Crítica: Remake de "O Rei Leão" é um deslumbre visual que carece de carisma 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Remake de “O Rei Leão” é um deslumbre visual que carece de carisma

Por Thiago Sampaio em Crítica

25 de julho de 2019

Foto: Divulgação

A animação clássica “O Rei Leão” (The Lion King, 1994) é uma das produções mais admiradas da Walt Disney. E por ter uma memória afetiva tão forte por parte do público, a realização de um live-action (?!) era vista com desconfiança. Mas como é o capitalismo quem manda, o projeto andou. Trouxeram Jon Favreau para a direção, respaldado pelo bom trabalho de adaptação em “Mogli – O Menino Lobo” (The Jungle Book, 2016), numa aposta até segura. E o resultado é um misto de impressões. Ao mesmo tempo em que tudo é muito bonito de se ver, fica um certo incômodo no ar e a satisfação se deve ao valor da obra original.

A trama é a mesma: Simba (vozes de JD McCrary e Donald Glover) é o herdeiro de seu pai, Mufasa (James Earl Jones). O tio malvado do pequeno leão, Scar (voz de Chiwetel Ejiofor), planeja roubar o trono, atraindo pai e filho para uma emboscada. Um acidente fatal faz com que Simba fuja do reino e, longe dali, encontra um novo lar e estilo de vida com a ajuda de Timão (voz de Billy Eichner) e Pumba (Seth Rogen). Mas inevitavelmente ele precisa se reencontrar com o seu passado e recuperar o comando da sua terra.

Toda a jornada do herói, com apresentação, confrontação e resolução, muito bem dividida em três atos, segue intacta. O roteiro de Jeff Nathanson, de “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar” (2017), opta por ser extremamente fiel à história original, com pouquíssimas alterações. Tem pequenas mudanças em diálogos, uma bela cena que explicita o conceito do ciclo da vida, mas nada que afete o resultado em geral. Por se tratar de uma adaptação quase quadro a quadro, é estranho que os roteiristas do longa de 1994 não sejam aqui creditados.

O diferencial, então, fica por conta do apelo visual, se aproximando o máximo possível do realismo. E diferente do trabalho feito por Favreau em “Mogli”, em que havia um ator contracenando com animais digitais, em “O Rei Leão” simplesmente tudo é feito por computação gráfica, o que afasta o conceito de “live-action”. Porém, a tecnologia aplicada para esta animação fotorrealista é simplesmente impressionante. Não é exagero dizer que a estética se assemelha a documentários do Animal Planet ou National Geographic.

O sol no céu vermelho da abertura ao som da icônica “Circle of Life/Nants’ Ingonyama”, de Lindiwe Mkhize e Lebo M., com uma multidão de animais se dirigindo para um evento importante (a apresentação do novo herdeiro), é deslumbrante aos olhos. O babuíno Rafiki (voz de John Kani), com um visual bastante fiel, fazendo reverência a Mufasa e depois erguendo o pequeno Simba, é de fazer arrepiar. O “mise en scene” para a criação do Cemitério de Elefantes com a fotografia escura, num contraste com a natureza viva da floresta em que o protagonista cresce ao lado de Timão e Pumba, tudo é tratado com um cuidado minucioso.

Mas a busca pela perfeição, ironicamente, acaba por tirar grande parte da magia do desenho animado. Aquelas expressões como o olhar assustado do pequeno leão diante da morte do pai, o seu encanto com uma borboleta, a cara de bobo ao perceber a paixão por Nala, assim como o ar debochado de Scar e a onipresença de Mufasa, dificilmente seriam transmitidos da mesma forma com animais “reais”. O tempo todo parece que estamos diante de bichos de verdade, o que naturalmente causa uma estranheza ao vê-los falando, perdendo muito a emoção e o carisma.

Também não ajuda o fato de o movimento das bocas não acompanharem as falas, como se as vozes (gravadas antes do próprio filme) não estivessem condizendo com o que está diante dos olhos. Isso acaba por afetar alguns números musicais, já que o realismo elimina elementos fantasiosos que pareciam belos shows circenses, sendo “I Just Can’t Wait to Be King” a mais prejudicada. Aquela apresentação soturna de “Be Prepared”, cantada por Scar, aqui foi inserida durante um discurso que até faz sentido, mas perde aquele efeito macabro. E por mais que a nova versão de “Can You Feel The Love Tonight” continue lindíssima, agora com as vozes de Donald Glover e Beyoncé, não justifica que ela seja cantada…de dia!

O que não apaga o bom trabalho de dublagem, sendo a dupla Billy Eichner e Seth Rogen, respectivamente Timão e Pumba, o maior destaque. Não à toa o suricato e o javali mais uma vez roubam a cena e entregam uma ainda empolgante versão de “Hakuna Matata” e a divertida “The Lion Sleeps Tonight”. É como se eles entregassem o carisma que falta aos demais. Quem tinha uma das missões mais difíceis era Chiwetel Ejifor ao substituir o excepcional trabalho de Jeremy Irons como Scar, mas se sai bem. Agora com um pouco menos de deboche, mas ainda sarcástico e ameaçador. Mufasa não poderia ser outro, então, James Earl Jones retorna e continua com sua grandeza.

Aquisição de peso, a cantora Beyoncé Knowles-Carter faz bonito como Nala. O talento vocal dela é inquestionável, a música inédita “Spirit” é agradável, toca num momento decisivo (no retorno triunfal de Simba) e pode emplacar uma indicação ao Oscar de 2020. Ela faz uma boa dupla com Donald Glover, de modo que ele transmite a personalidade jovial e moleque de Simba, assim como Matthew Broderick havia feito, e também contribui com sua bagagem como cantor (para quem não sabe, ele é o Childish Gambino, de “This Is America”). Como Elton John, que compôs a trilha do original, não poderia ter ficado de fora, a sua inédita “Never Too Late”, que pode ser conferida nos créditos finais, passa longe de ser marcante como as outras.

Ao final, o novo “O Rei Leão” deve agradar pois um material tão eficiente dificilmente daria errado. Mas apesar de tamanho espetáculo visual, esse remake demonstra uma certa dificuldade de andar com as próprias pernas, dependendo da memória do original para emocionar. Com o espectador já sabendo o que espera, fica fácil arrancar sorrisos e talvez algumas lágrimas.

Nota: 7,5

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Crítica: Remake de “O Rei Leão” é um deslumbre visual que carece de carisma

Por Thiago Sampaio em Crítica

25 de julho de 2019

Foto: Divulgação

A animação clássica “O Rei Leão” (The Lion King, 1994) é uma das produções mais admiradas da Walt Disney. E por ter uma memória afetiva tão forte por parte do público, a realização de um live-action (?!) era vista com desconfiança. Mas como é o capitalismo quem manda, o projeto andou. Trouxeram Jon Favreau para a direção, respaldado pelo bom trabalho de adaptação em “Mogli – O Menino Lobo” (The Jungle Book, 2016), numa aposta até segura. E o resultado é um misto de impressões. Ao mesmo tempo em que tudo é muito bonito de se ver, fica um certo incômodo no ar e a satisfação se deve ao valor da obra original.

A trama é a mesma: Simba (vozes de JD McCrary e Donald Glover) é o herdeiro de seu pai, Mufasa (James Earl Jones). O tio malvado do pequeno leão, Scar (voz de Chiwetel Ejiofor), planeja roubar o trono, atraindo pai e filho para uma emboscada. Um acidente fatal faz com que Simba fuja do reino e, longe dali, encontra um novo lar e estilo de vida com a ajuda de Timão (voz de Billy Eichner) e Pumba (Seth Rogen). Mas inevitavelmente ele precisa se reencontrar com o seu passado e recuperar o comando da sua terra.

Toda a jornada do herói, com apresentação, confrontação e resolução, muito bem dividida em três atos, segue intacta. O roteiro de Jeff Nathanson, de “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar” (2017), opta por ser extremamente fiel à história original, com pouquíssimas alterações. Tem pequenas mudanças em diálogos, uma bela cena que explicita o conceito do ciclo da vida, mas nada que afete o resultado em geral. Por se tratar de uma adaptação quase quadro a quadro, é estranho que os roteiristas do longa de 1994 não sejam aqui creditados.

O diferencial, então, fica por conta do apelo visual, se aproximando o máximo possível do realismo. E diferente do trabalho feito por Favreau em “Mogli”, em que havia um ator contracenando com animais digitais, em “O Rei Leão” simplesmente tudo é feito por computação gráfica, o que afasta o conceito de “live-action”. Porém, a tecnologia aplicada para esta animação fotorrealista é simplesmente impressionante. Não é exagero dizer que a estética se assemelha a documentários do Animal Planet ou National Geographic.

O sol no céu vermelho da abertura ao som da icônica “Circle of Life/Nants’ Ingonyama”, de Lindiwe Mkhize e Lebo M., com uma multidão de animais se dirigindo para um evento importante (a apresentação do novo herdeiro), é deslumbrante aos olhos. O babuíno Rafiki (voz de John Kani), com um visual bastante fiel, fazendo reverência a Mufasa e depois erguendo o pequeno Simba, é de fazer arrepiar. O “mise en scene” para a criação do Cemitério de Elefantes com a fotografia escura, num contraste com a natureza viva da floresta em que o protagonista cresce ao lado de Timão e Pumba, tudo é tratado com um cuidado minucioso.

Mas a busca pela perfeição, ironicamente, acaba por tirar grande parte da magia do desenho animado. Aquelas expressões como o olhar assustado do pequeno leão diante da morte do pai, o seu encanto com uma borboleta, a cara de bobo ao perceber a paixão por Nala, assim como o ar debochado de Scar e a onipresença de Mufasa, dificilmente seriam transmitidos da mesma forma com animais “reais”. O tempo todo parece que estamos diante de bichos de verdade, o que naturalmente causa uma estranheza ao vê-los falando, perdendo muito a emoção e o carisma.

Também não ajuda o fato de o movimento das bocas não acompanharem as falas, como se as vozes (gravadas antes do próprio filme) não estivessem condizendo com o que está diante dos olhos. Isso acaba por afetar alguns números musicais, já que o realismo elimina elementos fantasiosos que pareciam belos shows circenses, sendo “I Just Can’t Wait to Be King” a mais prejudicada. Aquela apresentação soturna de “Be Prepared”, cantada por Scar, aqui foi inserida durante um discurso que até faz sentido, mas perde aquele efeito macabro. E por mais que a nova versão de “Can You Feel The Love Tonight” continue lindíssima, agora com as vozes de Donald Glover e Beyoncé, não justifica que ela seja cantada…de dia!

O que não apaga o bom trabalho de dublagem, sendo a dupla Billy Eichner e Seth Rogen, respectivamente Timão e Pumba, o maior destaque. Não à toa o suricato e o javali mais uma vez roubam a cena e entregam uma ainda empolgante versão de “Hakuna Matata” e a divertida “The Lion Sleeps Tonight”. É como se eles entregassem o carisma que falta aos demais. Quem tinha uma das missões mais difíceis era Chiwetel Ejifor ao substituir o excepcional trabalho de Jeremy Irons como Scar, mas se sai bem. Agora com um pouco menos de deboche, mas ainda sarcástico e ameaçador. Mufasa não poderia ser outro, então, James Earl Jones retorna e continua com sua grandeza.

Aquisição de peso, a cantora Beyoncé Knowles-Carter faz bonito como Nala. O talento vocal dela é inquestionável, a música inédita “Spirit” é agradável, toca num momento decisivo (no retorno triunfal de Simba) e pode emplacar uma indicação ao Oscar de 2020. Ela faz uma boa dupla com Donald Glover, de modo que ele transmite a personalidade jovial e moleque de Simba, assim como Matthew Broderick havia feito, e também contribui com sua bagagem como cantor (para quem não sabe, ele é o Childish Gambino, de “This Is America”). Como Elton John, que compôs a trilha do original, não poderia ter ficado de fora, a sua inédita “Never Too Late”, que pode ser conferida nos créditos finais, passa longe de ser marcante como as outras.

Ao final, o novo “O Rei Leão” deve agradar pois um material tão eficiente dificilmente daria errado. Mas apesar de tamanho espetáculo visual, esse remake demonstra uma certa dificuldade de andar com as próprias pernas, dependendo da memória do original para emocionar. Com o espectador já sabendo o que espera, fica fácil arrancar sorrisos e talvez algumas lágrimas.

Nota: 7,5