Crítica: "A Qualquer Custo" traz um retrato cru dos dias atuais - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “A Qualquer Custo” traz um retrato cru dos dias atuais

Por Thiago Sampaio em Crítica

08 de Fevereiro de 2017

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

“A Qualquer Custo” (Hell or High Water, 2016) é aquele tipo de filme que não é fácil de ser digerido por todos. É monótono e, por muitas vezes, incômodo. Porém, essa peculiaridade é algo que o torna tão diferenciado. Indicado a quatro Oscars (Filme, Ator Coadjuvante, Roteiro Original e Montagem), esse faroeste contemporâneo tem uma forte crítica social escondida numa trama, aparentemente não muito criativa, sobre irmãos que assaltam bancos. Aqui, não há heróis, não há bandidos. Todos são homens comuns, vítimas do sistema opressivo pós depressão americana.

O longa se passa no interior do Texas, Estados Unidos. Toby (Chris Pine) e Tannar (Ben Foster) são irmãos que se reúnem após anos de separação para roubar agências do banco que ameaça a falência das terras da família. Porém, eles se encontram na mira de Marcus (Jeff Bridges), um Texas Ranger que procura por uma última grande perseguição nas vésperas de sua aposentadoria, e seu parceiro comanche, Alberto (Gil Birmingham). Com os perseguidores à sua sombra, os irmãos tramam um último golpe para completar o plano.

O diretor David Mackenzie (de “Encarcerado”, 2013) faz um trabalho corajoso, optando pelo silêncio predominante a maior parte do tempo, diálogos curtos e arrastados, aqui e acolá embalando com uma trilha sonora country. Os desavisados podem pensar que se trata de um filme de ação sem emoção, porém, a real intenção está nas entrelinhas, nos pequenos detalhes. O clima é de melancolia do começo ao fim, remetendo ao estado de espírito dos personagens. Ainda assim, ele entrega sequencias de tensão, principalmente na perseguição durante o clímax, que mesmo com tiros e explosões, há um jogo de inteligência entre os envolvidos.

Difícil não lembrar de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (No Country for Old Men, 2007), em que a violência é o centro das atenções em meio aquele cenário texano, avariado pela recessão. Mas em “A Qualquer Custo”, o foco não são apenas as tragédias físicas, mas sociais e financeiras que assombram cada ser humano. Taylor Sheridan, ator que começou a carreira de roteirista no ótimo “Sicario: Terra de Ninguém” (Sicario, 2015), repete o espírito pessimista do seu script anterior, em que a tristeza predomina em cada personagem, que se vira como pode com o único intuito de sobreviver. Se trata de um reflexo niilista dos dias atuais.

Os irmãos protagonistas, mesmo com personalidades tão díspares, estão juntos no mesmo barco (no caso, carros enterrados sob a terra), necessitando reaver o que, em teoria, lhes pertence por direito. A intenção não é enriquecer roubando bancos, mas sim garantir o próprio sustento tirando daqueles que já tanto os prejudicaram. Toby é o sereno da dupla, não tem nenhum instinto agressivo, e tudo o que deseja é pagar a pensão dos filhos que estão sob a guarda da ex-mulher, com quem pouco tem contato. Já o ex-presidiário Tannar é o que mais se aproxima do status de bandido pelo fato de não ter nada a perder, visto que sequer algo da herança da mãe falecida fora deixado para ele.

O reflexo é de seres humanos que trabalham muito em subempregos apenas para conseguir pagar as próprias contas e ainda são “assaltados” pelas instituições bancárias, seja através de fundos diversos ou impostos. Não à toa, Toby revela que seu último emprego foi perfurando poços (uma mão de obra pesada com remuneração baixa para enriquecer terceiros), e não hesita em dar uma gorjeta bem generosa à garçonete que o atende e até sugere conseguir um trabalho para ele na cozinha. Ela, por sua vez, se recusa de maneira severa a mostrar o dinheiro para a polícia até que se prove que o mesmo é fruto de um roubo, pois ele representa metade do valor da sua hipoteca.

Já a rotina dos mais velhos é de procrastinar, sentar e ver a vida passar, já que as motivações não existem mais. Após assistirem sentados em uma lanchonete a ação que precedeu o assalto, um deles revela para a polícia a realidade de que “os tempos em que se assaltava para gastar o dinheiro não existem mais”. A atendente idosa que sequer tem paciência para receber um pedido diferente, assim como foi feito em 1987 (!), reflete a total falta de abertura para inovações.

E é nesse contexto que entra o xerife Marcus Hamilton, vivido de maneira maestral por Jeff Bridges, mais uma vez indicado ao Oscar. Prestes a se aposentar, ele tem no caso um estímulo, mas a vida não o permite se esforçar muito. Ao invés de ir para a caça, ele prefere alugar um quarto de motel pois sabe que não será tão simples. A sua estratégia é sentar na frente de uma agência e ficar esperando acontecer. Com voz empolada de quem está há anos desmotivado, ele tem na ação final a chance de fazer justiça que restava para o fim da carreira.

Bridges rouba a cena, mas Chris Pine e Ben Foster também entregam um trabalho eficiente. O primeiro demonstra propositalmente constante apatia, infeliz por estar fazendo o que não gostaria. Já Foster, ator bem mediano e que não havia mostrado nenhum trabalho de grande destaque até então, se mostra uma grata surpresa, encarnando Tannar com total insanidade.

Detalhe para a constante implicância de Marcus Hamilton com o parceiro comanche de modo que, mesmo que sejam amigos, a tensão entre civis americanos e indígenas após a Guerra Civil americana é real. A disputa não é só por território nos dias de hoje, mas também status, como mostra o diálogo entre Tannar e um comanche após uma partida de pôquer. “- Eu sou um comanche. Você sabe o que isso significa? Significa ‘Inimigo de Todos’!” “- Você sabe o que isso faz de mim? Um comanche!”. A sensação de instabilidade está por todos os lados.

Com direito a um desfecho tenso envolvendo diálogo entre os personagens de Jeff Bridges e Chris Pine, David Mackenzie fecha com chave de ouro a sua obra como um faroeste urbano, trazendo homens buscando manter a própria honra, independente do que os outros possam pensar. Um embate de justiça/vingança, mas ao mesmo tempo de auto-aprendizado, buscando conhecer as motivações um do outro. O quadro final, mostrando apenas o matagal, talvez seja uma dica do que o futuro aguarda para o homem atual e sua índole.

Nota: 9,0

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Crítica: “A Qualquer Custo” traz um retrato cru dos dias atuais

Por Thiago Sampaio em Crítica

08 de Fevereiro de 2017

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

“A Qualquer Custo” (Hell or High Water, 2016) é aquele tipo de filme que não é fácil de ser digerido por todos. É monótono e, por muitas vezes, incômodo. Porém, essa peculiaridade é algo que o torna tão diferenciado. Indicado a quatro Oscars (Filme, Ator Coadjuvante, Roteiro Original e Montagem), esse faroeste contemporâneo tem uma forte crítica social escondida numa trama, aparentemente não muito criativa, sobre irmãos que assaltam bancos. Aqui, não há heróis, não há bandidos. Todos são homens comuns, vítimas do sistema opressivo pós depressão americana.

O longa se passa no interior do Texas, Estados Unidos. Toby (Chris Pine) e Tannar (Ben Foster) são irmãos que se reúnem após anos de separação para roubar agências do banco que ameaça a falência das terras da família. Porém, eles se encontram na mira de Marcus (Jeff Bridges), um Texas Ranger que procura por uma última grande perseguição nas vésperas de sua aposentadoria, e seu parceiro comanche, Alberto (Gil Birmingham). Com os perseguidores à sua sombra, os irmãos tramam um último golpe para completar o plano.

O diretor David Mackenzie (de “Encarcerado”, 2013) faz um trabalho corajoso, optando pelo silêncio predominante a maior parte do tempo, diálogos curtos e arrastados, aqui e acolá embalando com uma trilha sonora country. Os desavisados podem pensar que se trata de um filme de ação sem emoção, porém, a real intenção está nas entrelinhas, nos pequenos detalhes. O clima é de melancolia do começo ao fim, remetendo ao estado de espírito dos personagens. Ainda assim, ele entrega sequencias de tensão, principalmente na perseguição durante o clímax, que mesmo com tiros e explosões, há um jogo de inteligência entre os envolvidos.

Difícil não lembrar de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (No Country for Old Men, 2007), em que a violência é o centro das atenções em meio aquele cenário texano, avariado pela recessão. Mas em “A Qualquer Custo”, o foco não são apenas as tragédias físicas, mas sociais e financeiras que assombram cada ser humano. Taylor Sheridan, ator que começou a carreira de roteirista no ótimo “Sicario: Terra de Ninguém” (Sicario, 2015), repete o espírito pessimista do seu script anterior, em que a tristeza predomina em cada personagem, que se vira como pode com o único intuito de sobreviver. Se trata de um reflexo niilista dos dias atuais.

Os irmãos protagonistas, mesmo com personalidades tão díspares, estão juntos no mesmo barco (no caso, carros enterrados sob a terra), necessitando reaver o que, em teoria, lhes pertence por direito. A intenção não é enriquecer roubando bancos, mas sim garantir o próprio sustento tirando daqueles que já tanto os prejudicaram. Toby é o sereno da dupla, não tem nenhum instinto agressivo, e tudo o que deseja é pagar a pensão dos filhos que estão sob a guarda da ex-mulher, com quem pouco tem contato. Já o ex-presidiário Tannar é o que mais se aproxima do status de bandido pelo fato de não ter nada a perder, visto que sequer algo da herança da mãe falecida fora deixado para ele.

O reflexo é de seres humanos que trabalham muito em subempregos apenas para conseguir pagar as próprias contas e ainda são “assaltados” pelas instituições bancárias, seja através de fundos diversos ou impostos. Não à toa, Toby revela que seu último emprego foi perfurando poços (uma mão de obra pesada com remuneração baixa para enriquecer terceiros), e não hesita em dar uma gorjeta bem generosa à garçonete que o atende e até sugere conseguir um trabalho para ele na cozinha. Ela, por sua vez, se recusa de maneira severa a mostrar o dinheiro para a polícia até que se prove que o mesmo é fruto de um roubo, pois ele representa metade do valor da sua hipoteca.

Já a rotina dos mais velhos é de procrastinar, sentar e ver a vida passar, já que as motivações não existem mais. Após assistirem sentados em uma lanchonete a ação que precedeu o assalto, um deles revela para a polícia a realidade de que “os tempos em que se assaltava para gastar o dinheiro não existem mais”. A atendente idosa que sequer tem paciência para receber um pedido diferente, assim como foi feito em 1987 (!), reflete a total falta de abertura para inovações.

E é nesse contexto que entra o xerife Marcus Hamilton, vivido de maneira maestral por Jeff Bridges, mais uma vez indicado ao Oscar. Prestes a se aposentar, ele tem no caso um estímulo, mas a vida não o permite se esforçar muito. Ao invés de ir para a caça, ele prefere alugar um quarto de motel pois sabe que não será tão simples. A sua estratégia é sentar na frente de uma agência e ficar esperando acontecer. Com voz empolada de quem está há anos desmotivado, ele tem na ação final a chance de fazer justiça que restava para o fim da carreira.

Bridges rouba a cena, mas Chris Pine e Ben Foster também entregam um trabalho eficiente. O primeiro demonstra propositalmente constante apatia, infeliz por estar fazendo o que não gostaria. Já Foster, ator bem mediano e que não havia mostrado nenhum trabalho de grande destaque até então, se mostra uma grata surpresa, encarnando Tannar com total insanidade.

Detalhe para a constante implicância de Marcus Hamilton com o parceiro comanche de modo que, mesmo que sejam amigos, a tensão entre civis americanos e indígenas após a Guerra Civil americana é real. A disputa não é só por território nos dias de hoje, mas também status, como mostra o diálogo entre Tannar e um comanche após uma partida de pôquer. “- Eu sou um comanche. Você sabe o que isso significa? Significa ‘Inimigo de Todos’!” “- Você sabe o que isso faz de mim? Um comanche!”. A sensação de instabilidade está por todos os lados.

Com direito a um desfecho tenso envolvendo diálogo entre os personagens de Jeff Bridges e Chris Pine, David Mackenzie fecha com chave de ouro a sua obra como um faroeste urbano, trazendo homens buscando manter a própria honra, independente do que os outros possam pensar. Um embate de justiça/vingança, mas ao mesmo tempo de auto-aprendizado, buscando conhecer as motivações um do outro. O quadro final, mostrando apenas o matagal, talvez seja uma dica do que o futuro aguarda para o homem atual e sua índole.

Nota: 9,0