Crítica: 'Planeta dos Macacos: O Confronto' é um reflexo contundente da vida real - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: ‘Planeta dos Macacos: O Confronto’ é um reflexo contundente da vida real

Por Thiago Sampaio em Crítica

31 de julho de 2014

Pôster de "Planeta dos Macacos: O Confronto" -

Pôster de “Planeta dos Macacos: O Confronto” –

O ano é 2014. Ligamos a TV, e vemos no noticiário barbaridades tomando conta da Faixa de Gaza. Enquanto israelenses e palestinos se mutilam por território, o que se vê são situações em que pessoas como nós julgam uns aos outros como inferiores e merecedores de menor ou nenhum direito. E quanto mais se passam as décadas, parece que a sociedade apenas regride na escala da evolução. Bem, essa introdução serve apenas para situar que “Planeta dos Macacos: O Confronto” (Dawn of the Planet of the Apes, 2014), por mais que se trate de uma ficção científica e uma superprodução hollywoodiana, genialmente reflete a vida real.

Sinopse

A trama de passa dez anos após a conquista da liberdade mostrada no filme anterior. César (Andy Serkis) e os demais macacos vivem em paz na floresta próxima a San Francisco. Lá, eles desenvolveram uma comunidade própria, baseada no apoio mútuo, enquanto os humanos enfrentam uma das maiores epidemias de todos os tempos, causada por um vírus criado em laboratório. Sem energia elétrica, um grupo de sobreviventes planeja invadir a floresta e reativar a usina lá instalada. Malcolm (Jason Clarke), único que conhece bem os símios, tenta agir pacificamente e impedir que o confronto aconteça.

Contexto diferente

Bem diferente do longa anterior, o ótimo “Planeta dos Macacos: A Origem” (Rise of the Planet of the Apes, 2011), essa sequencia apresenta um contexto caótico já estabelecido, em que as raças vivem isoladas, porém, sempre temendo umas às outras. Assim, o brilhante roteiro de Mark Bomback (“Incontrolável”, 2010), Rick Jaffa e Amanda Silver (os dois últimos remanescentes de “A Origem”) consegue criar situações enraizadas no contexto sócio-político recorrente dos últimos anos, permitindo também o deslumbre de quem busca um entretenimento de qualidade.

Mérito da visão fora do lugar comum aplicada pelo diretor Matt Reeves (de “Cloverfield – Monstro”, 2008), que constrói a vila habitada pelos macacos como um recomeço da humanidade, onde famílias vivem em comunidade, aprendendo a se comunicar através de sinais e gradualmente da fala mediante às necessidades, enquanto os humanos se encontram numa megalópole quase pós-apocalíptica, também precisando se unir para combater as “ameaças”. Mas a grandeza do longa-metragem se encontra nas razões para que as espécies se rivalizem, abrindo margem para inúmeras reflexões.

Guerra e niilismo

De um lado, os humanos menosprezam os macacos por eles serem, teoricamente, animais irracionais. Nesse contexto, interessante o papel do personagem de Gary Oldman, que pode ser referenciado a um ditador do mundo real, que se recusa a acreditar que tais bichos conseguem falar e apenas vê no extermínio deles a salvação. Do outro, o líder comunitário César defende a coexistência das espécies, mas com o alerta de que nada será deixado barato caso o espaço deles seja invadido com violência. Em meio a tudo isso, há as milícias, os infiltrados de ambos os lados para investigar a estrutura e o poderio bélico e intelectual do rival.

Bela cena no início, por exemplo, quando César “conversa” com o orangotango Maurice sobre a desilusão com os humanos, a quem um dia já pertenceu (e ainda mantém respeito por alguns, como o seu antigo dono, em bem feita conexão com o filme anterior). Sua fala em um certo momento, quando a guerra está em curso, de que “eu acreditava que os macacos eram melhores do que os humanos, mas hoje vejo que somos mais parecidos do que imaginava”, transmite com contundência a melancolia da produção. E quando fala “você não é um macaco” para outro ser da mesma espécie, mas com princípios diferentes, tal sentimento é ainda mais elevado.

E se em “Planeta dos Macacos: A Origem” o expectador praticamente passa a torcer pelos macacos que são oprimidos durante boa parte da projeção, desta vez o maniqueísmo é deixado de lado. Não há certos ou errados, heróis ou vilões. Dos dois lados, há os que defendem que a guerra é a única maneira de acabar com as diferenças, e há os que defendem a convivência pacífica. Porém, é predominante o niilismo, a sensação pessimista de que a essência humana (isso inclui homens e macacos, no contexto da ficção) está destinada ao pior de maneira quase inevitável. Aplausos para o diretor Matt Reeves que, em uma tomada, consegue captar a similaridade entre as espécies através dos olhos verdes de César junto a um semblante enrugado, semelhante a de um homem velho. Sim, somos todos iguais, e estamos todos perdidos no mesmo barco!

Ação e efeitos especiais

Mas mesmo com tanta maturidade, Matt Reeves arruma espaço para cenas de ação muito convincentes (e até brutais), com tiroteios, lutas corporais entre os símios, explosões, etc. Tudo de maneira limpa visualmente e sem desnortear o espectador com cortes em excesso e em pequenas frações de segundo (Michael Bay, aprenda!). O cineasta cria o clima de tensão constante sem apelar para combates desnecessários, com os mesmos surgindo de maneira precisa.

Os efeitos especiais são cada vez mais impressionantes, dignos de Oscar. Os trejeitos dos macacos e as expressões faciais, feitas através da captação de movimento, é de uma realidade rara de ser vista nos cinemas. Dizer que Andy Serkis, que já deu vida a Gollum, King Kong e agora encarna César pela segunda vez, merece um prêmio especial com urgência já é redundância! Agora, ele divide os méritos com Toby Kebbell, que também dá um show dando vida ao símio Koba.

O elenco “humano” está correto, mas sem grande destaque. O protagonista Jason Clarke (“A Hora Mais Escura”, 2012) transmite a serenidade necessária de um homem que apenas busca a própria sobrevivência e a paz entre todos. O mesmo vale para Keri Russell (“O Som do Coração”, 2007) e Kodi Smit-McPhee (o garoto de “A Estrada”, 2009), vivendo sua mulher e filho, respectivamente, que captam o encantamento ao conferir de perto a natureza dos símios. Mas, eles não passam de coadjuvantes dos macacos e, provavelmente, não vão retornar no próximo e inevitável episódio.

Resultado admirável

Essa nova franquia mostra que chegou para honrar toda a tradição que o filme original de 1968 tem. Trazendo uma carga crítica sob a carapuça de um blockbuster, deixo a melancolia na letra da canção “The Weight”, do The Band, tocada em um momento estratégico do longa: “Eu só preciso de algum lugar onde eu possa colocar minha cabeça. ‘Ei moço, você pode me dizer onde um homem pode encontrar uma cama?’ Ele apenas sorriu e apertou minha mão. ‘Não’, era tudo o que ele disse”.

Nota: 9,0

Para quem quiser conferir a canção:

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Crítica: ‘Planeta dos Macacos: O Confronto’ é um reflexo contundente da vida real

Por Thiago Sampaio em Crítica

31 de julho de 2014

Pôster de "Planeta dos Macacos: O Confronto" -

Pôster de “Planeta dos Macacos: O Confronto” –

O ano é 2014. Ligamos a TV, e vemos no noticiário barbaridades tomando conta da Faixa de Gaza. Enquanto israelenses e palestinos se mutilam por território, o que se vê são situações em que pessoas como nós julgam uns aos outros como inferiores e merecedores de menor ou nenhum direito. E quanto mais se passam as décadas, parece que a sociedade apenas regride na escala da evolução. Bem, essa introdução serve apenas para situar que “Planeta dos Macacos: O Confronto” (Dawn of the Planet of the Apes, 2014), por mais que se trate de uma ficção científica e uma superprodução hollywoodiana, genialmente reflete a vida real.

Sinopse

A trama de passa dez anos após a conquista da liberdade mostrada no filme anterior. César (Andy Serkis) e os demais macacos vivem em paz na floresta próxima a San Francisco. Lá, eles desenvolveram uma comunidade própria, baseada no apoio mútuo, enquanto os humanos enfrentam uma das maiores epidemias de todos os tempos, causada por um vírus criado em laboratório. Sem energia elétrica, um grupo de sobreviventes planeja invadir a floresta e reativar a usina lá instalada. Malcolm (Jason Clarke), único que conhece bem os símios, tenta agir pacificamente e impedir que o confronto aconteça.

Contexto diferente

Bem diferente do longa anterior, o ótimo “Planeta dos Macacos: A Origem” (Rise of the Planet of the Apes, 2011), essa sequencia apresenta um contexto caótico já estabelecido, em que as raças vivem isoladas, porém, sempre temendo umas às outras. Assim, o brilhante roteiro de Mark Bomback (“Incontrolável”, 2010), Rick Jaffa e Amanda Silver (os dois últimos remanescentes de “A Origem”) consegue criar situações enraizadas no contexto sócio-político recorrente dos últimos anos, permitindo também o deslumbre de quem busca um entretenimento de qualidade.

Mérito da visão fora do lugar comum aplicada pelo diretor Matt Reeves (de “Cloverfield – Monstro”, 2008), que constrói a vila habitada pelos macacos como um recomeço da humanidade, onde famílias vivem em comunidade, aprendendo a se comunicar através de sinais e gradualmente da fala mediante às necessidades, enquanto os humanos se encontram numa megalópole quase pós-apocalíptica, também precisando se unir para combater as “ameaças”. Mas a grandeza do longa-metragem se encontra nas razões para que as espécies se rivalizem, abrindo margem para inúmeras reflexões.

Guerra e niilismo

De um lado, os humanos menosprezam os macacos por eles serem, teoricamente, animais irracionais. Nesse contexto, interessante o papel do personagem de Gary Oldman, que pode ser referenciado a um ditador do mundo real, que se recusa a acreditar que tais bichos conseguem falar e apenas vê no extermínio deles a salvação. Do outro, o líder comunitário César defende a coexistência das espécies, mas com o alerta de que nada será deixado barato caso o espaço deles seja invadido com violência. Em meio a tudo isso, há as milícias, os infiltrados de ambos os lados para investigar a estrutura e o poderio bélico e intelectual do rival.

Bela cena no início, por exemplo, quando César “conversa” com o orangotango Maurice sobre a desilusão com os humanos, a quem um dia já pertenceu (e ainda mantém respeito por alguns, como o seu antigo dono, em bem feita conexão com o filme anterior). Sua fala em um certo momento, quando a guerra está em curso, de que “eu acreditava que os macacos eram melhores do que os humanos, mas hoje vejo que somos mais parecidos do que imaginava”, transmite com contundência a melancolia da produção. E quando fala “você não é um macaco” para outro ser da mesma espécie, mas com princípios diferentes, tal sentimento é ainda mais elevado.

E se em “Planeta dos Macacos: A Origem” o expectador praticamente passa a torcer pelos macacos que são oprimidos durante boa parte da projeção, desta vez o maniqueísmo é deixado de lado. Não há certos ou errados, heróis ou vilões. Dos dois lados, há os que defendem que a guerra é a única maneira de acabar com as diferenças, e há os que defendem a convivência pacífica. Porém, é predominante o niilismo, a sensação pessimista de que a essência humana (isso inclui homens e macacos, no contexto da ficção) está destinada ao pior de maneira quase inevitável. Aplausos para o diretor Matt Reeves que, em uma tomada, consegue captar a similaridade entre as espécies através dos olhos verdes de César junto a um semblante enrugado, semelhante a de um homem velho. Sim, somos todos iguais, e estamos todos perdidos no mesmo barco!

Ação e efeitos especiais

Mas mesmo com tanta maturidade, Matt Reeves arruma espaço para cenas de ação muito convincentes (e até brutais), com tiroteios, lutas corporais entre os símios, explosões, etc. Tudo de maneira limpa visualmente e sem desnortear o espectador com cortes em excesso e em pequenas frações de segundo (Michael Bay, aprenda!). O cineasta cria o clima de tensão constante sem apelar para combates desnecessários, com os mesmos surgindo de maneira precisa.

Os efeitos especiais são cada vez mais impressionantes, dignos de Oscar. Os trejeitos dos macacos e as expressões faciais, feitas através da captação de movimento, é de uma realidade rara de ser vista nos cinemas. Dizer que Andy Serkis, que já deu vida a Gollum, King Kong e agora encarna César pela segunda vez, merece um prêmio especial com urgência já é redundância! Agora, ele divide os méritos com Toby Kebbell, que também dá um show dando vida ao símio Koba.

O elenco “humano” está correto, mas sem grande destaque. O protagonista Jason Clarke (“A Hora Mais Escura”, 2012) transmite a serenidade necessária de um homem que apenas busca a própria sobrevivência e a paz entre todos. O mesmo vale para Keri Russell (“O Som do Coração”, 2007) e Kodi Smit-McPhee (o garoto de “A Estrada”, 2009), vivendo sua mulher e filho, respectivamente, que captam o encantamento ao conferir de perto a natureza dos símios. Mas, eles não passam de coadjuvantes dos macacos e, provavelmente, não vão retornar no próximo e inevitável episódio.

Resultado admirável

Essa nova franquia mostra que chegou para honrar toda a tradição que o filme original de 1968 tem. Trazendo uma carga crítica sob a carapuça de um blockbuster, deixo a melancolia na letra da canção “The Weight”, do The Band, tocada em um momento estratégico do longa: “Eu só preciso de algum lugar onde eu possa colocar minha cabeça. ‘Ei moço, você pode me dizer onde um homem pode encontrar uma cama?’ Ele apenas sorriu e apertou minha mão. ‘Não’, era tudo o que ele disse”.

Nota: 9,0

Para quem quiser conferir a canção: