Critica: "Toy Story 4" mantém a magia da franquia com maestria 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Toy Story 4” mantém a magia da franquia com maestria

Por Thiago Sampaio em Crítica

28 de junho de 2019

Quem viu o primeiro “Toy Story” (idem, 1995) na época do lançamento, não só conferiu a revolução técnica da primeira animação 3D já feita (esqueçam aquela briga com o nacional “Cassiopeia”, 1996), como provavelmente cresceu e se emocionou junto com aqueles brinquedos. “Toy Story 3” (idem, 2010) foi um dos melhores desfechos de trilogias do cinema. Quem não chorou ali, humano não é! Por isso, era difícil entender a necessidade de um quarto filme. E mesmo rodeado de desconfianças, a Pixar mais uma vez mostra a sua maestria e entrega mais um excelente episódio desta marcante saga sobre amizade e amadurecimento.

Na trama, agora morando na casa da pequena Bonnie, Woody (voz de Tom Hanks) apresenta aos amigos o novo brinquedo construído por ela: Garfinho (voz do comediante Tony Hale). O novo posto de brinquedo não o agrada, o que faz com que ele fuja. Decidido a trazer de volta o amigo, Woody parte em seu encalço e, no caminho, reencontra Betty (voz de Annie Potts), que agora vive em um parque de diversões.

Não tem como negar que desde o longa de 1995 a história gira em torno do desenvolvimento do caubói Woody, abordando toda a sua devoção pelo ex-dono a ponto de se tornar quase um vilão por motivo de ciúmes pela chegada do moderno Buzz Lightyear, até se consolidar como um líder e amigo fiel, tanto para Andy como para os demais brinquedos. No momento em que ele passa a pertencer a Bonnie, percebe que os tempos não serão como aqueles de quase 25 anos atrás.

Aí onde entra o brilhantismo da franquia em abordar os questionamentos sobre o seu lugar no mundo em cada ciclo que se encerra e no novo que se inicia. Assim, o roteiro de Andrew Stanton (que roteirizou todos os outros) e da estreante Stephany Folsom, sob a direção do também iniciante Josh Cooley (que participou do roteiro do ótimo “Divertida Mente”, 2015) trata de desdobrar essa nova fase, sem perder os paralelos com os seres humanos, tão cheios de inseguranças e defeitos.

O próprio Woody necessita de um humano para servir, para fazê-lo feliz, perdendo até personalidade própria com a pouca atenção de Bonnie. Numa tentativa de suprir a ausência do tão amado e hoje crescido Andy, ele mais uma vez tem atitudes egoístas às escondidas, tudo para agradar a nova dona, mesmo que de maneira “invisível”.

O roteiro deixa de escanteio boa parte dos personagens originais, tão queridos por muitos, para focar nos novos. Mas eles são ótimos. O “Garfinho”, propositalmente desenhado com um design esquisito para arrancar risos, é concebido num momento de solidão da Bonnie. Ele é a típica representação de um ser que tem plena convicção de ser descartável, de que não é merecedor do que dizem ele ser, no caso, um brinquedo. Por mais que se prolonguem com a piada dele insistindo em se jogar no lixo, funciona como ferramenta cômica do roteiro.

Nessa pegada, Bunny e Ducky (dublados por Keegan-Michael Key e Jordan Peele, da dupla “Key & Peele”, numa excelente escolha de elenco), sempre roubam a cena. São “brindes” que nunca tiveram um dono e fazem uma interessante alusão aos excluídos da sociedade. Enquanto as brincadeiras de Andy nos longas anteriores sempre ganhavam uma representação, aqui o roteiro faz uma inversão de ponto de vista, colocando eles como os controladores da imaginação. O divertidíssimo Duke Caboom (voz de Keanu Reeves, zoando a própria imagem de maioral), é cheio de insegurança por não ter conseguido agradar o ex-dono com as habilidades que eram propagadas. E mais uma vez, as piadas são eficientes.

Sem papel de antagonista específico, aqui a boneca Gabby Gabby (voz de Christina Hendricks) repete um pouco do que já fora mostrado com o Mineiro de “Toy Story 2” (idem, 1999) e o urso Lotsu de “Toy Story 3”. Aqui, seu “plano” consiste em ter voz própria para conquistar a desejada Harmonia (a menina que ela almeja se chama Harmony…). O fato dela compreender a alegria de quem desfrutou do afeto, além do visual inocente, consegue trazer empatia pelo espectador. E uma cena em especial traz a forte lição sobre a necessidade de “sair da prateleira”.

Dentre os que retornam, consertaram desde os minutos iniciais o erro que cometeram com Betty no terceiro episódio, em que ela sequer aparece. Aqui, o roteiro abraça a representatividade e a desvia daquela imagem de boneca indefesa, utilizada nas brincadeiras apenas para ser salva, ao lado de suas ovelhas que sequer têm seus nomes lembrados. Agora ela assume o papel de mulher forte, independente, mas sem perder o carinho quando para ela é lembrada da memória de Molly, sua ex dona. Ela nunca renega o que viveu, apenas seguiu em frente.

Por outro lado, antes peça chave da franquia, Buzz Lightyear (voz de Tim Allen) é relegado ao papel de coadjuvante que se mostra perdido quando precisa ser líder. É engraçada a piada sobre a sua “voz interna”, mas é usada em exaustão e ele acaba por perder efetividade na narrativa.

A inexperiência de Josh Cooley na direção até pode prejudicar para os mais exigentes. No terceiro longa, quando tudo se encaminhava como uma aventura bem divertida, o drama entra com força, obviamente para instigar os sentimentos mais fraternos, culminando num produto até pesado para as crianças. Aqui, há várias passagens fortes, mas sempre intercaladas com muitas doses de humor. Quando você acha que vai se emocionar, entra uma cena cômica. E quando você acha que vai gargalhar até demais, entra outro dilema dramático. Certamente reflexo do fato de a animação ter passado por outros oito (!) roteiristas. Sim, isso tudo! É perceptível a busca por um equilíbrio, o que acaba atrapalhando a narrativa.

A evolução técnica é simplesmente admirável, desde detalhes do tecido antigo de Woody, manchas de desgastes em Buzz, até um espreguiçar de um gato que provoca até dúvidas se o bicho é de verdade ou não. E vale o crédito para Cooley em momentos como o da introdução, mostrando o realismo nos tecidos em meio a chuva em plena noite, além de colocar a forte figura de linguagem com Woody caído, de cara triste no asfalto, após perder quem ele ama. E logo na entrada dos créditos, uma breve recapitulação dos episódios anteriores ao som de “You’ve Got a Friend in Me” (“Amigo estou aqui”), de Randy Newman, toca forte na nostalgia.

Nas entrelinhas, tudo se trata de mais uma passagem de etapas, sobre aceitar que a fila anda, ainda que as memórias boas sejam eternas. Nisso, a Pixar sempre soube trabalhar e mais uma vez entrega um final que grita para que muitos caiam em lágrimas. E deve conseguir, pois tudo faz sentido. Inclusive, com uma frase final bastante simbólica que, mais uma vez, fecharia um ciclo com primor.

Difícil é acreditar que vai parar ali. A vida de quem se apegou àqueles “bonecos” também não vai parar. Mas segue a certeza de que os humanos jamais serão tão humanos como aqueles brinquedos são. Ao infinito, e além.

Obs: há uma longa cena durante os créditos e uma brincadeira com a logo da Pixar ao final deles.

Nota: 9,0

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Crítica: “Toy Story 4” mantém a magia da franquia com maestria

Por Thiago Sampaio em Crítica

28 de junho de 2019

Quem viu o primeiro “Toy Story” (idem, 1995) na época do lançamento, não só conferiu a revolução técnica da primeira animação 3D já feita (esqueçam aquela briga com o nacional “Cassiopeia”, 1996), como provavelmente cresceu e se emocionou junto com aqueles brinquedos. “Toy Story 3” (idem, 2010) foi um dos melhores desfechos de trilogias do cinema. Quem não chorou ali, humano não é! Por isso, era difícil entender a necessidade de um quarto filme. E mesmo rodeado de desconfianças, a Pixar mais uma vez mostra a sua maestria e entrega mais um excelente episódio desta marcante saga sobre amizade e amadurecimento.

Na trama, agora morando na casa da pequena Bonnie, Woody (voz de Tom Hanks) apresenta aos amigos o novo brinquedo construído por ela: Garfinho (voz do comediante Tony Hale). O novo posto de brinquedo não o agrada, o que faz com que ele fuja. Decidido a trazer de volta o amigo, Woody parte em seu encalço e, no caminho, reencontra Betty (voz de Annie Potts), que agora vive em um parque de diversões.

Não tem como negar que desde o longa de 1995 a história gira em torno do desenvolvimento do caubói Woody, abordando toda a sua devoção pelo ex-dono a ponto de se tornar quase um vilão por motivo de ciúmes pela chegada do moderno Buzz Lightyear, até se consolidar como um líder e amigo fiel, tanto para Andy como para os demais brinquedos. No momento em que ele passa a pertencer a Bonnie, percebe que os tempos não serão como aqueles de quase 25 anos atrás.

Aí onde entra o brilhantismo da franquia em abordar os questionamentos sobre o seu lugar no mundo em cada ciclo que se encerra e no novo que se inicia. Assim, o roteiro de Andrew Stanton (que roteirizou todos os outros) e da estreante Stephany Folsom, sob a direção do também iniciante Josh Cooley (que participou do roteiro do ótimo “Divertida Mente”, 2015) trata de desdobrar essa nova fase, sem perder os paralelos com os seres humanos, tão cheios de inseguranças e defeitos.

O próprio Woody necessita de um humano para servir, para fazê-lo feliz, perdendo até personalidade própria com a pouca atenção de Bonnie. Numa tentativa de suprir a ausência do tão amado e hoje crescido Andy, ele mais uma vez tem atitudes egoístas às escondidas, tudo para agradar a nova dona, mesmo que de maneira “invisível”.

O roteiro deixa de escanteio boa parte dos personagens originais, tão queridos por muitos, para focar nos novos. Mas eles são ótimos. O “Garfinho”, propositalmente desenhado com um design esquisito para arrancar risos, é concebido num momento de solidão da Bonnie. Ele é a típica representação de um ser que tem plena convicção de ser descartável, de que não é merecedor do que dizem ele ser, no caso, um brinquedo. Por mais que se prolonguem com a piada dele insistindo em se jogar no lixo, funciona como ferramenta cômica do roteiro.

Nessa pegada, Bunny e Ducky (dublados por Keegan-Michael Key e Jordan Peele, da dupla “Key & Peele”, numa excelente escolha de elenco), sempre roubam a cena. São “brindes” que nunca tiveram um dono e fazem uma interessante alusão aos excluídos da sociedade. Enquanto as brincadeiras de Andy nos longas anteriores sempre ganhavam uma representação, aqui o roteiro faz uma inversão de ponto de vista, colocando eles como os controladores da imaginação. O divertidíssimo Duke Caboom (voz de Keanu Reeves, zoando a própria imagem de maioral), é cheio de insegurança por não ter conseguido agradar o ex-dono com as habilidades que eram propagadas. E mais uma vez, as piadas são eficientes.

Sem papel de antagonista específico, aqui a boneca Gabby Gabby (voz de Christina Hendricks) repete um pouco do que já fora mostrado com o Mineiro de “Toy Story 2” (idem, 1999) e o urso Lotsu de “Toy Story 3”. Aqui, seu “plano” consiste em ter voz própria para conquistar a desejada Harmonia (a menina que ela almeja se chama Harmony…). O fato dela compreender a alegria de quem desfrutou do afeto, além do visual inocente, consegue trazer empatia pelo espectador. E uma cena em especial traz a forte lição sobre a necessidade de “sair da prateleira”.

Dentre os que retornam, consertaram desde os minutos iniciais o erro que cometeram com Betty no terceiro episódio, em que ela sequer aparece. Aqui, o roteiro abraça a representatividade e a desvia daquela imagem de boneca indefesa, utilizada nas brincadeiras apenas para ser salva, ao lado de suas ovelhas que sequer têm seus nomes lembrados. Agora ela assume o papel de mulher forte, independente, mas sem perder o carinho quando para ela é lembrada da memória de Molly, sua ex dona. Ela nunca renega o que viveu, apenas seguiu em frente.

Por outro lado, antes peça chave da franquia, Buzz Lightyear (voz de Tim Allen) é relegado ao papel de coadjuvante que se mostra perdido quando precisa ser líder. É engraçada a piada sobre a sua “voz interna”, mas é usada em exaustão e ele acaba por perder efetividade na narrativa.

A inexperiência de Josh Cooley na direção até pode prejudicar para os mais exigentes. No terceiro longa, quando tudo se encaminhava como uma aventura bem divertida, o drama entra com força, obviamente para instigar os sentimentos mais fraternos, culminando num produto até pesado para as crianças. Aqui, há várias passagens fortes, mas sempre intercaladas com muitas doses de humor. Quando você acha que vai se emocionar, entra uma cena cômica. E quando você acha que vai gargalhar até demais, entra outro dilema dramático. Certamente reflexo do fato de a animação ter passado por outros oito (!) roteiristas. Sim, isso tudo! É perceptível a busca por um equilíbrio, o que acaba atrapalhando a narrativa.

A evolução técnica é simplesmente admirável, desde detalhes do tecido antigo de Woody, manchas de desgastes em Buzz, até um espreguiçar de um gato que provoca até dúvidas se o bicho é de verdade ou não. E vale o crédito para Cooley em momentos como o da introdução, mostrando o realismo nos tecidos em meio a chuva em plena noite, além de colocar a forte figura de linguagem com Woody caído, de cara triste no asfalto, após perder quem ele ama. E logo na entrada dos créditos, uma breve recapitulação dos episódios anteriores ao som de “You’ve Got a Friend in Me” (“Amigo estou aqui”), de Randy Newman, toca forte na nostalgia.

Nas entrelinhas, tudo se trata de mais uma passagem de etapas, sobre aceitar que a fila anda, ainda que as memórias boas sejam eternas. Nisso, a Pixar sempre soube trabalhar e mais uma vez entrega um final que grita para que muitos caiam em lágrimas. E deve conseguir, pois tudo faz sentido. Inclusive, com uma frase final bastante simbólica que, mais uma vez, fecharia um ciclo com primor.

Difícil é acreditar que vai parar ali. A vida de quem se apegou àqueles “bonecos” também não vai parar. Mas segue a certeza de que os humanos jamais serão tão humanos como aqueles brinquedos são. Ao infinito, e além.

Obs: há uma longa cena durante os créditos e uma brincadeira com a logo da Pixar ao final deles.

Nota: 9,0