Crítica: Novo 'Robocop' atualiza com eficiência os conceitos do original - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Novo ‘Robocop’ atualiza com eficiência os conceitos do original

Por Thiago Sampaio em Crítica

27 de Fevereiro de 2014

Pôster de 'Robocop' (2014)

Foto: Divulgação

Muitos torceram o nariz quando foi anunciado que “Robocop” (idem, 1987) ganharia uma nova versão nas telonas. Afinal, o longa dirigido por Paul Verhoeven trouxe um novo conceito de herói, usando e abusando de violência e com uma crítica irônica às grandes corporações e a política de segurança pública. De fato, o remake passa longe de bater o original. Mas a boa notícia é que o diretor brasileiro José Padilha consegue manter o bom nível e trazer de maneira interessante o teor social para os dias atuais.

A história

A trama se passa no ano de 2028, em que drones não tripulados e robôs são usados para garantir a segurança mundo afora, mas o combate ao crime nos Estados Unidos não pode ser realizado por eles. Uma das razões para a proibição é uma lei apoiada pela maioria dos americanos. Querendo conquistar a população, o dono da companhia Raymond Sellars (Michael Keaton) decide criar um robô que tenha consciência humana e a oportunidade aparece quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado, deixando-o entre a vida e a morte.

Menos violência

O pano de fundo do novo Robocop é o mesmo do longa-metragem de 1987, porém, é nítida a intenção do estúdio em criar mais um filme de super herói no estilo das recentes adaptações da Marvel, com cores, efeitos especiais e cenas de ação grandiosas, atingindo a nova legião de fãs. Isso tudo, de fato, está lá. Começando pela brusca diminuição da violência, substituindo até armas de fogo por armas de choque. Não, desta vez Murphy não é mutilado, não há um estuprador levando um tiro nos órgão genital e nem um bandido caminhando após ser deformado por ácido.

Tropa de Elite ?

Acontece que José Padilha se mostrou uma escolha bastante acertada para a direção, driblando algumas exigências e deixando o produto final “limpinho”, mas com um ar de inteligência. E a imagem que vemos ao longo das duas horas de projeção são justamente os filmes que o consagraram: “Tropa de Elite 1 e 2” (2007, 2010). Nada mais coerente: a lapidação do treinamento de um policial, a ponto de perder a humanidade e agir apenas para agredir bandidos (e a população e os espectadores alienados ainda vibram com isso), agora está bem ao pé da letra, transformando um homem em uma máquina.

E o roteiro do próprio Padilha, ao lado do estreante Joshua Zetumer, utiliza bem desses quesitos ao mostrar não apenas a corrupção interna na polícia, mas o processo alienatório em que o policial Alex Murphy é submetido. Afinal, é tirando-lhe a consciência que a imagem idealizada de segurança é criada para o população, apavorada com a violência, através de um super-soldado. E em um mundo cercado pelo medo, interessante o contexto mostrado nas cenas iniciais, em que as robôs, poderio bélico pesado dos Estados Unidos, são usados como forma de intimidação em países do Oriente Médio.

Por isso, mudanças foram bem aplicadas: no filme de 1987, a memória de Robocop era apagada e flashes iam voltando aos poucos. Agora, Murphy sabe desde o início quem é, ao mesmo tempo em que é manipulado pelos seus criadores e seu lado máquina passa a dominá-lo. O fato de a esposa e o filho do policial ganharem maior espaço, atormentando o lado psicológico do homem/robô, também contribui para a carga dramática do longa-metragem.

Referência ao original

Mas mesmo tão diferente, a nova versão é cheia de referências ao original. Começando pela marcante trilha-sonora de Basil Poledouris, que toca já nos créditos iniciais; robôs com visual semelhante ao do ED-209; a frase “vivo ou morto, você vem comigo”; a aparição em uma tela da armadura clássica; a existência de um parceiro chamado Lewis (que antes era uma mulher)…estão lá para homenagear. As interrupções em forma de noticiário são substituídas pelo jornal apresentado pelo personagem de Samuel L.Jackson, em que Padilha repete o que fizera em “Tropa de Elite 2”, ao ironizar a mídia manipuladora com um âncora que abusa das performances carregadas de hipocrisia.

Elenco

O desconhecido Joel Kinnaman está apenas correto no papel principal, depressivo quando precisa ser, robótico a maior parte do tempo. Destaque para Gary Oldman, se mostrando o mais humano dos que cercam Alex Murphy, sendo uma espécie de “Dr.Frankenstein”, que preza pela sua criação acima de tudo. Michael Keaton convence como o CEO inescrupuloso da OmniCorp, enquanto Abbie Cornish cumpre o papel da esposa amargurada. Jackie Earle Haley, como um dos programadores do Robocop, se destaca pelo jeito elétrico em cena, assim como Jay Baruchel, o “cara do marketing”.

Resultado convence

Com cenas de ação convincentes e bons efeitos, o Robocop está de volta, bem mais suave, possivelmente gerando continuação e agregando diferentes gerações de admiradores. Mas ainda assim, funciona por não ter perdido a sua ponta de ironia, mostrando que a “Maior Potência do Mundo” nem é tão verdadeira assim. E ainda pagamos caro por tudo.

Nota: 7,5

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Crítica: Novo ‘Robocop’ atualiza com eficiência os conceitos do original

Por Thiago Sampaio em Crítica

27 de Fevereiro de 2014

Pôster de 'Robocop' (2014)

Foto: Divulgação

Muitos torceram o nariz quando foi anunciado que “Robocop” (idem, 1987) ganharia uma nova versão nas telonas. Afinal, o longa dirigido por Paul Verhoeven trouxe um novo conceito de herói, usando e abusando de violência e com uma crítica irônica às grandes corporações e a política de segurança pública. De fato, o remake passa longe de bater o original. Mas a boa notícia é que o diretor brasileiro José Padilha consegue manter o bom nível e trazer de maneira interessante o teor social para os dias atuais.

A história

A trama se passa no ano de 2028, em que drones não tripulados e robôs são usados para garantir a segurança mundo afora, mas o combate ao crime nos Estados Unidos não pode ser realizado por eles. Uma das razões para a proibição é uma lei apoiada pela maioria dos americanos. Querendo conquistar a população, o dono da companhia Raymond Sellars (Michael Keaton) decide criar um robô que tenha consciência humana e a oportunidade aparece quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado, deixando-o entre a vida e a morte.

Menos violência

O pano de fundo do novo Robocop é o mesmo do longa-metragem de 1987, porém, é nítida a intenção do estúdio em criar mais um filme de super herói no estilo das recentes adaptações da Marvel, com cores, efeitos especiais e cenas de ação grandiosas, atingindo a nova legião de fãs. Isso tudo, de fato, está lá. Começando pela brusca diminuição da violência, substituindo até armas de fogo por armas de choque. Não, desta vez Murphy não é mutilado, não há um estuprador levando um tiro nos órgão genital e nem um bandido caminhando após ser deformado por ácido.

Tropa de Elite ?

Acontece que José Padilha se mostrou uma escolha bastante acertada para a direção, driblando algumas exigências e deixando o produto final “limpinho”, mas com um ar de inteligência. E a imagem que vemos ao longo das duas horas de projeção são justamente os filmes que o consagraram: “Tropa de Elite 1 e 2” (2007, 2010). Nada mais coerente: a lapidação do treinamento de um policial, a ponto de perder a humanidade e agir apenas para agredir bandidos (e a população e os espectadores alienados ainda vibram com isso), agora está bem ao pé da letra, transformando um homem em uma máquina.

E o roteiro do próprio Padilha, ao lado do estreante Joshua Zetumer, utiliza bem desses quesitos ao mostrar não apenas a corrupção interna na polícia, mas o processo alienatório em que o policial Alex Murphy é submetido. Afinal, é tirando-lhe a consciência que a imagem idealizada de segurança é criada para o população, apavorada com a violência, através de um super-soldado. E em um mundo cercado pelo medo, interessante o contexto mostrado nas cenas iniciais, em que as robôs, poderio bélico pesado dos Estados Unidos, são usados como forma de intimidação em países do Oriente Médio.

Por isso, mudanças foram bem aplicadas: no filme de 1987, a memória de Robocop era apagada e flashes iam voltando aos poucos. Agora, Murphy sabe desde o início quem é, ao mesmo tempo em que é manipulado pelos seus criadores e seu lado máquina passa a dominá-lo. O fato de a esposa e o filho do policial ganharem maior espaço, atormentando o lado psicológico do homem/robô, também contribui para a carga dramática do longa-metragem.

Referência ao original

Mas mesmo tão diferente, a nova versão é cheia de referências ao original. Começando pela marcante trilha-sonora de Basil Poledouris, que toca já nos créditos iniciais; robôs com visual semelhante ao do ED-209; a frase “vivo ou morto, você vem comigo”; a aparição em uma tela da armadura clássica; a existência de um parceiro chamado Lewis (que antes era uma mulher)…estão lá para homenagear. As interrupções em forma de noticiário são substituídas pelo jornal apresentado pelo personagem de Samuel L.Jackson, em que Padilha repete o que fizera em “Tropa de Elite 2”, ao ironizar a mídia manipuladora com um âncora que abusa das performances carregadas de hipocrisia.

Elenco

O desconhecido Joel Kinnaman está apenas correto no papel principal, depressivo quando precisa ser, robótico a maior parte do tempo. Destaque para Gary Oldman, se mostrando o mais humano dos que cercam Alex Murphy, sendo uma espécie de “Dr.Frankenstein”, que preza pela sua criação acima de tudo. Michael Keaton convence como o CEO inescrupuloso da OmniCorp, enquanto Abbie Cornish cumpre o papel da esposa amargurada. Jackie Earle Haley, como um dos programadores do Robocop, se destaca pelo jeito elétrico em cena, assim como Jay Baruchel, o “cara do marketing”.

Resultado convence

Com cenas de ação convincentes e bons efeitos, o Robocop está de volta, bem mais suave, possivelmente gerando continuação e agregando diferentes gerações de admiradores. Mas ainda assim, funciona por não ter perdido a sua ponta de ironia, mostrando que a “Maior Potência do Mundo” nem é tão verdadeira assim. E ainda pagamos caro por tudo.

Nota: 7,5