Crítica: "Perdido em Marte" é a redenção de Ridley Scott - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Perdido em Marte” é a redenção de Ridley Scott

Por Thiago Sampaio em Crítica

08 de outubro de 2015

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

No dia 28 de setembro de 2015, a Nasa divulga provas da existência de água líquida em Marte. Por “coincidência”, tal feito aconteceu na semana da estreia de “Perdido em Marte” (The Martian, 2015). Medida estratégica ou não de promoção do longa-metragem, o episódio serve para mostrar que o filme está longe de ser uma ficção científica distante da realidade. Mas acima de tudo, ela mostra a redenção do diretor Ridley Scott que, após anos oscilando entre produções irregulares, consegue transformar uma trama de sobrevivência em um inteligente produto inserido na cultura pop sem perder os cunhos científicos.

Sinopse

Adaptação do livro homônimo de Andy Weir, a trama conta a história do astronauta Mark Watney (Matt Damon), enviado a uma missão em Marte. Após uma severa tempestade ele é dado como morto, abandonado pelos colegas e acorda sozinho no misterioso planeta com escassos suprimentos, sem saber como reencontrar os companheiros ou retornar à Terra.

Volta por cima

Responsável por dois grandes clássicos da ficção científica – “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e “Blade Runner, o Caçador de Andróides” (1982) -, Ridley Scott tem filmes marcantes no currículo como “Thelma & Louise” (1991) e “Gladiador” (2000), mas nos últimos anos tem apresentado produções esquecíveis como “Êxodo: Deuses e Reis” (2014) e “O Conselheiro do Crime” (2013), ainda que “Prometheus” (2012) tenha reacendido o seu talento para o gênero sci-fi. E é justamente no espaço onde ele reencontra o seu brilho, pois “Perdido em Marte” é, de longe, o seu trabalho mais diferenciado em décadas. Ao narrar a trajetória de Mark Watney para sobreviver em um planeta sem recursos naturais, o cineasta de 77 anos apresenta uma obra leve, bem humorada e que prende o espectador ao longo dos 141 minutos de projeção.

Leveza

Longas com personagens isolados em situação de desespero não são tão incomuns, como “127 Horas” (2011) e o também situado no espaço “Gravidade” (2013). Mas em “Perdido em Marte” é difícil não se divertir com os passos do personagem de Matt Damon que, mesmo com a consciência de que pode não restar-lhe muito tempo de vida, sempre mantém o ar de otimismo. E Ridley Scott não teme em incluir momentos cômicos que beiram o pastelão, como quando um experimento de Mark Watney explode, ele voa longe, e em seguida aparece na câmera cheio de queimaduras para dizer “é, eu me explodi”. Em meio a trapalhadas, o bom humor do protagonista é um ponto alto, não ousando nos palavrões durante contato com os membros da Nasa na terra ou com jargões prontos, como “chupa, Neil Armstrong”.

Com eficiente roteiro de Drew Goddard (“Guerra Mundial Z” e as séries “Buffy”, “Angel”, “Demolidor”, entre outras), a adaptação da obra Andy Weir soa de maneira didática pois, ao mesmo tempo em que o botânico Mark Watney se encontra sozinho e precisa utilizar todo o seu conhecimento científico, ele “conversa” o tempo todo com o espectador através da câmera. O que faz todo o sentido, afinal, mesmo se saísse sem vida, ali deixaria o registro da sua experiência. Lembrando que o longa contou com consultores da Nasa para representar Marte e uma missão espacial com exatidão, é interessante ver as medidas do astronauta para plantar comida, “produzir” água, e, literalmente, brotar vida em um planeta deserto. Watney é um gênio que faz jus ao título original da obra, “The Martian” (O Marciano).

Se o clima leve prevalece durante a maior parte do tempo, a obra também guarda espaço para excelentes momentos de tensão, como a grandiosa cena de ação no clímax. Em meio a tudo isso, Ridley Scott destila inúmeras referências pop, como “O Senhor dos Anéis” e até “Homem de Ferro”. Nesse ponto, destaque para a divertida trilha-sonora, no melhor estilo “Os Guardiões da Galáxia” (2014), que consiste em uma playlist repleta de hits de discoteca dos anos 70 colocada pelo próprio protagonista (mas não escolhida por ele, para a sua infelicidade), que vão de “Hot Stuff” (Donna Summer) a “Waterloo” (ABBA). Obs: não poderia haver canção mais adequada para o longa do que “Starman”, de David Bowie, para o deleite dos apreciadores.

Matt, o carismático

Com talento conhecido tanto para o drama como para a ação, Matt Damon apresenta um dos personagens mais carismáticos da sua carreira, sem precisar contracenar com ninguém (uma indicação ao Oscar é bem provável!). No papel de Mark Watney, ele faz o espectador rir, sofrer, lamentar pelos seus acidentes e, principalmente, torcer por ele até o final. Porém, ele não precisar carregar o filme nas costas, graças ao grandioso elenco de apoio que confere peso à produção. A tripulação da nave formada por Jessica Chastain, Michael Peña, Sebastian Stan, Kate Mara e Aksel Hennie têm grande importância na narrativa, assim como os representantes da Nasa na Terra, Chiwetel Ejiofor, Sean Bean, Kristen Wiig e Jeff Daniels (esse, o presidente da Nasa, o que mais se aproxima do posto de antagonista). Donald Glover (da série “Community”) surge como alívio cômico e referências nerds, mas também fundamental para o desenrolar da trama.

Mistura rara

“Perdido em Marte” não deixa de ser uma grande propaganda da Nasa – não à toa a agência espacial americana lançou a campanha de marketing “The Real Martians” (os verdadeiros marcianos) – além de levantar a bandeira da paz entre Estados Unidos e China. Porém, o longa-metragem de Ridley Scott é bem mais do que isso. É uma história de superação, repleta de referências culturais e científicas, marcado por um forte clima de otimismo. Nos dias atuais, encontrar tal mistura é algo tão difícil como encontrar vida em Marte.

Nota: 9,0

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Crítica: “Perdido em Marte” é a redenção de Ridley Scott

Por Thiago Sampaio em Crítica

08 de outubro de 2015

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

No dia 28 de setembro de 2015, a Nasa divulga provas da existência de água líquida em Marte. Por “coincidência”, tal feito aconteceu na semana da estreia de “Perdido em Marte” (The Martian, 2015). Medida estratégica ou não de promoção do longa-metragem, o episódio serve para mostrar que o filme está longe de ser uma ficção científica distante da realidade. Mas acima de tudo, ela mostra a redenção do diretor Ridley Scott que, após anos oscilando entre produções irregulares, consegue transformar uma trama de sobrevivência em um inteligente produto inserido na cultura pop sem perder os cunhos científicos.

Sinopse

Adaptação do livro homônimo de Andy Weir, a trama conta a história do astronauta Mark Watney (Matt Damon), enviado a uma missão em Marte. Após uma severa tempestade ele é dado como morto, abandonado pelos colegas e acorda sozinho no misterioso planeta com escassos suprimentos, sem saber como reencontrar os companheiros ou retornar à Terra.

Volta por cima

Responsável por dois grandes clássicos da ficção científica – “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e “Blade Runner, o Caçador de Andróides” (1982) -, Ridley Scott tem filmes marcantes no currículo como “Thelma & Louise” (1991) e “Gladiador” (2000), mas nos últimos anos tem apresentado produções esquecíveis como “Êxodo: Deuses e Reis” (2014) e “O Conselheiro do Crime” (2013), ainda que “Prometheus” (2012) tenha reacendido o seu talento para o gênero sci-fi. E é justamente no espaço onde ele reencontra o seu brilho, pois “Perdido em Marte” é, de longe, o seu trabalho mais diferenciado em décadas. Ao narrar a trajetória de Mark Watney para sobreviver em um planeta sem recursos naturais, o cineasta de 77 anos apresenta uma obra leve, bem humorada e que prende o espectador ao longo dos 141 minutos de projeção.

Leveza

Longas com personagens isolados em situação de desespero não são tão incomuns, como “127 Horas” (2011) e o também situado no espaço “Gravidade” (2013). Mas em “Perdido em Marte” é difícil não se divertir com os passos do personagem de Matt Damon que, mesmo com a consciência de que pode não restar-lhe muito tempo de vida, sempre mantém o ar de otimismo. E Ridley Scott não teme em incluir momentos cômicos que beiram o pastelão, como quando um experimento de Mark Watney explode, ele voa longe, e em seguida aparece na câmera cheio de queimaduras para dizer “é, eu me explodi”. Em meio a trapalhadas, o bom humor do protagonista é um ponto alto, não ousando nos palavrões durante contato com os membros da Nasa na terra ou com jargões prontos, como “chupa, Neil Armstrong”.

Com eficiente roteiro de Drew Goddard (“Guerra Mundial Z” e as séries “Buffy”, “Angel”, “Demolidor”, entre outras), a adaptação da obra Andy Weir soa de maneira didática pois, ao mesmo tempo em que o botânico Mark Watney se encontra sozinho e precisa utilizar todo o seu conhecimento científico, ele “conversa” o tempo todo com o espectador através da câmera. O que faz todo o sentido, afinal, mesmo se saísse sem vida, ali deixaria o registro da sua experiência. Lembrando que o longa contou com consultores da Nasa para representar Marte e uma missão espacial com exatidão, é interessante ver as medidas do astronauta para plantar comida, “produzir” água, e, literalmente, brotar vida em um planeta deserto. Watney é um gênio que faz jus ao título original da obra, “The Martian” (O Marciano).

Se o clima leve prevalece durante a maior parte do tempo, a obra também guarda espaço para excelentes momentos de tensão, como a grandiosa cena de ação no clímax. Em meio a tudo isso, Ridley Scott destila inúmeras referências pop, como “O Senhor dos Anéis” e até “Homem de Ferro”. Nesse ponto, destaque para a divertida trilha-sonora, no melhor estilo “Os Guardiões da Galáxia” (2014), que consiste em uma playlist repleta de hits de discoteca dos anos 70 colocada pelo próprio protagonista (mas não escolhida por ele, para a sua infelicidade), que vão de “Hot Stuff” (Donna Summer) a “Waterloo” (ABBA). Obs: não poderia haver canção mais adequada para o longa do que “Starman”, de David Bowie, para o deleite dos apreciadores.

Matt, o carismático

Com talento conhecido tanto para o drama como para a ação, Matt Damon apresenta um dos personagens mais carismáticos da sua carreira, sem precisar contracenar com ninguém (uma indicação ao Oscar é bem provável!). No papel de Mark Watney, ele faz o espectador rir, sofrer, lamentar pelos seus acidentes e, principalmente, torcer por ele até o final. Porém, ele não precisar carregar o filme nas costas, graças ao grandioso elenco de apoio que confere peso à produção. A tripulação da nave formada por Jessica Chastain, Michael Peña, Sebastian Stan, Kate Mara e Aksel Hennie têm grande importância na narrativa, assim como os representantes da Nasa na Terra, Chiwetel Ejiofor, Sean Bean, Kristen Wiig e Jeff Daniels (esse, o presidente da Nasa, o que mais se aproxima do posto de antagonista). Donald Glover (da série “Community”) surge como alívio cômico e referências nerds, mas também fundamental para o desenrolar da trama.

Mistura rara

“Perdido em Marte” não deixa de ser uma grande propaganda da Nasa – não à toa a agência espacial americana lançou a campanha de marketing “The Real Martians” (os verdadeiros marcianos) – além de levantar a bandeira da paz entre Estados Unidos e China. Porém, o longa-metragem de Ridley Scott é bem mais do que isso. É uma história de superação, repleta de referências culturais e científicas, marcado por um forte clima de otimismo. Nos dias atuais, encontrar tal mistura é algo tão difícil como encontrar vida em Marte.

Nota: 9,0