Crítica: Novo filme de Batman fecha com maestria saga do herói no cinema 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Novo filme de Batman fecha com maestria saga do herói no cinema

Por Thiago Sampaio em Crítica

27 de julho de 2012

Pôster de “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” – Foto: Divulgação

No ano de 2005, o diretor Christopher Nolan apresentou ao mundo uma versão totalmente diferente de Batman do que já fora visto antes nas telas. Em “Batman Begins”, recontou a origem do herói sob um ponto de vista realista, sombrio e com uma estética cinematográfica ousada para um “filme de super herói”. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de 2008, impressionou o mundo ao apresentar não apenas uma boa continuação, mas uma obra-prima do estilo. Agora, em 2012, este “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” mantém o nível dos anteriores e cumpre com maestria a missão de encerrar a saga. Tenso, corajoso, impressionante, o terceiro filme fecha um ciclo e consagra a trilogia na História do cinema.

A trama se passa oito anos após os eventos ocorridos em “O Cavaleiro das Trevas”, quando o terrorista Bane (Tom Hardy) retorna para Gotham City provocando o pânico e o desespero nas pessoas. Sem forças para enfrentar o criminoso, a polícia da cidade chega ao seu limite, fazendo com que Batman (Christian Bale) retorne de seu exílio por ter sido responsabilizado pelos crimes do promotor Harvey Dent no filme anterior. No seu caminho, o herói precisa lidar com a misteriosa Selina Kyle (Anne Hathaway), uma sensual ladra.

O longa mostra a que veio logo na cena inicial, apresentando o novo vilão em uma sequencia de ação impressionante, sem poupar frieza e violência. E a tensão marca os longos 164 minutos de duração, que em meio a tantos marcos decisivos que prendem a atenção do espectador, nunca soam cansativos. Se “Begins” focava a corrupção espalhada em Gotham City e “O Cavaleiro das Trevas” o crescimento do herói dentro da cidade e lutando contra um mal maior, este terceiro episódio é marcado pela anarquia dominando por completo. Com o caos instalado e toda a população em estado de extremo desespero, não é à toa que cada segundo desse decisivo episódio seja tão valioso.

Nesta missão, Christopher Nolan (que foi indicado ao Oscar por “A Origem”) mais uma vez faz uma trabalho primoroso. Ampliando o clima pesado que permeou os anteriores, ele transmite com eficiência as sensações de cada situação, seja na desgovernada cidade, através de passagens cinzentas e nebulosas, ou no inferno particular de Bruce Wayne/Batman em diversos momentos, através de fotografias escuras. Vale ressaltar a excelente trilha-sonora de Hans Zimmer, que contribui em grande escala para cada efeito.

No comando das cenas de ação, Nolan mostra uma visível evolução, de modo que neste a crueza se mostra ainda mais exaltada, sempre utilizando os efeitos especiais como artefatos de auxílio, e nunca para dominar a cena. E até mesmo momentos silenciosos, como a de uma criança cantando o hino americano em um estádio prestes a ser explodido, provocam a agonia necessária. As duas cenas de luta entre o herói e Bane não só são muito bem coreografadas (um defeito nos anteriores, agora corrigido), como são de uma brutalidade ainda não vista na saga. O longo e explosivo clímax é de encher os olhos e segurar qualquer um na cadeira perante a grande quantidade de elementos em ação e fatos importantes se desenrolando.

O roteiro, novamente assinado por Christopher e seu irmão Jonathan, consegue a difícil tarefa de narrar a queda, o renascimento e a ascensão do herói principal, reunindo vários outros personagens de maneira (quase) uniforme, dentro de uma trama menos confusa do que a do segundo filme. De maneira inteligente, os fatos dos dois longas anteriores são constantemente ligados a este, reforçando a ideia de todos serem partes de um único, e grande, projeto.

Christian Bale, possivelmente, vestiu pela última vez a armadura do Homem-Morcego – Foto: Divulgação

O crucial: há muitas participações especiais, surpresas e reviravoltas na história (não, não entrarei em mais detalhes para não estragar a graça de quem ainda não assistiu), essenciais para os rumos que a saga toma. Para os fãs de histórias em quadrinhos, das séries animadas e dos games do Homem-Morcego, há diversos momentos de puro deleite. Não faltam referências e até diálogos reproduzidos igualmente. Há mudanças e adaptações, e sempre haverão os mais rigorosos que reclamarão, mas trata-se de algo natural.

Uma das chaves do sucesso é a boa construção dos personagens. Tudo bem, não há um vilão tão marcante quanto o memorável Coringa vivido pelo falecido Heath Ledger, mas Bane rouba a cena sempre que aparece. Tom Hardy faz um trabalho digno de indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mesmo usando uma máscara durante toda a projeção. Hardy utiliza do porte físico avantajado e da voz maleável e cheia de ironia nas palavras para construir a personalidade do maléfico antagonista, conseguindo aplicar-lhe humanismo apenas com uma lágrima no olho, tornando-o bem mais interessante do que ele é nas HQs.

Anne Hathaway esbanja sensualidade na pele de Selina Kyle, a Mulher-Gato (codinome que, acertadamente, não é pronunciado nenhuma vez), uma anti-heroína construída aqui como uma eficaz ladra, confusa com as próprias vontades e que balança a confiança de Batman e, ao mesmo tempo, surge como o par mais perfeito que poderia existir para ele. O visual, ligeiramente inspirado no seriado dos anos 60 (quando a personagem foi vivida por Julie Newmar e Eartha Kitt), confere ao longa um toque mais cartunesco.

Outra novidade do elenco é Joseph Gordon-Levitt, na pele do policial órfão Blake, que acaba por ter uma grande importância na trama. Misturando boa vontade e inexperiência, o jovem de bom coração surge como uma versão mais jovem de Bruce Wayne. Os que retornam, continuam perfeitos ao que se propõem. Christian Bale capta a mudança do herói de um jeito eficiente, surgindo com feições desgastadas e sem motivação para a vida no início, mas ganhando força à medida que o perigo o move. O veterano Michael Caine dá um show como o mordomo Alfred, cabendo a ele os momentos mais sentimentais ao demonstrar a preocupação e culpa para com o “filho fraternal”. O igualmente ótimo Gary Oldman, como o comissário Gordon, se destaca ao carregar a constante culpa por sustentar uma mentira (o heroísmo de Harvey Dent) em nome do bem da cidade. Morgan Freeman, na pele de Lucius Fox, carismático como sempre.

Ainda assim, “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” possui seus defeitos. Ao dividir muitas subtramas, alguns detalhes acabam se tornando perdidos em cena. O principal deles é a personagem de Marion Cottilard, a milionária Miranda Tate, um interesse amoroso de Bruce Wayne. Não sabemos suas reais intenções e ela não invoca nem carisma, nem mistério. Não por culpa da atriz, mas pelo modo como foi conduzida pelo roteiro. Muitas vezes há também aqueles desnecessários casos de os personagens precisarem explicar algo, quase “mastigando” para o espectador, como se a simples e clara dedução já não fosse suficiente. Mas, são deslizes pequenos perante o produto completo.

O final deste terceiro episódio pode até abrir margens para a continuidade de Batman no cinema, em uma nova saga, um novo recomeço (os famosos reboots, que estão na moda e o estúdio já demonstrou interesse). Mas certo é que Christopher Nolan fechou o seu ciclo (sim, em definitivo mesmo) da maneira mais digna possível. Sempre haverão perguntas do tipo: é melhor do que o segundo ou não? Na verdade, são três grandes obras que se completam. Mostrando que é possível fazer cinema de qualidade ao invés de apenas entretenimento passageiro, o Batman de Nolan, definitivamente, revolucionou o modo de adaptar quadrinhos para os cinemas.

Nota: 9,5

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Crítica: Novo filme de Batman fecha com maestria saga do herói no cinema

Por Thiago Sampaio em Crítica

27 de julho de 2012

Pôster de “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” – Foto: Divulgação

No ano de 2005, o diretor Christopher Nolan apresentou ao mundo uma versão totalmente diferente de Batman do que já fora visto antes nas telas. Em “Batman Begins”, recontou a origem do herói sob um ponto de vista realista, sombrio e com uma estética cinematográfica ousada para um “filme de super herói”. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de 2008, impressionou o mundo ao apresentar não apenas uma boa continuação, mas uma obra-prima do estilo. Agora, em 2012, este “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” mantém o nível dos anteriores e cumpre com maestria a missão de encerrar a saga. Tenso, corajoso, impressionante, o terceiro filme fecha um ciclo e consagra a trilogia na História do cinema.

A trama se passa oito anos após os eventos ocorridos em “O Cavaleiro das Trevas”, quando o terrorista Bane (Tom Hardy) retorna para Gotham City provocando o pânico e o desespero nas pessoas. Sem forças para enfrentar o criminoso, a polícia da cidade chega ao seu limite, fazendo com que Batman (Christian Bale) retorne de seu exílio por ter sido responsabilizado pelos crimes do promotor Harvey Dent no filme anterior. No seu caminho, o herói precisa lidar com a misteriosa Selina Kyle (Anne Hathaway), uma sensual ladra.

O longa mostra a que veio logo na cena inicial, apresentando o novo vilão em uma sequencia de ação impressionante, sem poupar frieza e violência. E a tensão marca os longos 164 minutos de duração, que em meio a tantos marcos decisivos que prendem a atenção do espectador, nunca soam cansativos. Se “Begins” focava a corrupção espalhada em Gotham City e “O Cavaleiro das Trevas” o crescimento do herói dentro da cidade e lutando contra um mal maior, este terceiro episódio é marcado pela anarquia dominando por completo. Com o caos instalado e toda a população em estado de extremo desespero, não é à toa que cada segundo desse decisivo episódio seja tão valioso.

Nesta missão, Christopher Nolan (que foi indicado ao Oscar por “A Origem”) mais uma vez faz uma trabalho primoroso. Ampliando o clima pesado que permeou os anteriores, ele transmite com eficiência as sensações de cada situação, seja na desgovernada cidade, através de passagens cinzentas e nebulosas, ou no inferno particular de Bruce Wayne/Batman em diversos momentos, através de fotografias escuras. Vale ressaltar a excelente trilha-sonora de Hans Zimmer, que contribui em grande escala para cada efeito.

No comando das cenas de ação, Nolan mostra uma visível evolução, de modo que neste a crueza se mostra ainda mais exaltada, sempre utilizando os efeitos especiais como artefatos de auxílio, e nunca para dominar a cena. E até mesmo momentos silenciosos, como a de uma criança cantando o hino americano em um estádio prestes a ser explodido, provocam a agonia necessária. As duas cenas de luta entre o herói e Bane não só são muito bem coreografadas (um defeito nos anteriores, agora corrigido), como são de uma brutalidade ainda não vista na saga. O longo e explosivo clímax é de encher os olhos e segurar qualquer um na cadeira perante a grande quantidade de elementos em ação e fatos importantes se desenrolando.

O roteiro, novamente assinado por Christopher e seu irmão Jonathan, consegue a difícil tarefa de narrar a queda, o renascimento e a ascensão do herói principal, reunindo vários outros personagens de maneira (quase) uniforme, dentro de uma trama menos confusa do que a do segundo filme. De maneira inteligente, os fatos dos dois longas anteriores são constantemente ligados a este, reforçando a ideia de todos serem partes de um único, e grande, projeto.

Christian Bale, possivelmente, vestiu pela última vez a armadura do Homem-Morcego – Foto: Divulgação

O crucial: há muitas participações especiais, surpresas e reviravoltas na história (não, não entrarei em mais detalhes para não estragar a graça de quem ainda não assistiu), essenciais para os rumos que a saga toma. Para os fãs de histórias em quadrinhos, das séries animadas e dos games do Homem-Morcego, há diversos momentos de puro deleite. Não faltam referências e até diálogos reproduzidos igualmente. Há mudanças e adaptações, e sempre haverão os mais rigorosos que reclamarão, mas trata-se de algo natural.

Uma das chaves do sucesso é a boa construção dos personagens. Tudo bem, não há um vilão tão marcante quanto o memorável Coringa vivido pelo falecido Heath Ledger, mas Bane rouba a cena sempre que aparece. Tom Hardy faz um trabalho digno de indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mesmo usando uma máscara durante toda a projeção. Hardy utiliza do porte físico avantajado e da voz maleável e cheia de ironia nas palavras para construir a personalidade do maléfico antagonista, conseguindo aplicar-lhe humanismo apenas com uma lágrima no olho, tornando-o bem mais interessante do que ele é nas HQs.

Anne Hathaway esbanja sensualidade na pele de Selina Kyle, a Mulher-Gato (codinome que, acertadamente, não é pronunciado nenhuma vez), uma anti-heroína construída aqui como uma eficaz ladra, confusa com as próprias vontades e que balança a confiança de Batman e, ao mesmo tempo, surge como o par mais perfeito que poderia existir para ele. O visual, ligeiramente inspirado no seriado dos anos 60 (quando a personagem foi vivida por Julie Newmar e Eartha Kitt), confere ao longa um toque mais cartunesco.

Outra novidade do elenco é Joseph Gordon-Levitt, na pele do policial órfão Blake, que acaba por ter uma grande importância na trama. Misturando boa vontade e inexperiência, o jovem de bom coração surge como uma versão mais jovem de Bruce Wayne. Os que retornam, continuam perfeitos ao que se propõem. Christian Bale capta a mudança do herói de um jeito eficiente, surgindo com feições desgastadas e sem motivação para a vida no início, mas ganhando força à medida que o perigo o move. O veterano Michael Caine dá um show como o mordomo Alfred, cabendo a ele os momentos mais sentimentais ao demonstrar a preocupação e culpa para com o “filho fraternal”. O igualmente ótimo Gary Oldman, como o comissário Gordon, se destaca ao carregar a constante culpa por sustentar uma mentira (o heroísmo de Harvey Dent) em nome do bem da cidade. Morgan Freeman, na pele de Lucius Fox, carismático como sempre.

Ainda assim, “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” possui seus defeitos. Ao dividir muitas subtramas, alguns detalhes acabam se tornando perdidos em cena. O principal deles é a personagem de Marion Cottilard, a milionária Miranda Tate, um interesse amoroso de Bruce Wayne. Não sabemos suas reais intenções e ela não invoca nem carisma, nem mistério. Não por culpa da atriz, mas pelo modo como foi conduzida pelo roteiro. Muitas vezes há também aqueles desnecessários casos de os personagens precisarem explicar algo, quase “mastigando” para o espectador, como se a simples e clara dedução já não fosse suficiente. Mas, são deslizes pequenos perante o produto completo.

O final deste terceiro episódio pode até abrir margens para a continuidade de Batman no cinema, em uma nova saga, um novo recomeço (os famosos reboots, que estão na moda e o estúdio já demonstrou interesse). Mas certo é que Christopher Nolan fechou o seu ciclo (sim, em definitivo mesmo) da maneira mais digna possível. Sempre haverão perguntas do tipo: é melhor do que o segundo ou não? Na verdade, são três grandes obras que se completam. Mostrando que é possível fazer cinema de qualidade ao invés de apenas entretenimento passageiro, o Batman de Nolan, definitivamente, revolucionou o modo de adaptar quadrinhos para os cinemas.

Nota: 9,5