Publicidade

Tribuna Científica

por Hugo Fernandes-Ferreira

Ciência e Cinema

Vaquejada: dois lados emocionais de uma polêmica

Por hugofernandesbio em Ciência e Cinema

03 de novembro de 2016

Manifestação cultural ou maus tratos a animais?

Nas últimas semanas, o Brasil tem acompanhado uma forte polêmica em torno da prática da vaquejada. O Superior Tribunal Federal, em uma decisão apertada no dia 06 de outubro, tomou como inconstitucional a prática da atividade. Em paralelo, o Senado aprovou ontem uma Lei que tornaria o esporte como patrimônio cultural e imaterial do país. Como toda boa polêmica, principalmente nesse nosso atual contexto social, o que não faltam são injúrias, discussões e achismos passionais entre os que condenam e os que defendem a vaquejada. Se há um equilíbrio nessa história, está na quantidade de trocas carinhosas entre os grupos. O que se vê de resto é desequilíbrio, justamente porque esse assunto mexe com o emocional das pessoas de uma forma bem distinta. De um lado, o amor pelos animais. Do outro, questões culturais fortemente arraigadas em toda uma região.

Por falar em cultura, comecemos por essa primeira parte da polêmica. Parte dos grupos contrários à vaquejada afirma veemente que a atividade não é manifestação cultural. Erro crasso. Claro que é cultura. É um direito discordar da existência da prática e achá-la absurda (se você é contra, leu até aqui e está p*** comigo, espere mais um pouquinho), mas ninguém pode dizer que ela não é cultural. Na Caatinga, o gado é majoritariamente criado solto. Para dizer quem é o boi de quem em determinadas épocas do ano, eram organizadas as festas de apartação ainda no século XVII, onde os vaqueiros de cada fazenda dominavam o manejo do gado errante para seus respectivos terrenos. Os animais mais bravios que acabavam fugindo mata seca adentro exigiam a captura de profissionais de extrema perícia, que os derrubavam pela cauda. Esses vaqueiros eram muito bem recompensados e ganhavam status regional, o que motivou o aproveitamento dessa atividade em eventos esportivos. Se pudéssemos (não podemos, só para constar) medir cultura por tempo, a vaquejada seria “mais cultural” que o frevo, que possui pouco mais de 100 anos ou até mesmo que o boi-bumbá, surgido no século XVIII.

O fato de ser uma reconhecida manifestação cultural diminui o poder de crítica acerca dos maus tratos sobre os animais? Não. Essa também é uma resposta muito simples. Em nota, o Conselho Federal de Medicina Veterinária se posiciona de modo contrário à vaquejada. O órgão afirma que o esporte pode causar “luxação das vértebras, ruptura de ligamentos e de vasos sanguíneos, estabelecendo lesões traumáticas com o comprometimento, inclusive, da medula espinhal”. Como contra-argumento, os defensores da atividade apontam o uso do rabo artifical, um protetor de cauda que, embora esteja longe de ser amplamente utilizado em todos os eventos, sobretudo nos mais modestos, vem ganhando obrigatoriedade em torneios de médio e grande porte. De fato, o instrumento diminui os riscos do principal tipo de lesão, que é o desenluvamento da base da cauda, mas ainda não há alternativas que evitem por completo patas quebradas, exostoses, miopatias e injúrias internas.

Quanto a esses fatores, o lobby pró-vaquejada (diga-se de passagem, muito forte no Congresso por conta da Bancada Ruralista) afirma que, atualmente, os eventos contam com plantão veterinário, os animais participam de menos corridas do que antes e os casos de injúrias vem caindo constantemente. Há quem se apegue inclusive ao voto do Ministro do STF Luis Roberto Barroso, que sugere a proibição “quando for impossível sua regulamentação de modo suficiente para evitar práticas cruéis”. A questão é que isso é muito subjetivo. Para os grupos de proteção animal, submeter o gado ao estresse já é maus tratos e portanto esses argumentos não seriam válidos, mas se isso for levado à risca, todo o processo de criação pecuária teria de ser proibido. Embora esse seja o sonho de boa parte dos ativistas, sabemos bem que isso traria consequências econômicas e sociais bastante graves. O balaio é muito complicado.

Existem ainda os defensores que pontuam o caráter de exceção da proibição da vaquejada em relação a outros esportes de mesmo teor. De fato, os argumentos utilizados para tal encaixariam-se perfeitamente para proibir o rodeio, a gineteada sulista, provas de laço e outras atividades envolvendo animais. Proibir somente a vaquejada pode parecer inicialmente um ato com tons xenofóbicos em relação ao Nordeste brasileiro, mas é válido ressaltar que a decisão partiu por conta da análise de uma lei cearense, que transforma o esporte em patrimônio cultural e imaterial do estado. Foi essa a Lei, e portanto a interpretação para outras esferas do país, que foi julgada como inconstitucional. Paradoxalmente, o início da proibição se deu através de uma lei pró-vaquejada.

Na última semana, centenas de pessoas acamparam em Brasília pedindo a mudança da decisão do STF, imbuídas principalmente de argumentos econômicos. A Associação Brasileira de Vaquejadas estima que os eventos movimentam mais de 700 milhões de reais, gerando cerca de 750 mil empregos diretos e indiretos. Cidades como Alto Sereno – BA e Itapebussu – CE tem suas economias fortemente dependentes da atividade. Em um cenário de crise na região mais pobre do país, é de grande importância levar isso em consideração.

Diante de tantas variáveis, o que decidir? Que princípios éticos seguir? O da proteção animal incondicional? O do direito a manifestações culturais? O da estabilidade econômica de municípios pobres? São escolhas que dependem muito do contexto social de cada grupo e que certamente ainda terão muitos fatores a serem discutidos. Particularmente, eu não compactuo com a ideia de que a minha diversão possa ser dependente de qualquer sofrimento animal, apesar de compreender as questões evolutivas associadas a isso. Entretanto, pela existência de fatores sociais tão complexos, vejo com bons olhos a possibilidade de regulações cada vez mais restritas e que caminhem para uma extinção mais gradual do que abrupta, para que impactos econômicos e culturais não sejam sofridos de forma tão drástica. De todo modo, é preciso entender que culturas evoluem e, pelo andar da carruagem, essa carruagem muito em breve não será puxada por bois.

Publicidade

Um Oscar para Stephen Hawking

Por hugofernandesbio em Ciência e Cinema

23 de Fevereiro de 2015

Talvez uma das premiações de maior merecimento na edição do Oscar 2015 foi a de Melhor Ator para o britânico Eddie Redmayne.

Protagonista do longa “A Teoria de Tudo”, do diretor James Marsh, Redmayne impressiona ao interpretar o cientista vivo mais famoso do planta, o astrofísico Stephen Hawking, que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA). O próprio Hawking chegou a afirmar que, em determinadas passagens do filme, ele deixava de enxergar o ator para enxergar a si próprio. Um trabalho de imersão impecável.

Se por um lado o ator é praticamente uma unanimidade, por outro o roteiro tem sido muito criticado por ser uma releitura muito atenta à biografia da primeira mulher de Hawking, Jane Wilde, que foi casada com o cientista entre 1965 e 1995. Essa biografia se prende ao drama do relacionamento entre os dois. A película até passeia pelas principais descobertas e teorias do físico… Mas só passeia.

A figura de Stephen Hawking é mundialmente conhecida mais pela sua doença do que propriamente pela sua genialidade acadêmica. Se eu perguntar ao leitor o que fez Einstein, arrisco dizer que a maioria responderá que ele foi o responsável pela Teoria da Relatividade, o que é “apenas” sua contribuição mais importante, mas tudo bem. Se eu fizer essa mesma pergunta relacionada a Hawking, poucos arriscarão uma resposta.

Se hoje o mundo conhece e vai conhecer um Hawking além da cadeira de rodas e da fala robotizada através desse filme, essa nova percepção não virá acompanhada da sua real importância para a Ciência mundial.

Com o matemático Roger Penrose na década de 70, o britânico evidenciou provas de diversos Teoremas de Singularidade, que fornecem uma gama de condições para a existência de uma singularidade no espaço-tempo, que serviu como complementação à teoria de Einstein.

É também o principal autor das Quatro Leis da Mecânica de Buracos Negros, que rezam que esses fenômenos astrológicos são capazes de emitir partículas subatômicas (Radiação Hawking). O cosmólogo, que já havia sugerido que pequenas formações de buracos negros teriam surgido após o Big Bang, também atuou ativamente na consolidação acadêmica da Teoria da Inflação Cósmica, de Alan Guth, em 1981, que postula que o universo teria passado por uma fase de crescimento exponencial em seu momento primordial.

Ao final do filme, o enredo também deixa a entender que Hawking, declaradamente ateu, pudesse ter “mudado de opinião” quanto à existência de um criador, aproveitando-se de declarações feitas por ele algumas vezes utilizando a palavra Deus. Segundo o físico, todas as vezes em que essa expressão era utilizada a intenção era puramente metafórica. Em seu livro “O Grande Projeto” (2011), Hawking afirma que “Deus não tem mais lugar nas teorias sobre criação do universo, devido a uma série de avanços no campo da física”.

O filme tem seu mérito pelo enredo dramático, mas para aqueles que buscam conhecer mais da obra científica do cosmólogo britânico através da sétima arte, há dois documentários: “Uma Breve História do Tempo” (1991), mesmo título de seu livro mais famoso (por sinal, excelente e muito acessível ao público leigo) e “Hawking” (2013), que conta com o próprio como narrador. Porém, é a série em formato de filme intitulada “A História de Stephen Hawking” produzido pela BBC, em 2004, que casa de maneira mais palatável sua biografia pessoal com a profissional . Em uma incrível coincidência, a série é estrelada por Benedict Cumberbatch, que concorreu a mesma premiação de Redmayne nessa edição do Oscar, por sua atuação em “O Jogo da Imitação”. O filme também narra a história de um cientista, o matemático Alan Turing, um dos grandes responsáveis pela vitória dos Aliados na II Guerra Mundial.

É a Academia (cinematográfica) prestigiando a Academia (científica), ainda que não seja da forma que nós cientistas desejamos. Mas não podemos ser assim tão corporativistas, vai. Já é um ótimo cenário.

 

hawking

Eddie Redmayne , melhor ator e Stephen Hawking, melhor físico.

 

 

 

 

Publicidade

Um Oscar para Stephen Hawking

Por hugofernandesbio em Ciência e Cinema

23 de Fevereiro de 2015

Talvez uma das premiações de maior merecimento na edição do Oscar 2015 foi a de Melhor Ator para o britânico Eddie Redmayne.

Protagonista do longa “A Teoria de Tudo”, do diretor James Marsh, Redmayne impressiona ao interpretar o cientista vivo mais famoso do planta, o astrofísico Stephen Hawking, que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA). O próprio Hawking chegou a afirmar que, em determinadas passagens do filme, ele deixava de enxergar o ator para enxergar a si próprio. Um trabalho de imersão impecável.

Se por um lado o ator é praticamente uma unanimidade, por outro o roteiro tem sido muito criticado por ser uma releitura muito atenta à biografia da primeira mulher de Hawking, Jane Wilde, que foi casada com o cientista entre 1965 e 1995. Essa biografia se prende ao drama do relacionamento entre os dois. A película até passeia pelas principais descobertas e teorias do físico… Mas só passeia.

A figura de Stephen Hawking é mundialmente conhecida mais pela sua doença do que propriamente pela sua genialidade acadêmica. Se eu perguntar ao leitor o que fez Einstein, arrisco dizer que a maioria responderá que ele foi o responsável pela Teoria da Relatividade, o que é “apenas” sua contribuição mais importante, mas tudo bem. Se eu fizer essa mesma pergunta relacionada a Hawking, poucos arriscarão uma resposta.

Se hoje o mundo conhece e vai conhecer um Hawking além da cadeira de rodas e da fala robotizada através desse filme, essa nova percepção não virá acompanhada da sua real importância para a Ciência mundial.

Com o matemático Roger Penrose na década de 70, o britânico evidenciou provas de diversos Teoremas de Singularidade, que fornecem uma gama de condições para a existência de uma singularidade no espaço-tempo, que serviu como complementação à teoria de Einstein.

É também o principal autor das Quatro Leis da Mecânica de Buracos Negros, que rezam que esses fenômenos astrológicos são capazes de emitir partículas subatômicas (Radiação Hawking). O cosmólogo, que já havia sugerido que pequenas formações de buracos negros teriam surgido após o Big Bang, também atuou ativamente na consolidação acadêmica da Teoria da Inflação Cósmica, de Alan Guth, em 1981, que postula que o universo teria passado por uma fase de crescimento exponencial em seu momento primordial.

Ao final do filme, o enredo também deixa a entender que Hawking, declaradamente ateu, pudesse ter “mudado de opinião” quanto à existência de um criador, aproveitando-se de declarações feitas por ele algumas vezes utilizando a palavra Deus. Segundo o físico, todas as vezes em que essa expressão era utilizada a intenção era puramente metafórica. Em seu livro “O Grande Projeto” (2011), Hawking afirma que “Deus não tem mais lugar nas teorias sobre criação do universo, devido a uma série de avanços no campo da física”.

O filme tem seu mérito pelo enredo dramático, mas para aqueles que buscam conhecer mais da obra científica do cosmólogo britânico através da sétima arte, há dois documentários: “Uma Breve História do Tempo” (1991), mesmo título de seu livro mais famoso (por sinal, excelente e muito acessível ao público leigo) e “Hawking” (2013), que conta com o próprio como narrador. Porém, é a série em formato de filme intitulada “A História de Stephen Hawking” produzido pela BBC, em 2004, que casa de maneira mais palatável sua biografia pessoal com a profissional . Em uma incrível coincidência, a série é estrelada por Benedict Cumberbatch, que concorreu a mesma premiação de Redmayne nessa edição do Oscar, por sua atuação em “O Jogo da Imitação”. O filme também narra a história de um cientista, o matemático Alan Turing, um dos grandes responsáveis pela vitória dos Aliados na II Guerra Mundial.

É a Academia (cinematográfica) prestigiando a Academia (científica), ainda que não seja da forma que nós cientistas desejamos. Mas não podemos ser assim tão corporativistas, vai. Já é um ótimo cenário.

 

hawking

Eddie Redmayne , melhor ator e Stephen Hawking, melhor físico.