A rebelião do vírus 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

A rebelião do vírus

Por Wanfil em Crônica

26 de Março de 2020

As discussões sobre os caminhos a se tomar no curso da pandemia de coronavírus nos levam, invariavelmente a um mesmo conjunto de certezas e incertezas:

As certezas: O novo coronavírus é altamente contagioso, de baixa letalidade, mas devido à proporção dos números, os casos graves pode colapsar sistemas de saúde. A forma mais eficaz de evitar esse colapso é o confinamento da população em suas residências. Os idosos estão mais expostos ao risco de morte, o que não garante imunidade total aos mais jovens.

As incertezas: Quanto tempo deve durar o isolamento social? A partir de quando a curva de contágios reduz os índices de propagação da doença? É impossível prever a duração da epidemia? Quando teremos uma vacina? A cloroquina cura ou não cura o Covid-19? O vírus tem comportamentos diferentes a depender do clima ou da região?

Resumindo o quadro geral, acho que isso é mais ou menos o que temos hoje. As questões econômicas são decorrências das própria pandemia e dos choques entre essas certezas e incertezas. Em meio a tanta instabilidade, o mais sensato a ser fazer é adotar o isolamento social, que “tende”, segundo os especialistas, a conter a propagação da doença.

Faço comentários sobre política no Sistema Jangadeiro de Comunicação, em Fortaleza, observando as decisões e os impasses que decorrem de toda essa situação. Agora, confinado em casa, encerrado o trabalho à distância, venho ao blog e tento pensar essas questões sob outros ângulos. E toda essa situação me fez lembrar hoje de Ortega Y Gasset, jornalista e filósofo espanhol, autor de A Rebelião as Massas (foto). Cito uma passagem que me impressiona desde os tempos de faculdade, um alerta contra a ilusão de estabilidade da qual sempre me lembro quando ouço protestos contra reformas na legislação:

A civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicinas benéficas, de Estados previdentes, de direitos cômodos. Ignora, por seu turno, o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção; não percebe o instável que é a organização do Estado, e mal sente dentro de si obrigações. Este desequilíbrio o falsifica, vicia-o em sua raiz de ser vivente, fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida, que é absoluto perigo. (…) Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado, do qual só percebe as vantagens e não os perigos.”

Gasset escreveu esse texto na segundo década do Século 20. Agora, em 2020, diante do perigo exposto pelo coronavírus, populações inteiras se chocam ao descobrir que um espécime invisível e primitivo pode obrigá-las a trancar-se em casa até que tudo volte a parecer seguro novamente. A humanidade vai superar, evidentemente, e com mais eficiência do que em outras ocasiões, a nova peste. A lição é clara: as adversidades fazem e sempre farão parte da vida, assim como as ideias de segurança, prevenção e autossuficiência sempre estarão sujeitas a falhas e revisões. A vida é luta.

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A rebelião do vírus

Por Wanfil em Crônica

26 de Março de 2020

As discussões sobre os caminhos a se tomar no curso da pandemia de coronavírus nos levam, invariavelmente a um mesmo conjunto de certezas e incertezas:

As certezas: O novo coronavírus é altamente contagioso, de baixa letalidade, mas devido à proporção dos números, os casos graves pode colapsar sistemas de saúde. A forma mais eficaz de evitar esse colapso é o confinamento da população em suas residências. Os idosos estão mais expostos ao risco de morte, o que não garante imunidade total aos mais jovens.

As incertezas: Quanto tempo deve durar o isolamento social? A partir de quando a curva de contágios reduz os índices de propagação da doença? É impossível prever a duração da epidemia? Quando teremos uma vacina? A cloroquina cura ou não cura o Covid-19? O vírus tem comportamentos diferentes a depender do clima ou da região?

Resumindo o quadro geral, acho que isso é mais ou menos o que temos hoje. As questões econômicas são decorrências das própria pandemia e dos choques entre essas certezas e incertezas. Em meio a tanta instabilidade, o mais sensato a ser fazer é adotar o isolamento social, que “tende”, segundo os especialistas, a conter a propagação da doença.

Faço comentários sobre política no Sistema Jangadeiro de Comunicação, em Fortaleza, observando as decisões e os impasses que decorrem de toda essa situação. Agora, confinado em casa, encerrado o trabalho à distância, venho ao blog e tento pensar essas questões sob outros ângulos. E toda essa situação me fez lembrar hoje de Ortega Y Gasset, jornalista e filósofo espanhol, autor de A Rebelião as Massas (foto). Cito uma passagem que me impressiona desde os tempos de faculdade, um alerta contra a ilusão de estabilidade da qual sempre me lembro quando ouço protestos contra reformas na legislação:

A civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicinas benéficas, de Estados previdentes, de direitos cômodos. Ignora, por seu turno, o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção; não percebe o instável que é a organização do Estado, e mal sente dentro de si obrigações. Este desequilíbrio o falsifica, vicia-o em sua raiz de ser vivente, fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida, que é absoluto perigo. (…) Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado, do qual só percebe as vantagens e não os perigos.”

Gasset escreveu esse texto na segundo década do Século 20. Agora, em 2020, diante do perigo exposto pelo coronavírus, populações inteiras se chocam ao descobrir que um espécime invisível e primitivo pode obrigá-las a trancar-se em casa até que tudo volte a parecer seguro novamente. A humanidade vai superar, evidentemente, e com mais eficiência do que em outras ocasiões, a nova peste. A lição é clara: as adversidades fazem e sempre farão parte da vida, assim como as ideias de segurança, prevenção e autossuficiência sempre estarão sujeitas a falhas e revisões. A vida é luta.