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Cuidado senhores laranjas: sempre sobra pra vocês 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Cuidado senhores laranjas: sempre sobra pra vocês

Por Wanfil em Corrupção

23 de junho de 2012

Estátua de Lépido, a quem cabia carregar os “fardos infamantes” no lugar de Otávio e Marco Antônio, no Segundo Triunvirato.

O que Adalberto Vieira, ex-assessor do então deputado estadual José Guimarães flagrado em 2005 no notório caso dos dólares na cueca; Guedes Neto, ex-superintendente do Dnit, que chegou a ser preso numa operação da Polícia Federal em 2010; e Jurandir Santiago, ex-presidente do BNB e ex-adjunto da Secretaria da Cidades acusado de envolvimento no escândalo do “Banheiros Fantasmas” têm em comum?

Simples. Além dos problemas com a Justiça, todos foram levados aos cargos de confiança que ocuparam por padrinhos políticos que nada sofreram com a desgraça de seus apadrinhados. Ninguém foi condenado até o momento, é verdade, mas o constrangimento de ser indiciado por corrupção e de ter o nome exposto publicamente já serve para mostrar como certas atividades guardam riscos que muitas vezes são menosprezados.

O que parece coincidência, na verdade, é uma forma bastante conhecida das autoridades investigativas para “apagar” vestígios de participação em ilicitudes. Collor de Mello, por exemplo, nunca assinou nada que o desabonasse. Judicialmente, quem pagou o pato foram seus subalternos, inclusive a secretária particular. Se esses personagens que emprestam os nomes para que tubarões possam continuar nadando impunes fazem isso por ingenuidade, burrice ou ganância (ou tudo junto), cabe aos processos judiciais esclarecer.

Recentemente citei Shakespeare num post sobre o filme Coriolano. Vez por outra releio os clássicos do dramaturgo inglês do século XVI. E a cada vez, algo se mostra em sintonia com o presente. Na peça Júlio César, uma passagem ilustra perfeitamente o papel do laranja. Após o assassinato de César, Otávio e Marco Antônio conversam sobre Lépido, hábil guerreiro sem experiência política. Destaco algumas passagens em negrito.

Ato IV, Cena I

ANTÔNIO – (Sai Lépido.) É um homem fútil e de nulo mérito. Só serve para dar recados. Justo vos parece que o mundo dividido, como vai ser, em três, fique ele sendo dono de uma das partes?

OTÁVIO – Fazeis dele esse juízo? No entanto lhe pedistes a opinião (…).

ANTÔNIO – (…) Se sobre esse homem acumulamos honras, é para que nos poupemos do peso de fardos infamantes, que ele carrega tal como ouro o burro, que geme e sua sob a carga ingente e é tocado ou levado pela estrada que bem nos aprouver. Levado todo nosso tesouro ao ponto que queríamos, dos fardos o aliviamos e o deixamos como burro sem carga, para que à solta as orelhas sacuda e se regale nas pastagens do Estado.

OTÁVIO – Procedei como quiserdes; mas é um bom soldado, valente e experimentado.

ANTÔNIO – Meu cavalo, Otávio, também o é; por essa causa lhe dou sua ração. (…). Em muitas coisas Lépido é apenas isso. É necessário adestrá-lo, educá-lo, dirigi-lo; é um sujeito de espírito acanhado, que se alimenta só de rebotalhos, de imitações, apenas, fora de uso, já bastante surradas, que ele adota por moda. Só falai a seu respeito como de um instrumento manejável.

Todo laranja, ainda que não saiba (ou não queira ver) que é um laranja, ainda que imagine ser um servidor respeitado, não passa de um instrumento descartável. Vejam o episódio mais recente, com Jurandir Santiago. Ninguém mais assume sua indicação para o BNB. De uma hora para a outra virou órfão. Com os outros não foi diferente.

Portanto, senhores laranjas, cuidado. Quando o esquema é descoberto, aquele papel que você assinou ou o dinheiro que pediram para você sacar na boca do caixa, tudo aquilo que não era “nada demais”, será usado contra você. E seus padrinhos, livres dos “fardos infamantes”,  irão procurar novos Lépidos.

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Cuidado senhores laranjas: sempre sobra pra vocês

Por Wanfil em Corrupção

23 de junho de 2012

Estátua de Lépido, a quem cabia carregar os “fardos infamantes” no lugar de Otávio e Marco Antônio, no Segundo Triunvirato.

O que Adalberto Vieira, ex-assessor do então deputado estadual José Guimarães flagrado em 2005 no notório caso dos dólares na cueca; Guedes Neto, ex-superintendente do Dnit, que chegou a ser preso numa operação da Polícia Federal em 2010; e Jurandir Santiago, ex-presidente do BNB e ex-adjunto da Secretaria da Cidades acusado de envolvimento no escândalo do “Banheiros Fantasmas” têm em comum?

Simples. Além dos problemas com a Justiça, todos foram levados aos cargos de confiança que ocuparam por padrinhos políticos que nada sofreram com a desgraça de seus apadrinhados. Ninguém foi condenado até o momento, é verdade, mas o constrangimento de ser indiciado por corrupção e de ter o nome exposto publicamente já serve para mostrar como certas atividades guardam riscos que muitas vezes são menosprezados.

O que parece coincidência, na verdade, é uma forma bastante conhecida das autoridades investigativas para “apagar” vestígios de participação em ilicitudes. Collor de Mello, por exemplo, nunca assinou nada que o desabonasse. Judicialmente, quem pagou o pato foram seus subalternos, inclusive a secretária particular. Se esses personagens que emprestam os nomes para que tubarões possam continuar nadando impunes fazem isso por ingenuidade, burrice ou ganância (ou tudo junto), cabe aos processos judiciais esclarecer.

Recentemente citei Shakespeare num post sobre o filme Coriolano. Vez por outra releio os clássicos do dramaturgo inglês do século XVI. E a cada vez, algo se mostra em sintonia com o presente. Na peça Júlio César, uma passagem ilustra perfeitamente o papel do laranja. Após o assassinato de César, Otávio e Marco Antônio conversam sobre Lépido, hábil guerreiro sem experiência política. Destaco algumas passagens em negrito.

Ato IV, Cena I

ANTÔNIO – (Sai Lépido.) É um homem fútil e de nulo mérito. Só serve para dar recados. Justo vos parece que o mundo dividido, como vai ser, em três, fique ele sendo dono de uma das partes?

OTÁVIO – Fazeis dele esse juízo? No entanto lhe pedistes a opinião (…).

ANTÔNIO – (…) Se sobre esse homem acumulamos honras, é para que nos poupemos do peso de fardos infamantes, que ele carrega tal como ouro o burro, que geme e sua sob a carga ingente e é tocado ou levado pela estrada que bem nos aprouver. Levado todo nosso tesouro ao ponto que queríamos, dos fardos o aliviamos e o deixamos como burro sem carga, para que à solta as orelhas sacuda e se regale nas pastagens do Estado.

OTÁVIO – Procedei como quiserdes; mas é um bom soldado, valente e experimentado.

ANTÔNIO – Meu cavalo, Otávio, também o é; por essa causa lhe dou sua ração. (…). Em muitas coisas Lépido é apenas isso. É necessário adestrá-lo, educá-lo, dirigi-lo; é um sujeito de espírito acanhado, que se alimenta só de rebotalhos, de imitações, apenas, fora de uso, já bastante surradas, que ele adota por moda. Só falai a seu respeito como de um instrumento manejável.

Todo laranja, ainda que não saiba (ou não queira ver) que é um laranja, ainda que imagine ser um servidor respeitado, não passa de um instrumento descartável. Vejam o episódio mais recente, com Jurandir Santiago. Ninguém mais assume sua indicação para o BNB. De uma hora para a outra virou órfão. Com os outros não foi diferente.

Portanto, senhores laranjas, cuidado. Quando o esquema é descoberto, aquele papel que você assinou ou o dinheiro que pediram para você sacar na boca do caixa, tudo aquilo que não era “nada demais”, será usado contra você. E seus padrinhos, livres dos “fardos infamantes”,  irão procurar novos Lépidos.