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Crônica Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Crônica

A estabilidade da instabilidade

Por Wanfil em Crônica

17 de julho de 2020

No Brasil, a ideia de estabilidade se popularizou por séculos com o sonho do emprego público. A meta: conquistar a paz de poder viver sem ter o medo constante de ser demitido, como acontece com os profissionais da iniciativa privada. E para alguns, livres ainda das cobranças de desempenho e qualidade, mas esse é outro assunto. O que eu quero dizer aqui é que a pandemia já contaminou até mesmo a nossa semântica.

A ilusão da estabilidade. Imagem: ~Ania Tatarynowicz~ on Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

Se antes estabilidade era sinônimo automático de tranquilidade e solidez, agora concorre outra acepção da palavra que é mais utilizada nos hopitais para expressar, por assim dizer, um alívio assustado. A informação de que “o paciente está estável” geralmente acalenta parentes e amigos de pessoal com enfermidades graves.

Com os governos agora é a mesma coisa. Ainda morre muita gente por causa do coronavírus, mas se os índices não recuam, pelo menos pararam de crescer. É a estabilidade do “platô de casos”. Passados quase 150 dias, conseguir não piorar é comemorado como grande feito. E talvez sesja, não sei. O fato é que há um estado de paralisia. Como diz Pascal Bruckner, é terrível a alternância entre a pergunta “o que há de novo?”, e a resposta “não há nada”.

A retomada da economia, como vai? Estável. As alianças eleitorais, como estão? Estáveis. Isso sigifica que avançaram? Não, sigifica que estão estáveis, ou seja, não vão nem voltam, só ficam onde estão, esperando pela imunidade de rebanho. Tudo depende, é claro, da dinâmica do coronavírus. Se os contágios e as mortes subirem, haverá recuo e a crise se agravará; se diminuírem, será possível algum alívio.

O novo normal da ideia de estabilidade é conviver com a instabilidade.

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Não existe imunização contra o colapso do sistema de saúde

Por Wanfil em Crônica

16 de Abril de 2020

O secretário de Saúde do Ceará, Dr. Cabeto, de competência e seriedade indiscutiveis, afirmou que o sistema de saúde colapsou, ou seja, que falta UTI. Governos correm contra o tempo para tentar viabilizar novas vagas. Com o mundo inteiro disputando insumos da área de saúde, faltam material e equipamentos para dar conta da demanda. Mesmo quem tem dinheiro sobrando, como os EUA, vive esse dilema.

Um bom amigo, curado de coronavírus, assintomático, desabafou aliviado: “Pelo menos agora estou imunizado”. Respondi, realista (pessismista, diriam alguns; alarmista, diriam outros), que isso não importa, pois se ele sofresse um infarto ou um acidente grave, correria grande risco de morrer sem os cuidados que só podem ser oferecidos numa Unidade de Terapia Intensiva.

“Mas aí seria muito azar!”. Respondi que não seria, porque as pessoas continuam tendo derrames e dengue hemorrágica, e se acidentam, e são baleadas, entre outroas coisas, necessitando ser socorridas num sistema sobrecarregado de pacientes com deficiência respiratória em decorrência do coronavírus. Falta UTI, não importa se o sujeito tem imunização, não importa o que dizem o presidente da República ou militante partidário. Falta UTI. Isso é o que significa colapso.

Outra amiga, colega de trabalho, a jornalista Isabela Martin, que apesar dos cuidados, contraiu coronvírus, sem consequências mais graves, graças a Deus, foi direto ao ponto ao relatar seu caso no Instagram: “Se há uma verdade conhecida sobre esse vírus é que se assemelha a uma roleta russa. Não dá pra saber quem será um paciente assintomático, ou de sintomas leves, e quem irá perecer da doença e dos problemas logísticos de saúde dela decorrentes”. E o título de sua publicação, resumiu tudo isso de um modo perfeito: “O coronavírus me testou. Eu não testei o coronavírus”.

Não queira testá-lo. Se puder, fique em casa.

 

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Uma Páscoa entre a Quaresma e a quarentena

Por Wanfil em Crônica

10 de Abril de 2020

Depois de toda Quaresma, sempre vem uma Páscoa. Photo on VisualHunt

A Quaresma é o período de 40 dias que antecede a Páscoa, quando os cristãos comemoram a ressureição de Jesus. Simbolicamente, em muitas passagens do Velho e do Novo Testamento, os intervalos quaresmais correspondem a travessias que exigem paciência e sacrifícios, mas que depois são recompensadas com a graça da superação.

No Divúlio, a chuva caiu por 40 dias e 40 noites, vividos por Noé em sua arca; a fuga do Egito para a Terra Prometida, guiada por Moisés, durou 40 anos; Jesus passou 40 dias no deserto antes de começar sua pregação. Mesmo para quem segue outras relilgiões, tais relatos e personagens (assim como acontece com outros credos) guardam profundos significados morais que nos servem de lições até os dias de hoje.

Já as quarentenas possuem um sentido prático bem definido: são os períodos de isolamento (de individuos ou de grupos sociais) para conter a disseminação de doenças contagiosas. Curiosamente, não é necessário que sejam quarenta dias. O nome se popularizou por causa de medidas tomadas nos portos de Veneza por causa de um surto de peste bubônica (a peste negra), ainda na Idade Média, quando navios eram obrigados a esperar 40 dias, ou um “quarantino”, em italiano, para poderem desembarcar. Não foi uma decisão científica, claro, mas uma vez que a peste era vista como castigo divino, alguns estudiosos entendem que essa opção pelos 40 dias resultou da associação com referências bíblicas. Faz sentido.

A atual pandemia fechou os portos do mundo, em pleno Século 21. A duração da quarentena que vivemos neste 2020 é indefinida. Sabemos que não é castigo de Deus, mas uma manifestação da natureza, que é perfeita e para muitos (eu incluso), obra de Deus. Assim como a inteligência humana. É preciso esperar, separados fisicamente, mas unidos no mesmo objetivo, nos orientam os maiores epidemiologistas e especialistas mundiais em quarentenas, antes da cura ou, pelo menos, antes da calmaria. É preciso esperar, unidos em espírito, diziam os antigos em suas quaresmas, antes da salvação.

Atravessamos a quaresma, atravessemos a quarentena. Que possamos todos, cada um, cada nação, enxergar as lições de que precisamos.

Felliz Páscoa.

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Bolsonaro testa o “homem prudente” de Maquiavel

Por Wanfil em Crônica

31 de Março de 2020

Maquiavel: a prudência de fazer ações obrigatórias e inevitáveis parecerem espontâneas

O que não tem remédio, remediado está, diz o ditado popular. Como todos sabem, o novo coronavírus não tem vacina ou cura cientificamente comprovada. O jeito, portanto, é administrar a situação para reduzir o estrago ou evitar um mal maior. Shimon Peres, ex-presidente de Israel, já falecido, dizia que um problema sem solução é um processo a ser conduzido da mehor forma possível. Referia-se ao conflito com os palestinos. No caso do coronavírus, a diferença é saber que mais cedo ou mais tarde, o ciclo de contaminação acaba. Ou seja, ainda que gravíssimo, não é problema crônico. Agora resta segurar o tranco, como dizem.

Em períodos turbulentos como agora, pressões e cobranças se multiplicam sobre os representantes do poder público. É assim que funciona. Nesse momento, por ser um pandemia sem prcedentes, essa condição se reproduz em todos os continentes. Assim, em todo o mundo, a maioria das lideranças reage como pode e faz o que lhes resta fazer: implantar medidas de isolamento social, enquanto reforçam a retaguarda dos hospitais com leitos de UTI. Quem não conseguiu a tempo, como a Espanh e a Itália, foi surpreendido pela quantidade de mortos.

Muito antes de o coronavirus trucidar a Itália, o florentino Nicolau Maquiavel, no livro em que comenta a obra de Tito Lívio (Discorsi sopra la prima Deca di Tito Livio), dizia no Século 16: “Gli uomini prudenti si fanno grado delle cose sempre e in ogni loro azione, ancora che la necessità gli constringesse a farle in ogni modo”. Traduzindo, é mais ou menos o seguinte: “Os homens prudentes sempre sabem tirar proveito de todas as suas ações, mesmo quando são constrangidos pela necessidade a agir de tal modo”.

Decretar quarentenas e levantar hospitais de campanha é o básico indispensável a se fazer diante da chegada da atual pandemia, com base na experiência de outros países que já vivem o problema há mais tempo. Não há erro nisso. Aliás, estão certos os governantes que assim agem, impelidos pelas circunstâncias e pela falta de alternativas. E há grande mérito na conduta daqueles que perceberam a emergência com mais rapidez. Esses, por agirem – de acordo com Maquiavel – como homens prudentes, conseguiram obter vantagens enquanto autoridades públicas, ao serem vistos como gestores atentos.

Só Jair Bolsonaro faz o contrário, optando pela imprudência, quando contradiz atos do seu próprio governo que poderiam conferir-lhe imenso proveito de imagem. Ensaia agora, com atraso, um recuo no discurso, mas é preciso ver se isso será mantido. Tem a crise econômica, é verdade, mas essa, também mundial, será debitada na conta do vírus. E toda ação de recuperação, inclusive as reformas que ainda precisam ser aprovadas, poderá ser vista, mais adiante, como medida indispensável para a cura da finanças nacionais. É sempre possível obter “vantaggio”, no sentido de prestígio, quando se age, no governo, com a devida cautela. Bem, é o que dizia Maquiavel, posto a teste no Brasil do Século 21.

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A rebelião do vírus

Por Wanfil em Crônica

26 de Março de 2020

As discussões sobre os caminhos a se tomar no curso da pandemia de coronavírus nos levam, invariavelmente a um mesmo conjunto de certezas e incertezas:

As certezas: O novo coronavírus é altamente contagioso, de baixa letalidade, mas devido à proporção dos números, os casos graves pode colapsar sistemas de saúde. A forma mais eficaz de evitar esse colapso é o confinamento da população em suas residências. Os idosos estão mais expostos ao risco de morte, o que não garante imunidade total aos mais jovens.

As incertezas: Quanto tempo deve durar o isolamento social? A partir de quando a curva de contágios reduz os índices de propagação da doença? É impossível prever a duração da epidemia? Quando teremos uma vacina? A cloroquina cura ou não cura o Covid-19? O vírus tem comportamentos diferentes a depender do clima ou da região?

Resumindo o quadro geral, acho que isso é mais ou menos o que temos hoje. As questões econômicas são decorrências das própria pandemia e dos choques entre essas certezas e incertezas. Em meio a tanta instabilidade, o mais sensato a ser fazer é adotar o isolamento social, que “tende”, segundo os especialistas, a conter a propagação da doença.

Faço comentários sobre política no Sistema Jangadeiro de Comunicação, em Fortaleza, observando as decisões e os impasses que decorrem de toda essa situação. Agora, confinado em casa, encerrado o trabalho à distância, venho ao blog e tento pensar essas questões sob outros ângulos. E toda essa situação me fez lembrar hoje de Ortega Y Gasset, jornalista e filósofo espanhol, autor de A Rebelião as Massas (foto). Cito uma passagem que me impressiona desde os tempos de faculdade, um alerta contra a ilusão de estabilidade da qual sempre me lembro quando ouço protestos contra reformas na legislação:

A civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicinas benéficas, de Estados previdentes, de direitos cômodos. Ignora, por seu turno, o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção; não percebe o instável que é a organização do Estado, e mal sente dentro de si obrigações. Este desequilíbrio o falsifica, vicia-o em sua raiz de ser vivente, fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida, que é absoluto perigo. (…) Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado, do qual só percebe as vantagens e não os perigos.”

Gasset escreveu esse texto na segundo década do Século 20. Agora, em 2020, diante do perigo exposto pelo coronavírus, populações inteiras se chocam ao descobrir que um espécime invisível e primitivo pode obrigá-las a trancar-se em casa até que tudo volte a parecer seguro novamente. A humanidade vai superar, evidentemente, e com mais eficiência do que em outras ocasiões, a nova peste. A lição é clara: as adversidades fazem e sempre farão parte da vida, assim como as ideias de segurança, prevenção e autossuficiência sempre estarão sujeitas a falhas e revisões. A vida é luta.

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Notas da pandemia: superstições e cloroquina

Por Wanfil em Crônica

24 de Março de 2020

No subsolo, fugindo do coronavírus e da cloroquina,

Um homem morreu nos Estados Unidos após se automedicar com cloroquina, antigo remédio contra a malária que tem sido testado no combate ao novo coronavírus. Em vão, médicos alertam para os efeitos colaterais da droga. No Brasil, os estoques nas farmácias acabou. Quanta fé na química. Parece que a vitória da razão criou, paradoxalmente, um credo contemporâneo: fora dos laboratórios não há salvação.

Ocorre que apesar de todos os avanços e de todas as tecnologias, acabamos escondidos em nossas casas para fugir de um mísero vírus. Oh, ciência, por que nos abandonaste? Sim, agora sabemos como a peste se propaga, de onde ela vem, como se desenvolve, mas cura que é bom…

O imortal (sem ironia) Fiódor Dostoiévisk já desconfiava dessa fé cega na alopatia, como podemos ver logo nas primeiras linhas de Notas do Subsolo:

Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para respeitar a medicina. (Tenho instrução suficiente para não ser supersticioso, mas sou.)”

Respeito a cloroquina e todas as vacinas que existem por aí, mas por via das dúvidas, com as certezas adoecidas e exposto a superstições, acho melhor esperar a quarentena passar aqui no subsolo das minhas redes sociais.

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Sobreviventes

Por Wanfil em Crônica

15 de Janeiro de 2020

De histeria em histeria, vamos sobrevivendo – Photo credit: Museum of Photographic Arts Collections on VisualHunt.com

Sobrevivi ao recesso de fim de ano para encarar este 2020 repleto de velhas novidades. Digo que sou sobrevivente porque antes das férias eu soube que cientistas suecos atestaram que a incidência de ataques cardíacos aumenta 15% no Natal e 20% no primeiro dia do ano. Mais: os excesso do final de ano elevam o “mau’ colesterol em 20%, segundo um estudo da Universidade de Copenhague. Apesar dos riscos (evitei dietas nesse período), aqui estou, heroico.

Escapei ainda de outras previsões menos científicas, mas igualmente alarmantes. Pelo menos até agora a Terceira Guerra Mundial não eclodiu, apesar dos anúncios e memes nas redes sociais (sempre com o inestimável apoio de especialistas na imprensa), após mais uma crise no Oriente Médio. Conseguimos, cá estamos.

Em termos de sobrevivência, nada se compara a Amazônia, que continua onde sempre esteve, e ainda por cima bem mais saudável do que a Austrália, contrariando as contundentes assertivas de Greta Thunberg.

E agora, ao voltar do meu alheamento voluntário (não acompanhei as polêmicas dos últimos 20 dias), li surpreso que alunos protestaram contra o reitor da Universidade Federal do Ceará durante uma cerimônia de colação de grau. A surpresa não foi pelo protesto, que isso é antigo, mas por constatar que a universidade ainda existe, mesmo depois de tantas denúncias sobre o iminente fim da educação superior no Brasil por causa de um novo contingenciamento orçamentário. Pelo visto, são muitos os sobreviventes.

Ainda nas férias, revisitei meio que por acaso as páginas do Apocalipse, incluso numa coletânea de Literatura Fantástica. Mais incrível que a própria narrativa do texto, é perceber que as previsões bíblicas sobre o fim do mundo são bem mais divertidas e até críveis do aquelas, ditas modernas, que fazem da hipocondria um guia de comportamento, e do ambiente histérico das redes sociais, um noticiário. Sobreviver a isso é o que é difícil.

Feliz 2020!

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O propósito do fim

Por Wanfil em Crônica

12 de dezembro de 2019

Segue a estrada – Photo on Visual hunt

O fim do ano está chegando, mas como sempre é um falso fim, porque outro ano se inicia e continuamos o que somos como se nada houvesse terminado. Não significa que esse fim não tenha o seu valor. É um limite, pois a consciência de nossa finitude nos impõe a procura – ou a espera – pelo fim. Normal. Esperar pelas mortes dos anos é uma forma de nos prepararmos para o inevitável.

Digo isso após ler o desabafo de Tarcísio Meira em recente entrevista à revista Veja: “Ninguém gosta de pensar que o fim está chegando. Mas ele está chegando para mim”. A comoção é natural, mas há um perigo na lógica do veterano ator. Perigo para os mais jovens, ou menos velhos, ressalte-se. É que para alguém aos 84 anos, como Tarcísio, a maior parte do viver já passou e o porvir é obviamente menor que o vivido. A longevidade pode reforçar a impressão de distanciamento da morte, quando na verdade o tempo que nos separa do fim, como alertava Rachel de Queiroz, pode ser apenas de minutos ou horas: “talvez nessa hora o mal que te vai consumir já esteja incubado no teu corpo, ou o automóvel que te vai matar já esteja rodando para o fatal encontro, ou a água que te vai afogar te espere uma armadilha, dez passos além”. O fim é imprevisível e não respeita hierarquias ou convenções.

Aliás, na mesma crônica onde pincei essa passagem de Rachel – Pensamentos de vida e de vivo – tem outra que me não me sai da cabeça desde que a li, num vestibular para a Universidade Federal do Ceará, há muitos anos: “Outra coisa não é a vida senão a preparação desse fim”, “mas na verdade estamos é consumindo mais um dia, mais uma semana, mais um mês, e nos aproximando cada vez mais do prazo, chegando cada vez mais perto do termo da nossa obrigação ou da nossa caminhada”. Parece uma forma pessimista de encarar a vida e o seu término, mas Rachel defende mesmo é que nos acostumemos a essa ideia sem maiores medos, porque isso é algo natural da própria vida. Cuidemos de viver o hoje, conclama a escritora.

O pior mesmo é quando o fim chega ainda quando estamos vivos, como relata Leon Tolstói, autor de Guerra e Paz, já famoso e rico, em Uma Confissão: “Minha vida parou. Eu podia respirar, comer, beber, dormir, porque não podia ficar sem respirar,  sem comer, sem beber, sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável. Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não o meu desejo, aquilo não daria em nada”.

Tolstói ansiava, no Século 19, encontrar um sentido maior para a vida. No Século 21, que tem na depressão o mal a ser combatido, esse sentido é mais comummente chamado de propósito. Só é feliz quem descobre o seu? Como saber onde procurá-lo? E encontrando-o, como reconhecê-lo antes do fim que se aproxima inexoravelmente? Teremos tempo?

Volto a Rachel de Queiroz: “O mal é se traçar essa barreira de pavor entre mortos e vivos, como se separação real houvesse realmente entre vida e morte. Quando afinal o morto é apenas o vivo que concluiu o trabalho de viver…”. (…) “Ora, deixa em paz o morto. Quem sabe a sua parte foi mais branda do que será a tua? Ele afinal correu o seu caminho, venceu a sua etapa; prepara-te pois para a tua e vê se sairás dela tão galhardamente, tão silenciosa e discreta e humildemente quanto ele se saiu da sua”.

Mais um ano termina e outro se aproxima. Poderemos tentar novamente. E isso nos alivia, porque no fundo pressentimos que sempre será possível recomeçar e aprender, mesmo após o fim. Esse é o propósito.

PS. Se você quiser ler outras crônicas e contos de minha autoria, é só conferir minha página na plataforma Medium: https://medium.com/@wanfil

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Onda de ataques no Ceará recua: a gente se acostuma, mas não devia

Por Wanfil em Crônica

01 de outubro de 2019

A nova onda de ataques criminosos no Ceará, no final de setembro, refluiu nesta semana. É a mesma dinâmica de outras vezes: as forças de segurança e o passar dos dias atuam para o arrefecimento das ações. Tudo controlado? Difícil dizer. Na verdade, pelo histórico, a possibilidade de ainda acontecerem novos episódios dessa natureza é bastante plausível.

Como sempre, autoridades garantem que tudo é reação de criminosos contra exitosas políticas de segurança pública. Então, tá. E nessa toada, o padrão repetitivo não poupa nem mesmo este blog, onde o assunto também já banalizou. Isso me fez lembrar de uma crônica da jornalista e escritora Marina Colasanti, sobre a capacidade de nos acostumarmos a situações ruins. Segue um pequeno, mas muito apropriado, trecho:

“A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração”.

A verdade é que nos acostumamos a ver no noticiário imagens de ônibus em chamas, os murais com ordens de facções, toques de recolher; que aceitamos ouvir desculpas e promessas, como se tudo fosse natural ou até inevitável. Nos resignamos a esquecer, aos poucos, como era a paz. Logo no início do referido texto, Colasanti faz um chamado à reflexão que, ao mesmo tempo, o intitula: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.”

No vídeo abaixo, a autora explica como a crônica nasceu e arremata: “Eu não quero me acostumar”.

Eu também não.

 

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Meus heróis e o beijo gay dos quadrinhos

Por Wanfil em Crônica

10 de setembro de 2019

O heroísmo controverso dos quadrinhos e a liberdade de escolher a quem admirar

Cazuza, o cantor e compositor, disse que seus heróis (os dele) morreram de overdose. Pois bem, os meus morreriam de tédio nos dias de hoje. Basta ver o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, que tentou impedir a comercialização de uma revista em quadrinhos sob pretexto de salvar crianças de uma eventual exposição a um beijo homossexual. No meu tempo de criança, havia vilões como Lex Luthor, o sujeito sem poderes que encarava o Super-Homem. Agora o vilão é Marcelo Crivela. É de matar qualquer herói de tédio.

Mais tarde, já adolescente, li Conan, o Bárbaro, sujeito grosseirão que encerrava discussões com uma espada. Decapitações e bocas vertendo sangue em golfadas eram imagens banais, mas que eu me lembre a circulação de Conan, herói hétero, nunca foi questionada. De todo modo, não me tornei um carniceiro.

E daí? Como fica o direito dos pais que são contrários ao beijo gay? Ora, está garantido. Só não pode ser imposto a um evento privado, no caso, a Bienal do Livro (aliás, que me perdoem os fãs, mas bienais do livro abarrotadas de revistas em quadrinhos revelam a falta de prestígio – ou de qualidade – da nossa literatura). Eu procuro saber o que minhas filhas estão lendo, embora esteja ciente do mundo de informações circulando ao alcance delas, e que independente das minhas preferências e preocupações. O segredo é trabalhar com elas, desde cedo, a noção de elegância na sintaxe. É meio caminho andado para evitar porcarias.

Bem, cada um sabe de si, sem a necessidade da interferência autoritária dos governantes de plantão, sejam de esquerda ou de direita. Alias, por falar em ideologia, peço licença para uma digressão. É curioso ver o pessoal que não aceita a nomeação do novo reitor da Universidade Federal do Ceará, escolhido dentro da mais absoluta legalidade, argumentar que o Crivela desrespeita a lei. Pois é, o fato de não gostar de uma lei, não a invalida. Trata-se de um princípio. Vale para a liberdade de expressão, vale para nomeações em instituições de ensino superior. O resto é proselitismo. Fim da digressão.

Adulto, não leio mais quadrinhos. Acho aqueles uniformes e apelidos ridículos. Mas preservo um ideal de heroísmo, fácil de reconhecer na disposição de muitas pessoas em querer ajudar os outros e que se manifesta até mesmo nos pequenos gestos. Na verdade, no meu caso, são minhas filhas, ainda sob os meus cuidados, vivendo entre a infância e a adolescência, que me socorrem e me ajudam a corrigir velhos preconceitos discriminatórios do passado. São minhas heroínas. Cada um tem os heróis que escolhe.

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Meus heróis e o beijo gay dos quadrinhos

Por Wanfil em Crônica

10 de setembro de 2019

O heroísmo controverso dos quadrinhos e a liberdade de escolher a quem admirar

Cazuza, o cantor e compositor, disse que seus heróis (os dele) morreram de overdose. Pois bem, os meus morreriam de tédio nos dias de hoje. Basta ver o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, que tentou impedir a comercialização de uma revista em quadrinhos sob pretexto de salvar crianças de uma eventual exposição a um beijo homossexual. No meu tempo de criança, havia vilões como Lex Luthor, o sujeito sem poderes que encarava o Super-Homem. Agora o vilão é Marcelo Crivela. É de matar qualquer herói de tédio.

Mais tarde, já adolescente, li Conan, o Bárbaro, sujeito grosseirão que encerrava discussões com uma espada. Decapitações e bocas vertendo sangue em golfadas eram imagens banais, mas que eu me lembre a circulação de Conan, herói hétero, nunca foi questionada. De todo modo, não me tornei um carniceiro.

E daí? Como fica o direito dos pais que são contrários ao beijo gay? Ora, está garantido. Só não pode ser imposto a um evento privado, no caso, a Bienal do Livro (aliás, que me perdoem os fãs, mas bienais do livro abarrotadas de revistas em quadrinhos revelam a falta de prestígio – ou de qualidade – da nossa literatura). Eu procuro saber o que minhas filhas estão lendo, embora esteja ciente do mundo de informações circulando ao alcance delas, e que independente das minhas preferências e preocupações. O segredo é trabalhar com elas, desde cedo, a noção de elegância na sintaxe. É meio caminho andado para evitar porcarias.

Bem, cada um sabe de si, sem a necessidade da interferência autoritária dos governantes de plantão, sejam de esquerda ou de direita. Alias, por falar em ideologia, peço licença para uma digressão. É curioso ver o pessoal que não aceita a nomeação do novo reitor da Universidade Federal do Ceará, escolhido dentro da mais absoluta legalidade, argumentar que o Crivela desrespeita a lei. Pois é, o fato de não gostar de uma lei, não a invalida. Trata-se de um princípio. Vale para a liberdade de expressão, vale para nomeações em instituições de ensino superior. O resto é proselitismo. Fim da digressão.

Adulto, não leio mais quadrinhos. Acho aqueles uniformes e apelidos ridículos. Mas preservo um ideal de heroísmo, fácil de reconhecer na disposição de muitas pessoas em querer ajudar os outros e que se manifesta até mesmo nos pequenos gestos. Na verdade, no meu caso, são minhas filhas, ainda sob os meus cuidados, vivendo entre a infância e a adolescência, que me socorrem e me ajudam a corrigir velhos preconceitos discriminatórios do passado. São minhas heroínas. Cada um tem os heróis que escolhe.