Publicidade

Tribuna Científica

por Hugo Fernandes-Ferreira

política

Um exército de Doutores desempregados

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

17 de Fevereiro de 2016

Vou contar uma história para vocês, para que entendam em que ponto a Ciência brasileira se insere nessa crise. Ao personagem, dou o nome de Carinha. Obviamente, é uma história generalista, que jamais pode ser aplicada a todos, mas pelo menos a uma enorme parcela dos acadêmicos. Você verá muitos amigos seus na pele do Carinha. Talvez, você mesmo.

1 – No começo dos anos 2000, principalmente a partir de 2005, novas universidades começam a surgir e o número de vagas, inclusive nas já existentes, aumentam vertiginosamente. A estrutura também melhora e as taxas de evasão de cursos de Ciência básica (Física, Química, Biologia e Matemática, por exemplo) caem. O Carinha, então, ingressa em um desses cursos.

2 – O Carinha que entrou em 2005 e se formou em 2009 passou o período da faculdade desconhecendo o mercado de trabalho do seu curso fora do meio acadêmico. Ao seu lado, muitos colegas que passaram quatro anos sem saber nem o que estavam fazendo. Para o Carinha, não havia outra solução a não ser lecionar em escolas ou tentar o Mestrado, que oferecia bolsa de pesquisa de R$ 1.100,00. Mas, para isso, teria que passar por uma difícil e concorrida seleção. Até que, com o aumento do número de programas e bolsas de pós-graduação, ele viu então que aquilo não era tão difícil assim. Em 2010, torna-se mestrando.

3 – Enquanto seu amigo engenheiro civil****, recém-formado, já está dando entrada para comprar um carro, o Carinha usa sua bolsa para pagar seus pequenos gastos pessoais, além de sua pesquisa sem financiamento externo

(****PS. Permitam-me uma edição aqui. Fui infeliz quando exemplifiquei o colega como um engenheiro civil, pois o mercado para esse profissional atualmente também encontra-se em crise. Tente imaginar qualquer profissão facilmente absorvida pelo mercado de trabalho privado e o texto continuará com o mesmo objetivo).

Em dois anos, o Carinha tenta produzir alguns artigos para enriquecer o currículo. Tem planos para publicar cinco, mas publica um, em revista de qualis baixo. Em paralelo, entra num forte estresse para entregar sua dissertação e passar pelo forte crivo da banca, que pode reprová-lo. Será? Na semana de sua defesa, seu colega também é aprovado, mas com um projeto medíocre e mal conduzido, que, apesar de criticado, foi encaminhado pela banca porque reprovações não são interessantes para a avaliação de conceito do Programa. Normas do MEC.

4 – Já mestre, publica mais um artigo e entra no Doutorado, em 2012. Foi mais difícil que o Mestrado, porém mais fácil do que teria sido anos atrás, por conta do bom número de bolsas disponível. Boa parte daqueles colegas medianos desiste da vida acadêmica, mas aquele dito cujo sem perfil de cientista de alto nível também é aprovado. Afinal, ter bolsas desocupadas não é interessante, porque senão o Programa é obrigado a devolvê-las. Normas do MEC.

5 – Sua bolsa de R$ 2.500,00 já ajuda um pouco sua condição financeira, enquanto aquele colega engenheiro conta sobre sua primeira casa própria. Além disso, o amigo já contribui com o INSS, tem seguro desemprego, 13º salário, plano de saúde, cartão alimentação, entre outros benefícios. O Carinha não, tem só a bolsa e um abraço. Normas do MEC. Mas, tudo bem, é um investimento em longo prazo. Logo menos, ele tentará um concurso para ser professor universitário, com iniciais de cerca de R$9.000,00. Ele se esforça, publica artigos, dá aulas, redige a Tese, defende e é aprovado. O colega mediano faz um terço disso, mas também alcança o título.

6 – Eis que, em 2016, Doutor Carinha se depara com uma grave crise financeira. Cortes profundos no orçamento, principalmente no Ministério da Educação, tornam escassas as vagas como docente. Concursos em cidades remotas do interior, antes com dois, cinco concorrentes no máximo, contam hoje com 30, 50, 80.A solução então é caminhar urgentemente para um Pós-Doutorado, com bolsa de R$ 4.100,00, metade do que ganha seu amigo engenheiro, mas ok, dá um caldo bom, ainda que continue sem direitos trabalhistas. Pouco tempo atrás, as bolsas sobravam e os convites eram feitos pelo próprio professor. Hoje, ele enfrenta uma seleção com 30. Ele passa, o outro colega já fica pelo caminho, assim como centenas espalhados pelo país. O que eles estão fazendo agora?

O resumo da história é… Temos um exército de graduados analfabetos funcionais e de mestres que não merecem o título. Em um pelotão menor, mas ainda numeroso, doutores cujo diploma só serve para enfeitar a parede. Bilhões de reais gastos para investir e manter um grupo cujo retorno científico é pífio para o país. Entretanto, esse não é o pior cenário.

Alarmante é ver um outro exército de Carinhas, esse qualificado, com boas produções, só que desempregado e enfrentando a maior dificuldade financeira de suas vidas. Alguns há anos em bolsas de Pós-Doutorado, sem saberem se essas podem ser cortadas no ano seguinte. Se forem, nenhum mísero centavo de seguro desemprego. Na rua, ponto. Outros abandonando por vez a carreira para tentar os já escassos concursos públicos em outras áreas ou mesmo para fazer doces caseiros, entre outras alternativas.

Ao passo que o Governo acertou na criação de novas universidades, programas e bolsas de pós-graduação nesses últimos 14 anos, a gestão desse material humano e financeiro foi bastante descontrolada. Quantidade exacerbada de cursos criados sem demanda profissional, falta de política de cargos e carreiras para o cientista brasileiro, recursos transportados para um programa de intercâmbio que não exigia praticamente nenhum produto de um aluno de graduação (sobre Ciência Sem Fronteiras, teremos um post exclusivo), critérios de avaliação bem distantes da realidade das melhores universidades do mundo, além de uma série de outros absurdos.

Teremos cerca de dez anos pela frente para que essa curva entre oportunidades e demanda volte a estabilizar. Não tenho dúvidas de que alcançaremos isso. Mas, até lá, cabe a pergunta. O que faremos com os novos Carinhas que ainda surgem a cada vestibular?

Publicidade

O que pode ser mais importante que Ciência?

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

22 de Abril de 2015

Bem, eu sei que muitos já vão dar uma resposta pronta, possivelmente ligada a algo afetivo ou espiritual. Respeito demais (mesmo!). Mas vamos tentar, pelo menos agora, amarrar nossa pergunta a questões, digamos, mais “terrenas”.

Provavelmente, você está lendo esse texto em um computador ou quem sabe no seu celular ou tablet. Olhe bem para os componentes do seu aparelho. O plástico presente na maior parte dele não é matéria prima encontrada na natureza. Ele é desenvolvido a partir de décadas de pesquisa em materiais de resistência, durabilidade e baixo custo. A tela finíssima é graças ao advento e consolidação da nanotecnologia, ciência recente quando comparada aos códigos binários que permitem respostas eletrônicas aos seus comandos de digitação. Se você estiver num ambiente urbano, olhe tudo em sua volta e tenha a certeza de que cada item que você está vendo, desde a tinta da parede até os freios de um automóvel, só está aí porque milhares de cientistas investiram muito tempo, muito cérebro e muito dinheiro nisso. Se você por um acaso estivesse no meio da floresta agora, saiba que novas espécies são descobertas praticamente todos os dias e que as relações ecológicas entre seres vivos e o meio estão se revelando cada vez mais complexas, graças a pesquisadores que estão nos ajudando a como medir nossos impactos no planeta e a como resolvê-los. O que você comeu hoje passou por testes químicos e por décadas de melhoramento genético. A economia de uma nação é baseada em estatística avançada. O remédio que você tomou quando ficou doente não foi uma descoberta acidental. Uma cirurgia de sucesso não foi alcançada naquele momento, ela nasceu em dezenas de laboratórios bem antes disso. Em resumo, você não teria sequer chegado até aqui se não fosse pela Ciência.

Talvez, eu não tenha falado nenhuma novidade para você. Mas será que damos o real valor para esses processos? E eu ainda o convido a um seguinte questionamento. Pense mentalmente no nome de cinco cientistas… Agora pense mentalmente no nome de cinco cientistas brasileiros.

Aposto duas coisas agora. No primeiro desafio, sua mente visitou cientistas estrangeiros mais velhos como Einstein, Hawking, Darwin, Marie Curie, não é isso? Já o segundo eu arrisco dizer que foi bem mais difícil. Carlos Chagas, talvez?

Pois bem, vamos fazer um resumo agora da relação do brasileiro com a Ciência.

  • Ele acha que Ciência é só uma disciplina que se aprende na escola;
  • Ele não percebe que praticamente tudo o que ele consome advém de processos científicos complexos;
  • A imagem do cientista é tida por ele como um profissional que “descobre” coisas e não alguém que desenvolve coisas;
  • Para ele, os modelos de cientistas são estrangeiros e com pesquisas desenvolvidas no século passado, mesmo que ele não saiba ao certo o que esses cientistas de fato fizeram.

Tudo bem, mas qual o problema nisso? Simples. Uma sociedade que não entende Ciência, não a valoriza. Uma sociedade que não a valoriza não a consome. E uma sociedade que não a consome não a fomenta. E o que ganha uma sociedade ao fomentar Ciência? Vamos aos exemplos práticos.  O Japão resolveu investir maciçamente em Ciência após a II Guerra, que quase o destruiu por completo. Hoje, o país conta com quase 700.000 cientistas dentre os seus 127 milhões de habitantes. Com orçamento anual de cerca de 120 bilhões de dólares, a nação é líder mundial na produção de pesquisa fundamental e detém um PIB de quase 5 trilhões de dólares, cuja maior parte é fruto de insumos tecnológicos. Israel também em seu PIB de 290 bilhões fortemente atrelado à produção científico-tecnológica. Apesar de ter crescido bastante no número de publicações, o Brasil ocupa o 40º lugar em termos de relevância científica e a produção econômica advinda de nossas pesquisas é pífia, mesmo com PIB de US$ 2,2 trilhões. Mesmo se considerarmos o PIB per capita brasileiro (cerca de US$ 11.000), o Brasil ainda está atrás da Índia na produção científica, país que detém aproximadamente US$ 1.000 per capita, valor 10 vezes menor.

Ou seja, Ciência é um dos principais fatores de evolução de um país. Em termos políticos, sociais, educacionais e principalmente econômicos. Sabendo dessa necessidade, como mudar esse quadro de desvalorização no Brasil? A resposta é teoricamente óbvia, mas de aplicação prática complicada. Educação, claro. Mas se a educação formal não tem cumprido o papel de despertar a predileção para que esses jovens busquem na informal um maior aporte de conhecimento científico, a solução por enquanto é mudar a educação informal. E a melhor maneira é através da Internet e de recursos audiovisuais.

Podemos usar exemplos que já deram certo inclusive. Lembra do Mundo de Beackman, aquele cientista maluco que ao lado de uma garota e um rato gigante desvendavam vários experimentos? Ou quem sabe do Chocolate Surpresa, que vinha acompanhado de cartões repletos de informações incríveis? Ou ainda do Tíbio e Perônio, do Castelo Ratimbum? Se você lembrou desses programas com um sorriso no rosto, pensa que iniciativas como essa podem voltar a dar certo.

Há dezenas de canais virtuais como o Nerdologia, Canal do Pirula, Manual do Mundo, Física Marginal, que já estão cumprindo um papel fundamental para essa mudança. Agora, nós também resolvemos arriscar com o Zoa. Vamos ver no que isso vai dar. De qualquer forma, é um bom (re)começo. E que seja o início de um Brasil mais científico e, sobretudo, mais cientista.

Publicidade

O machismo e a Universidade

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

05 de Abril de 2015

Antes de começar definitivamente esse texto, é bom dizer que eu não sou a melhor pessoa para escrevê-lo. O motivo é muito simples: eu sou homem. Apesar de acreditar que a desconstrução do machismo deve contar com o papel masculino, é óbvio que a mulher deve ser a voz principal, uma vez que ela é a vítima desse processo. Portanto, ressalto desde já duas questões.

  • A discussão abaixo foi fundamentada apenas pelo que vi e ouvi ao longo desses 10 anos na Academia, imaginando fortemente que isso tudo foi muito pouco diante do problema real de quem vive isso na pele;
  • Não tenho a menor intenção de virar um paladino de “mulheres indefesas”. Primeiro, porque o movimento feminista não precisa desse “alicerce” e segundo porque é comum ver homens “feministas” buscando consciente ou inconscientemente esse status, que logo é abandonado após qualquer discordância mais radical de alguma mulher.

Mesmo diante dessa lacuna – metodológica, digamos – vamos ao que interessa.

O machismo acadêmico começa justamente nos primeiros dias de aula. Basta nos lembrarmos dos trotes que expõem a mulher a uma condição de objeto sexual. Inclusive, há diversas acusações de estupro arquivadas em ouvidorias de instituições de ensino superior que nunca foram sequer investigadas.

“Ah, mas tem mulher que participa dos trotes porque quer e até gosta” – dizem muitos. Não é bem por aí. Algumas são de fato forçadas e outras não gostam e participam pelo receio de não serem aceitas por um grupo. Mas sim, claro que algumas gostam ou aceitam tranquilamente, o que não invalida de forma alguma uma posição contrária sobre o assunto, já que as “brincadeiras” são um reflexo claro de um machismo arraigado em nossa sociedade e que também é reproduzido por mulheres.

Para além dessas questões entre estudantes, é no paralelo entre professor e aluna onde mora a maior gravidade, porque o machismo, quando existente, vem acompanhado de uma forte relação de poder. E ele é exercido em diversos níveis. Desde aqueles professores que beneficiam somente alunas que ativamente dão em cima ou se insinuam para ele, até aqueles que perseguem e prejudicam meninas que negaram suas investidas. O mais preocupante é saber que são fatos bem comuns dentro das instituições de ensino superior e que muito pouco é feito para coibir isso.

Mesmo após formadas, o problema se estende para muitas que optam pelos cursos de pós-graduação, talvez não tanto em relação a professores de disciplinas, mas sim quanto ao relacionamento com o orientador.  Alguns dos casos de assédio sexual também se repetem nessa fase, mas há fatores adicionais mais comuns e menos debatidos, como o sentimento de poder que alguns orientadores imprimem sobre suas alunas, de forma muito mais intensa do que o imprimido sobre seus alunos.

Em 2013, orientei uma aluna que concluiu uma excelente monografia e que tinha tem todos os requisitos para ingressar em um Mestrado referenciado. Entretanto, ela resolveu casar e morar com o esposo, que havia assumido um consultório de odontologia no interior do Ceará. O que eu podia fazer? Absolutamente nada. Qual era meu direito de criticar sua decisão? Nenhum. Ela tomou a decisão que a deixava mais feliz no momento e isso só diz respeito a ela e aos seus. Parte dessa minha posição foi tomada porque exatamente naquele período eu vivenciava o sofrimento de uma colega de profissão que tinha ouvido de seu orientador que ela deveria escolher entre a dissertação e o namoro, uma proposta que já vinha precedida de diversas formas de controle pessoal que jamais eram direcionadas aos alunos homens.

Mesmo que felizmente a grande massa de pesquisadoras passem incólumes ou sequer experimentem essas adversidades, a maioria delas ainda assim é obrigada a passar por uma situação delicada sob um ponto de vista social e biológico e que também envolve o machismo em larga escala.

Se uma aluna entra na faculdade com 18 anos, termina o curso em quatro, entra direto no Mestrado e logo depois no Doutorado, ela será doutora aos 28 anos. Essa mulher é uma exceção, porque a faixa etária média de conclusão de todo esse processo supera pouco mais de 30 anos.  Seja lá como for, ela chegará nessa idade geralmente sem nunca ter tido um emprego com carteira assinada, batalhando por um concurso que pode ser alcançado somente anos depois e consequentemente atrasando ainda mais sua estabilidade financeira.

Até aí, a realidade do homem acadêmico é a mesma. Mas é nesse momento que o problema das diferenças biológicas entre gêneros é revelado, quando a mulher seguiu toda sua então fase adulta dedicada exclusivamente à Academia. A época de sua maior ascensão profissional, entre 30 e 35 anos, coincide justamente quando o corpo da mulher já está em alerta. “Ô minha querida, tá na hora hein? Se demorar mais, vai ser difícil sair criança daqui viu?”. Nesse momento, há duas pressões sociais em jogo. 1) A de ser mãe, uma pressão antiga e geralmente de origem familiar ou de ciclos sociais mais próximos e 2) a de ser uma profissional de sucesso, essa já bem mais recente, de origem mais midiática e de maior amplitude social.

É possível atender as duas expectativas? Sim, mas não é a regra. O padrão é dar prioridade a somente uma dessas opções ou pelo menos de cada vez. Quando um dos cônjuges tem de abrir mão temporária ou totalmente de sua carreira para cuidar dos filhos ou para acompanhar o parceiro que teve que se mudar para progredir profissionalmente, é muito mais comum que esse papel recaia sobre a mulher.

O cenário fica mais complicado em caso de gravidez. Apesar da Ciência brasileira ter seu principal alicerce laboral concentrado nas pesquisas de pós-graduandos, esses profissionais não recebem carteira assinada, décimo terceiro, férias, seguro desemprego, muito menos licença maternidade. Além de geralmente ter que suspender a pesquisa, a mulher de repente começa a depender completamente de auxílio financeiro do parceiro ou de familiares, em um momento extremamente delicado. E se ela não tiver esse apoio?

Apesar de todas essas questões, é importante comentar que houve muitos avanços quando comparados a décadas anteriores. É muito raro, pelo menos nas paredes acadêmicas, alguém menosprezar a capacidade intelectual de uma pesquisadora por ser mulher nos dias de hoje. Contudo, embora haja centenas de mulheres reconhecidamente brilhantes no vagão do avanço científico nacional, apenas oito ocupam o ranking dos 100 cientistas com maior número de publicações e citações no Google Acadêmico. Isso porque homens são mais competentes? De forma alguma. Citando o físico e divulgador Neil deGrasse Tayson, antes de sequer considerarmos diferenças intelectuais entre homens e mulheres, teríamos que garantir um sistema onde existam oportunidades iguais para ambos os gêneros. Pelo que vimos até aqui, estamos longe disso.

 

 

 

 

 

Publicidade

De quem é a culpa pela crise hídrica nacional?

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

05 de Fevereiro de 2015

Em meio a uma grave crise dos recursos hídricos brasileiros, surgem dezenas de explicações geográficas, geológicas e biológicas para explicar esse cenário de escassez.  Mas, será mesmo que isso é culpa das reações da natureza?

 

A resposta é “majoritariamente não”, mas antes de adentrar o foco do texto, é importante deixar claras algumas questões. Sim, estamos mesmo pagando caro pelo desrespeito histórico ao meio ambiente. O desmatamento das áreas ao redor de nascentes de rios diminui a vazão hídrica para taxas muitas vezes iguais a zero. Isso se agrava com a retirada das matas ciliares que margeiam esses rios, o que aumenta o índice de erosões e provoca assoreamento. Além disso, o desflorestamento na Amazônia faz com que as taxas de evaporação declinem vertiginosamente, impedindo a formação dos chamados “rios aéreos”, que são massas de ar úmidas que levam as chuvas para a porção oriental do país, incluindo Nordeste e Sudeste. E esses são só alguns das centenas de exemplos.

 

Porém, essas explicações deixam a classe política numa posição confortável, já que fica muito mais fácil jogar a batata quente para quem a plantou lá no passado. Há ainda um conforto mais perigoso, que é do de culpar um desequilíbrio ambiental global (cujo responsável se chama “humanidade”, ou seja, ninguém em específico) ou até mesmo o de recorrer a instâncias divinas, como fez o ministro Eduardo Braga (Minas e Energia), quando menciona que “Deus é brasileiro e temos que contar que ele vai trazer um pouco de umidade e chuva”.

 

Ora, vamos lá. Para início de conversa, é necessário sabermos que, para que você encha um balde d’água em sua casa, quase 40% da capacidade desse balde foi jogada fora antes de chegar lá. E você paga indiretamente por esse desperdício, principalmente quando falta, já que escassez de recurso é igual a aumento de imposto. Isso tudo porque os sistemas de tubulação, bombeamento e escoamento não recebem investimentos de manutenção necessários para corrigir esse problema. Para ilustrar melhor, é como se você pagasse para abastecer completamente seu carro com gasolina (que tá cara hein?) e resolvesse derramar no chão quase meio tanque. Em estados do Nordeste brasileiro como Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte, onde a seca atual é considerada como a pior dos últimos 55 anos, essa escassez é um processo comum, mas que nunca foi acompanhada por projetos que antecipassem suas consequências para a população rural de forma efetiva. As soluções são quase sempre paliativas e sintomáticas. Prevenir nunca foi tão atuante quanto remediar (e mal remediado, diga-se de passagem).

 

E vale lembrar que esse desmantelo não é privilégio de um governo específico, já que gestão hídrica é de jurisdição principalmente estadual. É o caso de São Paulo. Até 1985, o Sistema Cantareira tinha um sistema de reserva que suportava até três anos de seca. Esse sistema era reformado a cada vez que a demanda aumentava. Depois dessa data, não houve uma melhoria proporcional dessas estruturas. Há 15 anos, a capacidade já era de 12 meses. No ano 2000, caiu para nove e hoje essa capacidade está próxima de zero. A demanda aumentou, mas “esqueceram” de olhar para o futuro.

 

E se você acha que o aumento dessa demanda está concentrado no aumento populacional urbano, ledo engano. É fato que isso influencia e é mais fato ainda que você deve sim economizar água e repensar seu modo de uso. Entretanto, ponha na conta da indústria e do agronegócio a utilização de mais de 90% da demanda, cujo modus operandi é completamente defasado e com políticas de racionamento e reutilização pífias.

 

Recentemente, a Academia Brasileira de Ciências emitiu um parecer onde afirma que indústria e agricultura devem responder em maior escala pelas consequências se não reduzirem ou adequarem suas operações. O órgão ainda aponta que caso não sejam realizadas ações de médio e longo prazo de caráter mais protecionista em relação ao meio ambiente, o sistema hídrico brasileiro entrará em colapso. E é bom ressaltar que isso não inclui de forma alguma a transposição de rios, como propõe o governo paulista. Atenção, é a Academia Brasileira de Ciências e não qualquer grupo sem embasamento a quem alguém pode ter pensado em chamar de “ecochato”.

 

Informações detalhadas sobre “o que fazer” e “o que não fazer” elaboradas por cientistas sérios estão disponíveis há muito tempo. Essa tragédia é anunciada pelo menos desde o final da década de 80 e essas informações continuam por aí. Se o Deus do Eduardo Braga for realmente brasileiro, melhor do que mandar chuva, seria mandar seu fiel estudar as escrituras… Científicas, claro.

Publicidade

Ciência Brasileira inicia 2015 com péssimas notícias

Por hugofernandesbio em Sem categoria

27 de Janeiro de 2015

O ano mal começou e os fatos que circularam nas redes sociais, principalmente nos perfis da classe acadêmica, não foram nenhum pouco animadores quando o assunto é o presente e o futuro da Ciência no Brasil.

Em menos de um mês, fomos arrebatados por manchetes que podem ser divididas entre a triste realidade atual e o pessimismo do que ainda pode estar por vir.

 

Atraso e cancelamento de bolsas de pesquisa

A Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação (MEC), é o órgão responsável pelo maior número de bolsas de pós-graduação concedidas no país, com orçamento anual de 4,3 bilhões de reais. Tal orçamento já está beirando o vermelho, o que certamente motivou o atraso de milhares de depósitos que deveriam ter sido efetuados nas contas de quem contribui, em maior número, para a produção científica nacional: o estudante de pós-graduação.

Esse cenário foi formado desde novembro do ano passado e somente agora, no fim de janeiro, começou a se estabilizar. Para o trabalhador padrão, com contrato em carteira assinada, fim de ano é época de tormento devido principalmente ao acúmulo de contas a pagar, correto? Imaginem esse tormento para um bolsista que não recebe 13º salário, férias ou qualquer tipo de gratificação, ainda que seja obrigado a fornecer dedicação exclusiva de seu trabalho para garantir o sustento de sua pesquisa, dele próprio e muitas vezes de sua família. Agora, tentem mensurar o quanto esse fato se agrava com um atraso dessa magnitude. O secretário executivo do MEC, Luiz Claudio Costa, informou à Associação Nacional de Estudantes de Pós-Graduação (ANPG) que o atraso se deu por conta de complicações com o fluxo de orçamento do Tesouro Nacional, que estava parado até o dia 08. Ainda não se sabe se a situação foi completamente normalizada.

O panorama é ainda mais grave para 1500 pesquisadores dos Programas de Recursos Humanos da ANP/MCTI da área de petróleo, gás e biocombustível, que realizam pesquisas de ponta no país. Até o momento, não foi apresentada uma previsão orçamentária para manter as bolsas, que podem ser canceladas esse ano, causando problemas financeiros graves aos cientistas e interrompendo pesquisas importantes, um prejuízo imensurável para o avanço científico-tecnológico brasileiro.

 

Suspensão das atividades do Museu Nacional 

Entre os dias 12 e 24 de janeiro, o maior e mais antigo acervo científico do país, o Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro, esteve de portas fechadas para visitação devido ao não pagamento de empresas terceirizadas que fazem serviço de vigilância e limpeza. Mais uma para a conta do MEC, que não transferiu os repasses, utilizando a mesma desculpa sobre complicações com o Tesouro. Semelhante ao tópico acima, essa notícia não poderia ter vindo em época pior.

O período de férias escolares é responsável pela demanda de mais de 5.000 visitantes por dia. Em um país onde museu não faz parte da rotina turística ou familiar, a suspensão das atividades do maior deles é muito grave. A ponte entre o conhecimento produzido por cientistas e o adquirido pela sociedade tem nos museus um de seus principais alicerces. Pelo que estamos presenciando, esses alicerces estão sendo mantidos com farinha da pior qualidade.

 

Ameaças de setores pesqueiros sobre a lista de animais ameaçados 

Após a publicação da nova lista nacional de animais ameaçados de extinção (por sinal, uma das poucas boas notícias científicas desse período), o Sindicato dos Pescadores de Itajaí, região que abriga uma das maiores produções pesqueiras do país, realizou uma intervenção que impediu a partida de um cruzeiro no porto local, em protesto pela publicação da Portaria do Ministério do Meio Ambiente no 445/2014, que trata especificamente de peixes e invertebrados aquáticos em situação de risco no Brasil.

O presidente do sindicato, Giovani Monteiro, afirma que algumas espécies listadas como ameaçadas, na realidade, seriam abundantes, como por exemplo cações e arraias. Uma afirmação como essa soa quase como piada quando se mostra que tubarões (ressaltando que cação é um nome comercial para filhote de tubarão) e arraias fazem parte do grupo dos Elasmobrânquios, um dos mais ameaçados dentre os vertebrados aquáticos. Entretanto, essa reação por parte do setor pesqueiro já era esperada. Inesperada e descabida é a postura do Ministério do Meio Ambiente em considerar a criação de um grupo de trabalho interno, junto com o Ministério da Pesca e Aquicultura, para analisarem uma possibilidade de revogação da portaria.

A lista de animais ameaçados foi baseada no estudo minucioso de dezenas de pesquisadores renomados e especializados, que, para essa conclusão, utilizaram dados e métodos adequados. Atender essa legislação é essencial, inclusive, para a própria manutenção dos recursos de pesca. Em resposta a essa intervenção, diversas entidades de cunho acadêmico e conservacionista assinaram uma nota de apoio incondicional à portaria publicada.

O Dr. Ronaldo Francini-Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba, foi um dos coordenadores científicos da lista de peixes ameaçados e atua há mais de dez anos na elaboração de status de conservação de espécies. O biólogo cita que a lista é um dos maiores avanços para a conservação ambiental no Brasil, mas que, para um melhor aproveitamento nas gestões públicas, foi proposto ao Ministério do Ambiente um diálogo prévio entre os cientistas e os demais setores da sociedade, incluindo a indústria pesqueira e comunidades tradicionais, o que não foi atendido pelo órgão.

“Propor uma reconsideração tardia dessa portaria somente entre os ministérios e sem a participação dos cientistas é um retrocesso” – ressalta Francini-Filho.

 

O novo (e polêmico) cenário político

Ciência no Brasil é mantida majoritariamente por recursos públicos, que são geridos principalmente por dois ministérios, o da Educação (MEC) e o de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), embora a questão científica seja pauta constante em outros prédios da Esplanada, como os que abrigam Meio Ambiente (MMA), Minas e Energia (MME), Sáude (MS), entre outros. Nesse contexto, a escolha da presidente Dilma Roussef quanto aos nomes desses ministérios não agradou nenhum pouco a classe acadêmica.

Cid Gomes (PROS/CE), autor da famosa e fatídica frase “Quem quer dar aula, faz isso por gosto e não pelo salário”, foi nomeado Ministro da Educação. Se sua atuação em relação ao ensino superior no Ministério for semelhante àquela demonstrada enquanto Governador do Estado do Ceará, certamente enfrentaremos alguns percalços. As universidades estaduais (Universidade Estadual do Ceará, Universidade Regional do Cariri e Universidade Estadual do Vale do Acaraú) enfrentam graves problemas estruturais e há passivos trabalhistas pendentes em favor do professorado, o que motivou diversas greves ao longo dos dois mandatos de Gomes. Por sinal, o atual ministro cumpriu sua última gestão estadual enquanto centenas de professores das três universidades ainda estavam de braços cruzados.

Porém, a nomeação mais polêmica, tanto pela dependência direta desse ministério em relação aos investimentos em pesquisa, como pelo histórico do político em questão, foi sem dúvida a de Aldo Rebelo (PCdoB/SP) para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Estamos falando de um senhor que nega, sem qualquer embasamento, a existência do aquecimento global, uma realidade atestada por milhares de cientistas sérios e negada por meia dúzia de pesquisadores que não dominam o assunto, mas que motivam milhares de leigos (muitas vezes, sem um pingo de seriedade) a militarem contra um fato. Como se não bastasse, ele foi o principal nome da última votação e aprovação do Novo Código Florestal, que enfraqueceu a proteção, que já era pífia, do meio ambiente brasileiro. O projeto foi veementemente reprovado por centenas entidades científicas, inclusive as mais importantes do Brasil e do exterior. Ou seja, ele não acredita na Ciência. Ademais, Rebelo já elaborou projeto de lei que visava proibir inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra. Ou seja, pelo visto, ele também não acredita na Tecnologia e Inovação. Assim, fica difícil digerir.

 

Essas notícias ainda vem amargamente acompanhadas pelo pacote de contenção de gastos anunciados pelo Governo Federal, que atingem majoritariamente o Ministério da Educação. Se esse blog não fosse científico, torceria para que a Ciência no Brasil estivesse passando apenas por um “inferno astral”, o que seria muito bom já que, pelo que me falaram, trata-se de algo passageiro. Mas como os preceitos aqui são outros, o que podemos concluir é que a perspectiva para o resto do ano (ou até mais), infelizmente, não é das melhores.

Publicidade

Ciência Brasileira inicia 2015 com péssimas notícias

Por hugofernandesbio em Sem categoria

27 de Janeiro de 2015

O ano mal começou e os fatos que circularam nas redes sociais, principalmente nos perfis da classe acadêmica, não foram nenhum pouco animadores quando o assunto é o presente e o futuro da Ciência no Brasil.

Em menos de um mês, fomos arrebatados por manchetes que podem ser divididas entre a triste realidade atual e o pessimismo do que ainda pode estar por vir.

 

Atraso e cancelamento de bolsas de pesquisa

A Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação (MEC), é o órgão responsável pelo maior número de bolsas de pós-graduação concedidas no país, com orçamento anual de 4,3 bilhões de reais. Tal orçamento já está beirando o vermelho, o que certamente motivou o atraso de milhares de depósitos que deveriam ter sido efetuados nas contas de quem contribui, em maior número, para a produção científica nacional: o estudante de pós-graduação.

Esse cenário foi formado desde novembro do ano passado e somente agora, no fim de janeiro, começou a se estabilizar. Para o trabalhador padrão, com contrato em carteira assinada, fim de ano é época de tormento devido principalmente ao acúmulo de contas a pagar, correto? Imaginem esse tormento para um bolsista que não recebe 13º salário, férias ou qualquer tipo de gratificação, ainda que seja obrigado a fornecer dedicação exclusiva de seu trabalho para garantir o sustento de sua pesquisa, dele próprio e muitas vezes de sua família. Agora, tentem mensurar o quanto esse fato se agrava com um atraso dessa magnitude. O secretário executivo do MEC, Luiz Claudio Costa, informou à Associação Nacional de Estudantes de Pós-Graduação (ANPG) que o atraso se deu por conta de complicações com o fluxo de orçamento do Tesouro Nacional, que estava parado até o dia 08. Ainda não se sabe se a situação foi completamente normalizada.

O panorama é ainda mais grave para 1500 pesquisadores dos Programas de Recursos Humanos da ANP/MCTI da área de petróleo, gás e biocombustível, que realizam pesquisas de ponta no país. Até o momento, não foi apresentada uma previsão orçamentária para manter as bolsas, que podem ser canceladas esse ano, causando problemas financeiros graves aos cientistas e interrompendo pesquisas importantes, um prejuízo imensurável para o avanço científico-tecnológico brasileiro.

 

Suspensão das atividades do Museu Nacional 

Entre os dias 12 e 24 de janeiro, o maior e mais antigo acervo científico do país, o Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro, esteve de portas fechadas para visitação devido ao não pagamento de empresas terceirizadas que fazem serviço de vigilância e limpeza. Mais uma para a conta do MEC, que não transferiu os repasses, utilizando a mesma desculpa sobre complicações com o Tesouro. Semelhante ao tópico acima, essa notícia não poderia ter vindo em época pior.

O período de férias escolares é responsável pela demanda de mais de 5.000 visitantes por dia. Em um país onde museu não faz parte da rotina turística ou familiar, a suspensão das atividades do maior deles é muito grave. A ponte entre o conhecimento produzido por cientistas e o adquirido pela sociedade tem nos museus um de seus principais alicerces. Pelo que estamos presenciando, esses alicerces estão sendo mantidos com farinha da pior qualidade.

 

Ameaças de setores pesqueiros sobre a lista de animais ameaçados 

Após a publicação da nova lista nacional de animais ameaçados de extinção (por sinal, uma das poucas boas notícias científicas desse período), o Sindicato dos Pescadores de Itajaí, região que abriga uma das maiores produções pesqueiras do país, realizou uma intervenção que impediu a partida de um cruzeiro no porto local, em protesto pela publicação da Portaria do Ministério do Meio Ambiente no 445/2014, que trata especificamente de peixes e invertebrados aquáticos em situação de risco no Brasil.

O presidente do sindicato, Giovani Monteiro, afirma que algumas espécies listadas como ameaçadas, na realidade, seriam abundantes, como por exemplo cações e arraias. Uma afirmação como essa soa quase como piada quando se mostra que tubarões (ressaltando que cação é um nome comercial para filhote de tubarão) e arraias fazem parte do grupo dos Elasmobrânquios, um dos mais ameaçados dentre os vertebrados aquáticos. Entretanto, essa reação por parte do setor pesqueiro já era esperada. Inesperada e descabida é a postura do Ministério do Meio Ambiente em considerar a criação de um grupo de trabalho interno, junto com o Ministério da Pesca e Aquicultura, para analisarem uma possibilidade de revogação da portaria.

A lista de animais ameaçados foi baseada no estudo minucioso de dezenas de pesquisadores renomados e especializados, que, para essa conclusão, utilizaram dados e métodos adequados. Atender essa legislação é essencial, inclusive, para a própria manutenção dos recursos de pesca. Em resposta a essa intervenção, diversas entidades de cunho acadêmico e conservacionista assinaram uma nota de apoio incondicional à portaria publicada.

O Dr. Ronaldo Francini-Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba, foi um dos coordenadores científicos da lista de peixes ameaçados e atua há mais de dez anos na elaboração de status de conservação de espécies. O biólogo cita que a lista é um dos maiores avanços para a conservação ambiental no Brasil, mas que, para um melhor aproveitamento nas gestões públicas, foi proposto ao Ministério do Ambiente um diálogo prévio entre os cientistas e os demais setores da sociedade, incluindo a indústria pesqueira e comunidades tradicionais, o que não foi atendido pelo órgão.

“Propor uma reconsideração tardia dessa portaria somente entre os ministérios e sem a participação dos cientistas é um retrocesso” – ressalta Francini-Filho.

 

O novo (e polêmico) cenário político

Ciência no Brasil é mantida majoritariamente por recursos públicos, que são geridos principalmente por dois ministérios, o da Educação (MEC) e o de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), embora a questão científica seja pauta constante em outros prédios da Esplanada, como os que abrigam Meio Ambiente (MMA), Minas e Energia (MME), Sáude (MS), entre outros. Nesse contexto, a escolha da presidente Dilma Roussef quanto aos nomes desses ministérios não agradou nenhum pouco a classe acadêmica.

Cid Gomes (PROS/CE), autor da famosa e fatídica frase “Quem quer dar aula, faz isso por gosto e não pelo salário”, foi nomeado Ministro da Educação. Se sua atuação em relação ao ensino superior no Ministério for semelhante àquela demonstrada enquanto Governador do Estado do Ceará, certamente enfrentaremos alguns percalços. As universidades estaduais (Universidade Estadual do Ceará, Universidade Regional do Cariri e Universidade Estadual do Vale do Acaraú) enfrentam graves problemas estruturais e há passivos trabalhistas pendentes em favor do professorado, o que motivou diversas greves ao longo dos dois mandatos de Gomes. Por sinal, o atual ministro cumpriu sua última gestão estadual enquanto centenas de professores das três universidades ainda estavam de braços cruzados.

Porém, a nomeação mais polêmica, tanto pela dependência direta desse ministério em relação aos investimentos em pesquisa, como pelo histórico do político em questão, foi sem dúvida a de Aldo Rebelo (PCdoB/SP) para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Estamos falando de um senhor que nega, sem qualquer embasamento, a existência do aquecimento global, uma realidade atestada por milhares de cientistas sérios e negada por meia dúzia de pesquisadores que não dominam o assunto, mas que motivam milhares de leigos (muitas vezes, sem um pingo de seriedade) a militarem contra um fato. Como se não bastasse, ele foi o principal nome da última votação e aprovação do Novo Código Florestal, que enfraqueceu a proteção, que já era pífia, do meio ambiente brasileiro. O projeto foi veementemente reprovado por centenas entidades científicas, inclusive as mais importantes do Brasil e do exterior. Ou seja, ele não acredita na Ciência. Ademais, Rebelo já elaborou projeto de lei que visava proibir inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra. Ou seja, pelo visto, ele também não acredita na Tecnologia e Inovação. Assim, fica difícil digerir.

 

Essas notícias ainda vem amargamente acompanhadas pelo pacote de contenção de gastos anunciados pelo Governo Federal, que atingem majoritariamente o Ministério da Educação. Se esse blog não fosse científico, torceria para que a Ciência no Brasil estivesse passando apenas por um “inferno astral”, o que seria muito bom já que, pelo que me falaram, trata-se de algo passageiro. Mas como os preceitos aqui são outros, o que podemos concluir é que a perspectiva para o resto do ano (ou até mais), infelizmente, não é das melhores.