setembro 2019 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

setembro 2019

O progressismo linha dura de Camilo Santana

Por Wanfil em Ceará

26 de setembro de 2019

Se é verdade que o domínio da linguagem corresponde ao domínio do discurso, e este, por sua vez, permite a possibilidade de domínio do poder, as declarações do governador Camilo Santana diante de mais uma onda de ataques no Ceará são mais eloquentes do que podem parecer.

Políticos possuem uma especial capacidade submeter suas falas às circunstâncias. Se percebem que o ambiente mudou, modulam seus posicionamentos e ajustam a linguagem e o discurso. Camilo é do Partido dos Trabalhadores, portanto, um social-democrata mais à esquerda, ou um progressista, como seus adeptos preferem ser chamados. E todos conhecem o discurso do progressismo sobre segurança. Repressão não adianta, prisões aumentam o crime, punir é errado (o certo e recuperar), e por aí vai. Entretanto, é possível perceber que as expressões utilizadas pelo governador se deslocaram para uma abordagem mais linha dura.

Nas redes sociais, ainda na terça-feira, o petista chamou bandido de bandido (e não de suspeito), repetiu a palavra enfrentamento várias vezes, disse que a polícia vai trabalhar de forma firme e que “a possibilidade de regalias no sistema prisional é zero”. Falei sobre isso na coluna que faço para a Tribuna Band News Fortaleza. Agora, nesta quinta-feira, o site UOL estampou como manchete o seguinte: Governador do CE contraria PT e pede lei antiterrorismo após novos ataques.

Nada contra, pelo contrário. Aliás, é importante a presença mais assertiva do chefe do Executivo nesse momento de crise. Mas, politicamente, é preciso fazer a constatação: descontadas as diferenças de estilo e intensidade, trata-se inegavelmente de uma concessão ao discurso sobre segurança pública que ajudou a eleger Jair Bolsonaro. Não por acaso, a oposição tem elogiado a postura do governo cearense. Pudera. Se linguagem é poder, esse episódio revela que esse discurso mais duro no combate ao crime será a linha adotada, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, nas próximas eleições. Como diz o ditado, em terra de sapo, de cócoras com ele.

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Os novos ataques e a segurança pública no Ceará: do discurso à realidade

Por Wanfil em Segurança

24 de setembro de 2019

Governador Camilo Santana reunido com gestores de segurança: nova onda de ataques surpreende autoridades  no Ceará – Foto: divulgação

Depois que a onda de ataques promovidos por facções criminosas no Ceará foi debelada, no início deste ano, com a atuação conjunta de forças estaduais e federais, o índice de homicídios no Estado recuou 56,5% no primeiro semestre, segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Setores do Governo do Ceará e do Governo Federal passaram a enfatizar suas iniciativas, como se o problema estivesse resolvido ou, no mínimo, praticamente imune a retrocessos. Como discípulos do Doutor Pangloss, deixavam a entender que tudo seguia da melhor forma dentro do melhor cenário possível.

As exceções foram a Secretaria de Administração Penitenciária do Ceará, com Mauro Albuquerque lembrando que a contenção das facções nos presídios é um longo processo que requer, inclusive, mais treinamento para os agentes penitenciários, e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, com Sérgio Moro elogiando governadores, mas pedindo prudência, pois os números ainda precisam se consolidar para uma avaliação mais precisa das ações. O resto preferiu fazer política.

Inclusive, na página de notícias do governo cearense não há mais menções à colaboração federal, como já mostrei em outros posts: Trabalho das forças de segurança do Ceará resulta na redução dos CVLIs no primeiro semestre de 2019 e Referência no Brasil, Ceará chega ao 17° mês seguido de queda nos crimes violentos. Fica evidente a insinuação, sutil, de que os números positivos de 2019 seriam obra exclusiva de escolhas estaduais.

Não é o caso de deixar de reconhecer avanços e acertos estaduais ou de superestimar a ajuda federal, mas de entender, agora que uma nova onda de ataques organizados por facções surpreendeu as autoridades cearenses, que a opção por uma estratégia de comunicação contaminada pela narrativa política foi equivocada. É que discursos dessa natureza criam expectativas e muitas vezes, ilusões, que podem ser desfeitas pela realidade. E agora, de quem é a responsabilidade?

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O PIB cearense e o rabo do cachorro

Por Wanfil em Economia

20 de setembro de 2019

O PIB do Ceará cresceu o dobro do PIB brasileiro no segundo trimestre de 2019, em comparação com o mesmo período de 2018. Foram 2,08% de alta, conforme o divulgado pelo IPECE, contra 1% do produto nacional, medido pelo IBGE. Colocados em contraposição, os números até lembram um placar, porém, as coisas são mais complexas, claro, pois não há competição e todos são (teoricamente) do mesmo time.

Comentei sobre o assunto nesta sexta-feira, na Tribuna Band News Fortaleza (101.7). Reproduzo alguns trechos abaixo. No final, explico o título do post:

Os números ainda não os ideais, mas indicam um fluxo positivo. O desarranjo nas contas públicas brasileiras que levou o país à recessão, ainda está longe de ser superado. Os cortes e contingenciamentos nos orçamentos estaduais e federal não ocorrem por capricho, para mas cobrir o buraco deixado pela crise. São processos lentos. Não é questão de ser otimista ou pessimista, de ser de esquerda, de centro ou de direita, mas de números.

Medidas adotadas pelo governo do Ceará, como a concessão do aeroporto para a iniciativa privada, foram sem dúvida importantíssimas para esse resultado, da mesma forma que a aprovação da reforma da Previdência (que não contou com o emprenho de alguns governadores) animou investidores. Está tudo conectado.”

É isso. Ainda existem reformas a serem discutidas, como a tributária. O novo marco regulatório para o saneamento básico também é matéria de grande impacto para o crescimento econômico e desenvolvimento social. Não adianta comemorar PIB estadual se não trabalhar, no Congresso Nacional, em favor da recuperação da economia brasileira. O todo, como dizia Aristóteles, é maior que a soma das partes. E nesse caso, adaptando a teoria pra a política econômica, as partes dependem do todo : não há como unidades da federação prosperarem de forma sustentada, se o resto desanda. Como diz a piada, não é o rabo que balança o cachorro, mas o contrário.

O paradoxo político dessa lógica é o seguinte: se estados opositores ao governo federal, como os do Nordeste, apoiam as reformas, ou pelo menos trabalham para construir consensos, acabam fortalecendo o discurso dos governistas. Se as sabotam, atrasando ou inviabilizando a retomada do crescimento, seus estados sofrerão as consequências, prejudicando também a imagem dos governos estaduais. Nesse jogo, todos de olha nas pesquisas e nas redes sociais.

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Governadores do Nordeste viralizam vídeo do SBT para promover a região

Por Wanfil em Jangadeiro

19 de setembro de 2019

No encontro do Consórcio Nordeste, realizado em Natal (RN) na última segunda-feira (16), os governadores da região assistiram a um vídeo que mostra os “Vários Nordestes”, com suas riquezas e especificidades. Desde então a peça viralizou nas redes sociais, especialmente, claro, entre os nordestinos.

O que muitos não sabem é que o vídeo foi produzido pela Delantero, premiada agência de publicidade do Ceará, para o SBT Nordeste, da qual, naturalmente, faz parte a TV Jangadeiro. Vale conferir:

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CPI da Lava Jato é pauta que une PT e PDT

Por Wanfil em Política

17 de setembro de 2019

Divergências à parte, descontados alguns discursos, ninguém solta a mão de ninguém

A ambiguidade é um recurso muito usado na política, afinal, é a arte do possível, mas em excesso pode causar contradições que levam ao descrédito.

Explico: enquanto Ciro Gomes chama Lula de corrupto, Fernando Haddad de fraude e o PT de quadrilha, seu partido PDT une forças com esse mesmo PT por uma CPI na Câmara dos Deputados para investigar a Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro, atualmente ministro da Justiça. Acusar os ex-aliados de corrupção e ao mesmo tempo ajudá-los a constranger os investigadores que revelaram seu esquema criminoso, é ultrapassar a linha que separa ambiguidade de contradição.

O PDT até pode alegar que reconhecer o crimes do petismo não implica em concordar com os métodos da Lava Jato. É verdade, e para isso é possível apelar a outras instâncias, como o STF. Mas ao optar pela ação política, via comissão parlamentar de inquérito, em aliança com os principais investigados pela Lava Jato, os pedetistas assumem, ou endossam, um discurso contraditório ao seu, pois o PT alega inocência e se diz vítima de perseguição de uma conspiração judiciária.

No fim das contas, a conclusão não pode ser outra: discursos públicos, discordâncias, troca de farpas e ressentimentos à parte, no que interessa mesmo, PT e PDT estão sempre juntos.

Cearenses que defendem a CPI da Lava Jato

Para selar a parceria, um dos autores do pedido de CPI é o deputado federal André Figueiredo, do PDT do Ceará. De resto, da bancada cearense, também assinam o pedido para investigar a investigação contra a corrupção os deputados Aníbal Gomes (MDB), Denis Bezerra (PSB), Domingos Neto (PSD), Eduardo Bismarck (PDT), Idilvan Alencar (PDT), José Aírton (PT), José Guimarães (PT), Júnior Mano (PL), Leônidas Cristino (PDT), Luizianne Lins (PT), Moses Rodrigues (MDB), Robério Monteiro (PDT).

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Adversários políticos disputam protagonismo na Segurança pela redução dos homicídios no Ceará

Por Wanfil em Segurança

11 de setembro de 2019

Quando números da segurança melhoram: “Fui eu que fiz!”

O 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostrou redução de 10,4% nos assassinatos registrados no Brasil, entre 2017 e 2018. No Ceará o recuo chegou a 10,7%. Para 2019 a expectativa é ainda melhor: as quedas no primeiro semestre são 22% e 56,5%, respectivamente.

O governo do Ceará afirma que “os números positivos vêm de uma série de estratégias continuadas e aprimoradas” pela gestão estadual. O secretário nacional de Segurança Pública, general Guilherme Theophilo, afirmou ao jornal Gazeta do Povo que “Fizemos isso no Ceará, fizemos isso em Manaus, estamos fazendo em Altamira“.

É compreensível que cada um busque exaltar suas iniciativas. De todo modo, parece lógico concluir que sem um ambiente nacional favorável, dificilmente os estados conseguiriam reverter o quadro, e que sem o trabalho das gestões estaduais, que operam na ponta, os resultados nacionais não apareceriam. A política é que divide.

Nas gestões de Lula e Dilma Rousseff, do PT, o governo cearense não reclamava dos aliados. Quando Michel Temer assumiu a Presidência, só então as cobranças locais por uma política nacional de segurança se intensificaram. Agora, ainda na oposição, a parceria administrativa e operacional não é citada.

Essa disputa tem o seu lado positivo. No Ceará, a conversa de que o ideal é que todos (presidente, governador e prefeito) sejam aliados e do mesmo campo político prosperou na última década. Resultado: acabamos entre os estados mais violentos do Brasil. Pois é. Pelo visto, nem sempre é ruim ter adversários em esferas distintas de governo. Como precisam competir, quem não mostrar serviço, fica sem discurso.

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Meus heróis e o beijo gay dos quadrinhos

Por Wanfil em Crônica

10 de setembro de 2019

O heroísmo controverso dos quadrinhos e a liberdade de escolher a quem admirar

Cazuza, o cantor e compositor, disse que seus heróis (os dele) morreram de overdose. Pois bem, os meus morreriam de tédio nos dias de hoje. Basta ver o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, que tentou impedir a comercialização de uma revista em quadrinhos sob pretexto de salvar crianças de uma eventual exposição a um beijo homossexual. No meu tempo de criança, havia vilões como Lex Luthor, o sujeito sem poderes que encarava o Super-Homem. Agora o vilão é Marcelo Crivela. É de matar qualquer herói de tédio.

Mais tarde, já adolescente, li Conan, o Bárbaro, sujeito grosseirão que encerrava discussões com uma espada. Decapitações e bocas vertendo sangue em golfadas eram imagens banais, mas que eu me lembre a circulação de Conan, herói hétero, nunca foi questionada. De todo modo, não me tornei um carniceiro.

E daí? Como fica o direito dos pais que são contrários ao beijo gay? Ora, está garantido. Só não pode ser imposto a um evento privado, no caso, a Bienal do Livro (aliás, que me perdoem os fãs, mas bienais do livro abarrotadas de revistas em quadrinhos revelam a falta de prestígio – ou de qualidade – da nossa literatura). Eu procuro saber o que minhas filhas estão lendo, embora esteja ciente do mundo de informações circulando ao alcance delas, e que independente das minhas preferências e preocupações. O segredo é trabalhar com elas, desde cedo, a noção de elegância na sintaxe. É meio caminho andado para evitar porcarias.

Bem, cada um sabe de si, sem a necessidade da interferência autoritária dos governantes de plantão, sejam de esquerda ou de direita. Alias, por falar em ideologia, peço licença para uma digressão. É curioso ver o pessoal que não aceita a nomeação do novo reitor da Universidade Federal do Ceará, escolhido dentro da mais absoluta legalidade, argumentar que o Crivela desrespeita a lei. Pois é, o fato de não gostar de uma lei, não a invalida. Trata-se de um princípio. Vale para a liberdade de expressão, vale para nomeações em instituições de ensino superior. O resto é proselitismo. Fim da digressão.

Adulto, não leio mais quadrinhos. Acho aqueles uniformes e apelidos ridículos. Mas preservo um ideal de heroísmo, fácil de reconhecer na disposição de muitas pessoas em querer ajudar os outros e que se manifesta até mesmo nos pequenos gestos. Na verdade, no meu caso, são minhas filhas, ainda sob os meus cuidados, vivendo entre a infância e a adolescência, que me socorrem e me ajudam a corrigir velhos preconceitos discriminatórios do passado. São minhas heroínas. Cada um tem os heróis que escolhe.

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Meus heróis e o beijo gay dos quadrinhos

Por Wanfil em Crônica

10 de setembro de 2019

O heroísmo controverso dos quadrinhos e a liberdade de escolher a quem admirar

Cazuza, o cantor e compositor, disse que seus heróis (os dele) morreram de overdose. Pois bem, os meus morreriam de tédio nos dias de hoje. Basta ver o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, que tentou impedir a comercialização de uma revista em quadrinhos sob pretexto de salvar crianças de uma eventual exposição a um beijo homossexual. No meu tempo de criança, havia vilões como Lex Luthor, o sujeito sem poderes que encarava o Super-Homem. Agora o vilão é Marcelo Crivela. É de matar qualquer herói de tédio.

Mais tarde, já adolescente, li Conan, o Bárbaro, sujeito grosseirão que encerrava discussões com uma espada. Decapitações e bocas vertendo sangue em golfadas eram imagens banais, mas que eu me lembre a circulação de Conan, herói hétero, nunca foi questionada. De todo modo, não me tornei um carniceiro.

E daí? Como fica o direito dos pais que são contrários ao beijo gay? Ora, está garantido. Só não pode ser imposto a um evento privado, no caso, a Bienal do Livro (aliás, que me perdoem os fãs, mas bienais do livro abarrotadas de revistas em quadrinhos revelam a falta de prestígio – ou de qualidade – da nossa literatura). Eu procuro saber o que minhas filhas estão lendo, embora esteja ciente do mundo de informações circulando ao alcance delas, e que independente das minhas preferências e preocupações. O segredo é trabalhar com elas, desde cedo, a noção de elegância na sintaxe. É meio caminho andado para evitar porcarias.

Bem, cada um sabe de si, sem a necessidade da interferência autoritária dos governantes de plantão, sejam de esquerda ou de direita. Alias, por falar em ideologia, peço licença para uma digressão. É curioso ver o pessoal que não aceita a nomeação do novo reitor da Universidade Federal do Ceará, escolhido dentro da mais absoluta legalidade, argumentar que o Crivela desrespeita a lei. Pois é, o fato de não gostar de uma lei, não a invalida. Trata-se de um princípio. Vale para a liberdade de expressão, vale para nomeações em instituições de ensino superior. O resto é proselitismo. Fim da digressão.

Adulto, não leio mais quadrinhos. Acho aqueles uniformes e apelidos ridículos. Mas preservo um ideal de heroísmo, fácil de reconhecer na disposição de muitas pessoas em querer ajudar os outros e que se manifesta até mesmo nos pequenos gestos. Na verdade, no meu caso, são minhas filhas, ainda sob os meus cuidados, vivendo entre a infância e a adolescência, que me socorrem e me ajudam a corrigir velhos preconceitos discriminatórios do passado. São minhas heroínas. Cada um tem os heróis que escolhe.