12/12/2019 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

12/12/2019

O propósito do fim

Por Wanfil em Crônica

12 de dezembro de 2019

Segue a estrada – Photo on Visual hunt

O fim do ano está chegando, mas como sempre é um falso fim, porque outro ano se inicia e continuamos o que somos como se nada houvesse terminado. Não significa que esse fim não tenha o seu valor. É um limite, pois a consciência de nossa finitude nos impõe a procura – ou a espera – pelo fim. Normal. Esperar pelas mortes dos anos é uma forma de nos prepararmos para o inevitável.

Digo isso após ler o desabafo de Tarcísio Meira em recente entrevista à revista Veja: “Ninguém gosta de pensar que o fim está chegando. Mas ele está chegando para mim”. A comoção é natural, mas há um perigo na lógica do veterano ator. Perigo para os mais jovens, ou menos velhos, ressalte-se. É que para alguém aos 84 anos, como Tarcísio, a maior parte do viver já passou e o porvir é obviamente menor que o vivido. A longevidade pode reforçar a impressão de distanciamento da morte, quando na verdade o tempo que nos separa do fim, como alertava Rachel de Queiroz, pode ser apenas de minutos ou horas: “talvez nessa hora o mal que te vai consumir já esteja incubado no teu corpo, ou o automóvel que te vai matar já esteja rodando para o fatal encontro, ou a água que te vai afogar te espere uma armadilha, dez passos além”. O fim é imprevisível e não respeita hierarquias ou convenções.

Aliás, na mesma crônica onde pincei essa passagem de Rachel – Pensamentos de vida e de vivo – tem outra que me não me sai da cabeça desde que a li, num vestibular para a Universidade Federal do Ceará, há muitos anos: “Outra coisa não é a vida senão a preparação desse fim”, “mas na verdade estamos é consumindo mais um dia, mais uma semana, mais um mês, e nos aproximando cada vez mais do prazo, chegando cada vez mais perto do termo da nossa obrigação ou da nossa caminhada”. Parece uma forma pessimista de encarar a vida e o seu término, mas Rachel defende mesmo é que nos acostumemos a essa ideia sem maiores medos, porque isso é algo natural da própria vida. Cuidemos de viver o hoje, conclama a escritora.

O pior mesmo é quando o fim chega ainda quando estamos vivos, como relata Leon Tolstói, autor de Guerra e Paz, já famoso e rico, em Uma Confissão: “Minha vida parou. Eu podia respirar, comer, beber, dormir, porque não podia ficar sem respirar,  sem comer, sem beber, sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável. Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não o meu desejo, aquilo não daria em nada”.

Tolstói ansiava, no Século 19, encontrar um sentido maior para a vida. No Século 21, que tem na depressão o mal a ser combatido, esse sentido é mais comummente chamado de propósito. Só é feliz quem descobre o seu? Como saber onde procurá-lo? E encontrando-o, como reconhecê-lo antes do fim que se aproxima inexoravelmente? Teremos tempo?

Volto a Rachel de Queiroz: “O mal é se traçar essa barreira de pavor entre mortos e vivos, como se separação real houvesse realmente entre vida e morte. Quando afinal o morto é apenas o vivo que concluiu o trabalho de viver…”. (…) “Ora, deixa em paz o morto. Quem sabe a sua parte foi mais branda do que será a tua? Ele afinal correu o seu caminho, venceu a sua etapa; prepara-te pois para a tua e vê se sairás dela tão galhardamente, tão silenciosa e discreta e humildemente quanto ele se saiu da sua”.

Mais um ano termina e outro se aproxima. Poderemos tentar novamente. E isso nos alivia, porque no fundo pressentimos que sempre será possível recomeçar e aprender, mesmo após o fim. Esse é o propósito.

PS. Se você quiser ler outras crônicas e contos de minha autoria, é só conferir minha página na plataforma Medium: https://medium.com/@wanfil

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O propósito do fim

Por Wanfil em Crônica

12 de dezembro de 2019

Segue a estrada – Photo on Visual hunt

O fim do ano está chegando, mas como sempre é um falso fim, porque outro ano se inicia e continuamos o que somos como se nada houvesse terminado. Não significa que esse fim não tenha o seu valor. É um limite, pois a consciência de nossa finitude nos impõe a procura – ou a espera – pelo fim. Normal. Esperar pelas mortes dos anos é uma forma de nos prepararmos para o inevitável.

Digo isso após ler o desabafo de Tarcísio Meira em recente entrevista à revista Veja: “Ninguém gosta de pensar que o fim está chegando. Mas ele está chegando para mim”. A comoção é natural, mas há um perigo na lógica do veterano ator. Perigo para os mais jovens, ou menos velhos, ressalte-se. É que para alguém aos 84 anos, como Tarcísio, a maior parte do viver já passou e o porvir é obviamente menor que o vivido. A longevidade pode reforçar a impressão de distanciamento da morte, quando na verdade o tempo que nos separa do fim, como alertava Rachel de Queiroz, pode ser apenas de minutos ou horas: “talvez nessa hora o mal que te vai consumir já esteja incubado no teu corpo, ou o automóvel que te vai matar já esteja rodando para o fatal encontro, ou a água que te vai afogar te espere uma armadilha, dez passos além”. O fim é imprevisível e não respeita hierarquias ou convenções.

Aliás, na mesma crônica onde pincei essa passagem de Rachel – Pensamentos de vida e de vivo – tem outra que me não me sai da cabeça desde que a li, num vestibular para a Universidade Federal do Ceará, há muitos anos: “Outra coisa não é a vida senão a preparação desse fim”, “mas na verdade estamos é consumindo mais um dia, mais uma semana, mais um mês, e nos aproximando cada vez mais do prazo, chegando cada vez mais perto do termo da nossa obrigação ou da nossa caminhada”. Parece uma forma pessimista de encarar a vida e o seu término, mas Rachel defende mesmo é que nos acostumemos a essa ideia sem maiores medos, porque isso é algo natural da própria vida. Cuidemos de viver o hoje, conclama a escritora.

O pior mesmo é quando o fim chega ainda quando estamos vivos, como relata Leon Tolstói, autor de Guerra e Paz, já famoso e rico, em Uma Confissão: “Minha vida parou. Eu podia respirar, comer, beber, dormir, porque não podia ficar sem respirar,  sem comer, sem beber, sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável. Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não o meu desejo, aquilo não daria em nada”.

Tolstói ansiava, no Século 19, encontrar um sentido maior para a vida. No Século 21, que tem na depressão o mal a ser combatido, esse sentido é mais comummente chamado de propósito. Só é feliz quem descobre o seu? Como saber onde procurá-lo? E encontrando-o, como reconhecê-lo antes do fim que se aproxima inexoravelmente? Teremos tempo?

Volto a Rachel de Queiroz: “O mal é se traçar essa barreira de pavor entre mortos e vivos, como se separação real houvesse realmente entre vida e morte. Quando afinal o morto é apenas o vivo que concluiu o trabalho de viver…”. (…) “Ora, deixa em paz o morto. Quem sabe a sua parte foi mais branda do que será a tua? Ele afinal correu o seu caminho, venceu a sua etapa; prepara-te pois para a tua e vê se sairás dela tão galhardamente, tão silenciosa e discreta e humildemente quanto ele se saiu da sua”.

Mais um ano termina e outro se aproxima. Poderemos tentar novamente. E isso nos alivia, porque no fundo pressentimos que sempre será possível recomeçar e aprender, mesmo após o fim. Esse é o propósito.

PS. Se você quiser ler outras crônicas e contos de minha autoria, é só conferir minha página na plataforma Medium: https://medium.com/@wanfil