Crítica: Tarantino ainda convence ao brincar de ele mesmo em "Os Oito Odiados" - Cinema Sinergia 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: Tarantino ainda convence ao brincar de ele mesmo em “Os Oito Odiados”

Por Thiago Sampaio em Crítica

14 de Janeiro de 2016

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Já é do conhecimento geral que os filmes dirigidos por Quentin Tarantino se tornaram um subgênero do cinema. Suas loucuras criativas, impulsionadas pelas suas influências cinematográficas, se tornaram tão rotineiras de modo que o espectador já sabe o que esperar. Ainda assim, há muita expectativa pela chegada de um novo projeto. E não é à toa. Em “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight, 2015), ao mesmo tempo em que o cineasta segue elevando a própria grandiloquência colocando “O 8º filme de Quentin Tarantino” nos créditos iniciais, figurando junto ao da lenda Ennio Morricone como trilha-sonora original, ele prova que, mesmo brincando com os próprios vícios, consegue prender a atenção e garantir um sanguinário entretenimento como poucos.

Sinopse

Na trama, durante uma nevasca, John Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a famosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que ele espera trocar por grande quantia de dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Como as condições climáticas pioram, eles buscam abrigo no Armazém da Minnie, onde quatro outros desconhecidos estão abrigados. Aos poucos, os oito viajantes no local começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros.

Já vi isso antes

Por mais que tenha optado por novamente dirigir um faroeste, diferente de “Django Livre” (2012), desta vez ela não tenta fazer uma típica homenagem ao gênero. O que se vê em cena é um diretor passeando por traquejos utilizados por ele próprio nos seus trabalhos anteriores, em um exercício quase de auto-bajulação. E a referência mais nítida é o seu filme de estreia, “Cães de Aluguel” (1992), substituindo os gângsteres por um cenário de Velho Oeste. A premissa é semelhante: vários desconhecidos dividindo um ambiente onde ninguém confia em ninguém e a violência prestes a explodir a qualquer momento.

Muitos são os artifícios repetidos pelo diretor, desde a divisão em capítulos (“Pulp Fiction”, 1994; “Kill Bill”, 2003), até a construção dos personagens. O carrasco Oswaldo Mobray, vivido por Tim Roth, é quase uma cópia do Hans Landa interpretado por Christoph Waltz em “Bastardos Inglórios” (2009), enquanto o Marquis Warren de Samuel L. Jackson é uma versão faroeste de Jules Winnfield, vivido por ele próprio em “Pulp Fiction”. Como se não bastasse, Quentin Tarantino narra o próprio longa-metragem, numa experiência metalinguística em que claramente massageia o próprio ego. O que não surpreende, vindo de quem já terminou “Bastardos” com a frase “É, acho que fiz minha obra-prima…”, dita por Brad Pitt. Sua tradicional ponta como ator não acontece desta vez, porém, há uma participação de um famoso ator, num papel que normalmente seria do próprio cineasta.

Tensão

A questão é que ele sabe passear entre o humor e a tensão de um jeito que ninguém consegue imitar à altura. Já é característica sua dirigir cenas com diálogos prolongados em que o espectador espera por alguma catástrofe ao fim, como a conversa entre os personagens de Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio em “Django Livre”, entre muitos outros. A diferença é que em “Os Oito Odiados” esse clima existe não em uma cena, mas do começo ao fim, de modo que os  187 minutos de projeção (!) não soam prolixos. No fim das contas, dois caçadores de recompensa, uma prisioneira, um carrasco, um policial novato e outro veterano, um estranho que toca “Noite Feliz” no piano e…Michael Madsen, no mesmo ambiente, é de se prever que algo de bom não sairá.

Sem protagonista propriamente dito, todos têm seus momentos de destaque, seja garantindo risos através de situações banais, como a porta quebrada que sempre se abre, se enrolando com pele de urso após quase congelar na neve, ironizando a suposta carta escrita pelo ex-presidente Abraham Lincoln para Marquis Warren e, principalmente, através da violência que, de tão cartunesca, se torna uma ferramenta humorística. O sangue, de tão exagerado, soa artifical de maneira proposital. É comum de Tarantino usar desse artifício como um paradoxo ao preconceito contra mulheres e negros. Por isso, ao modo em que parece cômico quando John Ruth espanca Daisy Domergue por inúmeras vezes e Warren é sempre tratado de maneira pejorativa, existe por trás toda a aura irônica de diretor.

E não tem como negar que Quentin é eficiente tanto como roteirista como diretor. Em cada diálogo percebe-se uma viagem particular, uma diversão. E aqui, ele concilia bem com técnicas de direção comuns dele, como o uso de flashbacks, seja durante o sórdido relato de Marquis Warren para o general Sandy Smithers (Bruce Dern), ou no capítulo de explicação para a reviravolta da história. E se anteriormente ele já tinha ousado em colocar David Bowie na trilha sonora de um filme de Segunda Guerra Mundial, aqui ele não teme mais uma vez e concilia a bela melodia western do gênio Ennio Morricone na abertura com o rock moderno do The White Stripes em um momento chave.

Elenco afiado

O elenco está todo eficiente, tendo como principal destaque Jennifer Jason Leigh. Com olho roxo e dentes quebrados, a atriz rouba a cena de modo que, à medida em que tentam deixá-la cada vez mais submissa e humilhada, é ela quem parece sempre ter o controle sobre a situação. Outra novidade agradável é Walton Goggins, que encarna o xerife Chris Mannix de maneira cômica por sempre querer dar a si próprio uma moral inexistente perante os demais personagens.

Ícone dos filmes de ação dos anos 80 e 90, Kurt Russell também tem bons momentos, vivendo um dos homens mais perigosos da cidade, mas que de tão caricato e com um bigode digno de desenho animado, é difícil de ser levado à sério. Samuel L. Jackson, eficiente como sempre, é aquele cara que mesmo numa conversa informal, sempre tem a intenção de intimidar o outro (assim como ele fazia em “Pulp Fiction”). E se o veterano Bruce Dern dá o seu ar da graça mesmo que de maneira silenciosa, Michael Madsen apenas interpreta ele mesmo.

Ele sabe o que faz

Fato é que Tarantino vem, nas suas últimas obras, se tornando refém do estilo criado por ele mesmo. O que não necessariamente é um defeito, pois sempre entregou bons longas-metragens e esse “Os Oito Odiados” não é diferente. Se ele cumprir a promessa de que após o 10º filme vai abandonar a direção para se dedicar à literatura, o cinema estará perdendo um dos caras mais divertidos e lunáticos que já surgiu nos últimos anos. Ele não surpreende mais como fez em 1994 com “Pulp Fiction” (trabalho que dificilmente será superado), mas continua a convencer.

Nota: 8,0

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Crítica: Tarantino ainda convence ao brincar de ele mesmo em “Os Oito Odiados”

Por Thiago Sampaio em Crítica

14 de Janeiro de 2016

Foto: Divulgação

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Já é do conhecimento geral que os filmes dirigidos por Quentin Tarantino se tornaram um subgênero do cinema. Suas loucuras criativas, impulsionadas pelas suas influências cinematográficas, se tornaram tão rotineiras de modo que o espectador já sabe o que esperar. Ainda assim, há muita expectativa pela chegada de um novo projeto. E não é à toa. Em “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight, 2015), ao mesmo tempo em que o cineasta segue elevando a própria grandiloquência colocando “O 8º filme de Quentin Tarantino” nos créditos iniciais, figurando junto ao da lenda Ennio Morricone como trilha-sonora original, ele prova que, mesmo brincando com os próprios vícios, consegue prender a atenção e garantir um sanguinário entretenimento como poucos.

Sinopse

Na trama, durante uma nevasca, John Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a famosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que ele espera trocar por grande quantia de dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Como as condições climáticas pioram, eles buscam abrigo no Armazém da Minnie, onde quatro outros desconhecidos estão abrigados. Aos poucos, os oito viajantes no local começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros.

Já vi isso antes

Por mais que tenha optado por novamente dirigir um faroeste, diferente de “Django Livre” (2012), desta vez ela não tenta fazer uma típica homenagem ao gênero. O que se vê em cena é um diretor passeando por traquejos utilizados por ele próprio nos seus trabalhos anteriores, em um exercício quase de auto-bajulação. E a referência mais nítida é o seu filme de estreia, “Cães de Aluguel” (1992), substituindo os gângsteres por um cenário de Velho Oeste. A premissa é semelhante: vários desconhecidos dividindo um ambiente onde ninguém confia em ninguém e a violência prestes a explodir a qualquer momento.

Muitos são os artifícios repetidos pelo diretor, desde a divisão em capítulos (“Pulp Fiction”, 1994; “Kill Bill”, 2003), até a construção dos personagens. O carrasco Oswaldo Mobray, vivido por Tim Roth, é quase uma cópia do Hans Landa interpretado por Christoph Waltz em “Bastardos Inglórios” (2009), enquanto o Marquis Warren de Samuel L. Jackson é uma versão faroeste de Jules Winnfield, vivido por ele próprio em “Pulp Fiction”. Como se não bastasse, Quentin Tarantino narra o próprio longa-metragem, numa experiência metalinguística em que claramente massageia o próprio ego. O que não surpreende, vindo de quem já terminou “Bastardos” com a frase “É, acho que fiz minha obra-prima…”, dita por Brad Pitt. Sua tradicional ponta como ator não acontece desta vez, porém, há uma participação de um famoso ator, num papel que normalmente seria do próprio cineasta.

Tensão

A questão é que ele sabe passear entre o humor e a tensão de um jeito que ninguém consegue imitar à altura. Já é característica sua dirigir cenas com diálogos prolongados em que o espectador espera por alguma catástrofe ao fim, como a conversa entre os personagens de Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio em “Django Livre”, entre muitos outros. A diferença é que em “Os Oito Odiados” esse clima existe não em uma cena, mas do começo ao fim, de modo que os  187 minutos de projeção (!) não soam prolixos. No fim das contas, dois caçadores de recompensa, uma prisioneira, um carrasco, um policial novato e outro veterano, um estranho que toca “Noite Feliz” no piano e…Michael Madsen, no mesmo ambiente, é de se prever que algo de bom não sairá.

Sem protagonista propriamente dito, todos têm seus momentos de destaque, seja garantindo risos através de situações banais, como a porta quebrada que sempre se abre, se enrolando com pele de urso após quase congelar na neve, ironizando a suposta carta escrita pelo ex-presidente Abraham Lincoln para Marquis Warren e, principalmente, através da violência que, de tão cartunesca, se torna uma ferramenta humorística. O sangue, de tão exagerado, soa artifical de maneira proposital. É comum de Tarantino usar desse artifício como um paradoxo ao preconceito contra mulheres e negros. Por isso, ao modo em que parece cômico quando John Ruth espanca Daisy Domergue por inúmeras vezes e Warren é sempre tratado de maneira pejorativa, existe por trás toda a aura irônica de diretor.

E não tem como negar que Quentin é eficiente tanto como roteirista como diretor. Em cada diálogo percebe-se uma viagem particular, uma diversão. E aqui, ele concilia bem com técnicas de direção comuns dele, como o uso de flashbacks, seja durante o sórdido relato de Marquis Warren para o general Sandy Smithers (Bruce Dern), ou no capítulo de explicação para a reviravolta da história. E se anteriormente ele já tinha ousado em colocar David Bowie na trilha sonora de um filme de Segunda Guerra Mundial, aqui ele não teme mais uma vez e concilia a bela melodia western do gênio Ennio Morricone na abertura com o rock moderno do The White Stripes em um momento chave.

Elenco afiado

O elenco está todo eficiente, tendo como principal destaque Jennifer Jason Leigh. Com olho roxo e dentes quebrados, a atriz rouba a cena de modo que, à medida em que tentam deixá-la cada vez mais submissa e humilhada, é ela quem parece sempre ter o controle sobre a situação. Outra novidade agradável é Walton Goggins, que encarna o xerife Chris Mannix de maneira cômica por sempre querer dar a si próprio uma moral inexistente perante os demais personagens.

Ícone dos filmes de ação dos anos 80 e 90, Kurt Russell também tem bons momentos, vivendo um dos homens mais perigosos da cidade, mas que de tão caricato e com um bigode digno de desenho animado, é difícil de ser levado à sério. Samuel L. Jackson, eficiente como sempre, é aquele cara que mesmo numa conversa informal, sempre tem a intenção de intimidar o outro (assim como ele fazia em “Pulp Fiction”). E se o veterano Bruce Dern dá o seu ar da graça mesmo que de maneira silenciosa, Michael Madsen apenas interpreta ele mesmo.

Ele sabe o que faz

Fato é que Tarantino vem, nas suas últimas obras, se tornando refém do estilo criado por ele mesmo. O que não necessariamente é um defeito, pois sempre entregou bons longas-metragens e esse “Os Oito Odiados” não é diferente. Se ele cumprir a promessa de que após o 10º filme vai abandonar a direção para se dedicar à literatura, o cinema estará perdendo um dos caras mais divertidos e lunáticos que já surgiu nos últimos anos. Ele não surpreende mais como fez em 1994 com “Pulp Fiction” (trabalho que dificilmente será superado), mas continua a convencer.

Nota: 8,0