Crítica: Netflix acerta com "Resgate", longa de ação diferenciado e entretenimento de alto nível 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Netflix acerta com “Resgate”, longa de ação diferenciado e entretenimento de alto nível

Por Thiago Sampaio em Crítica

29 de Abril de 2020

Foto: Divulgação

Uma obra de ação estrelada pelo ator que vive o Thor, produzida e roteirizada pelos diretores de “Vingadores: Guerra Infinita” (2018) e “Ultimato” (2019) certamente teria apelo nos cinemas. Mas em tempos de isolamento social por conta da pandemia do coronavirus, “Resgate” (Extraction, 2020), produção original da Netflix, ganhou uma notoriedade talvez até maior do que teria. Ainda bem, pois não só temos o melhor longa do gênero lançado pela plataforma de streaming, como ele tem valor próprio para cair no gosto popular.

Na trama, um mercenário (vivido por Chris Hemsworth) é contratado junto a uma equipe para a missão de resgatar um garoto indiano, filho de um mafioso preso no país, que é sequestrado por um rival, chefão do tráfico de drogas de Bangladesh.

Um fiapo de história simples para um roteiro igualmente superficial escrito por Joe Russo (irmão de Anthony Russo, ambos dirigiram os dois últimos “Vingadores”), baseado na pouco conhecida graphic novel “Ciudad”, de Andy Parks. O objetivo é claro de transportar os personagens de um ponto A para B, passando por inúmeros obstáculos. Propositalmente não há intenção de desenvolver os seres em cena. No caso do protagonista, breves diálogos em raros respiros da narrativa trazem uma breve ideia sobre quem ele é.

O maior defeito é a forma clichê como os vilões são retratados, colocando novamente indianos cheios de soberania, bandidos exploradores de crianças e sem o menor pudor em cortar partes do corpo dos subordinados como forma de punição.

O foco é mesmo a ação, o que poderia muito bem ser uma armadilha para entregar mais um produto genérico. Acontece que o diretor Sam Hargrave, veterano coordenador de dublês (ele inclusive trabalhou em muitos filmes do Universo Marvel, sendo também o dublê principal do Capitão América) que comanda seu primeiro longa-metragem após algumas experiências em curtas, sabe valorizar as sequências, tornando interessante a apreciação, afastando a sensação de vazio.

É inevitável a comparação com “John Wick” (2014, 2017, 2019) pela plasticidade das cenas. E não por coincidência, a franquia estrelada por Keanu Reeves também é comandada por um ex-dublê, caso de Chad Stahelski, após inúmeras experiências, como a trilogia “Matrix” (1999, 2003). A veracidade dos movimentos em poucos cortes, alguns momentos pontuais que fazem o espectador se impressionar, é algo que que tais profissionais entendem. E “Resgate” entrega o que promete.

Há momentos de matança em que não só é possível entender o que acontece em cena como as coreografias utilizam dos vários elementos dispostos no cenário, como uma mesa, em que depois é devidamente mostrada a contundência na cabeça da vítima, e uma metralhadora não apenas para atirar. Quando o personagem principal precisa enfrentar inimigos visivelmente mais fracos, a desproporção é transposta quando pega alguém com uma única mão e joga para longe.

Se o drama não é bem o seu forte, pelo menos o jovem cineasta sabe inserir flashbacks rápidos que remetem os traumas do seu herói, utiliza o slow-motion apenas em momentos pontuais, mais precisamente para atenuar a morte de alguém relevante no devido contexto, além das rimas visuais sobre afundar na água.

Mas o “cartão de visita” é o plano sequência de quase 20 minutos no início do segundo ato. Obviamente existem cortes disfarçados e alguns até são fáceis de identificar, mas não tiram o valor da façanha. Começa com tiros num matagal, parte para uma perseguição de carros em que a câmera traseira acompanha se assemelha a um video game, muda para uma escadaria se assemelhando à cena mais marcante de “Atômica” (Atomic Blond, 2017; que também teve o trabalho de Sam Hargrave), depois tem um embate corporal com toda a violência que se espera e até atropelamento repentino que consegue provocar um susto pelo impacto. Para não encerrar de qualquer jeito, ele corta para uma imagem aérea de drone subindo após explosão.

Se como o Deus do Trovão, Chris Hemsworth inicialmente foi considerado pouco interessante e depois pulou para alguém carismático após descobrirem o seu potencial cômico, como Tyler Rake ele encontra a chance de estrelar uma produção sem precisar dividir atenções. E está na medida. Ele tem o porte físico perfeito e encarna o arquétipo do “exército de um homem só”, de poucas palavras. Nas poucas oportunidades que tem de expor o seu drama, justifica o seu jeito de ser. Apesar do pouco espaço para humor, uma breve gag envolvendo “Os Goonies” (1985) já mostra o seu diferencial.

Do restante do elenco, o garoto Rudhraksh Jaiswal cumpre a função de mesclar a alegria inicial com o desespero no meio da correria e a expressão de tristeza nas cenas finais. Mas no diálogo essencial que mostra a conexão dele com Tyler, o jovem mostra potencial dramático. Randeep Hooda vive o seu protetor original, alguém com a presença física necessária para ser uma ameaça a alguém como Hemsworth. Principal presença feminina, Golshifteh Farahani, como a também mercenária Nik, entrega a variação de nuances e caráter duvidoso, além da força em combate, que dela são exigidos.

“Resgate” tem grande potencial para se tornar uma franquia por se diferenciar de produções do gênero. Não é uma opção para quem busca um cinema de reflexão, de questionamentos sociais. Mas quem espera um puro entretenimento de qualidade, feito com muito cuidado exatamente para esse propósito, trata-se de uma excelente pedida.

Nota: 8,0

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Crítica: Netflix acerta com “Resgate”, longa de ação diferenciado e entretenimento de alto nível

Por Thiago Sampaio em Crítica

29 de Abril de 2020

Foto: Divulgação

Uma obra de ação estrelada pelo ator que vive o Thor, produzida e roteirizada pelos diretores de “Vingadores: Guerra Infinita” (2018) e “Ultimato” (2019) certamente teria apelo nos cinemas. Mas em tempos de isolamento social por conta da pandemia do coronavirus, “Resgate” (Extraction, 2020), produção original da Netflix, ganhou uma notoriedade talvez até maior do que teria. Ainda bem, pois não só temos o melhor longa do gênero lançado pela plataforma de streaming, como ele tem valor próprio para cair no gosto popular.

Na trama, um mercenário (vivido por Chris Hemsworth) é contratado junto a uma equipe para a missão de resgatar um garoto indiano, filho de um mafioso preso no país, que é sequestrado por um rival, chefão do tráfico de drogas de Bangladesh.

Um fiapo de história simples para um roteiro igualmente superficial escrito por Joe Russo (irmão de Anthony Russo, ambos dirigiram os dois últimos “Vingadores”), baseado na pouco conhecida graphic novel “Ciudad”, de Andy Parks. O objetivo é claro de transportar os personagens de um ponto A para B, passando por inúmeros obstáculos. Propositalmente não há intenção de desenvolver os seres em cena. No caso do protagonista, breves diálogos em raros respiros da narrativa trazem uma breve ideia sobre quem ele é.

O maior defeito é a forma clichê como os vilões são retratados, colocando novamente indianos cheios de soberania, bandidos exploradores de crianças e sem o menor pudor em cortar partes do corpo dos subordinados como forma de punição.

O foco é mesmo a ação, o que poderia muito bem ser uma armadilha para entregar mais um produto genérico. Acontece que o diretor Sam Hargrave, veterano coordenador de dublês (ele inclusive trabalhou em muitos filmes do Universo Marvel, sendo também o dublê principal do Capitão América) que comanda seu primeiro longa-metragem após algumas experiências em curtas, sabe valorizar as sequências, tornando interessante a apreciação, afastando a sensação de vazio.

É inevitável a comparação com “John Wick” (2014, 2017, 2019) pela plasticidade das cenas. E não por coincidência, a franquia estrelada por Keanu Reeves também é comandada por um ex-dublê, caso de Chad Stahelski, após inúmeras experiências, como a trilogia “Matrix” (1999, 2003). A veracidade dos movimentos em poucos cortes, alguns momentos pontuais que fazem o espectador se impressionar, é algo que que tais profissionais entendem. E “Resgate” entrega o que promete.

Há momentos de matança em que não só é possível entender o que acontece em cena como as coreografias utilizam dos vários elementos dispostos no cenário, como uma mesa, em que depois é devidamente mostrada a contundência na cabeça da vítima, e uma metralhadora não apenas para atirar. Quando o personagem principal precisa enfrentar inimigos visivelmente mais fracos, a desproporção é transposta quando pega alguém com uma única mão e joga para longe.

Se o drama não é bem o seu forte, pelo menos o jovem cineasta sabe inserir flashbacks rápidos que remetem os traumas do seu herói, utiliza o slow-motion apenas em momentos pontuais, mais precisamente para atenuar a morte de alguém relevante no devido contexto, além das rimas visuais sobre afundar na água.

Mas o “cartão de visita” é o plano sequência de quase 20 minutos no início do segundo ato. Obviamente existem cortes disfarçados e alguns até são fáceis de identificar, mas não tiram o valor da façanha. Começa com tiros num matagal, parte para uma perseguição de carros em que a câmera traseira acompanha se assemelha a um video game, muda para uma escadaria se assemelhando à cena mais marcante de “Atômica” (Atomic Blond, 2017; que também teve o trabalho de Sam Hargrave), depois tem um embate corporal com toda a violência que se espera e até atropelamento repentino que consegue provocar um susto pelo impacto. Para não encerrar de qualquer jeito, ele corta para uma imagem aérea de drone subindo após explosão.

Se como o Deus do Trovão, Chris Hemsworth inicialmente foi considerado pouco interessante e depois pulou para alguém carismático após descobrirem o seu potencial cômico, como Tyler Rake ele encontra a chance de estrelar uma produção sem precisar dividir atenções. E está na medida. Ele tem o porte físico perfeito e encarna o arquétipo do “exército de um homem só”, de poucas palavras. Nas poucas oportunidades que tem de expor o seu drama, justifica o seu jeito de ser. Apesar do pouco espaço para humor, uma breve gag envolvendo “Os Goonies” (1985) já mostra o seu diferencial.

Do restante do elenco, o garoto Rudhraksh Jaiswal cumpre a função de mesclar a alegria inicial com o desespero no meio da correria e a expressão de tristeza nas cenas finais. Mas no diálogo essencial que mostra a conexão dele com Tyler, o jovem mostra potencial dramático. Randeep Hooda vive o seu protetor original, alguém com a presença física necessária para ser uma ameaça a alguém como Hemsworth. Principal presença feminina, Golshifteh Farahani, como a também mercenária Nik, entrega a variação de nuances e caráter duvidoso, além da força em combate, que dela são exigidos.

“Resgate” tem grande potencial para se tornar uma franquia por se diferenciar de produções do gênero. Não é uma opção para quem busca um cinema de reflexão, de questionamentos sociais. Mas quem espera um puro entretenimento de qualidade, feito com muito cuidado exatamente para esse propósito, trata-se de uma excelente pedida.

Nota: 8,0