Crítica: "Venom" é um enorme desperdício de potencial 
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Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Venom” é um enorme desperdício de potencial

Por Thiago Sampaio em Crítica

05 de outubro de 2018

Foto: Divulgação

A ideia da Sony Pictures de fazer um filme solo do Venom, popular vilão do Homem-Aranha, sem a presença do Cabeça de Teia (que não pode ser utilizado pelo estúdio por causa do enorme acordo de compartilhamento com a Marvel e Disney), já nasceu problemática por natureza. Afinal, a origem teria que ser totalmente deturpada do que fora visto nos quadrinhos. Os trailers não deram margem para otimismo. Dito isto, as expectativas negativas se confirmam e “Venom” (idem, 2018) chega como mais um longa caça-níquel de super herói genérico e datado.

Na trama, Eddie Brock (Tom Hardy) é um jornalista investigativo que tem um quadro próprio em uma emissora local. Ele é escalado para entrevistar Carlton Drake (Riz Ahmed), o criador da Fundação Vida, que tem investido bastante em missões espaciais de forma a encontrar possíveis usos medicinais. A empresa estaria usando simbiontes alienígenas em testes com humanos e um deles acaba por entrar em contato com o repórter, fazendo ele se tornar o Venom.

Antes de tudo, é bom deixar claro: não é esse desastre todo que muitas críticas pelo mundo estão colocando. Diferente de bagunças recentes como “Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016) e “Quarteto Fantástico” (Fantastic Four, 2015), verdadeiras colchas de retalhos, este pelo menos cumpre o que se propõe e traz uma história com começo, meio e fim bem definida, mesmo com qualidade questionável. Com uma pegada leve e apelando para um humor forçado, o nível está mais para aquele “Quarteto” de 2005 ou “Lanterna Verde” (Green Lantern, 2011). Nada que se compare com a aberração, por exemplo, de “Mulher-Gato (Catwoman, 2004).

Colocar um vilão sanguinário no papel de “anti-herói” num longa com censura PG-13, partindo para um tom claramente para alcançar o maior público possível, deixa a produção num lugar comum. É até redundante afirmar que os filmes da Marvel Studios ditaram um novo rumo para este novo gênero do cinema, mas produções como “Logan” (idem, 2017) e “Deadpool” (idem, 2015) mostraram que é possível fazer algo diferente e separado daquele universo. Mas aqui, nem de longe há a violência e o realismo do primeiro ou a autoparódia assumida do segundo.

O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg (dupla de “Jumanji: Bem-Vindo à Selva”, 2017) e Kelly Marcel (“Cinquenta Tons de Cinza”, 2005) aborda uma típica história de origem que tenta se manter fiel dentro do possível, com diversas alterações por causa da ausência do Homem-Aranha. Para quem curte identificar referências, o texto praticamente ignora tudo que existe naquele mundo (com exceção do astronauta chamado Jameson). Bizarramente há uma citação de kriptonita, pertencente ao mundo do Superman, da rival DC Comics (?!). Claramente os realizadores não sabiam ao certo o que fazer, se preocupando apenas em fazer graça.

Frases de efeito são jogadas o tempo inteiro e diálogos expositivos são empurrados goela abaixo de quem assiste. Como se não bastasse Eddie Brock soltar a piada infame de que a simbionte sai do traseiro, ele tem que repetir logo em seguida ao constatar a existência de outra. Perde-se a conta de quantas vezes é dito que a ameaça é suscetível a sons altos. Se for analisar incoerências como uma moradora de rua “possuída” continuar perambulando com a mesma roupa mesmo após uma elipse no tempo de seis meses, ou momentos patéticos como o protagonista entrando num aquário de lagostas para se refrescar, a coisa fica dolorosa.

Se o diretor Ruben Fleischer havia mesclado com eficiência o humor irônico com violência no ótimo “Zumbilândia” (Zombieland, 2009), aqui se mostra totalmente algemado aos interesses dos produtores. Até conduz algumas cenas de ação eficientes sem apelar para cortes excessivos, como a luta contra policiais no hall de um prédio e o confronto final (a criação de um monstro gigante por alguns segundos é bem legal). Ainda assim, muitas soam artificiais, como a perseguição de moto em que todo o fundo é claramente em CGI e os elementos são acelerados como se a projeção estivesse no fast-forward. Recursos batidíssmos como o efeito sonoro “Grito Wilhelm”, estão lá. Até as músicas escolhidas são cada uma pior do que a outra.

Pelo menos visualmente, o design do Venom, maior e com “veias” no peito em substituição à aranha branca, agrada bem mais do que aquele visto no desastroso “Homem-Aranha 3” (Spider-Man 3, 2007). A relação entre Brock e a simbionte que move a segunda metade da trama garante alguns momentos divertidos que podem arrancar um sorriso de canto de rosto. Mas é difícil enxergar alguma veridicidade ali com efeitos especiais tão limitados, dignos de filmes dos anos 90 (me perdoem os incríveis “O Exterminador do Futuro 2”, 1991; e “Jurassic Park”, 1993). A impressão é que muitos efeitos ficaram inacabados, principalmente quando a “máscara” e o rosto de Tom Hardy se intercalam.

Falando em Tom Hardy, nem o bom ator sai ileso. Visivelmente se divertindo em cena e abraçando a proposta da galhofa, ele anda de maneira torta para soar como um fracassado e depois exagera nos trejeitos como se tivesse sob efeitos de psicotrópicos. Ele também faz a voz do seu alter-ego, mas, claramente ela é alterada digitalmente para ficar mais grave. A ótima Michelle Williams, indicada quatro vezes ao Oscar, não justifica sua presença, fazendo Anne Weying totalmente apática. Ela até ganha sua devida importância pelo roteiro, mas a atriz não parece nem um pouco disposta a fazer algo além de cumprir o horário e ir embora com o cachê.

Problema típico da maioria dos longas de heróis, Riz Ahmed (“Rogue One: Uma História Star Wars”, 2016) encarna um vilão sem apelo algum. Nada mais é do que o estereótipo do playboy rico e inescrupuloso que serve para apresentar uma sombra para Venom, o desinteressante Riot, para eles em algum momento partirem pra briga. Como se a dualidade de personalidade de Eddie com a simbionte e o fato de que ele se torna é uma ameaça para os humanos já não representasse perigo por si só!

No fim das contas, as crianças até que podem se divertir com essa aventura passageira numa tarde qualquer. Quem exige um pouco mais do que isso, no máximo vai garantir alguns risos involuntários. “Venom” não satisfaz, mas também não chega a ser a maior atrocidade do universo. É só mais um longa bem ruim com figuras com poderes mesmo.

Obs: há duas cenas pós-créditos!

Nota: 3,0

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Crítica: “Venom” é um enorme desperdício de potencial

Por Thiago Sampaio em Crítica

05 de outubro de 2018

Foto: Divulgação

A ideia da Sony Pictures de fazer um filme solo do Venom, popular vilão do Homem-Aranha, sem a presença do Cabeça de Teia (que não pode ser utilizado pelo estúdio por causa do enorme acordo de compartilhamento com a Marvel e Disney), já nasceu problemática por natureza. Afinal, a origem teria que ser totalmente deturpada do que fora visto nos quadrinhos. Os trailers não deram margem para otimismo. Dito isto, as expectativas negativas se confirmam e “Venom” (idem, 2018) chega como mais um longa caça-níquel de super herói genérico e datado.

Na trama, Eddie Brock (Tom Hardy) é um jornalista investigativo que tem um quadro próprio em uma emissora local. Ele é escalado para entrevistar Carlton Drake (Riz Ahmed), o criador da Fundação Vida, que tem investido bastante em missões espaciais de forma a encontrar possíveis usos medicinais. A empresa estaria usando simbiontes alienígenas em testes com humanos e um deles acaba por entrar em contato com o repórter, fazendo ele se tornar o Venom.

Antes de tudo, é bom deixar claro: não é esse desastre todo que muitas críticas pelo mundo estão colocando. Diferente de bagunças recentes como “Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016) e “Quarteto Fantástico” (Fantastic Four, 2015), verdadeiras colchas de retalhos, este pelo menos cumpre o que se propõe e traz uma história com começo, meio e fim bem definida, mesmo com qualidade questionável. Com uma pegada leve e apelando para um humor forçado, o nível está mais para aquele “Quarteto” de 2005 ou “Lanterna Verde” (Green Lantern, 2011). Nada que se compare com a aberração, por exemplo, de “Mulher-Gato (Catwoman, 2004).

Colocar um vilão sanguinário no papel de “anti-herói” num longa com censura PG-13, partindo para um tom claramente para alcançar o maior público possível, deixa a produção num lugar comum. É até redundante afirmar que os filmes da Marvel Studios ditaram um novo rumo para este novo gênero do cinema, mas produções como “Logan” (idem, 2017) e “Deadpool” (idem, 2015) mostraram que é possível fazer algo diferente e separado daquele universo. Mas aqui, nem de longe há a violência e o realismo do primeiro ou a autoparódia assumida do segundo.

O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg (dupla de “Jumanji: Bem-Vindo à Selva”, 2017) e Kelly Marcel (“Cinquenta Tons de Cinza”, 2005) aborda uma típica história de origem que tenta se manter fiel dentro do possível, com diversas alterações por causa da ausência do Homem-Aranha. Para quem curte identificar referências, o texto praticamente ignora tudo que existe naquele mundo (com exceção do astronauta chamado Jameson). Bizarramente há uma citação de kriptonita, pertencente ao mundo do Superman, da rival DC Comics (?!). Claramente os realizadores não sabiam ao certo o que fazer, se preocupando apenas em fazer graça.

Frases de efeito são jogadas o tempo inteiro e diálogos expositivos são empurrados goela abaixo de quem assiste. Como se não bastasse Eddie Brock soltar a piada infame de que a simbionte sai do traseiro, ele tem que repetir logo em seguida ao constatar a existência de outra. Perde-se a conta de quantas vezes é dito que a ameaça é suscetível a sons altos. Se for analisar incoerências como uma moradora de rua “possuída” continuar perambulando com a mesma roupa mesmo após uma elipse no tempo de seis meses, ou momentos patéticos como o protagonista entrando num aquário de lagostas para se refrescar, a coisa fica dolorosa.

Se o diretor Ruben Fleischer havia mesclado com eficiência o humor irônico com violência no ótimo “Zumbilândia” (Zombieland, 2009), aqui se mostra totalmente algemado aos interesses dos produtores. Até conduz algumas cenas de ação eficientes sem apelar para cortes excessivos, como a luta contra policiais no hall de um prédio e o confronto final (a criação de um monstro gigante por alguns segundos é bem legal). Ainda assim, muitas soam artificiais, como a perseguição de moto em que todo o fundo é claramente em CGI e os elementos são acelerados como se a projeção estivesse no fast-forward. Recursos batidíssmos como o efeito sonoro “Grito Wilhelm”, estão lá. Até as músicas escolhidas são cada uma pior do que a outra.

Pelo menos visualmente, o design do Venom, maior e com “veias” no peito em substituição à aranha branca, agrada bem mais do que aquele visto no desastroso “Homem-Aranha 3” (Spider-Man 3, 2007). A relação entre Brock e a simbionte que move a segunda metade da trama garante alguns momentos divertidos que podem arrancar um sorriso de canto de rosto. Mas é difícil enxergar alguma veridicidade ali com efeitos especiais tão limitados, dignos de filmes dos anos 90 (me perdoem os incríveis “O Exterminador do Futuro 2”, 1991; e “Jurassic Park”, 1993). A impressão é que muitos efeitos ficaram inacabados, principalmente quando a “máscara” e o rosto de Tom Hardy se intercalam.

Falando em Tom Hardy, nem o bom ator sai ileso. Visivelmente se divertindo em cena e abraçando a proposta da galhofa, ele anda de maneira torta para soar como um fracassado e depois exagera nos trejeitos como se tivesse sob efeitos de psicotrópicos. Ele também faz a voz do seu alter-ego, mas, claramente ela é alterada digitalmente para ficar mais grave. A ótima Michelle Williams, indicada quatro vezes ao Oscar, não justifica sua presença, fazendo Anne Weying totalmente apática. Ela até ganha sua devida importância pelo roteiro, mas a atriz não parece nem um pouco disposta a fazer algo além de cumprir o horário e ir embora com o cachê.

Problema típico da maioria dos longas de heróis, Riz Ahmed (“Rogue One: Uma História Star Wars”, 2016) encarna um vilão sem apelo algum. Nada mais é do que o estereótipo do playboy rico e inescrupuloso que serve para apresentar uma sombra para Venom, o desinteressante Riot, para eles em algum momento partirem pra briga. Como se a dualidade de personalidade de Eddie com a simbionte e o fato de que ele se torna é uma ameaça para os humanos já não representasse perigo por si só!

No fim das contas, as crianças até que podem se divertir com essa aventura passageira numa tarde qualquer. Quem exige um pouco mais do que isso, no máximo vai garantir alguns risos involuntários. “Venom” não satisfaz, mas também não chega a ser a maior atrocidade do universo. É só mais um longa bem ruim com figuras com poderes mesmo.

Obs: há duas cenas pós-créditos!

Nota: 3,0