uso de computação gráfica fique bem explícito. A ausência de um vilão marcante ao longo da projeção causa uma certa estranheza durante o clímax, caindo nos clichês dos filmes do gênero.

Mas a israelense Gal Gadot, filha de judeus, ex-miss e ex-recruta do exército, toma a responsabilidade para si de entregar a força que a personagem carrega desde a criação, em 1941, considerada um ícone feminista. Lynda Carter, intérprete de Diana na série dos anos 70 deve ter aprovado. Chris Pine encarna Steve Trevor com muito carisma, um espião inteligente e corajoso, mas ao mesmo tempo, dócil e desajeitado, com dificuldades de lidar com uma mulher bela que está conhecendo toda uma vida nova. Connie Nielsen transborda fraternidade como a rainha Hipólita, uma guerreira capaz de tudo para defender aqueles que ama.

Um dos melhores acertos do elenco é a escalação de Robin Wright (a Claire Underwood de “House of Cards”) como a General Antíope. Ela, que é conhecida por militar pelos direitos femininos, tem um papel à altura e de grande importância, mesmo com pouco tempo em cena. Se o veterano Danny Huston soa bem forçado como o General Ludendorff e David Thewlis pouco tem a mostrar como Sir Patrick, o simpático Ewen Bremner (de “Trainspotting 1 e 2”) traz uma leveza necessária. No diversificado elenco, Saïd Taghmaoui e Eugene Brave Rock são coadjuvantes que trazem força ao produto em geral.

Com 141 minutos que não são cansativos, “Mulher-Maravilha” até tem muitas frases de efeito piegas e a lição de que “só o amor salva” pode parecer brega em demasia para muitos, porém, é a filosofia que a personagem defende ao longo de todos esses anos. Não é um longa-metragem marcante, mas é de longe o melhor dessa nova fase da DC no cinema. E só em poder levar as meninas a terem uma guerreira a quem se espelhar ao invés de uma princesa frágil, esse blockbuster ganha uma importância que nenhum outro filme de herói teve.

Obs: Não há cena pós-créditos!

Nota: 8,5

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Crítica: “Mulher-Maravilha” traz protagonismo feminino e uma eficiente aventura de época

Por Thiago Sampaio em Crítica

01 de junho de 2017

Foto: Divulgação

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A disputa entre as adaptações da Marvel e DC para os cinemas virou uma rivalidade por parte dos fãs que beira o clubismo. Mas é fato que a DC está tentando tirar o atraso, enquanto a concorrente já estabeleceu o seu próprio universo compartilhado de heróis. “O Homem de Aço” (2013) e “Batman Vs Superman” (2016) balançaram as críticas e “Esquadrão Suicida” (2016) foi uma unanimidade negativa.

“Mulher-Maravilha” (Wonder Woman, 2017) chega com a responsabilidade de introduzir o primeiro longa solo de uma personagem mulher dos dois mundos. E o resultado é uma superprodução honesta que agrada aos fãs e o público em geral, abordando temas como feminismo e inclusão, o que já a torna um diferencial. Para o universo da DC nas telonas, uma esperança para o que virá em seguida: “Liga da Justiça”.

Na trama, Diana Prince (Gal Gadot) é treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível. Nunca saiu da paradisíaca ilha em que é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do lugar, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo e decide deixar seu lar certa de que pode parar o conflito. Lutando para acabar com todas as lutas, Diana percebe o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra.

Trata-se de uma trama de origem que, pela necessidade de apresentar a personagem, leva um certo tempo para engrenar. Para isso, a diretora Patty Jenkins (do ótimo “Monster”, 2003) foi um grande acerto, pois desde o início encanta ao mostrar Themyscira, a ilha habitada pelas guerreiras, com um visual deslumbrante. A lenda da briga entre Zeus e Ares que originou tudo aquilo é narrada pela mãe da protagonista, ilustrada de maneira criativa, como pinturas renascentistas.

Desde criança, Diana convive com mulheres guerreiras. E não demora para Steve Trevor chegar e mudar todo o rumo da história, acontecendo também logo a primeira cena de ação, com as armas rústicas das amazonas contra o poder de fogo do exército alemão. E em meio a tudo isso, logo percebe-se que o alívio cômico é uma constante no longa, a partir da interação entre Diana e Steve, que é sem dúvidas o casal com melhor química dessa nova leva de filmes de heróis.

A heroína, mesmo com toda bravura, é alguém inocente perante um mundo desconhecido e Steve é o primeiro homem que ela viu, rendendo situações descontraídas. E por mais que a diretora adote a fotografia chapada e azulada, tradicional dos filmes da DC (mas que combina com a Londres na Primeira Guerra Mundial), o clima é de uma aventura de época leve, nem tanto como “Capitão América: O Primeiro Vingador” (2011), e mais para “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) e “Rocketeer” (1991).

O longa não se preocupa em encher de fan-services ou pontas para produções futuras, por mais que vejamos o nome “Indústrias Wayne”, a foto já mostrada no problemático “Batman Vs Superman”, nada demais. Trata-se de um produto redondo, com começo, meio e fim definidos, bastante fiel. Os conhecedores das HQs certamente vão reconhecer no roteiro escrito por Allan Heinberg (de séries como “Sex and the City” e “The O.C.”), em cima do argumento de Zack Snyder (sim, o próprio!), inúmeras passagens, diálogos, visual idêntico, direto das páginas, principalmente das obras de Grant Morrisson e Brian Azarello.

São vários momentos de empoderamento feminino, principalmente numa época peculiar como o início do século passado. Estranhezas sobre o vestido atrapalhar a mobilidade para lutar, a comparação do trabalho de secretária com a de um escravo, além do próprio livre arbítrio de a mulher não permitir que o homem decida por ela o que fazer. Em um diálogo em especial sobre a origem da vida, Diana fala para Steve que ele não irá gostar dos 12 livros que leu pois o autor cita que “os homens são essenciais para a reprodução mas desprezíveis para apenas o prazer”. Além de levantar a bandeira do feminismo, o longa é inclusivo, com a equipe dos mocinhos contando com um marroquino que sonha em ser ator mas tem “a cor errada” e um indígena que teve as terras atacada.

As cenas de ação conduzidas por Patty Jenkins são convincentes, desde a sequência do beco, e o primeiro ataque com o uniforme num vilarejo, quando entra a já famosa trilha-sonora de Rupert Gregson-Williams, com boas coreografias, mesclando golpes com o chicote, a espada e as defesas com os braceletes. Tudo é bem fácil de ser entendido, mas para isso, a diretora exagera nos slow-motions, soando um tanto repetitivo, além de em certos momentos o uso de computação gráfica fique bem explícito. A ausência de um vilão marcante ao longo da projeção causa uma certa estranheza durante o clímax, caindo nos clichês dos filmes do gênero.

Mas a israelense Gal Gadot, filha de judeus, ex-miss e ex-recruta do exército, toma a responsabilidade para si de entregar a força que a personagem carrega desde a criação, em 1941, considerada um ícone feminista. Lynda Carter, intérprete de Diana na série dos anos 70 deve ter aprovado. Chris Pine encarna Steve Trevor com muito carisma, um espião inteligente e corajoso, mas ao mesmo tempo, dócil e desajeitado, com dificuldades de lidar com uma mulher bela que está conhecendo toda uma vida nova. Connie Nielsen transborda fraternidade como a rainha Hipólita, uma guerreira capaz de tudo para defender aqueles que ama.

Um dos melhores acertos do elenco é a escalação de Robin Wright (a Claire Underwood de “House of Cards”) como a General Antíope. Ela, que é conhecida por militar pelos direitos femininos, tem um papel à altura e de grande importância, mesmo com pouco tempo em cena. Se o veterano Danny Huston soa bem forçado como o General Ludendorff e David Thewlis pouco tem a mostrar como Sir Patrick, o simpático Ewen Bremner (de “Trainspotting 1 e 2”) traz uma leveza necessária. No diversificado elenco, Saïd Taghmaoui e Eugene Brave Rock são coadjuvantes que trazem força ao produto em geral.

Com 141 minutos que não são cansativos, “Mulher-Maravilha” até tem muitas frases de efeito piegas e a lição de que “só o amor salva” pode parecer brega em demasia para muitos, porém, é a filosofia que a personagem defende ao longo de todos esses anos. Não é um longa-metragem marcante, mas é de longe o melhor dessa nova fase da DC no cinema. E só em poder levar as meninas a terem uma guerreira a quem se espelhar ao invés de uma princesa frágil, esse blockbuster ganha uma importância que nenhum outro filme de herói teve.

Obs: Não há cena pós-créditos!

Nota: 8,5