Crítica: "Thor: Ragnarok" diverte se encarado como uma comédia despretensiosa 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Thor: Ragnarok” diverte se encarado como uma comédia despretensiosa

Por Thiago Sampaio em Crítica

07 de novembro de 2017

Comprando essa ideia, temos uma aventura que diverte, ainda que o produto soe deslocado nesse universo já estabelecido.Dentro do mundo cinematográfico da Marvel, os dois filmes do Thor nunca foram unanimidade, sendo bem modesto, para não dizer que eles não agradaram de jeito nenhum. Mesmo com uma fórmula que mescla ação, efeitos especiais e humor já estabelecida, era preciso uma mudança radical se quisessem emplacar um terceiro longa. A solução? Transformar “Thor: Ragnarok” (idem, 2017) numa comédia assumida, beirando o pastelão, com resquícios daqueles personagens conhecidos. Comprando essa ideia, temos uma aventura que diverte, ainda que o produto soe deslocado nesse universo.

Na trama, Thor (Chris Hemsworth) retorna a Asgard, agora dominada pelo seu irmão Loki (Tom Hiddleston). Nas mãos de uma nova e poderosa ameaça, Hela (Cate Blanchett), ele acaba sendo preso no devastado planeta Sakaar, sem o seu martelo, colocando-o numa corrida contra o tempo para voltar ao seu mundo e impedir Ragnarok, a destruição total. Mas, primeiro, precisa sobreviver a uma luta mortal de gladiadores.

Seguindo a tendência dos longas da Marvel de trazer diretores em projeção, a escolha pelo neozelandês Taika Waititi (“A Incrível Aventura de Rick Baker”, 2016; “O que Fazemos nas Sombras”, 2014) se mostra acertada nessa proposta de apostar num tom cômico. Indo de carona com a auto paródia que deu certo em “Os Guardiões da Galáxia” (2014, 2017), mesclando personagens surreais (que vão de alienígenas a robôs), detalhes retrô e músicas famosas (Immigrant Song, clássico do Led Zeppelin, arrepia a espinha de todo fã de rock que se preze), a produção é como uma ida despretensiosa a um parque da Disney.

Desde o início fica clara a intenção do longa, com o protagonista conversando com o espectador, numa quebra de quarta parede não convencional nesse universo, ironizando o fato de ser “uma espécie de super herói” e zombando das frases de efeito. Quando pisa de novo em Asgard, nos deparamos com um teatro, literalmente, encenando os episódios anteriores. Atores como Matt Damon (sim, o próprio!), Luke Hemsworth (irmão de Chris) e Sam Neill fazem pontas contribuindo com a zoeira toda. Os personagens até fingem que estão num contexto sério, mas quem assiste já está ciente que uma piada vai surgir a qualquer momento.

Em meio a essa metralhadora de gags, muitas funcionam, outras não, ficando aquela sensação de desgaste. Certos momentos parecem saídos de seriados como “Os Três Patetas” ou “Os Trapalhões”, como uma garrafa jogada na cabeça de alguém, uma personagem caindo do nada quando andava cheia de poder, ou uma bola que bate na parede e volta derrubando aquele que a atirou. O que de certa forma é um mérito do longa assumir a própria despretensão!

Por outro lado, acaba por descaracterizar o que existia de dramaticidade naqueles personagens já apresentados anteriormente. Há uma tentativa de sentimentalismo no roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost ao tocar na relação familiar entre irmãos, pai e filho, mas que não funciona simplesmente por ninguém levar nada à sério. Até mesmo os diálogos decisivos com Odin (Anthony Hopkins no modo automático) não representam efeito algum.

O maior prejudicado é Loki, que graças ao tom sarcástico de Tom Hiddleston, se tornou o maior vilão/anti-herói dessa turma, mas em Ragnarok aparece perdido no contexto. O oposto acontece com Chris Hemsworth que, se antes já havia mostrado uma boa veia cômica em “Caça Fantasmas” (Ghostbusters, 2016), prova o talento claro para a comédia, por mais que esse Thor bobão contraste com aquele poderoso dos filmes anteriores. Se Mark Ruffalo continua trazendo o mesmo Bruce Banner nerd e depressivo, o humor do “Hulk falante” dá a ele oportunidade de mostrar a sua versatilidade, protagonizando ótimos momentos com Hemsworth.

Já a fantástica Cate Blanchett está visivelmente se divertindo em cena, conferindo charme em cada movimento e voz passiva de Hela. Jeff Goldblum surge como uma excelente adição como um Grão Mestre, um personagem canastrão ao extremo, afetado e cheio de trejeitos, de forma que não poderia ter ator mais adequado. Tessa Thompson faz o que pode para conferir a força que sua Valquíria exige, mas o roteiro não a desenvolve como ela merecia. No inchado elenco, o mais relegado é Karl Urban, já que Skurge fica limitado a um capanga da vilã principal.

Mas não tem como negar que Taika Waititi dá uma ambientação pra lá de estilosa ao longa-metragem, com cores fortes desde o início, tons psicodélicos, diversos elementos no mesmo cenário sem causar confusão visual. O planeta Sakaar é uma bela homenagem aos quadrinhos de Jack Kirby. Ali tem muito também dos arcos de “Planeta Hulk” e “Hulk Contra o Mundo” (World War Hulk), numa boa saída dos realizadores, já que por motivos contratuais, não podem fazer um filme solo do gigante esmeralda.

Mas e a ação? Existem cenas que convencem, desde a luta inicial com Surtur, o divertido embate entre Thor e Hulk, com referências a cena já marcante do primeiro “Os Vingadores” (The Avengers, 2012), até o clímax com um nível de grandiosidade sem megalomanias. Há um esboço de formação de equipe com as adições de Loki e Valquíria, momentos estilosos de quando o Deus do Trovão invoca os poderes através de raios sem necessitar do seu martelo, mas, nada que se destaque em demasia ou já não tenha sido visto nos outros tantos longas de heróis.

Os fãs ardilosos podem sentir falta do Thor sério e onipresente dos quadrinhos. É preciso comprar a ideia de que esse se trata de um episódio peculiar e nada sério, trazendo alguns novos elementos que podem ser bem explorados no futuro (os monstros Korg, dublado pelo próprio Taika Waititi, e Miek, roubam a cena sempre que aparecem). Arranca alguns risos, mas para os próximos “Vingadores”, restabelecer o equilíbrio no tom é necessário.

Nota: 7,0

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Crítica: “Thor: Ragnarok” diverte se encarado como uma comédia despretensiosa

Por Thiago Sampaio em Crítica

07 de novembro de 2017

Comprando essa ideia, temos uma aventura que diverte, ainda que o produto soe deslocado nesse universo já estabelecido.Dentro do mundo cinematográfico da Marvel, os dois filmes do Thor nunca foram unanimidade, sendo bem modesto, para não dizer que eles não agradaram de jeito nenhum. Mesmo com uma fórmula que mescla ação, efeitos especiais e humor já estabelecida, era preciso uma mudança radical se quisessem emplacar um terceiro longa. A solução? Transformar “Thor: Ragnarok” (idem, 2017) numa comédia assumida, beirando o pastelão, com resquícios daqueles personagens conhecidos. Comprando essa ideia, temos uma aventura que diverte, ainda que o produto soe deslocado nesse universo.

Na trama, Thor (Chris Hemsworth) retorna a Asgard, agora dominada pelo seu irmão Loki (Tom Hiddleston). Nas mãos de uma nova e poderosa ameaça, Hela (Cate Blanchett), ele acaba sendo preso no devastado planeta Sakaar, sem o seu martelo, colocando-o numa corrida contra o tempo para voltar ao seu mundo e impedir Ragnarok, a destruição total. Mas, primeiro, precisa sobreviver a uma luta mortal de gladiadores.

Seguindo a tendência dos longas da Marvel de trazer diretores em projeção, a escolha pelo neozelandês Taika Waititi (“A Incrível Aventura de Rick Baker”, 2016; “O que Fazemos nas Sombras”, 2014) se mostra acertada nessa proposta de apostar num tom cômico. Indo de carona com a auto paródia que deu certo em “Os Guardiões da Galáxia” (2014, 2017), mesclando personagens surreais (que vão de alienígenas a robôs), detalhes retrô e músicas famosas (Immigrant Song, clássico do Led Zeppelin, arrepia a espinha de todo fã de rock que se preze), a produção é como uma ida despretensiosa a um parque da Disney.

Desde o início fica clara a intenção do longa, com o protagonista conversando com o espectador, numa quebra de quarta parede não convencional nesse universo, ironizando o fato de ser “uma espécie de super herói” e zombando das frases de efeito. Quando pisa de novo em Asgard, nos deparamos com um teatro, literalmente, encenando os episódios anteriores. Atores como Matt Damon (sim, o próprio!), Luke Hemsworth (irmão de Chris) e Sam Neill fazem pontas contribuindo com a zoeira toda. Os personagens até fingem que estão num contexto sério, mas quem assiste já está ciente que uma piada vai surgir a qualquer momento.

Em meio a essa metralhadora de gags, muitas funcionam, outras não, ficando aquela sensação de desgaste. Certos momentos parecem saídos de seriados como “Os Três Patetas” ou “Os Trapalhões”, como uma garrafa jogada na cabeça de alguém, uma personagem caindo do nada quando andava cheia de poder, ou uma bola que bate na parede e volta derrubando aquele que a atirou. O que de certa forma é um mérito do longa assumir a própria despretensão!

Por outro lado, acaba por descaracterizar o que existia de dramaticidade naqueles personagens já apresentados anteriormente. Há uma tentativa de sentimentalismo no roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost ao tocar na relação familiar entre irmãos, pai e filho, mas que não funciona simplesmente por ninguém levar nada à sério. Até mesmo os diálogos decisivos com Odin (Anthony Hopkins no modo automático) não representam efeito algum.

O maior prejudicado é Loki, que graças ao tom sarcástico de Tom Hiddleston, se tornou o maior vilão/anti-herói dessa turma, mas em Ragnarok aparece perdido no contexto. O oposto acontece com Chris Hemsworth que, se antes já havia mostrado uma boa veia cômica em “Caça Fantasmas” (Ghostbusters, 2016), prova o talento claro para a comédia, por mais que esse Thor bobão contraste com aquele poderoso dos filmes anteriores. Se Mark Ruffalo continua trazendo o mesmo Bruce Banner nerd e depressivo, o humor do “Hulk falante” dá a ele oportunidade de mostrar a sua versatilidade, protagonizando ótimos momentos com Hemsworth.

Já a fantástica Cate Blanchett está visivelmente se divertindo em cena, conferindo charme em cada movimento e voz passiva de Hela. Jeff Goldblum surge como uma excelente adição como um Grão Mestre, um personagem canastrão ao extremo, afetado e cheio de trejeitos, de forma que não poderia ter ator mais adequado. Tessa Thompson faz o que pode para conferir a força que sua Valquíria exige, mas o roteiro não a desenvolve como ela merecia. No inchado elenco, o mais relegado é Karl Urban, já que Skurge fica limitado a um capanga da vilã principal.

Mas não tem como negar que Taika Waititi dá uma ambientação pra lá de estilosa ao longa-metragem, com cores fortes desde o início, tons psicodélicos, diversos elementos no mesmo cenário sem causar confusão visual. O planeta Sakaar é uma bela homenagem aos quadrinhos de Jack Kirby. Ali tem muito também dos arcos de “Planeta Hulk” e “Hulk Contra o Mundo” (World War Hulk), numa boa saída dos realizadores, já que por motivos contratuais, não podem fazer um filme solo do gigante esmeralda.

Mas e a ação? Existem cenas que convencem, desde a luta inicial com Surtur, o divertido embate entre Thor e Hulk, com referências a cena já marcante do primeiro “Os Vingadores” (The Avengers, 2012), até o clímax com um nível de grandiosidade sem megalomanias. Há um esboço de formação de equipe com as adições de Loki e Valquíria, momentos estilosos de quando o Deus do Trovão invoca os poderes através de raios sem necessitar do seu martelo, mas, nada que se destaque em demasia ou já não tenha sido visto nos outros tantos longas de heróis.

Os fãs ardilosos podem sentir falta do Thor sério e onipresente dos quadrinhos. É preciso comprar a ideia de que esse se trata de um episódio peculiar e nada sério, trazendo alguns novos elementos que podem ser bem explorados no futuro (os monstros Korg, dublado pelo próprio Taika Waititi, e Miek, roubam a cena sempre que aparecem). Arranca alguns risos, mas para os próximos “Vingadores”, restabelecer o equilíbrio no tom é necessário.

Nota: 7,0